terça-feira, julho 16, 2013

Um doutor na caatinga



A atual polêmica sobre a contratação de médicos para trabalhar em áreas remotas do País me fez lembrar da experiência de um jovem amigo que, logo após se formar em medicina aos 23 anos, aceitou, por vontade própria e sem nenhum incentivo governamental, o convite para clinicar em uma cidadezinha do Ceará onde, vencida uma série de perrengues iniciais, ele passaria a ser tratado como rei. O primeiro contratempo – haveria dezenas de outros na sequência -, se deu logo após sua chegada à minúscula rodoviária local. Carregando duas malas nas mãos, ele passou, sem saber que isso era uma ofensa grave na região, no meio de um casal de namorados. O homem entendeu aquilo como uma afronta e meteu-lhe um soco na cara que o fez beijar o chão tal qual o papa faz quando desembarca em um país novo. Ao se apresentar ao prefeito que o havia contratado, com um olho roxo e um hematoma que ocupava metade do rosto, agradeceu pelo comitê de boas-vindas e perguntou o que mais ele não deveria fazer para preservar a outra metade do rosto que ainda estava intacta.

Ao chegar ao hotel, percebeu que não havia chuveiro. No banheiro, apenas um cano enferrujado que saía da parede e terminava em uma ponta serrada por onde um filete de água não parava de escorrer. O dono do hotel explicou que ninguém ali precisava de chuveiro – nunca fazia menos de 30 graus. De tanto que ele insistiu, o dono concordou em parafusar um chuveiro velho na ponta do cano – o chuveiro, que nunca foi ligado à eletricidade, transmitia ao menos uma remota sensação de banho. Após mais algumas súplicas no balcãozinho que servia de recepção do hotel, conseguiu que viesse, de uma cidade vizinha, um aparelho de ar-condicionado barulhento como um helicóptero, mas que mandou bem por todas as noites dos seis meses que ele passaria na cidade.

Um dos primeiros pacientes que ele atendeu na manhã seguinte à sua chegada apresentava um quadro de faringite. Ele prescreveu duas cartelas de antibiótico, suficientes para uma semana de tratamento – e explicou que os comprimidos deveriam ser tomados de oito em oito hora. Pediu para que o homem voltasse dali a sete dias. Dois dias depois, o homem estava de volta. Como ele não tinha relógio, achou complicado aquele esquema de oito em oito horas. Tomou a primeira cartela em um dia e a segunda, no outro. Veio em busca de mais cinco cartelas para preencher uma semana de tratamento.

Com o tempo, ele fez amizade com o dono do mercadinho, que traficava para ele alguns vidros de azeitona – a única iguaria de um cardápio local composto, em todas as refeições, por arroz e frango com batatas. Minto: às vezes sem batatas. Não demorou muito para que os moradores locais, que até então tinham vivido sem médico, enxergassem nele uma espécie de autoridade, um jovem pajé, um forasteiro de pele muito clara que nada ficava a dever ao prefeito e ao padre. E então começaram os convites para os almoços dominicais. Que não podiam, de maneira alguma, ser recusados. Se ele dizia que era longe, vinham buscá-lo de carroça, se dizia que estava cansado, instalavam outra rede na varanda. O que ele esperava, na verdade, é que alguém lhe preparasse qualquer coisa que não fosse frango. Mas isso ele nunca conseguiu – o lugar era seco, paupérrimo, sem nenhum tipo de plantio. Os franguinhos que ciscavam na frente das casas de manhã já estariam na panela na hora do almoço.

Apesar do calor e do terreno poeirento, ele costumava correr um pouco no fim do expediente. E a cidade, quieta, observava aquela cena com um estranhamento que não diminuiu em nada ao longo dos meses. Uma garota da redondeza, de 19 anos e cabelos negros, caiu de amores por ele e chorou muito quando ele voltou à rodoviária em que havia apanhado seis meses atrás para pegar o ônibus com destino a Fortaleza – e de lá um avião para São Paulo.

