segunda-feira, dezembro 21, 2009

Minha antilista

Como não sou tão ambicioso para indicar Mil Lugares Para se Conhecer Antes de Morrer, humildemente transcrevo abaixo DEZ FRASES QUE EU NÃO GOSTARIA DE OUVIR EM 2010.

1. Olha, o problema não é você, sou eu

2. Sinto muito, mas nossa cozinha acabou de fechar

3. Claro que você não é feliz, você vive se boicotando

4. Tio, posso dar uma olhadinha no carro?

5. Também, você quer resolver tudo sempre sozinho

6. Temos uma esperinha de 40 minutos a uma hora

7. O processo foi arquivado por falta de provas

8. AlÔ? É o gerente da sua conta. O senhor teria cinco minutinhos...

9. Pôxa, esqueceu que tem mãe, é?

10. Nunca antes na história deste país

domingo, dezembro 20, 2009

Desejos

Há muito tempo que deixei de fazer planos nesta época do ano. Basicamente por acreditar que cada plano se convertia em uma expectativa que eu jogava sobre minhas costas – e a chance de me curvar diante de tanto peso sobre os ombros era gigantesca. Resolvi facilitar as coisas para mim mesmo e relaxei. O que terá de vir, acredito, virá. E o que não era para ser meu, que encontre boa acolhida em mãos alheias. Não há nada de elevação espiritual nesta atitude, é só praticidade mesmo. Fui percebendo, ao longo dos anos, que o acaso sempre falou mais alto que meus planos e que grande parte daquilo que conquistei partiu de convites, associações com amigos e mesmo de ideias alheias – que nada mais são do que outros nomes para o acaso.

Eu me recordo com muita clareza do momento em que resolvi pensar assim. Era noite de 31 de dezembro (que óbvio!) e eu estava na Praia de Jabaquara, em Paraty, uma prainha que mais parece uma lagoa de água quente. Ou, como disse um amigo que estava comigo, uma banheira sem ondas e cheia de xixi. Não importa. Faltavam alguns minutos para a meia-noite e eu podia observar a concentração das milhares de pessoas na areia, acendendo velas, professando desejos silenciosos, rezando talvez. E minha cabeça estava completamente vazia. Não conseguia desejar nada, não conseguia pensar em nada concreto para o ano que teria início dali a poucos instantes, não imaginava como seriam meu trabalho, minha saúde, minhas aspirações. Nadinha. A mente estava estranhamente pacificada e vazia. Era como se eu estivesse num restaurante de comida exótica e cardápio ilegível: não adiantava escolher, tudo que me fosse servido seria estranho e arriscado. Mas poderia ser prazeroso também. Era um jogo. O jogo de estar vivo.

Mas, como a atmosfera do local parecia exigir um desejo urgente para o ano novo, fiz o meu. E é o que eu repito até hoje, esteja eu nos últimos dias de dezembro, como agora, ou numa segunda quinzena de um julho qualquer: que eu saiba dar boas-vindas a tudo de novo que chegar na minha vida e que saiba, acima de tudo, dizer adeus ao que está indo embora. Pode parecer bobinho, mas talvez seja um aprendizado que exija uma vida toda – a certeza de que a permanência não existe e que tudo está mudando. Nem sempre para melhor. Mas nem sempre para pior também. E, entre o que chega e o que vai, que eu tenha o bom senso de ser caloroso e hospitaleiro com aquilo que realmente se anuncia como bacana, e que reserve a minha saudade sincera para os grandes afetos que eu não souber, ou não puder, conservar ao meu lado.

Porque um ano novo, um mês novo, um dia novo e talvez até uma hora nova não passam exatamente disso: de uma contabilidade em que ganhamos aqui e perdemos ali. E a esperança, neste jogo, talvez seja a torcida para que o placar penda a nosso favor. Embora eu acredite que o que vale mesmo é a partida. Assim, já que não temos outra alternativa mesmo, que venha o apito de 2010, então.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

De molho

Por motivos que fugiram à minha vontade, me vi obrigado a manter distância dos computadores – e por conseqüência deste espaço – por um período de 15 dias no mínimo. Se eu fosse um pouquinho mais prudente, não deveria estar aqui. Mas senti saudade. E como acredito que o médico que me despachou para o estaleiro por duas semanas nem sabe da existência deste blog, resolvi desobedecer um pouquinho. Prometi a mim mesmo que vai ser jogo rápido.

Fui operado de uma hérnia inguinal na terça-feira da semana passada. O procedimento é relativamente simples. Em menos de duas horas eu já estava deixando o centro cirúrgico, praticamente consciente, com um talho de uns dez centímetros na virilha esquerda, que até hoje está com as bordas ligeiramente inchadas e vermelhas. A aparência do corte fez com que alguns amigos mais safados – e todos nós os temos, não é – passassem a comentar que eu tanto fiz que finalmente consegui ter uma xoxotinha paga pelo plano de saúde. Não sei se por ela ter aparecido muito tarde na minha vida, ou por ter sido esculpida um pouco mais à direita de onde deveria estar naturalmente, o certo é que minha xoxotinha genérica dói pra caramba.

Pequenos prazeres fisiológicos que acompanham todos os homens desde a mais remota infância, como fazer pontaria com o jato de urina na privada, tornaram-se um tormento para mim. Fazer xixi dói e sobre aquela outra coisa, então, é melhor nem falar. Quando se aproxima o momento de eu prestar contas com o banheiro, fico pensando que talvez a vida, ao menos nesses dias, seria bem mais fácil se eu fosse membro daquela seita de pessoas que só se alimentam de sol. Nunca foi tão sofrido dizer adeus aos meus excessos alimentares.

Mas o mais estranho neste pós-operatório em que tenho de fazer repouso quase total é perceber o quanto mudou a minha relação com o dia. Ou com as horas do dia. Eu tenho tão pouca coisa a fazer que fico sinceramente excitado quando chega a hora de aplicar minhas compressas de água quente na região do corte. O médico me disse que três vezes por dia seriam suficientes, mas eu tenho feito cinco, na esperança de que o dia passe mais rápido e a noite me encontre com o cansaço de um estivador.

Na tentativa de tirar algum proveito concreto destes dias, tenho lido os jornais de cabo a rabo. Até mesmo aqueles cadernos de automóveis e classificados, que iam direto do sofá para a lata do lixo sem jamais serem abertos, hoje despertam meu interesse e preenchem minhas horas arrastadas com informações tão valiosas quanto a oscilação do preço do metro quadrado nos imóveis da Vila Prudente. Fiquei sabendo também – e o fato me causou uma profunda revolta – que o jogador Vagner Love, do Palmeiras, foi agredido em uma agência bancária no bairro das Perdizes. Minha indignação foi tanta que, ao ler a notícia até o final, corri para o Google para saber quem era o Vagner Love. Descobri que é um jogador que usa umas trancinhas no cabelo. Em algumas fotos ele surge de trancinhas azuis, em outras, de trancinhas verdes. Estou na torcida para que ele mude a cor das trancinhas nos próximos dias, o que me garantiria mais uns três minutos de informação a ocupar o meu tempo.

A hora mais ingrata, no entanto, é aquela em que os amigos ligam. Eu adoro quando eles ligam e espero o telefone tocar com sofreguidão. O problema é sempre a primeira pergunta que eles fazem: e aí, o que você fez hoje? E eu respondo: até agora, nada. E não importa se o telefonema ocorra às dez da manhã ou às onze da noite, a minha resposta será sempre a mesma: não fiz nada. A outra pergunta que eles fazem é a seguinte: eu estava pensando em te visitar, qual é a melhor hora pra você? E minha resposta também é sempre igual: a hora que você vier para mim está perfeito. A chance de eu ser encontrado em casa é total e absoluta.

Mas ontem eu me rebelei perigosamente: vesti uma bermuda (não agüentava mais me ver de cueca há dez dias), calcei um par de tênis e peregrinei feito um romeiro cansado até a locadora que fica a 50 metros de casa. O tempo que eu levei capengando para ir, escolher um filme e voltar seria suficiente para ver E o Vento Levou na íntegra. Retornei para casa com a mesma sensação de vitória da personagem da atriz Alinne Moraes na novela Viver a Vida, que após passar vários dias imobilizada na cama, no capítulo de ontem conseguiu se sentar, o que levou às lágrimas todos os personagens da novela e eu aqui na minha casa, pois eu sabia o quanto estas pequenas vitórias são importantes para nós!

Daí fiquei torcendo para que alguém me ligasse para perguntar o que eu tinha feito do meu dia. Eu iria carregar a voz com esnobismo e superioridade para responder assim: “Eu? Ah, fui até a locadora sozinho...” Mas justo ontem ninguém me ligou e a resposta ficou entalada na minha garganta até agora. E só por isso eu vim aqui, contar para todos vocês, que ontem eu fui até a locadora, tá?

Me aguardem. Assim que a minha xoxotinha sarar, prometo tirar o atraso.

quinta-feira, novembro 19, 2009

Labirinto

Terminei de ler Felicidade Conjugal, novela do escritor russo Lev Tolstói publicada em 1859 e estou me controlando para não reproduzir aqui a última página do livro, na minha modestíssima opinião uma das peças mais belas, simples e sensíveis da literatura universal. Em poucas palavras, Tolstói descreve com a maestria dos gênios uma sensação que todo mundo já deve ter experimentado ao menos uma vez na vida: aquela certeza de que algo mudou sem que as coisas tenham, efetivamente, mudado. A coisa, no caso da novela, é o amor. Um dia, a heroína da história, Mária, jovem da aristocracia rural casada com um proprietário de terras de 36 anos, um velho para os padrões do século 19, constata com dolorida aceitação e inevitável conformismo que o amor que ela sentia pelo marido metamorfoseou-se para sempre – ela continuava a ser a mesma mulher, ele o mesmo homem e nada de estranho havia ocorrido aos dois filhos do casal, ainda assim, o mundo que os dois conheceram estava irremediavelmente morto.

É uma constatação tão sutil, uma alteração tão ínfima no estado da alma da personagem que só mesmo um escritor superlativo poderia dar conta de tornar este relato não apenas verossímil, mas cruel e contagiante. Porque, se nos dermos a chance de pensar um pouco em nossas vidas, encontraremos a Mária que habita a nossa alma: um dia, assim como ela mas talvez com menos elegância, a gente também percebe que nada aconteceu, mas o mundo que conhecíamos até ontem também não existe mais. Alguma coisa se perdeu e se quebrou – nada que nos impeça de continuar a nossa caminhada. Mas só nós sabemos o quanto estamos mancando.

Depois que fechei o livro, fiquei pensando que talvez seja mais difícil ser escritor nos dias de hoje. Não porque tudo já teria sido dito, como atestam os niilistas. Mas porque nos tornamos mais incrédulos e de alguma forma desesperançosos, não só como leitores, mas como pessoas. Em uma das passagens de Felicidade Conjugal, por exemplo, Tolstói consome algumas páginas para relatar os sentimentos de culpa provocados na heroína por um mais que inocente beijo no rosto que lhe fora dado por um pretendente, quando ela já estava casada.

Claro, precisamos recorrer à moral da época para entender a auto-condenação que se instalou na mente da personagem. E a qual moral específica um autor da nossa era teria de recorrer para nos causar uma impressão semelhante? Sei que os escritores de agora contam com um repertório muito mais vasto do que aquele oferecido a Tolstói: podemos falar de coisas que ele nem imaginaria que fossem existir algum dia, como a internet, satélites, viagens espaciais, transplantes de órgãos, telefonia, efeito estufa, camada de ozônio e mais um sem número de novidades tecnológicas que, sejamos justos, não fazem frente à beleza da descrição de um sentimento humano. E é nisso, acredito eu, que devemos continuar apostando, porque é só o que nos resta.

Penso num amigo que, há algumas semanas, aventurou-se a escrever seu primeiro livro. Não o injevo. Em sua narrativa seca e contemporânea, que tem início com uma pomba se estatelando contra o pára-brisas de um táxi em alta velocidade pela marginal do Tietê, somos apresentados a uma garota de 17 anos recém-chegada do Sul com o sonho de se tornar modelo em São Paulo. Em sua primeira manhã na capital, enquanto sobe de elevador até o andar em que vive um modelo também em início de carreira e que irá hospedá-la, a garota se pergunta se deve dar para ele assim que chegar ou se seria mais conveniente tomar um banho e descansar um pouquinho antes. Tolstói precisou de mais de 100 páginas para que sua heroína fosse contemplada com um beijo que lhe queimou as faces e a alma. A heroína do meu amigo estava prestes a ir para debaixo dos lençóis já na terceira página de seu livro inacabado: e eu, primeiro leitor desta obra em processo, inconscientemente torcia para que ela transasse logo de uma vez e só depois pensasse no que faria da vida.

