quarta-feira, março 14, 2007

O papa não é nada pop

O papa Bento 16 acaba de divulgar um documento chamado Sacramentum Caritatis no qual afirma que o segundo casamento é uma praga. E sobre o primeiro, ele não vai falar nada? O documento recomenda que os católicos fiquem contra o aborto, a eutanásia e a união homossexual. Quando a igreja vai se dar conta de que cada ser humano é único e deve ter autonomia para decidir sobre estas questões de acordo com suas convicções e as peculiaridades de cada momento de sua vida? Quando a igreja vai perceber que não parece mais lógico que as pessoas ao redor do mundo ainda se guiem pela doutrina do atraso, da proibição, do pecado?Como a igreja espera que se sinta uma criança fruto de um segundo casamento? Além do fardo de carregar o pecado original (alguém ainda se lembra disso?) ela vai ter de conviver com o peso de ter sido gerada por uma praga. É isso que o santo padre espera? Como se o mundo não tivesse problemas suficientes com os quais se preocupar, vem o papa, do alto de seu vestidinho branco e do piso de marfim por onde ele desliza cercado de cardeais submissos, dizer que nem uma segunda chance no amor nós, mortais pecadores, merecemos...

Nasci e cresci numa família católica. Fui batizado, fiz primeira-comunhão (adorava aquele livrinho chamado de catecismo antes de descobrir que um outro tipo de publicação, bem menos religiosa, também levava o mesmo nome) e ainda fui crismado. Ia à missa todos os domingos de manhã e ficava fascinado diante do altar, das imagens e, principalmente da vida dos santos, cheia de provações e milagres. Seu Antenor era o nosso coordenador do catecismo. Bastava que ele surgisse, com seu olhar severo vindo da sacristia, para que começássemos a recitar, cheios de tropeços, a lista dos dez mandamentos e os primeiros versos da salve-rainha. Até que chegou o dia da primeira comunhão e, com ela, a principal e mais severa de todas as advertências que podiam assombrar um menino católico: ninguém poderia comungar se tivesse um pecado do qual não tivesse sido perdoado. Comungávamos aos domingos de manhã. Assim, no sábado à tarde fazíamos filas diante do confessionário. Cada menino com seu arsenal de pecados acumulados desde o domingo anterior. Em uma daquelas semanas dos meus onze anos eu devo ter sido tão comportado, mas tão comportado, que prestes a me ajoelhar diante do padre minha cabeça ainda estava vazia de contravenções. Não era possível! Será que eu não tinha xingado ninguém durante a semana? Não havia blasfemado contra Deus, não havia matado, traído, roubado ou estuprado. Como eu podia ter sobrevivido uma semana inteira isento das tentações da carne e da alma? Apavorado diante da minha inocência indesejada, me ajoelhei diante do padre e disse: Senhor, esta semana eu derramei café com leite na mesa e deixei resto de comida no prato duas vezes. Muito bem, disse o padre. Reze três pai nosso e não faça mais isto. Eu te absolvo. Depois de cumprir minha suave penitência, fiquei pensando que não devia ser muito legal uma igreja que obrigava uma criança a conviver com a idéia do pecado, a vasculhar sua mente em busca de delitos e a acreditar que derramar uma xícara de café com leite era um problema digno de incomodar a paciência do todo-poderoso. Nunca mais confessei, nunca mais vi a igreja do mesmo jeito e nunca mais acreditei que um padre pudesse me absolver antes que minha consciência o fizesse. E hoje, só para irritar o papa, confesso que adoraria me casar por uma segunda vez.

4 comentários:

Flávia disse...

É por essas e por outras que embora batizada, eu nunca me considerei católica. E outra: eu ainda quero casar de novo! ;-) Bjo!

Anônimo disse...

Verdade verdadeira Roveri...
Como vai ser a minha vida daqui pra frente acabei de me separar!
Nossa vou pro limbo...
Ops. o Papa extinguiu o limbo e agora pra onde eu vou????

Gabriela Nardy disse...

Olá,

Sou editora do Jornal de Debates (www.jornaldedebates.com.br), um jornal colaborativo na internet. Toda a semana propomos debates sobre temas polêmicos, e um dos debates que estão no ar é “O divórcio é uma praga?”, referente ao documento publicado nessa terça feira, onde Bento 16 diz, entre outras coisas, ser contra o divórcio. Gostaria de convidá-lo a escrever um artigo sobre o assunto, ou mesmo permitir que publiquemos o texto do seu blog.

Qualquer dúvida, entre em contato.

Grata
Gabriela Nardy
Editora – Jornal de Debates
gabriela@jornaldedebates.com.br

Blog do Massa disse...

Oi, pessoal. Curti muito os comentários de vocês. Passei o dia pensando neste assunto. E realmente me parece muito triste um líder mundial como o papa falar que o segundo casamento é uma praga...Mas, no fundo, esta notícia nem devia surpreender a gente, né? O número de casos de Aids cresce entre os jovens e ele continua condenando a camisinha...quando será que a igreja vai se modernizar, não é?