Na noite em que me contou esta história, ele mostrou um álbum que a garota lhe dera de presente de despedida. Em uma série de folhas de papel sulfite, a jovem colou imagens de casais se beijando – na maioria, fotos de famosos que ela recortou das revistas. Angelina Jolie e Brad Pitt apareceram duas vezes em poses apaixonadas. Ao redor de cada foto, ela rabiscou um coração vermelho e, na última página, escreveu a mais original das dedicatórias que já li na vida: “O meu amor por você é igual a caatinga. Só aumenta”.

Ele nunca me disse se chegou a ficar com ela. Mas, por muitos anos, guardou o álbum com carinho em uma pasta preta, ao lado do passaporte, do título de eleitor e de algumas outras coisas muito, mas muito importantes mesmo.

terça-feira, julho 24, 2012

Uma outra avenida


Esta semana eu confessei (e, neste caso, confessar é mesmo o verbo mais indicado a ser usado) que nunca vi a novela Avenida Brasil. O post gerou uma série de comentários bem-humorados entre aqueles que compartilham comigo da ignorância sobre a novela e os que não perdem um único passo de Carminha, Tufão e Nina. Estes três personagens, ao menos, eu conheço. Como também conheço os atores que os interpretam. Além disso, sei que se trata de uma bem arquitetada trama de vingança, que existe um lixão e que parece haver um cuidado especial em retratar a nova classe C – alguns espectadores dizem que tal retrato se dá à perfeição; outros se incomodam com a quantidade de estereótipos com os quais os emergentes são contemplados. E é tudo que sei de Avenida Brasil. E já está bom.
Não sei se faço coisas muito melhores no horário em que quase todos os amigos que conheço estão vendo a novela. Desconfio que não. Vejo o noticiário da Globonews e da Cultura,  janto, leio alguma coisa, termino de trabalhar, vou ao cinema quando dá, ao teatro também quando dá, assisto a um filme em DVD, fico esparramado no sofá olhando para o teto com os dois gatinhos do lado, que insistem em enxergar coisas no ar que eu não enxergo, ou deixo minha atenção passear por programas da tevê aberta, de qualidade inegavelmente inferior à trama das nove. Em resumo, nada que faça de mim um bobinho com pretensões intelectuais ou alguém que nutre um desprezo atávico pelos folhetins. Ou pior ainda: alguém com a arrogância de afirmar que  não vê novela por se acreditar superior ao assunto.
Alguém poderia perguntar, então, por que raios eu não vejo Avenida Brasil, se aparentemente não encontrei um substituto tão irresistível no horário. A resposta é simples: eu não consigo. Sou incapaz. Me faz mal. Fisicamente mal. Nem sempre foi assim. Houve um tempo em que eu diria não a qualquer convite que me afastasse da tevê na hora de uma boa novela. Mas fui percebendo, trama após trama, que tal hábito estava se revelando nocivo, maléfico, indesejável. O diagnóstico é simples: eu adquiri uma intolerância à figura do vilão. Só por isso e mais nada.
Assumo esta minha deficiência esta incontornável fraqueza: não sou mais capaz de passar meses e meses da minha vida, noite após noite, assistindo a alguém que não sabe fazer nada além de tramar mortes, assassinatos, sequestro de crianças, chantagens, ataques físicos, humilhações, achaques, torturas, abandonos, traições, adultérios, puxadas de tapete, desrespeito, assédio moral e sexual, negligência, espancamentos, ferimentos físicos e maldades e vinganças e maldades e vinganças e maldades e vinganças. E não me interessa se tudo isso tenha raiz na Bíblia, em Shakespeare ou Tarantino. E não me interessa se isso é tratado em linguagem de cinema, em cores delirantes ou em ritmo de montanha-russa. Alguém também poderia argumentar: mas esta é a vida. Concordo: mas não é a vida que eu quero que entre em minha casa com a minha autorização. Esta é a vida que, infelizmente, nos espera na rua – eu não preciso convidá-la para a minha sala de estar.
Virei uma mocinha do século 19, que desmaia diante de uma notícia ruim? Quem sabe. Quanto mais bem construída e complexa for a figura do vilão – e, ao que me consta, a tal Carminha já virou um personagem histórico – maior a ameaça que ela me representa à serenidade que eu resolvi buscar. Por isso mesmo, maior minha aversão a ela. Admiro e me envolvo com a figura do vilão em um bom filme, numa boa peça de teatro ou em outro tipo de espetáculo em que o demoníaco se revelará a mim durante no máximo duas horas. Não preciso da companhia dele por oito meses.
No lugar do vilão que não sossega enquanto não exterminar tudo aquilo de que não gosta (é impressionante como os vilões são incapazes de conviver com o diferente) eu prefiro ter em minha companhia o povo mais desarmado do Two and a Half Man e do Big Bang Theory, os meus programinhas de entrevistas e culinária, alguns livros de vez em quanto, um filminho, um amigo que não vai querer me enterrar vivo ou meus dois gatos ronronando na minha barriga – enquanto eu olho para o teto sem saber direito o que eu quero da vida. Mas sabendo, mais ou menos e ainda que tardiamente, o que eu não quero.