Tolstói soube muito bem o que fazer com sua personagem atormentada pelo beijo proibido e a conduziu por reentrâncias do espírito que ainda nos amedrontam. Meu amigo – e aqui não estou julgando o talento de um e outro escritor – escreveu para me dizer que não sabia mais o que fazer de sua heroína que já abrira as pernas na página três. Não porque ela fosse uma garota amoral ou desavergonhada: ela abrira as pernas porque, acima de tudo, era isso que esperávamos que ela fizesse. E, se não o fizesse, sairíamos por aí dizendo que havia algo de errado com um dos três: a garota que não deu, o carinha que não comeu, ou o autor que não colocou logo um em cima do outro. Nós temos pressa e nenhum tempo a perder com culpas, beijos no rosto ou delicadezas.

Tenho pena dos autores de hoje. Nós nos tornamos muito cruéis.

terça-feira, novembro 17, 2009

2012 - ou um pouquinho depois

Assisti ontem ao filme 2012. Mesmo para quem é fã de cinema-catástrofe, como eu sou, o filme é bem chatinho. E piora muito na meia hora final. Tudo bem que os efeitos especiais são bacanas – é impressionante ver a costa oeste dos Estados Unidos sumir do mapa em meio a terremotos e furacões e um pouco estranho ver o nosso Cristo Redentor despencar do Corcovado, em uma sequência que só consegue provocar risos na plateia. Nós, brasileiros, conseguimos rir até do apocalipse, bendita seja esta dádiva. Poderia ser um filme legal se não houvesse a eterna preocupação do cinema americano de mostrar que, antes de salvar o mundo, o mocinho tem de salvar seu casamento, seus filhos e principalmente sua moral desacreditada por conta de incontáveis erros cometidos nos anos que antecederam a catástrofe.

E então, diante de um mundo que já está recebendo a extrema-unção do Todo-Poderoso, um pacato e fracassado escritor consegue reunir a força de um Sansão à inteligência e astúcia de um Einstein – garantindo a sobrevivência de todos aqueles que lhe são caros. Grande porcaria. O fim de toda a nossa espécie, de toda nossa cultura e civilização serve apenas de pretexto para que o mocinho se reabilite diante da ex-mulher e dos filhos pequenos que já não o respeitavam. Se a intenção era só resgatar a moral do cidadão médio americano, os estúdios podiam fazer algo mais simples e economizar em efeitos especiais. Vai ver que, para a cultura americana, toda reabilitação moral deva ser comemorada com um tsunami.

Se há algo de interessante no filme é sua postura didática de reafirmar a nossa pequenez diante da natureza. O que não é novidade, eu sei. Qualquer ser humano pouco pretensioso sabe que, para o planeta, a nossa espécie deve valer tanto quanto a dos percevejos: basta uma coisinha de nada para que a gente desapareça como um dia os dinossauros e os mamutes também desapareceram. E olha que eles eram bem maiores e mais barulhentos que a gente. No filme, a temperatura no interior da Terra começa a subir assustadoramente, os pólos derretem, a crosta terrestre vira uma gelatina e todos nós, como se fôssemos uns torrõezinhos de açúcar, somos mergulhados nesta gigantesca e fumegante xícara de café em que o planeta se transformou. E pronto: a linhagem de primatas que culminou nas sinfonias de Beethoven, na pintura de Da Vinci e nos versos de Shakespeare recebe, enfim, seu ponto final.

Vejo o filme no dia em que os principais dirigentes do mundo anunciam que o acordo climático de Copenhague já nasceu morto. As emissões de gases de efeito estufa vão prosseguir, os países ricos querem continuar a ser ricos, os emergentes não querem desacelerar seu processo de industrialização e danem-se os ursinhos brancos que não têm mais nem um pedacinho de gelo em que se equilibrar. A destruição do planeta, para todos nós, vai continuar restrita às imagens dos bichinhos morrendo de sede e fome, às tempestades tropiciais que parecem atingir somente os nossos vizinhos, às nevascas que ficam lindas nas fotos dos turistas e ao calor insuportável que nos obriga a correr até as Casas Bahia em busca de ventiladores e aparelhos de ar condicionado. Qualquer decisão sobre o clima foi jogada para 2010 e o homem continua a tratar este mundo como se ele fosse eterno e inesgotável.

Acho válida a pretensão de qualquer país de se desenvolver e garantir uma vida de farturas e recursos para os seus habitantes. Mas, daqui a pouco, penso que teremos algum dinheirinho no banco, às custas deste desenvolvimento descabido, e não haverá em loja alguma ventilador que possa refrescar o nosso corpo e a nossa consciência. Não sou fatalista e nem acredito nestas bobagens de 2012 ou 2030. Tenho certeza de que o mundo não vai acabar antes de alguns bilhões de anos. O que eu acho, de verdade, é que um dia o planeta irá se cansar desta coceirinha irritante que fazemos no nariz dele e ele então soltará um grande e proposital espirro, nos empurrando para muiiiiiiiiiiiiiito longe e para todo o sempre. Espero que a espécie que venha a nos substituir, e ela virá, seguramente, seja um pouquinho mais esperta do que a gente conseguiu ser.

Soneto*

Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo

Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar, com que navio
E me deixaste só, com que saída

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio

*(Chico Buarque. De quem mais poderia ser, né?)

quarta-feira, novembro 11, 2009

Palavras cruzadas

Nunca tive a chance de perguntar aos amigos Alberto Guzik , Mário Viana e Marta Góes que, como eu, começaram a vida no jornalismo para algum tempo depois se dedicar à dramaturgia, se eles têm um olhar específico para as reportagens que produziram em suas carreiras, e um outro destinado às peças, contos e biografias que também saíram de suas mãos. Na verdade, o que eu gostaria de saber deles é se é possível a existência desses dois olhares e como cada um deles se comporta. Pode parecer uma pergunta trivial, mas acho que ela faz toda diferença do mundo. De sua resposta depende, acredito, o grau de satisfação (ou não) que sentimos diante de cada ponto final.

Como os três queridos amigos que citei acima, eu também fui treinado profissionalmente para dar conta do imediatismo. Por mais interessantes, informativos e saborosos que pudessem ser os nossos textos nos jornais e revistas em que trabalhamos, sabíamos sempre que eles estavam condenados a uma morte prematura. No caso das revistas, talvez tivessem eles uma sobrevida de poucas semanas, mas nos jornais diários nossos textos estariam irremediavelmente mortos na hora do almoço do dia seguinte. E isso porque construímos nossas carreiras antes da chegada avassaladora da Internet. Hoje, um repórter da mídia impressa sabe que, na maioria das vezes, seu texto não passa de uma bela criança natimorta: se ele conclui uma matéria às seis da tarde, ela já estará velha desde as cinco. Em pouco tempo, até os peixes exigirão ser embrulhados por notícias mais quentes e interessantes.

Me lembro de um episódio ocorrido quando eu era redator do Jornal da Tarde. A revista New Yorker havia publicado um artigo imenso sobre o maestro e arranjador Quincy Jones. O jornal adquiriu os direitos de publicação, traduziu o material e um editor pediu para que eu deixasse o texto no tamanho – o que vale dizer que 2/3 de todo aquele palavrório deveria ser cortado. Era um texto tão bem redigido e com as informações tão emaranhadas que, se eu cortasse uma linha aqui, ela iria fazer falta no parágrafo seguinte. Trabalhei dois dias na edição daquele texto. Quando entreguei o material pronto para o editor, estava feliz com o resultado: o que era realmente relevante no artigo sobre o maestro parecia estar ali. A matéria seria publicada no dia seguinte. Quando chego para trabalhar, às 11h da tal manhã seguinte, vejo as duas páginas com toda a história do Quincy Jones encharcadas e jogadas no bueiro. Havia chovido, parte do jornal desceu literalmente pelo ralo e justamente aquelas duas páginas estavam ali, para me alertar sobre a fragilidade do nosso trabalho e a brevidade das nossas aspirações. Aquelas duas páginas sobre o bueiro formam uma imagem que irá me acompanhar para sempre.

Faço todas estas divagações a propósito de um fato concreto: há 15 dias, a Imprensa Oficial do Estado publicou, em um livro chamado O Teatro de Sérgio Roveri, quatro de minhas peças: O Encontro das Águas, Abre as Asas Sobre Nós, Andaime e O Funil do Brasil. Depois de muito tempo, voltei a ler estes textos, agora impressos, e a imagem do jornal com o Quincy Jones voltou a me assombrar: até que ponto resistiremos? Ou melhor: qual será o destino, a validade, a função e o objetivo das coisas que fazemos? Vejam: é uma questão prática e funcional, sem nenhuma conotação pessimista ou mesmo derrotista. E, o mais importante: uma questão que não esconde nenhum desejo de reconhecimento e posteridade. Até porque, sempre que ouço alguém dizer que está produzindo uma obra para ficar, eu rio de tanta pretensão. Eu sempre acreditei que, nesta vida, a gente só fica pra titia.

Reli os quatro textos e tive a tranqüila sensação de que continuaria a assumir a paternidade de cada um deles – o que é raro. No entanto, é preciso admitir que alguma coisa mudou: os textos cumprem, com honestidade, a função de revelar uma história que um dia eu desejei contar. Hoje eu contaria as mesmíssimas histórias, mas talvez de forma diferente – e então eu percebo que o tempo só faz colaborar para que a gente se torne obcecado pela palavra exata, pelo sentido inconfundível, pelo frescor que os dias apagam. Eu sinto que algo poderia ser mudado, mas não sei precisar o quê – até me dar conta que não temos o destino às vezes cômodo das histórias, que as páginas dos livros abrigam e preservam. Em um único dia, levantamos uma pessoa e somos outra na hora de dormir – e nada de tão importante assim aconteceu. Apenas uma camada nossa morreu, como uma casca que a cebola despreza. Parece, então, haver uma ingenuidade naquilo que fizemos num passado recente – e os dias, assustadoramente, estão nos tornando um pouco mais cruéis e talvez um pouco mais cínicos. A gente descobre, ao visitar o nosso passado de palavras, que a ingenuidade agora é algo que nos incomoda, porque parece que ela não diz mais respeito a uma pretensa pureza de espírito. Ou a uma benvinda inocência. Detectar ingenuidade em algo que fizemos parece sinalizar que não fomos espertos o suficiente, só isso.

Um dia, ainda vou pedir para que os amigos acima me digam sinceramente o que eles sentem quando esbarram em sua própria obra pelas lentes do tempo. Talvez a questão seja apenas uma grande encanação da minha cabeça, mas eu continuo acreditando que este tema, de tão poderoso, pode separar o dia da noite naquilo que fazemos.

Uma curiosidade: sempre que estes assuntos impalpáveis cutucam a minha cabeça, eu me lembro de uma entrevista do genial diretor de cinema John Houston. Um dia, pediram para que ele falasse sobre Marilyn Monroe. Ele disse exatamente o seguinte: “Marilyn Monroe era exatamente igual a milhares de loiras que chegam todos os anos a Hollywood para tentar a carreira no cinema. Mas ela era diferente”. Em três linhas ele disse tudo que eu tentei dizer no imenso post acima. Talvez sem conseguir.

domingo, novembro 08, 2009

O caso do vestido

Quando abri os jornais nesta manhã de domingo e li que a garota Geisy, aquela que incendiou de desejo, volúpia e bestialidade o campus da Uniban ao aparecer para as aulas no curso de turismo com um microvestido cor-de-rosa (que cá entre nós é bem sem gracinha), havia sido expulsa da faculdade, precisei de algum tempo para acreditar que o que eu tinha nas mãos, mesmo, era um jornal brasileiro, e não um tablóide do Paquistão, Irã ou Afeganistão. A notícia, por si só indigesta, ia se tornando cada vez mais repulsiva quando se lia o motivo da expulsão. De acordo com a Uniban, a garota precisou ser excluída do quadro de alunos porque havia muito tempo ela já “se insinuava” para os colegas. O obscurantismo é tamanho que a vontade é de rir. Punir um jovem brasileiro (vamos colocar no masculino para a afirmação assumir um caráter mais genérico), às vésperas do verão, porque ele se “insinua” é dar as costas à própria cultura do nosso país: o que temos feito, nos últimos 500 anos, em nossas praias, em nossas festas, em nossa alegria popular provavelmente única no mundo a não ser praticar o jogo da sedução?

Claro que alguém poderá dizer que a sedução tem hora e local propícios para se desenvolver e que os bancos universitários foram feitos para a prática monástica dos estudos, e não dos olhares de cobiça. Será mesmo? O grande erro de Geisy teria sido, então, seduzir em hora e local inadequados? Somente aceitando este ponto de vista é que podemos entender por que ela foi expulsa por usar um vestidinho provocante enquanto que os jovens violentos que torturam e matam calouros nos trotes têm seus nomes e suas matrículas preservados pelas grandes faculdades do País. Porque estes jovens sabem exatamente como agir: eles são violentos, cruéis e assassinos nos campus universitários – onde a violência e o homicídio são tolerados, mas a sedução, não. E isso num país que faz do seu jogo de sedução moeda corrente e que orgulha-se de exibir ao resto do mundo as bundas bronzeadas das jovens nas praias com o mesmo afã que exibe os índices animadores da economia. É um país muito estranho, não há dúvida.

