sexta-feira, março 09, 2007

Cabe no bolso e eu gosto

Nunca tive qualquer preconceito em relação aos livros de bolso. Ao contrário: eu os adoro. Acho o máximo parar em uma banquinha da Avenida Paulista e, por dez ou onze reais, trazer para casa obras de Shakespeare, Maquiavel, Ibsen, Truman Capote, Millôr Fernandes, Fernando Pessoa entre tantos outros autores sensacionais. Os livros de bolso sempre me transmitem a sensação reconfortante de que irei lê-los até o fim e em pouco tempo. E não vejo nenhum mal em encarar uma obra literária a partir deste ponto de vista. O que não quer dizer, de forma alguma, que eu não reúna fôlego para encarar as 561 páginas de Crime e Castigo, de Dostoiévski, por exemplo, ou as mais de 700 de Submundo, de Don Delillo. Com o primeiro deles estou em paz, terminei de ler a saga de Raskólnikov há pouco tempo, mas Delillo ainda continua acumulando poeira na estante. O que não me deixa preocupado, pois ele está na invejável companhia de Thomas Mann, cuja Montanha Mágica ainda não terminei de escalar.

O último livro de bolso que comprei e que está me deliciando é A Arte de Escrever, de Schopenhauer. Fui atrás deste título por indicação do amigo Duilio Ferronato, que tem um dos blogs mais bacanas do pedaço. Não sou filósofo e nem teria condições aqui de levantar uma discussão profunda acerca da obra de Schopenhauer, mas acho que ele deve ter sido um sujeito difícil. Sinto que o fato de sua obra ter levado pelo menos trinta anos para ser reconhecida depositou na alma de Schopenhauer um rancor que transparece em cada uma de suas idéias - embora todas sejam dignas de muita reflexão. A leitura de Schopenhauer se torna prazerosa, a meu ver, porque ao lado deste rancor sobrevive uma ironia rara entre os grandes filósofos. Existe um amargor que parece conduzir o leitor até a próxima página, como se fosse um thriller. A Arte de Escrever é dividido em cinco capítulos, dos quais o meu predileto é o segundo, sobre a escrita e o estilo. Vejam o que ele diz: "Também se pode dizer que há três tipos de autores: em primeiro lugar, aqueles que escrevem sem pensar. Escrevem a partir da memória, de reminiscências ou diretamente a partir de livros alheios. Esta classe é a mais numerosa. Em segundo lugar, há os que pensam enquanto escrevem. Eles pensam justamente para escrever. São bastante numerosos. Em terceiro lugar, há os que pensaram antes de se pôr a escrever. Escrevem apenas porque pensaram. São raros". Confessem: não dá uma vontade absurda de saber o que mais ele tem a dizer?

Um comentário:

Flávia Faccini disse...

Olha só quem tem um blog! ;-) Gostei! (do blog e da dica de leitura). Vou linkar lá no meu. Beijo!