sexta-feira, junho 01, 2012

A casa da Vila


No comecinho do ano passado, a amiga Chris Riera comprou uma casa imensa na Vila Madalena, na frente de onde ela já morava quando a conheci. Era uma casa de três pisos e vários cômodos prejudicados por uma quantidade inexplicável de paredes e armários labirínticos. Sabíamos que ela iria botar tudo aquilo abaixo e fazer da casa um território de poucas fronteiras. Uma tarde, eu e o Gustavo Fioratti fomos convidados por ela para conhecer a casa. Na verdade, descobrimos durante  a visita, o que ela queria mesmo era saber nossa opinião sobre o arquiteto que ela havia chamado para a reforma. “Se ele for bonito, vocês cruzam o braço; se ele for feio, vocês tossem”, ela nos pediu. “Chris”, tentei argumentar, “se ele for feio e eu e o Gustavo tivermos um acesso de tosse na mesma hora, ele vai perceber”. “Bem pensado”, ela respondeu. “Então, se ele for feio, vocês coçam o olho, é mais prudente”. Não lembro se o placar terminou em braços cruzados ou coceiras nos olhos – mas lembro, e muito bem, que essa era a Chris. Alguém interessado em revelar que, mesmo diante de uma grande conquista como a compra de uma casa, não devíamos nos esquecer do prosaico e do risível. Entre nós três, eu, o Gustavo e a Chris, se havia algum moleque na parada, esse moleque era ela.  

Sem entrar nos méritos estéticos do arquiteto, o que sei é que ele fez um trabalho memorável na casa. Abriu os ambientes, derrubou paredes, suavizou cores e texturas, deu fim aos velhos armários embutidos e esculpiu na cozinha uma janela tão gigantesca que, diante dela, éramos obrigados a concordar que São Paulo era linda e a vida também. Daquela janela víamos as cores da cidade mudar, a lua nascer atrás do prédio da MTV, os temperos do jardinzinho pegado ao muro florescer, e, acima de tudo, crescerem a nossa amizade e a nossa esperança em alguma vitória da vida.

Sempre me pareceu claro que a Chris tinha comprado e reformado aquela casa não exatamente para ela, e sim para os amigos, o filho e sua família geneticamente beneficiada por um raro DNA da beleza e ternura. Assim que a reforma ficou pronta, Chris se apressou em instituir o Cinema na Laje, evento mensal em que seriam exibidos os filmes das nossas vidas a céu aberto. O longa escolhido para inaugurar o Cinema na Laje foi ET. Talvez porque eu tivesse uma cópia em DVD em casa, ou talvez porque, por se tratar de um filme já visto por todos, e seguramente mais de uma vez, ninguém precisaria prestar muita atenção mesmo, já que tudo se resumia em mais um pretexto para a gente conversar. Gustavo Fioratti foi o primeiro a chegar, trazendo o projetor e as caixas de som. Quando a porta que conduz à escada para a laje foi aberta ao grande público de dez pessoas, já havia pipoca, cachorro-quente e cerveja à disposição. Vimos ET debaixo de um céu nublado e um ventinho frio. E, graças a uma sincronicidade que nem Steven Spielberg foi capaz de prever, no momento exato em que o personagem de Drew Barrymore grita ao ver o ET pela primeira vez, o banco capenga em que estavam sentados a Lenise Pinheiro, a Iris Cavalcanti e o Rogério Simões veio ao chão - causando um certo dano físico a este último, mas poupando as meninas de arranhões e hematomas.Por alguns momentos, ET, a despeito de toda sua magia e sensibilidade, virou um pastelão.