Este post não tem a menor intenção de defender Geisy. As entrevistas e a postura da garota revelam que ela não precisa de defensores. Articulada e direta, ela sabe exatamente em que armadilhas a universidade pisou ao assinar seu termo de expulsão, e agora está pronta para dar uma bela mordida nos cofres da instituição, num processo que, segura e justamente, ela deverá ganhar. Mais que isso: que me perdoem os puristas, mas todos nós sabemos que, também em outras vias, a garota saberá tirar o máximo proveito deste episódio lamentável. É contar os dias até que uma revista a convide para posar nua ou uma emissora de televisão a empregue em um programa humorístico de qualidade duvidosa. São estes os meios que a nossa sociedade encontrou de reparar aquilo que considera injusto.

Geisy deve mesmo aceitar todos os convites e aproveitar esta fama repentina. E, acima de tudo, mostrar para os xiitas da Uniban que existe um país doidinho para apreciar aquelas coxinhas roliças que tanto incomodaram o puritanismo dos seus coleguinhas de faculdade. Se é esta a linguagem que parte do país entende, que seja esta a linguagem usada então.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Palavrinha mágica

Conheço algumas pessoas obcecadas por tecnologia, outras por dieta, algumas poucas por informação e outras tantas por compras. Tento pensar nas minhas obsessões e percebo que não há nada, ao menos nos últimos meses, que me ocupe tanto a atenção quanto a passagem do tempo. Não sei se isso chega a ser exatamente uma obsessão, mas o certo é que tenho buscado por este assunto nos livros, nos filmes e principalmente nas conversas. A passagem do tempo, ao menos na forma como a venho encarando, não tem a ver necessariamente com agum processo de envelhecimento – penso mais sobre o efeito sutil que o acúmulo de anos e sensações exerce sobre nossa maneira de enxergar o mundo e a nós mesmos.

Há algumas semanas – e já escrevi sobre isso aqui – eu tive a oportunidade de entrevistar a Fernanda Montenegro a propósito de seus 80 anos, completados agora em outubro. Na última quinta-feira, conversei com a atriz Christiane Torloni, que está em cartaz na cidade com a peça A Loba de Ray Ban. O texto é a versão feminina do espetáculo O Lobo de Ray Ban, que a própria Torloni fez em 1987, quando tinha 30 anos. Ela usou grande parte da entrevista para falar sobre estes dois momentos de sua vida, aos 30 e agora aos 52 anos.

Os 30, segundo ela, trouxeram, além da consolidação profissional, uma certa calma que até aquele momento ela dizia desconhecer. Como as coisas na vida parecem estar muito interligadas, a calma foi necessária para que ela pudesse investir objetivamente na carreira. “Foi o período em que eu comecei a me sentir realmente uma mulher, liberta de qualquer resquício herdado da adolescência”, ela disse.
E então ela chega aos 52 anos e diz que é preciso ter muita coragem para entrar nesta idade, "pois você se vê obrigada a abandonar uma zona de conforto na qual você viveu até este momento". É como, segundo o raciocínio da atriz, se os 50 anos viessem acompanhados de alguma compensação pelas coisas bacanas que você fez e também pelas cobranças de tudo aquilo que deveria ter feito e deixou para trás. Daí a necessidade de muita coragem para dar os passos necessários e inevitáveis rumo ao meio século.

Fiquei pensando muito nesta palavra: coragem. Por coincidência, encontrei com um amigo mais jovem e muito mais safado que eu dois dias após a entrevista. Enquanto tomávamos um café, comentei com ele sobre estes depoimentos da atriz. Ao nosso lado, como se para ilustrar esta conversa, havia uma revista justamente com a Christiane Torloni na capa e em fotos sensuais nas páginas internas. Perguntei se ele encarava. Ele disse que sim, que ela era linda e ele a encararia sem problemas, “desde que se esquecesse que ela tem 52 anos”. Mais cruel, impossível. Naquela hora entendi o que ela quis dizer com “é preciso ter coragem para passar dos 50”. Senti que é algo que as pessoas não perdoam em você.

Na terça-feira, para alimentar um pouco mais minha obsessão com este assunto, leio na Folha de S. Paulo um colunista dizendo que nossa época só venera dois deuses: o da juventude e o da saúde. Se o colunista estiver certo, o ser humano deve ser muito masoquista mesmo, pois conseguiu encontrar dois deuses mais cruéis que o deus dos católicos. Os deuses da juventude e da saúde estão dispostos a nos abandonar a qualquer hora – e nos abandonarão no momento em que mais precisarmos deles. O da juventude, este então, começou a nos abandonar na hora exata em que nascemos, o que me faz crer que é muito injusto seguir com esta veneração para com qualquer um deles.

Chego ao final deste post sem nenhuma conclusão, a não ser a de que o tempo,
tenhamos ou não coragem, irá passar de qualquer maneira e o melhor que temos a fazer é encarar esta passagem com alguma leveza e também com alguma indulgência em relação aos planos que não conseguimos levar adiante. Até porque só existe uma maneira de a gente interromper a passagem do tempo, pelo menos para nós mesmos. E,sem nenhum julgamento moral, acho melhor a gente nem pensar nesta hipótese. Nossa guerra contra o tempo já nasceu como um jogo perdido, mas pode haver muita diversão durante as batalhas. Talvez coragem seja mesmo a palavra.

quinta-feira, outubro 29, 2009

Almofadas


Antes que alguém pense que este blog está se tornando especialista em histórias de faxineiras e diaristas, já vou adiantando que não é o caso. No último post, falei sobre a vocação para a felicidade da Maria, diarista de um grande amigo. Hoje eu iria falar sobre um episódio desagradável envolvendo o twitter – do qual talvez eu tenha me afastado até segunda ordem – mas um pequeno diálogo ocorrido de manhã, aqui em casa, me fez mudar de ideia. Vou falar sobre a Malu, a diarista que me foi recomendada há cerca de três meses. E que, por sinal, é ótima.

Sei muito pouco sobre ela – como em geral sabemos pouco sobre as pessoas que trabalham ao nosso redor. Ela diz ser cozinheira diplomada, especialista em comidas baianas e drinques eróticos. Esta informação já rendeu várias piadas entre meus amigos, mas juro que são habilidades que ela alega possuir. Malu trabalha cantando o dia inteiro. Liga o rádio assim que chega, em uma emissora que só toca hits. Ela acompanha cada uma das músicas, sejam elas em português, inglês ou mesmo italiano. Não entendo direito o que ela canta, mas acho que é sempre bom ter alguém cantarolando dentro de casa. Eu mesmo já fiz muito isso, hoje ando muito mais calado.

Malu adora meus dois gatos, o Pirulito e a Ritinha, e fico muito constrangido em constatar que este amor não é recíproco. Logo que ela abre a porta, nas manhãs de quinta-feira, o Pirulito se esconde debaixo dos cobertores e a Ritinha pula em cima do armário da cozinha – às vezes ele pula junto, mas é raro (como no caso da foto no alto da página). Só voltam a circular pela casa quando ela vai embora. Eu já expliquei a Malu que eles resistem aos afagos dela porque é ela quem liga o aspirador aqui em casa – e um bicho que dorme 18 horas por dia odeia quem faça barulho por perto.

Isso era tudo que eu sabia sobre a Malu até hoje de manhã, quando ela foi tirar o pó dos sofás. Enquanto batia as almofadas, ela me disse: “Seu Sérgio, o senhor precisa comprar uma nova capa para estas almofadas”. Concordei com ela, dizendo que precisava mesmo, porque as almofadas estavam velhas. “O problema não é que elas são velhas”, Malu respondeu. “Tem muita coisa velha que é bonita. O problema é que elas são feias demais, Deus me livre”. Olhei para ela sem nenhuma resposta pronta, tomei banho e saí para trabalhar.

Não pensem que fiquei chateado com a observação da Malu. Ao contrário, eu adorei. Nem tanto pelo motivo da observação, e sim pela sinceridade com que ela se referiu às minhas velhas almofadas, que talvez sejam feias mesmo. Em seu lugar, eu teria feito mil rodeios, teria dito que talvez fosse elegante substituir as capas das almofadas de vez em quando, que a sala poderia ficar mais alegre, enfim, eu jamais diria que as almofadas de alguém são feias, ainda que fosse isso o que eu estivesse pensando. Confesso que senti uma inveja danada da Malu ao pensar em todas as ocasiões em que eu não fui capaz de dizer não, em que dourei a pílula, em que engoli em seco algo que deveria ter colocado para fora, todas as vezes em que, em nome de uma certa polidez, a gente acaba fazendo papel de bobo. Ninguém aprende a ser tão sincero e direto de uma hora para outra nesta vida, mas se a Malu continuar em casa por mais algum tempo, é bem capaz de eu criar coragem para começar a falar de todas as almofadas velhas e feias que cruzam o nosso caminho...

quinta-feira, outubro 22, 2009

A felicidade de Maria

A faxineira de um amigo é uma mulher negra e solitária. Nunca se casou. Vive em dois cômodos pequenos em Franco da Rocha, município da Grande São Paulo que só é citado na imprensa por seus índices de violência. Para vir trabalhar, no bairro das Perdizes, toma um trem de subúrbio e depois mais dois ônibus. Calculo que, num dia tranqüilo, ela deva gastar duas horas para vir ao trabalho e talvez um pouco mais para voltar para casa, na hora do rush.

Com todas estas credenciais, um dia ela chegou para este amigo e perguntou: “Seu Gustavo, é verdade que tem gente que não é feliz? Eu não entendo isso, como é que alguém pode não ser feliz nesta vida?”

Mais do que em definições filosóficas ou conceitos psicanalíticos, é nesta pequena história que eu penso sempre quando a palavra felicidade – e sua presença ou ausência em nossas vidas – me vem à mente. Maria, se não me engano é este o nome dela, concentra quase todas as particularidades que definem grande parte do trabalhador brasileiro: vive longe do emprego, tem uma remuneração baixa, só entra nos bairros da classe média pelas portas dos fundos e provavelmente sonha em algum dia ter uma casa igual àquela que ela limpa. E como é que Maria responde a tudo isso? Sendo feliz.

Quando me lembro desta história – e me lembro muito dela – imediatamente penso em tudo aquilo que parece ser necessário à nossa felicidade. Um amor, algum dinheiro, a possibilidade das compras, conforto, bem-estar, realização profissional, uma viagem no horizonte, horas dedicadas à leitura e ao lazer, cuidados com o corpo, bons amigos, um doce far-niente e a certeza de que estamos seguros quando passamos a chave na porta. Examino todos estes itens e penso que a maioria deles seja estranha a Maria. Ou desnecessária. Não a conheço, mas desconfio de que sua felicidade dependa apenas de sua capacidade de trabalhar e se manter, de seu otimismo em relação ao mundo e do fato inquestionável de estar viva.

Aos nossos olhos, não digo aos nossos olhos de classe média, mas aos nossos olhos que em algum momento de nossas vidas se tornaram tão insatisfeitos, tudo que faz Maria feliz nos parece tão pouco e, assumamos, quase desprezível diante da nossa imensa sede que não se sacia com quase nada daquilo que temos.

Acho que Maria sim é um livro de auto-ajuda, sem chavões, sem conselhos bobos e sem moralismos a preencher páginas inúteis. Mas algo me diz que sua receita não se ensina.

terça-feira, outubro 13, 2009

O tempo das incertezas

Quando eu tinha entre 12 e 13 anos comecei – como a maioria dos adolescentes, acredito – a ser incomodado por uma série de questões para as quais não encontrava uma resposta satisfatória. Talvez eu pensasse, naquela época e com outras palavras, que a falta de respostas fosse fruto da imaturidade e do pouco, ou quase nulo, conhecimento da vida. Mas me lembro bem de acreditar que quando chegasse aos 18 anos, junto com a carteira de motorista e o livre acesso aos filmes proibidos, viria a maturidade. Os 18 anos chegaram mais depressa do que eu imaginava e não trouxeram resposta alguma. No lugar delas, novas questões.

Encarei este fato com naturalidade. Havia tanta coisa prática a ser decidida que sobrava pouco tempo para indagações existenciais ou filosóficas. Antes de pensar em conceitos como felicidade e realização, havia que se decidir sobre qual profissão escolher, como pagar pelos estudos e como circular com alguma competência pelo mundo dos adultos – esta última ainda a ser resolvida. Achei normal, então, que eu jogasse esta sabatina da vida para os 30 anos, esta sim a idade da maturidade e do conhecimento. Os 30 anos chegaram ainda mais depressa do que os 18 haviam chegado e percebi, já com alguma consternação, que às questões levantadas aos 12 anos haviam-se somado aquelas surgidas aos 18, aos 20, aos 25 e finalmente aos 30. Em comum, todas continuavam sem resposta.

A gente não se dá por vencido tão facilmente. Os tempos modernos nos ensinaram que 30 anos é quase o final da adolescência e algumas certezas só se revelariam agora, na casa dos 40. Desnecessário dizer que os 40 também chegaram e não trouxeram as respostas. Foi então que algo de novo ocorreu neste jogo: a gente finalmente se dá conta de que, ainda que a tentação exista, é inútil esperar que o tempo venha a nos trazer alguma certeza. Acredito que seja neste momento das nossas vidas, neste momento em que a gente assume que o tempo nunca foi nosso aliado de verdade, que se instala em nós uma certa melancolia, ou um certo descrédito. Ou ainda, em casos mais leves, uma certa indiferença. O que não sabíamos aos 12, continuamos sem saber aos 40 e daí por diante, sem o consolo, funcional até agora, de que era possível jogar tudo para frente.

Hoje eu acho que a grande dor da aventura humana não é a morte, a separação, a doença, o abandono ou a frustração e seus derivados. A grande dor da aventura humana é o não saber. Não me refiro ao não saber de fundo antropológico, do desconhecimento do nosso elo perdido, de onde viemos e para onde vamos, da falta de provas de que um dia nos separamos dos nossos antepassados primatas e começamos a sofrer de hérnia de disco porque decidimos andar sobre dois pés.

Eu falo do não saber pequeno, mesquinho, que nos ataca a cada manhã em que nos levantamos da cama sem justamente saber os motivos, por menores ou mais nobres que eles sejam. Falo deste não saber que vai nos acompanhar até o último dos nossos dias: por maior que seja o número de livros lidos, de trabalhos realizados, de amigos adquiridos, de filhos criados, de sucessos e fracassos acumulados e dos incontáveis dias vividos, chegará o momento em que nos olharemos no espelho e nos perguntaremos, afinal, o que estamos fazendo aqui e qual o verdadeiro tamanho da nossa importância neste mundo, se é que existe algum. E não poderemos mais jogar esta pergunta para o futuro porque o futuro, neste dia, não existirá mais. Isto sim é a face da dor, acredito eu agora.

Mas como eu disse que a gente não desiste à toa e dar murro em ponta de faca é a grande especialidade do ser humano, quem sabe aos 70 anos eu venha a ter algumas certezas que não tenho hoje... Não custa esperar. Até porque, passa cada vez mais rápido.

sexta-feira, outubro 09, 2009

Fernanda Montenegro

Na próxima sexta-feira, dia 16, a atriz Fernanda Montenegro chega aos 80 anos. Eu a entrevistei na semana passada, para uma matéria publicada na edição de hoje do jornal Diário do Comércio. Compartilho aqui com vocês alguns momentos da conversa

Seus 80 anos estão sendo considerados como uma efeméride para o teatro brasileiro. Que importância esta data tem especificamente para você?
Fernanda Montenegro: É absolutamente marcante no sentido de que 80 anos é um número que representa o infinito. É o limite a que um homem pode aspirar a chegar com inteireza. Os noventa minutos da minha partida nesta vida já estão transcorridos. Passo, agora, a viver o tempo complementar.

O que você sente ao dizer isso?
Serenidade, até porque não tem outro jeito. É assim o jogo da vida. Mas não há nada de especial ou único nisso. Inúmeros colegas meus estão chegando aos 80 e alguns poucos aos 90. Estamos todos trabalhando sem o caráter de uma exibição circense. Estamos vivos e organizados mentalmente, com produtividade e, acima de tudo, com qualidade artística. Não há mais novidade nisso, o ser humano aprendeu a chegar produtivo aos 80 anos.

Esta qualidade artística a que você se refere é aprimorada com o passar do tempo e o aprendizado?
Nesta vida de artista somos expostos a uma série de experiências, de propostas, de alternâncias estéticas. Só no teatro eu passei por quase 90 espetáculos. Isso garante a qualquer ator uma imensa mobilidade. Desde que você não seja uma pessoa preconceituosa, você pode experimentar tudo, o convencional, o marginal, o alternativo.

Em quais espetáculos você sentiu o peso do marginal ou do alternativo?
A Volta ao Lar, de Harod Pinter, por exemplo, foi um auê em 1967. As pessoas vaiavam e abandonavam o teatro quando minha personagem era humilhada e chamada de prostituta pelo sogro. Também experimentei este universo em textos do suíço Friedrich Dürrenmatt e de Nelson Rodrigues, um autor que joga sempre com a possibilidade da busca. Mas eram tempos em que as coisas ainda chocavam. Hoje nada mais choca.

Você já disse que poucos artistas conheceram este País tão bem quanto você e o Paulo Autran na época em que excursionavam com seus espetáculos produzidos com empréstimos pessoais feitos nos bancos. Fazer teatro hoje ficou mais fácil?
Eu sou uma mambembeira. O ofício do teatro é e sempre será difícil porque ele nunca é solitário. Você não fica num banco de jardim pintando ou escrevendo suas elucubrações sobre a vida. Você precisa se locomover, se associar a pessoas. Uma produção minúscula viaja com no mínimo seis pessoas. Mas as coisas mudaram. Hoje o teatro assumiu um caminho de total dependência do governo, tudo tomou um outro rumo. Infelizmente, o teatro parece não existir mais sem as verbas públicas, já que os ingressos não correspondem aos custos de produção. Este é um assunto sobre o qual poderíamos passar dias conversando. Não é que eu não me sinta disposta a falar sobre isso, mas este assunto consumiria todo o nosso tempo.

Você acredita que criou uma escola Fernanda Montenegro de interpretação? Reconhece seu estilo em jovens atrizes?

Escola? Eu? Não tenho esta pretensão, confesso que nunca havia pensado nisso até este momento. Isso é algo que não ocupa a minha cabeça, de modo algum. Mas, já que você tocou neste assunto, vou começar a reparar no trabalho de outras atrizes. Quem sabe daqui a algum tempo eu lhe telefone para dizer: olha, aquela pergunta ainda está de pé? É que descobri uma.

Você é mãe de dois artistas reconhecidos, a atriz Fernanda Torres e o diretor Cláudio Torres. Que peso isso tem em sua contabilidade de vida?
Eu dei todo mundo para o mesmo ramo. Eles estão fazendo o que querem fazer. São pessoas vocacionadas e, com olhos nem tão maternos, posso dizer que eles têm talento para fazer o que optaram.

Hoje, quando você examina seu extenso currículo, você diria “que bom que fiz aquilo” para que trabalhos?
Que bom que eu trabalhei por tantos anos na Rádio do Ministério da Educação e Cultura no Rio de Janeiro. Que bom que eu fiz a tevê Tupi nos anos 50. Que bom que eu fiz o Grande Teatro Tupi, que durou até 1967, época em que pudemos levar para o grande público os melhores textos de teatro e de literatura. E que ótimo tudo o que eu fiz em teatro.

O ótimo vai para o teatro?
Eu acho que tudo o que fiz no teatro foi ótimo pelo seguinte motivo: algumas peças me deram um excelente resultado artístico e as que não deram me ensinaram como melhorar. Tive momentos consideráveis de qualidade e outros de negatividade. Este é um mural que me honra muito. É um mural que me educou.

Você gosta de trocar experiências com artistas mais jovens?
Gosto muito, e não existe mérito algum nisso. As trocas são importantes porque nós não somos eternos e vivemos a partir da substituição das gerações. Isso é próprio da luta para ser e existir neste métier. Eu preciso saber por quais caminhos os novos artistas estão indo.

Você chega aos 80 anos com algum medo ou pacificada com suas apreensões?
Eu tenho medo. Não se pode chegar aos 80 anos sem medo, principalmente no campo da saúde, ainda que se possa contar com algum tipo de socorro imediato. Há a decadência física, a finitude chegando e você não sabe bem por onde ela virá. Aos 40 anos você começa a pensar que a morte existe. Aos 80, ela é uma realidade. Ela existe e ela virá sempre disfarçada. E, como ela virá disfarçada, você pensa com apreensão sobre o disfarce com o qual ela irá se apresentar a você. Não vivo me autoperscrutandoo, mas a apreensão existe.

domingo, outubro 04, 2009

O que será que me dá?

Confesso que nunca entendi direito qual a diferença entre paixão e amor e, entendo menos ainda, porque estes dois sentimentos aparentemente não podem conviver. Nos artigos e matérias que já li sobre o tema (talvez eu não tenha lido o que precisava) a paixão costuma ser descrita sempre como algo fugaz, sintomático, alguma coisa que parece já ter nascido com os dias contados. Me lembro que um renomado psicólogo há pouco tempo escreveu, em sua coluna num grande jornal, que a paixão dura em média dois anos – como se os nossos sentimentos de vez em quando resolvessem produzir uma bienal. Outros especialistas costumam se referir à paixão como sendo a infância do amor, no máximo sua adolescência – uma fase de trapalhadas, sobressaltos, confusões e uma quantidade de adrenalina que vai muito além do desejável. Já o amor seria a maturidade do sentimento, uma elevação, um nirvana que nos deixaria mais seguros e pacificados. Algo que, com um pouco de sorte, poderia durar a vida inteira e ter somente um único alvo.

O que eu nunca compreendi, realmente, é se a gente não pode estar apaixonado (ou apaixonar-se) pela pessoa que a gente ama. Ou o inverso: não podemos amar aquela pessoa por quem nos apaixonamos? Os manuais de psicologia parecem dizer que não: ou é uma coisa ou outra. Ou a serenidade do amor ou o fogo da paixão, pois nesta aritmética de possessão, as duas coisas não podem habitar o mesmo corpo.

No fim da tarde do sábado, eu estava tomando um café na Vila Madalena com um amigo. O celular dele tocou – e sempre que isso ocorre, sei que vai demorar um bocado para ele desligar. Não que ele seja mal-educado, talvez seja apenas ocupado, ainda que numa tarde fria de sábado. Enquanto ele falava ao telefone, reparei que na mesa ao lado três garotas tentavam definir o que uma quarta estava sentindo. Como não ouvi o início da conversa, imagino que esta quarta garota tivesse contado de seu recente interesse por um carinha. Então uma delas perguntou: “Mas o que você está sentindo? É paixão ou é amor?”

E ela cometeu a insensatez de dizer que não sabia. A segunda garota, um pouco mais alterada, emendou: “Como não sabe? Todo mundo sabe isso. Ou é paixão ou é amor. Você precisa saber o que é”. Ela tentava explicar que gostava de sair com o cara, estava curtindo este início de relacionamento, as coisas pareciam caminhar bem e, por isso, preferia deixar rolar. A terceira garota, até então calada, resolveu colaborar. “Então talvez não seja nem amor e nem paixão. Acho que é só sexo”. A primeira garota, incomodada com a falta de diagnóstico, prosseguiu. “Ainda que seja só sexo ela precisa saber o que é. Suas pernas tremem quando ele chega perto?” A garota sabatinada respondeu que um pouco. Acrescentou que ainda ficava um pouco vermelha, sem assunto e a garganta parecia secar. Como se tivesse acabado de diagnosticar um caso de gripe suína, a primeira garota respirou aliviada. “Ah, são todos os sintomas da paixão. Pronto, é isso que você sente”.

E, com isso, parece ter resolvido o problema da amiga. Ou, quem sabe, colocado um ponto final numa fase prazerosa para a qual a jovem não estava a fim de procurar nenhuma definição. Ela saiu para tomar um café e, aparentemente a contragosto, voltou apaixonada para casa. Meu amigo desligou o telefone, pediu outro café e retomamos nosso assunto que, pelo que me lembro, era bem menos interessante que o papo das garotas. Eu voltei para casa sem entender direito, ainda, o que é amor e o que é paixão. Mas eu prefiro assim. Se alguém souber a diferença exata, por favor, não me conte.

quarta-feira, setembro 30, 2009

Cleyde Yáconis

Tenho um amigo chamado André Fusko. Ele é ator e médico - exerce este segundo ofício com invejável profissionalismo, mas o conheço bastante bem para dizer aqui que seu sonho seria poder viver daquilo que o palco tem a nos oferecer. Em 2006, Fusko participou, ao lado das atrizes Cleyde Yáconis e Maria Manoella, da belíssima montagem de Cinema Éden, texto da francesa Marguerite Duras encenado por Emilio di Biasi no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil.

Pois ontem à noite encontrei o Fusko na cerimônia em que o Teatro Cosipa, na estação Conceição do metrô, passou a se chamar Teatro Cleyde Yáconis. Tive a honra de ser convidado para escrever o roteiro da festa, mas não é sobre isso que quero falar. Quero falar que estavam presentes ao evento grandes amigos de Cleyde, atores e diretores que ela conhece de longa data. Após seu pequeno discurso no palco (Cleyde odeia este tipo de celebração), houve um coquetel no saguão do teatro, em que ela foi disputada por dezenas de fotógrafos, repórteres, cinegrafistas e fãs. Magra e elegante, ela se locomovia com dificuldade por entre tantos flashes. E então ela viu André Fusko no meio daquela gente toda.