Depois do Cinema na Laje, veio o CarnaChris, se não me engano uma logomarca criada pela Lenise para animar o carnaval 2012 de quem havia ficado em São Paulo. Ao longo de quatro noites (duas dos desfiles do Rio e outras duas dos de São Paulo), o CarnaChris reuniu a singela marca de três ou quatro foliões diante da tevê ligada. Sem entender de samba e alegoria, nossa diversão era tentar localizar conhecidos entre os passistas que atravessavam a Sapucaí ou o Sambódromo do Anhembi. Não tivemos êxito. Porém, na falta de conhecidos de verdade, nos contentamos em apontar os que se pareciam com nossos amigos – e acho que, à exceção dos integrantes das escolas de samba campeãs, ninguém riu mais do que a gente com aquela bobagem toda.

Ainda teríamos a entrega do Oscar, com a gente torcendo pelos filmes que não havia visto enquanto o Gustavo, de barriga cheia, dormia no chão da sala; a noite do macarrão ao alho e óleo com brigadeiro de sobremesa; as muitas noites do cozido tailandês e do cuscuz marroquino feitos pela Dita e até a noite do medo, criada às pressas para distrair a Chris e que consistia apenas na revelaçlão dos nossos principais temores, de preferência os que tivessem origem na infância. Enquanto a Flávia, irmã da Chris, confessava seu pavor de bicho-preguiça empalhado, eu assumia que meu maior e mais antigo medo era o de ficar cego durante a noite. Ao nosso lado, a Chris só ria. Talvez não tivesse medos.

A casa hoje está fechada e, nas raras vezes em que passo por ali (evito de propósito), tento convencer a mim mesmo que não estou ouvindo nada, que é tudo impressão e que essas coisas não existem. Mas em algum cantinho da alma e do coração eu percebo todas aquelas gargalhadas e todas aquelas lembranças tentando pular os muros só para nos acompanhar pelo resto de nossas vidas.

quinta-feira, maio 10, 2012

O tempo entre duas vozes




No último sábado, dia cinco, algumas horas antes do início da Virada Cultural, a cantora Maria Rita levou 60 mil pessoas ao Parque da Juventude, onde, pela primeira vez em dez anos de carreira, decidiu se arriscar pelo consagrado repertório da mãe, Elis Regina. Não fui, mas acredito que pelos ingredientes envolvidos no evento deve ter sido emocionante. Um amigo que esteve lá disse que a cantora chorou várias vezes durante a apresentação – no que foi acompanhada por milhares de fãs. É compreensível.

Assisti a três shows de Maria Rita, todos antes de ela gravar o primeiro CD e imediatamente se tornar uma das cantoras mais famosas do País. Assim, pelas minhas contas, há pelo menos uns oito anos que não a vejo ao vivo. Tive, também, a oportunidade de entrevistá-la numa época em que a curiosidade sobre a sua figura era assustadora (se é que em algum dia deixou de ser). A entrevista foi agendada pelo grande músico e amigo querido Chico Pinheiro. Estávamos em 2002 ou 2003, não sei ao certo, e Maria Rita, sem discos gravados e sem o rosto na tevê e nas revistas, fazia uma participação especial nos shows do Chico – aparecia lá pela metade, cantava duas ou três músicas, deixava a plateia em estado de choque e saía do palco balançando o corpo de uma maneira que todos, por mais materialistas e descrentes que fossem, passassem a acreditar em reencarnação.