Caminhou até ele, abriu os braços, sorriu e perguntou: "Oi, André, você se lembra de mim?"

Gostaria que todos os blogueiros, tuiteiros e jovens artistas que não fazem outra coisa na vida a não ser falar dos seus próprios umbigos tivessem testemunhado esta pequena prova de humildade e generosidade de uma atriz fantástica que, aos 86 anos e na noite dedicada a ela, pergunta a um jovem ator se ele se recordava de um dia ter trabalhado com ela. Que pena que vivemos num mundo de poucas Cleydes e muitas celebrities de última hora.

sexta-feira, setembro 25, 2009

À francesa

No intervalo de apenas seis dias tive o prazer de assistir a duas peças da escritora francesa Marguerite Duras em São Paulo. Demorei um pouco para escrever sobre isso porque fiquei pensando se haveria algo em comum entre os dois textos, escritos com um intervalo de vinte anos e, cada um ao seu modo, testemunhas de um mundo em transmutação.

La Douleur, de 1945, narra a terrível espera da escritora pela libertação de seu companheiro Robert D., levado pelos nazistas para o campo de concentração de Dachau, na Alemanha. O monólogo foi apresentado em São Paulo em apenas dois dias, 12 e 13 de setembro, diante de um público extasiado no Teatro do Sesc Anchieta. Mirrada e magnética como uma Edith Piaf, a atriz francesa Dominique Blanc, dirigida por Patrice Chéreau, fez de La Douleur uma pequena descida aos infernos sem previsão de retorno. Ao inferno da dor, já presente no título, mas também ao inferno da espera, da angústia, da separação e principalmente da proximidade da morte.

Conversei sobre este texto com um amigo médico, leitor voraz e eternamente insatisfeito. Ele me disse que foi apresentado a este livro de Duras por um professor de clínica médica, que um dia surpreendeu os jovens estudantes com a declaração de que se eles quisessem entender a dor humana, deveriam ler La Douleur e não os livros de medicina. “Nenhum autor médico conseguiu chegar tão perto da descrição da dor quanto ela”, disse o professor. “Leiam e vocês entenderão até onde pode chegar o sofrimento humano”. Ele leu – e me garantiu que o professor tinha razão.

Ainda sob o impacto de La Douleur, que deixou várias pessoas prostradas na poltrona quando o espetáculo terminou, fui ver La Musica, que Marguerite Duras escreveria bem mais tarde, em 1965, já superadas as dores da guerra e na antessala da chegada do feminismo. La Musica, em cartaz no Tuca Arena, fala de um casal que se reencontra três anos após a noite da separação apenas para assinar a documentação do divórcio. Conversam aproximadamente das seis da tarde às três da manhã – um diálogo interrompido por três telefonemas, dois da nova parceira do homem e um do novo parceiro da mulher. Sim, nestes três anos eles refizeram a vida, mas de uma maneira que o público chega a pensar que seria melhor se não tivessem refeito.

E então eu entendi que os dois textos falam, acima de tudo, da separação, talvez mais do que da própria dor. No caso de La Douleur, a separação imposta por um mundo em guerra; em La Musica, a separação como consequência de pessoas motivadas por uma guerra mais particular, alimentada por pequenas traições, intransigências, fadiga, rotina e descaso. E, com suas palavras certeiras e impressionantemente precisas, Duras parece querer dizer que os bombardeios, sejam eles despejados dos aviões ou das bocas dos amantes, têm poderes igualmente letais.

La Douleur é um texto de sofrimento escancarado, imediato e reconhecível. La Musica, e agora isso me parece muito claro, traz a dor camuflada pela civilização cuja ausência permitiu justamente o nascimento do texto anterior. Talvez eles se complementem, talvez tragam um ponto de vista trágico e outro mais cotidiano sobre a dor da separação, sobre aquele hiato em que o amor num caso e a diplomacia no outro falharam. Talvez seja muito mais que isso. Ou talvez seja muito mais simples. É possível que os dois textos queiram mostrar apenas que viver sempre dói, em tempos de guerra ou de paz. E que não há receita possível para evitar isso, a não ser a nossa disposição de acreditar em alguma redenção possível.

quinta-feira, setembro 17, 2009

O último entre tantos adeus

Na manhã desta quinta-feira minha tia, única irmã da minha mãe, morreu aos 81 anos. A morte de hoje, ocorrida às 8h30, foi sua segunda morte. Ou sua morte oficial, aquela que constará nas certidões e atestados. Vítima de Alzheimer, ela já estava morrendo há pelo menos seis anos. Para seus filhos e netos, é bem provável que a morte tenha ocorrido inúmeras vezes ao longo dos dolorosos episódios em que ela foi apagando cada um deles da sua memória. A mulher idosa e macérrima que cerrou os olhos pela última vez na manhã de hoje já havia se convertido em uma espécie de fantasma em uma data que talvez ninguém se lembre exatamente qual – até porque foram tantas. Uma para cada pessoa que um dia escapou para sempre de suas lembranças.

Como vivíamos em cidades diferentes, não acompanhei de perto seu processo degenerativo. Mas aprendi que o Alzheimer é uma doença de inúmeras faces – algumas delas muito peculiares, até. Um doente de câncer é sempre um doente de câncer – e não parece haver nada de engraçado nisso. O Alzheimer, não. Antes de revelar sua faceta mais aterradora, é uma doença que transforma sua vítima, logo nos primeiros sintomas, em uma atração para a família. Confesso que era difícil ocultar o riso – ainda que fosse um riso piedoso – diante da visão da minha tia plantando e regando flores de plástico, aquecendo o telefone celular dos netos dentro do microondas até que eles explodissem ou tentando fazer um suco de laranja com o secador de cabelos. Até então, achávamos apenas que era uma pessoa com pouco mais de 70 anos compreensivelmente alheia a um mundo cheio de aparelhos tecnológicos. Como se fosse uma criança, talvez ela apenas não soubesse o que fazer diante de tantos aparelhos que a tecnologia, os filhos e netos haviam trazido para sua casa. Mas esta “infância” do Alzheimer dura pouco.

Depois da confusão com os objetos, veio uma fase, ainda mais inquietante, em que ela era invadida por ondas de intenso desejo sexual. Maquiava-se, tomava vários banhos por dia, recorria a velhos frascos de perfume para esperar pela chegada de um namorado misterioso, com quem ela iria “rosetar” a noite inteira. Recorri ao Aurélio. Rosetar: divertir-se às pampas com alguém do sexo oposto. A doença parece ter desenterrado nela um apetite sexual que seu marido, um pouco mais velho e já bastante doente, jamais seria capaz de dar conta. E então percebemos que não havia nenhuma contradição, física ou moral, em seu irrefreável desejo pelo sexo: dentre todas as pessoas próximas, o marido foi a primeira de quem ela se esqueceu. Uma tarde, ao sair do quarto arrumada e de batom nos lábios, ela viu o marido deitado no sofá. Olhou para os filhos e perguntou: quem é este velho que está dormindo na minha sala? É seu marido, responderam os filhos. Eu sou solteira, ela respondeu. E se tivesse de me casar, não seria com um homem tão velho e feio como este aí. Neste dia, se ainda havia alguma picardia na doença, ela foi embora.

E então começaram a vir os episódios mais tristes. Em meio às suas constantes crises de choro, ela dizia sempre que queria voltar para casa. Não adiantava dizer que aquela era a casa dela. Chorando e diante dos portões já com cadeados, para evitar sua fuga, ela procurava pela sua casa de infância. Tinha no rosto a impressão de uma criança perdida. E então, um a um, ela foi apagando os cinco filhos e cada um dos tantos netos. Foi falando cada vez menos, o olhar foi se tornando mais estranho e inquisidor, as pessoas ao seu redor já não lhe diziam mais respeito.

Até então, não tinha visto minha mãe chorar por causa da minha tia – talvez porque minha mãe fosse a única pessoa de quem ela ainda se lembrava. Mas, numa tarde de domingo, minha tia olhou bem para minha mãe e disse: Já está na hora de você se casar e ter filhos. Você não pensa em arrumar um marido?”. Minha mãe respondeu que já era casada, tinha dois filhos e uma neta. E fez a pergunta que finalmente trouxe as lágrimas aos seus olhos: Você não sabe quem eu sou? Minha tia olhou para ela e respondeu simplesmente: Não.

Nos meses e anos seguintes, ela foi mergulhando em um silêncio cada vez mais impenetrável. Já não andava mais, apresentava várias escaras pelo corpo e na segunda-feira à noite parou de comer. Morreu nas mãos dos enfermeiros enquanto estava sendo ligada a sondas e outros aparelhos totalmente inúteis. O adeus que lhe deram nesta manhã cinzenta de Jundiaí ainda foi o mais dolorido. Mas para todos aqueles que acompanharam o seu descomunal sofrimento, estava longe de ser o único.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Data de vencimento

Há alguns dias eu compartilhava uma mesa de bar com dois amigos. Um deles estava bem, como pareceu estar sempre bem ao longo de todos estes anos que a gente se conhece. O outro estava um caco. Tinha acabado um namoro de quase um ano, chorava na nossa frente e dizia ter certeza de que aquela mulher de quem ele começava agora a se afastar era a mulher da vida dele. Eu nunca sei bem o que dizer diante de alguém que chora. É como se as lágrimas brotassem de algum lugar aonde as palavras não chegam. Eu prestava muita atenção ao que o amigo dizia, tentava compreender sua dor e, por algum motivo qualquer, achava que ele tinha razão. Naquele momento – e ainda que aquele momento não viesse a durar para sempre – a mulher por quem ele chorava era mesmo a mulher da vida dele.

O outro amigo, cuja praticidade eu sempre invejei, ouvia tudo calado como eu, movimentando apenas o braço direito, que levava o copo de chope até a boca. Então, quando o desabafo do nosso amigo triste parecia ter chegado ao fim, ele pediu a palavra para dar seu surpreendente diagnóstico – que depois eu cheguei a me perguntar se seria sempre este o diagnóstico masculino.

- Chore mesmo – disse o amigo prático. - Chore e esperneie tudo o que você tem de espernear. Sofra, pragueje, vá ao fundo da sua dor. Mas calcule um tempo exato para este sofrimento: um mês, a contar de hoje. Daqui a um mês você deve se levantar, olhar para o espelho e dizer: agora acabou. Vou partir para outra porque esta dor ficou antiga. Chega de sofrer por isso.

Eu, que já estava quieto, resolvi me calar ainda mais, na tentativa de acreditar que fosse possível estipular um prazo para o fim da dor. Depois pensei muito no que tem sido a vida deste amigo prático durante todos esses anos que o conheço. E tive de admitir que ele sempre seguiu à risca seu próprio conselho. Não importava o tamanho do amor ou do luto, do prazer ou da dor: uma manhã qualquer ele levantava e decretava o fim daquilo que sentia.

Nunca acreditei que nossa supremacia sobre os sentimentos pudesse chegar a este nível. Reagir à dor é possível – mas que possível, talvez seja saudável. Quanto a dizer em que momento ela deve terminar, isso eu já não sei. Se pudéssemos controlar a dor com tanta aritmética, talvez pudéssemos fazer o mesmo em relação ao amor, à saudade e a tudo aquilo que faz de nós ser o que somos. Depois pensei se haveria teatro, literatura, cinema e música se a dor tivesse prazo de validade. Pensei em todas as peças, filmes e livros que só nasceram porque a dor e o amor fugiram totalmente do controle de algum autor. Talvez nós estejamos aqui porque um dia o amor e o desejo fugiram ao controle dos nossos pais.

E se eu soubesse que o que eu sinto agora poderia ser controlado daqui a um mês, acho que eu não seria nada e nem ninguém. Talvez um boleto bancário, talvez um calendário preso na parede, no máximo um aviso colado na porta da geladeira. Eu acho que a gente é bem mais do que isso porque a nossa dor e o nosso amor vão sobreviver mais do que um mês. Vão sobreviver a nós mesmos.

segunda-feira, setembro 07, 2009

Gurus

Leio hoje que o psicanalista e escritor Augusto Cury, autor de inúmeros best sellers, entre eles O Código da Inteligência, atualmente em terceiro lugar na lista dos mais vendidos na categoria "Autoajuda e Esoterismo" é o guru da senadora Marina Silva, provável candidata do PV à presidência da República. Confesso que nunca li um livro inteiro do Augusto Cury - um dia, enquanto esperava por um voo no aeroporto de Congonhas, entrei numa livraria e fiquei lendo capítulos esparsos de um de seus incontáveis títulos, agora não me recordo qual.

Pelo que me lembro da leitura, esta notícia me deu uma tristezinha. Sempre achei esta história de guru meio babaca. Eu penso que se a gente devesse seguir algum guru da área da literatura, esse alguém deveria ser um Philip Roth, um Ian McEwan, um Coetzee (isso para ficar entre os vivos, pois guru vivo deve funcionar melhor), um Paul Auster ou um Milton Hatoum, se fosse o caso de prestigiar um guru nacional. O problema é que eles talvez não aceitassem ser guru de ninguém - descrentes que parecem ser deste ramo de atividade....

Enfim. Se o assunto é religião, futebol e agora guru, a gente tem de respeitar todo mundo, né? Desde que a gente não precise ler nada dos gurus alheios, aí já seria pedir demais.

domingo, setembro 06, 2009

Aconteceu na casa ao lado

Fui almoçar com meus pais há alguns dias. As conversas entre aqueles que não se veem com tanta frequência, ainda que sejam pais e filhos, levam um certo tempo para engatar. Primeiro é preciso dar conta de questões corriqueiras como o trabalho, a rotina, o que cada um de nós fez desde a última vez em que nos vimos, para só então entrarmos naquilo que realmente nos toca mais. E, deste último encontro, sei que não poderia ter saído mais tocado.

Minha mãe contou, com alguns detalhes que não se fazem necessários aqui, de um verdadeiro drama enfrentado por um casal de vizinhos, pais de um garotão de 16 anos que no domingo tentou o suicídio ingerindo cerca de 70 comprimidos de vários gêneros de medicamentos. Quando a mãe entrou no quarto, ele já estava desfalecido. Chegou ao hospital em estado grave, passou por uma série de procedimentos de desintoxicação e ressurreição (desconheço os termos exatos) e precisou ser levado para a UTI, onde permaneceu por dois dias. Quando eu soube desta história, ele já estava em recuperação no quarto do hospital. O pai permanecia ao lado dele havia 72 horas ininterruptas, dividido entre a guarda e o desespero.

“Ele sempre foi um menino tão diferente dos outros”, disse a minha mãe. “Ele sempre teve paciência e atenção com os mais velhos. Eu saio na rua e os meninos desta idade mal me olham. Ele, não. Toda vez que me via, parava para perguntar como eu estava e se tudo corria bem aqui em casa”.

Mais que o relato da tentativa do suicídio, o que me pegou de jeito foi justamente esta observação da minha mãe... um menino tão diferente dos outros. Diferente em quê, fiquei pensando. Na atenção, na delicadeza, na aparente importância com o próximo, na sensibilidade e na preocupação com o bem-estar alheio? Em pequenos gestos e sentimentos que talvez não encontrem muito mais lugar no mundo? Se eu o conhecesse, talvez a única coisa que lhe dissesse seria esta: calma, porque por mais que pareça, você não está sozinho. Ainda há, felizmente neste mundo, muitas pessoas que cultivam e dão valor a tudo aquilo que torna você diferente aos olhos dos outros. Se é que este seja realmente o problema. Se é que alguém algum dia vai detectar e entender o problema. Se é que o problema poderá vir a ser solucionado. Se é que o problema ao menos exista.

Ah, e ele gosta muito de livros. Vinha, uma vez por semana, emprestar algum livro do meu irmão – a quem chamava também de senhor. Na semana seguinte, devolvia o já lido e perguntava se havia algo de novo que ele pudesse levar.

Durante a semana, liguei para minha mãe apenas para saber do garoto. Ele tinha tido alta, os pais já estavam procurando a ajuda de um psicólogo ou psiquiatra. Minha mãe contou que havia se encontrado com o avô dele no dia anterior. O homem estava invadido pela dor e pela insegurança; é seu único neto. “Ninguém entendeu ainda o que aconteceu”, disse o homem. “Ele fez uma festa de aniversário para comemorar os 16 anos e, dois dias depois, isso. Agora nós temos tanto medo, a gente vai ter medo para sempre porque a gente nunca mais vai saber o que fazer”, completou...

A gente nunca mais vai saber o que fazer....

sexta-feira, setembro 04, 2009

Isso não pode, filhinha. Mas eu queroooooooooooooooo

Todo mundo já deve ter se deparado com uma criança voluntariosa que faz questão de ter absolutamente tudo. Talvez nós tenhamos sido uma criança assim, talvez tenhamos abrigado uma criança assim em nossa família, talvez uma criança assim tenha crescido muito perto de nós, sem conhecer limite algum, incansável em sua meta de obter aquilo que ela julga essencial para satisfazer o seu desejo. Ainda que o objeto deste desejo não tenha importância alguma, a tal criança briga pela posse, esperneia no supermercado, faz escândalo na loja, empaca na rua como se fosse um pequeno animal teimoso. Por mais que os pais tentem explicar que para tudo nesta vida existem certos limites, que a satisfação do desejo infantil, ainda que legítimo, deve obedecer a algum padrão, ou ético ou econômico ou utilitário, a criança não ouve. Ela quer porque quer, simplesmente assim.

Nada pode obstruir o caminho entre ela, a criança, e o objeto do seu desejo. Se ela não consegue pelas vias normais do pedido ou da necessidade, então ela grita, então ela berra, então ela adoece, então ela chantageia, então ela faz conchavos inacreditáveis para a pureza de uma alma infantil, então ela implora para os tios, então ele roga para os avós, então ela joga os pais contra tios e avós, então ela se alia ao irmãozinho de quem sempre manteve distância, então ela quebra o cofrinho das moedas, então ela falta na escola, então ela vomita, então ela pisa no rabo do gato e dá vassouradas no cachorro, então ela se torna impossível. Aí, após desafiar todos os conceitos da integridade, é possível que ela consiga o que tanto queria. É possível que os pais, por fim incapazes de controlar aquele pequeno furacão que um dia eles geraram, joguem a toalha; a criança, vitoriosa, do alto de sua caminha poderá então ver o mundo de cima, como sempre quis.

Talvez Dilma Rousseff tenha sido uma criança assim. Ao ver hoje, na Folha de S. Paulo, a foto da ministra de mãos dadas com o apóstolo Estevam e a bispa Sônia, que até ontem mesmo estavam presos nos Estados Unidos, acusados de tentar entrar no país com uma bolada de dólares escondidos na bíblia e no corpo do netinho, eu fiquei com ainda mais medo do tamanho da ambição desta mulher. Como a criança imaginária dos dois parágrafos anteriores, ela não conhece obstáculo capaz de afastá-la da cadeira que hoje é de Lula. O problema, nesta história toda, é que Dilma já é bem crescidinha e, pelo visto, não existe mais ninguém por perto para lhe dizer: que coisa feia, senhorita, isso não se faz porque não é certo e o papai não gosta. No caso de Dilma, o “papai” gosta e faz coisa ainda pior.

terça-feira, setembro 01, 2009

Twitter

Adoro o Twitter. Estou viciado no Twitter. Não por que esta nova ferramenta da Internet contribua de forma valiosa para aprimorar a nossa cultura geral – creio que 90% do que escrevemos ali poderiam ir diretamente para o grande lixo do cosmos sem prejuízo algum para a humanidade. Eu adoro o Twitter porque ele me proporciona os mais singelos momentos de prazer que eu já experimentei desde o advento da Internet: bloquear alguém é quase tão gostoso quanto desligar o rádio quando a Ana Carolina ou a Zélia Duncan começam a cantar. O problema é que se trata de um prazer tão legítimo que vicia. Se eu passar um dia inteiro sem bloquear alguém no Twitter, começo a suar frio, a boca seca, a pressão cai e sou acometido por náuseas incontroláveis. Então, tenho de parar o que estou fazendo e correr ao Twitter para bloquear alguém que tenha postado, por exemplo, que naquele dia a mãe faz aniversário. Bloquear este usuário deve ser tão gostoso quanto o cigarro depois do cafezinho – no mundo em que ainda era possível fumar, é claro.

Devo contar para vocês em que circunstâncias o vício me dominou. Eu passei a fazer parte do Twitter depois que minha amiga Bárbara Oliveira, jornalista da área de informática, me apresentou a esta ferramenta. Eu não tinha a mínima ideia de como o Twitter funcionava e a que ele se prestava, mas fiz minha inscrição. No final daquele dia, eu já tinha cinco seguidores. Achei um luxo. Duvido que a bispa Sônia tenha convencido cinco evangélicos a segui-la logo em seu primeiro dia. A Bárbara então me explicou que, para que meu número de seguidores aumentasse (como se isso tivesse algum valor na vida da gente!), eu deveria começar a seguir muitas pessoas. Foi o que eu fiz. Passei uma tarde fuçando nas páginas dos meus amigos em busca de gente bacana para seguir. Eu não sabia que, naquele momento, estava abrindo minha casa para o inimigo. Em poucos minutos os comediantes do CQC começaram a dominar meu computador com informações tão úteis como a relação das cidade em que eles estavam levando seus shows de stand-up comedy à cor da camisa do motorista de táxi que os havia apanhado no aeroporto. Então pensei: mas é para isso que serve o Twitter?

Vindo em meu socorro, um amigo me explicou que era possível me livrar para sempre desta legião de chatos: bastaria que eu os bloqueasse. Senti um misto de alívio e culpa. Bloquear um usuário, naquele momento, me parecia tão deselegante quanto convidar alguém a se retirar da sua casa. Então resolvi fazer um teste: bloqueei o mais chato entre todos os apresentadores do CQC (escolha difícil). Depois de despachá-lo para o cemitério dos exibidos, voltei para minha página do Twitter e senti então um gozo indescritível: não é que suas mensagens nunca mais iriam aborrecer o meu dia, muito melhor que isso – tudo que ele havia escrito tinha miraculosamente sumido da minha tela. Foi uma sensação tão boa que resolvi dar um segundo gole nesta cachaça – e mandei outro comediante sem graça do CQC fazer companhia ao seu chefe. E depois eu mandei um terceiro, um quarto até que, quando vi, não restava mais nenhum deles na minha grade de programação caseira.

Então me vi diante de um dilema. Bloquear desconhecidos chatos é fácil e indolor. Mas como reagir diante da possibilidade de fazer o mesmo com alguém que você conhece, que sabe o número do seu telefone e freqüenta sua casa? Passei dias batendo a cabeça pelas paredes, como um noia em processo de abstinência. Então um outro amigo me socorreu. Eram 16h quando ele escreveu assim no Twitter: “Hum, são 16 horas e estou com uma fominha....Agora são 16h10 e acho que vou fazer uma comidinha. Que delícia esta comidinha que estou comendo às 16h30. Puxa, são 16h40 e minha fominha passou. Acho que vou tirar um soninho”. Mal sabia ele, coitado, que no meu Twitter ele acabava de ingressar no sono eterno. Ele foi embora mais silenciosamente do que nasceu. E então comecei a dar o mesmo destino aos que dizem que vão cortar a unha, aos que vão levar o gato tomar banho no veterinário, aos que vão abrir a geladeira para tomar um todinho, aos que só sabem fazer auto-promoção e, principalmente, aos que postam mais de dez comentários por dia – um mais irrelevante que o outro. Bloquear estas pessoas é como eletrocutar mosquitos naquelas raquetes elétricas.Tshhhhhhhhhhhh – e lá se foi mais um chato, sem deixar rastros de fumaça. Como o Twitter é higiênico.

Sei que este pode parecer um post antipático, paciência. E sei, também, que eliminar os chatos do mundo virtual serve apenas como paliativo para quem não consegue apagar as chatices do mundo real. Mas o que seria de nós sem os paliativos? Acima de tudo sei que, ao ler este post, é bem provável que alguns dos meus seguidores corram ao Twitter para me deletar. A eles, gostaria de dar o seguinte recado: se, ao ser deletado eu puder fornecer a vocês o mesmo prazer que eu sinto quando deleto outros chatos, meu dia já terá valido a pena. Fiquem à vontade e vejam o quanto é bom!

quarta-feira, agosto 26, 2009

Pas-de-deux

Hoje eu me lembrei de uma história antiga e senti vontade de compartilhar com vocês. Um dia, quando eu estava no Exército (um aviso aos incrédulos: eu sou cabo do Exército Brasileiro, tá?), chegou a notícia de que receberíamos a visita de um general quatro-estrelas. Para quem nunca pisou num quartel, talvez isso queira dizer pouca coisa. Mas a aparição de um general quatro-estrelas a uma unidade do interior, em que a autoridade máxima era representada por um capitão, deve ser algo equivalente a um evangélico depositar seu dízimo nas mãos do próprio Edir Macedo: uma concessão de deus na terra.

Acho que só a notícia de uma guerra contra os Estados Unidos deixaria os oficiais mais nervosos do que esta visita do general, marcada para a semana seguinte. Começou um tal de cortar a grama, pintar as paredes, lustrar os fuzis e pistolas, dar brilho nos coturnos, ensaiar o Hino Nacional e a Canção do Exército e raspar ainda mais os cabelos que qualquer um que visse aquela loucura toda poderia jurar que se tratava de algum teste para um novo musical do Jorge Takla. Tínhamos de estar lindos, limpos, afinados e muito, acima de tudo bem preparados fisicamente, pois era bem provável que o general quisesse assistir a uma sessão de educação física.