A entrevista, de no máximo vinte minutos num fim de tarde, foi feita nas mesinhas do saudoso bar Supremo, na esquina da Consolação com Oscar Freire, onde ela, Chico e a também cantora Luciana Alves se apresentariam logo mais à noite. Cavalheiro até não mais poder, Chico Pinheiro chegou antes de Maria Rita, me chamou no canto e, cheio de dedos, perguntou se a entrevista poderia se concentrar no trabalho de Maria Rita – e não nas recordações da mãe famosa. Maria Rita chegou logo depois, sentou-se na minha frente e me deixou visivelmente encabulado. Evitei falar da mãe, claro, mas não consegui deixar de encarar aqueles olhinhos ligeiramente estrábicos – um olhar que o Brasil inteiro se recordava de ver no rosto de outra pessoa.

Fui ao show daquela noite na companhia dos jornalistas e amigos Alberto Guzik, Regina Ricca, Bárbara Oliveira e da atriz Tuna Dwek. O Supremo estava abarrotado – o que significa dizer que havia ali no máximo cem pessoas. Chico começou o show com sua habitual competência e o bom gosto de repertório que tem sido sua marca desde sempre. Só que havia uma certa tensão no ar, uma eletricidade que perpassava todos os presentes, aquela sensação que temos na iminência de receber uma notícia que ainda não sabemos se será boa ou má. E então entrou Maria Rita.
O que se passou ali durante as três breves músicas que ela interpretou talvez mereça, algum dia, um post à parte. Antes de começar a segunda canção, ela olhou para a plateia e pediu: por favor, vocês não vão me fazer chorar, hein? Ao que Tuna Dwek emendou: mas É você que está fazendo a gente chorar. A recordação que guardo é de que não foi exatamente um show – por alguns momentos, cada um de nós parece ter sido conduzido para uma outra época, um outro local e provavelmente na companhia de outras pessoas. Não sei se fomos para algum lugar melhor, só sinto que para algum lugar nós fomos.

Quando o show terminou, aceitei o convite do Alberto Guzik para tomar um café. Coisa rápida, ele me garantiu. Sentado em uma das mesas do Frans Café, ali na Haddock Lobo, Guzik confessou que ao ouvir Maria Rita ele não tinha parado de pensar na Elis Regina (até aí, ele e a estação da Sé do metrô às seis da tarde). Mas não exatamente na cantora e em seu repertório – e sim no que havia sido a vida dele naquele hiato de 20 anos, do desaparecimento da mãe ao surgimento da filha. Entre estas duas vozes, ele me disse, muita gente foi embora da minha vida. Eu sabia ao que ele se referia. E finalmente derramou todas as lágrimas que represara durante o show.

Agora já se passaram mais dez anos desde aquela noite. E o próprio Guzik entrou para o time dos que foram embora. Mas pensar naquela noite, naquele show e naquela conversa não me deixa triste. Saudosista um pouco, mas triste, não. Otimista que era, tenho certeza de que, se o café tivesse durado mais um pouco, Guzik também teria falado das pessoas que entraram na vida dele e que, até onde eu sei, eram pelo menos em número maior do que as que haviam partido. Já que a vida é isso mesmo, esta eterna despedida de pessoas queridas e esta eterna chegada de outras pessoas igualmente queridas, no fundo é uma benção que todo este entra-e-sai possa ter, de vez em quando, a voz da Elis (tá bom, e da Maria Rita também, vai...) como trilha sonora.







segunda-feira, abril 30, 2012

As lágrimas e o prato de picadinho

Nunca gostei de ir a restaurantes sozinho. Almoçar sem companhia eu até consigo encarar; jantar jamais. Posso ir desacompanhado a cinemas, teatros, exposições e eventualmente até a alguma balada, mas nunca reuni coragem (e a palavra é essa mesma) para jantar sozinho em um restaurante. Pratos de Miojo e sanduíches do McDonald’s sempre me ajudaram nessas horas. Não sei explicar os motivos, mas jantar sozinho, em lugares públicos, sempre me pareceu um atestado incômodo de solidão – é como se ir ao cinema sozinho pudesse representar uma opção, enquanto que jantar sozinho beirasse o desespero de causa. O fato que se segue, para meu alívio, ocorreu durante um almoço, o que talvez suavize um pouco o seu impacto. Eu estava almoçando sozinho, na semana passada, quando, na mesa ao lado, tocou o celular de uma jovem igualmente desacompanhada. A ligação durou menos de dois minutos – e ela muito mais ouviu do que falou. Apenas balbuciou algum monossílabo incompreensível. Quando desligou o telefone, já estava chorando. As lágrimas desciam por sua face enquanto ela, delicadamente, espalhava o azeite sobre a salada. Só após terminar essa função é que ela se preocupou em enxugar o rosto. Outras lágrimas começaram a rolar, em um silêncio angustiante, assim que ela deu a primeira garfada no seu prato com picadinho. Tive impulsos de me sentar ao seu lado e perguntar: podemos comer juntos? Ou chorar juntos, se você preferir. Mas somos polidos o bastante para interromper o choro de alguém. Ela terminou de almoçar (apenas metade do prato) e pegou o telefone novamente. No meu íntimo, eu torcia para que ela fosse à forra com o responsável por suas lágrimas. Em vez disso, ela afastou o cabelo do rosto, calibrou e voz e, teatralmente, marcou uma reunião de trabalho. Enxugou as lágrimas pela última vez, pagou a conta e foi embora. A vida sempre vence. Só que, às vezes, a vitória é triste.

domingo, maio 15, 2011

Segundo tempo

Comecei muito tarde na ficção. Somente no final de 2001 escrevi meu primeiro texto não jornalístico. Até então, produzir matérias para jornais e revistas já me mantinha satisfeito e apaziguado com o teclado. Este primeiro texto se chamava O Fantasma de Nova York – um pequeno conto, três páginas apenas, sobre um homem de 30 e poucos anos que trabalhava em uma das Torres Gêmeas. Em 11 de setembro, dia dos atentados, ele decidira saltar do metrô duas estações antes da habitual para fazer a pé o resto do trajeto. Estava na rua, a algumas quadras do trabalho, quando viu o primeiro avião se chocar contra uma das torres. Ficou ali até o segundo choque e a consequente queda dos edifícios. Em meio a tanta dor, ele interpretou a tragédia como um renascimento. Se tivesse feito seu percurso habitual, estaria morto naquele momento. Ao nascer de novo, naquela manhã de terça-feira, resolveu sepultar a vida anterior: abandonou os pais e a mulher, tomou um ônibus interestadual e foi tentar uma nova vida em algum recanto esquecido dos Estados Unidos. Ao voltar, três anos depois, encontrou, no antigo flat em que morava, um atestado de óbito em seu nome, expedido pela prefeitura de Nova York.

O objeto deste conto sempre foi uma das minhas obsessões. Desde adolescente que eu sonho com a possibilidade de ser outra pessoa em outro lugar, uma espécie de segundo tempo da vida, um jogo com novas regras e novos participantes. Não sei se teria coragem de algum dia me zerar desta maneira, mas ontem, ao ler uma das obras-primas do escritor Arthur Schnitzler, Breve Romance de Sonho, o livro que serviu de inspiração para Stanley Kubrick fazer seu último filme, De Olhos Bem Fechados, constatei, talvez um pouco aliviado, de que estou longe de ser o único a me ocupar com tais devaneios.

Transcrevo aqui um trecho do romance em que o personagem principal, o médico Fridolin, também flerta com a ideia de que uma nova vida, em outras paisagens e rodeado de estranhos, pode ser possível:

“Sentia uma leve pena de si mesmo. Apenas de passagem, não como um propósito qualquer, veio-lhe a ideia de dirigir-se a uma estação ferroviária, tomar um trem para onde quer que fosse, desaparecer para todos os que o conheciam, ressurgindo em algum lugar no estrangeiro para começar uma vida nova como outra pessoa, um novo ser humano. Lembrou-se de certos casos notáveis que conhecia dos livros de psiquiatria, aqueles das assim chamadas existências duplas: de repente, um homem desaparece, deixando para trás uma vida bastante ordenada, some, retorna meses ou anos mais tarde, não se lembra de onde esteve ao longo desse tempo, mas, depois, é reconhecido por alguém que o havia encontrado em alguma parte de um país distante, sem que ele próprio se lembre de coisa alguma. Decerto, tais coisas aconteciam raramente, contudo, ainda assim, eram casos comprovados”.

Quem sabe um dia... somente trocando o trem por um avião. Me parece mais contemporâneo.