Assim, dois dias antes da chegada do general, o tenente encarregado do nosso condicionamento resolveu incrementar as sessões de educação física com uma série de movimentos até então inéditos para nós. Eu não sabia que, justo naquela tarde, aprenderíamos uma nova coreografia para encantar os olhos do general. Como eu estava com dor de garganta, resolvi dar um balão: me escondi em um dos banheiros do quartel e passei uma hora lá, imóvel e silencioso, enquanto meus companheiros decoravam os novos passinhos. Quando a sessão de ginástica terminou, saí do banheiro com os trajes da educação física e me misturei rapidamente à tropa, como se tivesse feito parte da aula. Um soldado descobriu meu truque e vaticinou: “ Roveri, você tá fodido. A educação física agora é todinha diferente e você não aprendeu.”

Tarde seguinte, último ensaio antes da chegada do quatro-estrelas. Eram 142 soldados na quadra, calções azuis, camisetas brancas e tênis preto sem meias, esperando pelo comando do tenente. A cada apito do homem, a tropa executava um determinado movimento ensaiado na tarde anterior. E eu errei absolutamente tudo. 141 soldados olhavam para a direita e eu para a esquerda; 141 soldados caíam de bruços para a flexão de braço e eu pulava no polichinelo... Ao ver o meu estranho deslocamento no meio daquele batalhão tão bem ensaiadinho, o tenente parou a sessão, subiu numa arquibancada e gritou: “Soldado Roveri, você não é uma bailarina!”
Silêncio na tropa; as gargalhadas são tão proibidas na caserna quanto a admiração pelo comunismo. A muito custo, consegui terminar a sessão e corri envergonhado para o alojamento.

Enquanto eu pegava a toalha para ir ao banho, um grupo de dez soldados se aproximou de mim, comandado pelo recruta Fagundes, número 411 (eu era número 312). Fagundes me encarou seriamente, colocou a mão no meu ombro e disse: “Roveri, eu fui escolhido como representante do batalhão. Eles pediram para que eu desse um recado a você”. Fiquei mudo, porque nunca tinha visto nada parecido no quartel. Imaginei que ele fosse me dizer que eu tinha ferrado toda a sessão de educação física e levaria um gelo dos colegas por isso. Mas ele queria me dizer algo bem diferente. Eis aqui o que era: “Soldado Roveri”, continuou formalmente o amigo Fagundes, “o tenente não sabe reconhecer um talento e você não deve dar bola para o que ele disse. Para todos nós deste quartel, você é sim uma grande bailarina”.

Fofoqueiro

Hoje eu almocei sozinho em um restaurante aqui perto de casa. Almoçar sozinho não está entre meus programas prediletos, mas é nestas ocasiões que costumo praticar um pecado indefensável: prestar atenção na conversa alheia. Com o tempo, a gente desenvolve alguns métodos muito sutis de exercitar esta completa falta de educação. O mais eficaz deles também é o mais simples. Ele consiste em jamais olhar na direção de onde vem a conversa. Quem já parou um minuto para observar gatos e cachorros, sabe do que estou falando. Eles giram a orelha na direção de onde está vindo o som, sem mover a cabeça. É uma maneira muito elegante de ser indiscreto e curioso. Não sei mexer a orelha como os cães e gatos, mas com o tempo a gente aprende a apurar a audição e ouvir somente aquilo em que está interessado.
Bom, depois desta introdução desnecessária, reproduzo aqui o diálogo que ouvi enquanto comia meu estrogonofe com arroz e salada de alface. Dois caras estavam sentados em uma mesa atrás da minha. Deviam ser músicos, porque só falavam sobre gravadoras, selos e instrumentos. Acredito que não eram músicos muito produtivos, pois fazia cinco anos que não gravavam nada. Nisso entrou no restaurante um amigo deles, mais sóbrio, de terno e gravata escuros, que veio animado até a mesa para cumprimentá-los.
- Pô, que coincidência encontrar vocês aqui - disse o recém-chegado enquanto abraçava um dos caras que havia se levantado para recepcioná-lo. - E aí, alguma novidade?
- Sim - respondeu o rapaz que se levantou. - Eu estou envolvido num projeto super bacana. Mas não vou contar para você porque não quero que se espalhe.
O cara ficou meio sem graça, perguntou como ia o casamento do amigo e depois correu para procurar uma mesa bem longe deles. E os outros dois continuaram alegremente sua conversa sobre batidas, percussão e a dureza do mercado fonográfico.
Almoçar sozinho é chato, mas às vezes a gente volta pra casa com uma pérola no bolso.

quinta-feira, agosto 20, 2009

Marina Morena você se candidatou...

Hoje eu li na Folha que a Ivete Sangalo foi cantar na entrega do Prêmio Multishow de Música e mobilizou toda a quantidade de álcool disponível no Rio de Janeiro. A produção teve de passar álcool no microfone, nos corredores, nas maçanetas, nos interruptores, nas torneiras, no palco, nos fones de ouvido e desconfio que até em quem tentou chegar perto dela. Tudo por que ela, grávida de sete meses, queria ficar longe do risco de contrair gripe suína. Então eu pergunto: não era mais fácil e mais seguro ficar em casa? Mas quando a gente fica em casa não vira notícia, né? Então vamos comprar muito álcool e cair na vida....

A única alegria que o mundo político nos deu ontem foram as declarações da senadora Marina Silva. Falta ainda muito tempo para a eleição presidencial. Mas eu já tenho candidato. Sim, ela mesma: a acreana Marina, a dona de um dos discursos mais lúcidos, inteligentes e acima de tudo humanos que eu tenho ouvido nos últimos tempos. Tão diferente do discurso daquela outra mulher que também se diz candidata e que eu nem quero dizer o nome dela aqui, porque eu gosto muito do meu bloguezinho e tenho o maior cuidado com as pessoas que eu resolvo citar.Para aquela mulher, eu só desejo que ela fique bem de saúde e possa curtir dias ensolarados em São Luiz do Maranhão, em companhia do José Sarney, a quem ela parece se identificar e defender com unhas e dentes - bem ao gosto do seu patrão barbudinho. Quanto a este, além de preferir não dizer seu nome pelos próximos dias, eu gostaria mesmo de esquecer que passei 20 anos da minha vida, religiosamente, digitando o número 13 na urna eletrônica sempre que sua cara aparecia na telinha. Hoje, quando sua cara agora antipática aparece na telinha, em qualquer telinha, eu mudo de canal. Ou saio correndo. Nem mais como piada ele serve. Que vá embora logo.

sábado, agosto 15, 2009

Bate e volta

Durante todos estes anos como jornalista, tive a chance – ou seria melhor dizer a sorte? – de entrevistar pessoas muito interessantes. Algumas delas, inesquecíveis. E o interesse, neste caso, não tem a ver necessariamente com fama. Eu me recordo de entrevistados marcantes que eram pessoas comuns, gente anônima que, por necessidade da pauta, se prestava como personagens para as matérias. Um destes personagens foi um senhor que jogava vôlei na unidade do Sesc Pompeia. Era uma matéria sobre atividades físicas na terceira idade. Fui até a quadra, vi o finalzinho do jogo e escolhi aquele senhor ao acaso. Como Sartre dizia: a última palavra é sempre do acaso.
Resumidamente, a história do homem era a seguinte: ele estudava num seminário e estava prestes a ser ordenado padre quando viu um padre idoso e doente desesperado diante da proximidade da morte. O velho padre, ele me contou, se agarrava à cama de maneira quase histérica, gemendo que não queria morrer de jeito nenhum. Então ele, o entrevistado, perguntou ao enfermo: “Mas padre, pense que o senhor está indo ao encontro de Jesus. O senhor nos ensinou a esperar a vida inteira por este momento e agora, quando este momento chega para o senhor, o senhor fica assim, tão apavorado?” E o velho padre então lhe respondeu: “Você acha que em algum momento eu acreditei nestas coisas que eu ensinava a vocês? Você acha que eu acredito que vai ter um Deus me esperando? Não vai ter nada. Acaba tudo aqui”.
No dia seguinte, meu entrevistado fez as malas e abandonou não apenas o seminário, mas também o catolicismo. Ele me contou muito mais de sua vida, a profissão de farmacêutico que ele escolheria depois, uma viagem à Patagônia e uma tragédia familiar que o mergulhou numa tristeza durante anos. Escrevi com detalhes a vida deste homem naquela reportagem. Lá se vão mais de dez anos, mas não me esqueço de nenhum episódio que ele relatou
Nos últimos tempos, voltei a me lembrar também de uma entrevista que fiz com a atriz Julia Lemmertz. Era uma tarde fria de domingo e a assessoria da atriz marcou o nosso encontro no café do Centro Cultural do Banco do Brasil, onde ela estrearia, nos próximos dias, a peça Molly Sweeney – Rastro de Luz. Ela chegou no horário combinado e, antes de eu começar as perguntas, perguntou se eu me importaria se ela tomasse um chimarrão durante o nosso papo. E no mesmo instante começou a preparar aquela mistura de erva com água fervente que eu nunca consegui fazer em casa. Ofereceu-me o chimarrão de sua própria cuia – o que, vim a saber depois, é prova de amizade e confiança entre os gaúchos. Pergunta vem, pergunta vai e ela sempre respondendo a todas com muita convicção e simpatia. Até que, assim do nada, ela me perguntou por que as pessoas insistiam nos erros. Devo ter ficado calado diante da súbita mudança nos papéis: de entrevistada, ela havia se transformado em entrevistadora. Vendo o meu silêncio, ela expôs seu raciocínio. No seu íntimo, ela me disse, as pessoas sabem quando estão errando. Sabem que aquilo que elas estão fazendo não está correto e não vai terminar bem. Elas sabem que estão construindo sua própria infelicidade. E, no entanto, não são capazes de parar. Continuam insistindo no erro até quebrar a cara e o coração de forma irreparável. E o mais estranho nisso, ela prosseguiu, é que elas sabiam desde o início que este seria o fim. Podiam ter interrompido este curso, podiam ter mudado esta rota, mas nada fizeram para evitar a tragédia. Ao contrário, elas provocaram a tragédia. Por que nós somos assim, ela voltou a me perguntar.
Dali a pouco a entrevista terminou e eu voltei para casa pensando se ela estaria se referindo à peça. Fui à estreia e vi que não. A peça era linda e Julia Lemmertz estava comovente no papel da mulher cega que um dia, ao recuperar a visão, perde o controle que tinha quando seu mundo era totalmente escuro. Acho que até hoje não sei direito ao que ela se referia – talvez eu devesse ter perguntado, mas senti que não era o momento de perguntar nada naquela hora.
Hoje eu acho que as pessoas falam daquilo que elas entendem e também daquilo que não entendem e gostariam de entender. E é nos momentos em que falamos com perplexidade daquilo que não entendemos, que nos tornamos mais compreendidos. Vai ver que é isso.

sexta-feira, agosto 14, 2009

Procura-se

Atores de São Paulo que não estejam em cartaz em alguma stand-up comedy.

quinta-feira, agosto 06, 2009

Sobre cigarros, críticos e Caetano Veloso

PRIMEIRA BAFORADA

Às vésperas da entrada em vigor da lei antifumo, fui até a padaria e comprei um maço de Marlboro para os meus amigos. Não se trata de um protesto pessoal contra a lei, não. Acho a lei até muito bacana e pertinente. É apenas um mimo para os meus amigos, uma forma de dizer que na minha casa nada mudou. Os amigos que fumam continuarão sendo muito benvindos aqui em casa, onde terão sempre à disposição o cigarro, o isqueiro, um cinzeiro muito legal, presente de um amigo fumante, e cerveja gelada. Por aqui, nada mudou.
Confesso que fumaça de cigarro em lugares mais ou menos arejados é algo que nunca me incomodou. De verdade. Sei que podem dizer que se eu estou a fim de jogar meus pulmões no lixo isso é problema meu. Bom, na verdade é problema meu mesmo. O que eu quero dizer é que o cigarro nunca foi motivo para que eu me afastasse ou discriminasse alguém. Nunca fumei um único cigarro na vida e sei o quanto eles incomodam. Não costumo mais freqüentar casa noturna, em parte pela minha falta de paciência mesmo, mas em grande parte por causa da fumaça dos cigarros. Nestes ambientes, eles são abomináveis. Na última vez em que fui à Lôca, por exemplo, saí de lá depois de 15 minutos, com os olhos ardendo e dor de cabeça. Não devo voltar tão cedo. Porque se existe algo que parece não funcionar na Lôca é a obediência a qualquer norma.
Mas se alguém pede para fumar na minha casa, com as janelas abertas, ou no meu carro, também com os vidros abertos, jamais ouvirá um não de mim. Acho que a sociedade já anda repressora demais para que eu passe a engrossar este coro. Tudo bem que fumar ao lado de quem está comendo não é nada educado, e muito menos saudável. Mas meus amigos fumantes sabem disso e só acendem seus cigarros aqui em casa quando o rango – isso nos dias em que há rango – já terminou. O prazer deles de empunhar um cigarrinho numa mão e uma cervejinha ou um copo de uísque na outra me parece ser tão grande que eu jamais cortaria o barato deles. Eles são grandinhos, inteligentes e devem saber que fumar faz um mal do caralho. E eu não preciso lembrá-los disso, não aqui em casa, pelo menos.
E tem mais: podem me chamar de fresco, metido, babaca ou qualquer outra coisa parecida: mas entre jantar ao lado de alguém que fume e alguém que palita os dentes na minha frente, eu estou com o fumante e não abro. Cigarro pode matar, mas tem um charme danado. Os palitos não matam, mas viram o estômago de qualquer um.

FALEM BEM MAS FALEM DE MIM

Eu gostava mais dos tempos em que os críticos guardavam uma distância prudente dos artistas a quem deveriam criticar – ainda que houvesse fortes laços de amizade ligando os dois lados. Aprendi, ao lado de alguns grandes críticos que (infelizmente para a grande imprensa) foram ser mais felizes em outras áreas que esta distância, ainda que não obrigatória, se fazia necessária ao exercício da profissão. Era como se, ao se afastar do convívio diário e direto com os atores, o crítico também promovesse um distanciamento quase científico da obra a ser criticada. O resultado era um só: as críticas costumavam ser muito melhores do que são hoje. Hoje, se você quiser encontrar um crítico, basta ir até qualquer festa de atores. Eles estarão lá, felizes como se fossem um deles, integrados, extremamente benvindos e estranhamente cúmplices e participantes. No dia seguinte saberão retribuir tanta hospitalidade em seus espaços nos jornais e revistas. Antes havia crítica, hoje existe uma animada ação entre amigos. Quer que seu espetáculo seja bem falado? Não precisa caprichar no texto e na direção: basta começar a freqüentar festinhas. De um dia para outro, você será o maior sucesso da temporada. Só morro de pena do público, que além de não ser convidado para as festinhas, vai cair no conto do vigário na hora de deixar seu suado dinheirinho na bilheteria daquela peça, show ou filme tão bem recomendados. Mas, sejamos sinceros: quem liga para o público hoje em dia, né?

LEÃOZÃO


Fui ver ontem o documentário Coração Vagabundo, realizado durante algumas apresentações de Caetano Veloso em São Paulo, Nova York e no Japão. Saí muito mais emocionado do que imaginava. Uso a palavra emocionado e não surpreso porque, no caso de Caetano Veloso, não são exatamente surpresas o que ele nos reserva. Sabemos que de Caetano podemos esperar sempre por três coisas: belíssimas letras (em alguns casos precisaremos de muitos anos para entender a beleza contida ali), interpretações originais nas quais a personalidade exuberante do artista sempre é capaz de corrigir eventuais deficiências na voz ou no domínio do violão, e um gosto irrefreável pela polêmica, ainda que nem sempre a de alto nível. Dizer que o documentário traduz Caetano Veloso não seria correto, porque não é isso que ocorre. Coração Vagabundo mostra um artista afinado na profissão e no pensamento. E há uma coerência tão grande ao longo dos 90 minutos, uma unidade tão arrebatadora que talvez tenha sido até acidental: o que vemos de Caetano é sempre seu olhar estrangeiro diante de um mundo tão vasto de possibilidades. Caetano é um músico que conquistou o mundo, não há dúvidas: mas ele continua a ver este mundo com os olhos de um garoto que nasceu e viveu até os 18 anos em uma cidade pequena do interior baiano. Excluindo qualquer possibilidade pretensiosa de comparação, quem nasceu no interior deve saber do que estou falando. Os olhos dele trazem a curiosidade e o estranhamento que o sucesso e a idade não apagaram. E só isso já vale qualquer ingresso. Se alguém pretende ver o documentário, por favor, preste atenção em dois momentos: sua fala final sobre a velhice e seu desconforto diante de um doce japonês oferecido a ele em um templo budista. Ali não é o artista, não é o músico, não é o cara polêmico e nem o ególatra: é só um ser humano, a quem os anos já deixaram claro o sinal de sua visita, diante das mesmas dúvidas que machucam o meu coração, o seu, o nosso e o da humanidade inteira. E de vagabundo, estes corações não têm nada. Eles dão um duro danado para entender esta vida.

quarta-feira, julho 29, 2009

O botox do mendigo

Numa dessas tardes de chuva – poderia ser qualquer tarde, já que a chuva não dá trégua – eu estava esperando um táxi na Rua Bela Cintra, perto da Consolação, quando me lembrei de um fato que ocorreu ali, na mesma esquina, há alguns anos.

Na ocasião, eu também estava tentando pegar um táxi, muito atrasado para um compromisso no centro, mas era uma dessas tardes quentes e abafadas, dessas que fazem a nossa irritação aumentar muito. Quando vejo, um morador de rua está se aproximando de mim. Antes que ele me dissesse qualquer coisa, eu já me antecipei.

- Hoje eu não tenho nada, estou sem troco.

Ele endureceu a expressão, me mediu de alto a baixo e retrucou:

- Eu pedi alguma coisa?

Fiquei sem jeito e me desculpei, dizendo que imaginei que ele fosse me pedir algum trocado. Ele me respondeu que não iria pedir nada, que tinha atravessado a rua apenas para me dizer que eu não deveria andar com a cara tão amarrada. Que aquela expressão sisuda (ele deve ter usado outro termo) me envelhecia muito.

- Posso chutar quantos anos o senhor tem? – ele me perguntou.

Disse que poderia. Ele chutou e acertou em cheio. O que é raro, porque – ainda bem – as pessoas costumam me dar um pouquinho menos de idade. Por enquanto.

- Mas com esta cara que o senhor estava fazendo, qualquer um daria pelo menos dez anos a mais pro senhor. O senhor precisa relaxar um pouco.

Durante esta breve conversa, vários táxis passaram, vazios, mas eu estava interessado em ouvir o que mais aquele homem descalço e com o corpo envolto por um cobertor vermelho e surrado tinha a me dizer.

- Eu sou dez anos mais jovem que o senhor – ele me disse. – Mas olhe para mim. Todo mundo vai dizer que eu pareço mais velho. E eu pareço mesmo bem mais velho que o senhor. Eu não tenho dentes, não me cuido e vivo bêbado o dia inteiro. Eu posso parecer mais velho, no meu caso já está tudo perdido mesmo. Mas o senhor não precisa parecer mais velho. O senhor pode mudar esta cara.

Fiquei um tempo em silêncio, olhando para ele e procurando que palavras usar para dizer o quanto ele estava certo. Tristemente certo. Mas não precisei pensar muito.

- Bom, naquela hora eu não pedi, mas agora eu peço – ele falou. O senhor tem um real aí pra me arranjar? E vou gastar com pinga, sim.

Abri a carteira e dei bem mais do que ele me pediu. “Nossa, hoje eu vou tomar vodca”, ele falou. Entrei no táxi e fui feliz para o meu compromisso, enquanto sua imagem se perdia no retrovisor, no meio de gente tão apressada e carrancuda como eu estava até cinco minutos atrás.

Naquela tarde, ele merecia um brinde. E eu também.

domingo, julho 26, 2009

Três coisinhas

Item 1.

Por absoluta falta de espaço, a revista Serafina deste domingo, dia 26, não pôde publicar uma frase que eu julgava essencial na matéria de capa sobre o Antunes Filho. Sei que este blog é infinitamente menos lido que a revista, mesmo assim, queria compartilhar a frase com vocês. Principalmente com os amigos do teatro. Ao ser perguntado sobre como ele via a crítica atualmente, Antunes disse o seguinte:

“A pior coisa que existe é a crítica amiga. Se um ator não está bem em determinado trabalho e o crítico amigo diz que ele está, o crítico está jogando este amigo no abismo. Por isso, eu peço encarecidamente aos críticos: deem uma chance aos seus amigos. Parem de falar bem deles”

Item 2.

No sábado, tentei ver o filme Inimigos Públicos, do diretor Michael Mann, em que Johnny Depp interpreta um lendário ladrão de bancos. Não consegui, estava tudo lotado. Então resolvi ver Lóki, o tocante documentário sobre a trajetória do ex-mutante Arnaldo Baptista. E saí de Lóki com a mesma sensação que tive ao ver Ninguém Sabe o Duro que eu Dei, sobre a vida conturbada de Wilson Simonal. Os dois documentários foram feitos, obviamente, mais sob o olhar da admiração. Mas o que me incomodou nos dois casos não foi isso. Saí incomodado com todos os depoimentos que colocaram tanto Simonal quanto Baptista nas nuvens, com todas aquelas frases de efeito que procuravam ressaltar o tamanho do talento, a genialidade às vezes incompreendida e depois o ostracismo dos dois músicos que, coincidentemente, passaram mais de duas décadas esquecidos dos amigos, do público e das gravadoras. Então eu faço aqui a pergunta que os documentários não fizeram: onde estavam, durante aqueles vinte anos, todas estas pessoas que agora correm diante das câmeras para falar bem dos seus queridos amigos injustiçados. Pode parecer estranho, mas a sensação que fica é que ninguém que agora corre para exaltar o Simonal e o Arnaldo Baptista estavam por perto quando eles realmente precisaram. Depois, diante das câmeras, é fácil elogiar, né? Segurar o ombro do amigo nas horas difíceis é que não tem glamour nenhum.

Item 3.

É claro que a gente observa bem os amigos. E, por mais queridos que eles sejam, não são todas as atitudes e comportamentos deles que a gente aprova – o que é muito saudável. Imagine que chatice seria se os nossos amigos fossem absolutamente perfeitos aos nossos olhos e se nós também parecêssemos perfeitos aos olhos deles. Ninguém aprenderia nada nunca – tudo já estaria pronto e seria um tédio só. O que me deixa um pouquinho preocupado às vezes é que eu acho que vira e mexe eu reproduzo tudo aquilo que me incomoda e chateia nos amigos. Ou seja: eu me vejo fazendo com o amigo “x” tudo aquilo que o amigo “y” fez comigo e eu não curti muito. Será que a gente não consegue reproduzir só aquilo que a gente gosta? Tem de imitar também o que é chato? Ô, saco.

quarta-feira, julho 22, 2009

Rachaduras

Eu admiro as pessoas fortes e decididas, aquelas que diante dos desafios tomam rapidamente a decisão que lhes parece a mais acertada e depois seguem resolutas por este caminho, aparentemente sem pensar em como teriam sido todos os outros. Eu gosto dos desafios e também clamo por eles – mas, quando eles finalmente surgem à minha frente, tenho vontade de me enfiar debaixo dos cobertores e pedir para que alguém de confiança decida por mim. E que só me chame quando tudo estiver definido. De preferência, da maneira mais prazerosa possível.

Um dia, há muito tempo, uma astróloga (que era também médica homeopata formada por uma faculdade conceituadíssima) me revelou que eu não tenho quase nada do elemento água no meu mapa astral. Segundo ela, minha carta astral é uma imagem tão ressequida quanto a superfície da Lua. Daí minha dificuldade em me renovar, em “me limpar” – usando as palavras delas – em lavar as mágoas passadas e seguir renovado rumo ao futuro. Eu sei que, nestes assuntos, a gente só acredita naquilo que é interessante. Mas infelizmente eu acredito nisso.

Não sei se por ausência de água ou excesso de sapatos empoeirados, o certo é que as mudanças me amedrontam, ainda que elas venham para por fim a uma situação da qual eu já andava exaurido. Talvez seja masoquismo pensar que o estresse conhecido seja preferível ao desafio do acaso, mas às vezes é assim que eu penso. Um dos personagens da peça A Noite do Aquário, que escrevi há três anos, diz mais ou menos o seguinte: “Se nós não vamos mudar mesmo, por que sair daqui? Dá menos trabalho”. Não que eu concorde com ele, mas é assim que eu ajo.

Neste exato momento estou sendo chamado a tomar uma série de decisões, a assumir uma série de novos desafios. São coisas pelas quais eu ansiei durante muito tempo – e pelas quais trabalhei às vezes arduamente. E então elas chegam e me dão medo. Elas chegam e, no meu íntimo, algo me diz que, no fundo, talvez eu não esperasse realmente pela chegada delas. E sinto vontade de me enfiar novamente debaixo dos cobertores e pedir para que me chamem só em novembro ou dezembro, quando tudo deve estar mais ou menos resolvido.

Charles Darwin levou uma vida inteira para defender a tese de que nós viemos dos macacos – eu aprecio Darwin desde sempre, mas sinto que no meu caso ele errou. Às vezes eu acho que vim do avestruz – em vez de descer das árvores e criar computadores e sinfonia, acredito que descendo de nobres exemplares que, na hora do vamos ver, enfiavam o pescoço no primeiro buraco que aparecesse. Para variar, num buraco seco, na terra, cada vez mais em direção à aridez, ao desidratado e escuro centro da terra. Longe da água que lava e purifica, longe da água que vai poder apagar até meus erros futuros.

Será este o meu destino?