domingo, setembro 06, 2009

Aconteceu na casa ao lado

Fui almoçar com meus pais há alguns dias. As conversas entre aqueles que não se veem com tanta frequência, ainda que sejam pais e filhos, levam um certo tempo para engatar. Primeiro é preciso dar conta de questões corriqueiras como o trabalho, a rotina, o que cada um de nós fez desde a última vez em que nos vimos, para só então entrarmos naquilo que realmente nos toca mais. E, deste último encontro, sei que não poderia ter saído mais tocado.

Minha mãe contou, com alguns detalhes que não se fazem necessários aqui, de um verdadeiro drama enfrentado por um casal de vizinhos, pais de um garotão de 16 anos que no domingo tentou o suicídio ingerindo cerca de 70 comprimidos de vários gêneros de medicamentos. Quando a mãe entrou no quarto, ele já estava desfalecido. Chegou ao hospital em estado grave, passou por uma série de procedimentos de desintoxicação e ressurreição (desconheço os termos exatos) e precisou ser levado para a UTI, onde permaneceu por dois dias. Quando eu soube desta história, ele já estava em recuperação no quarto do hospital. O pai permanecia ao lado dele havia 72 horas ininterruptas, dividido entre a guarda e o desespero.

“Ele sempre foi um menino tão diferente dos outros”, disse a minha mãe. “Ele sempre teve paciência e atenção com os mais velhos. Eu saio na rua e os meninos desta idade mal me olham. Ele, não. Toda vez que me via, parava para perguntar como eu estava e se tudo corria bem aqui em casa”.

Mais que o relato da tentativa do suicídio, o que me pegou de jeito foi justamente esta observação da minha mãe... um menino tão diferente dos outros. Diferente em quê, fiquei pensando. Na atenção, na delicadeza, na aparente importância com o próximo, na sensibilidade e na preocupação com o bem-estar alheio? Em pequenos gestos e sentimentos que talvez não encontrem muito mais lugar no mundo? Se eu o conhecesse, talvez a única coisa que lhe dissesse seria esta: calma, porque por mais que pareça, você não está sozinho. Ainda há, felizmente neste mundo, muitas pessoas que cultivam e dão valor a tudo aquilo que torna você diferente aos olhos dos outros. Se é que este seja realmente o problema. Se é que alguém algum dia vai detectar e entender o problema. Se é que o problema poderá vir a ser solucionado. Se é que o problema ao menos exista.

Ah, e ele gosta muito de livros. Vinha, uma vez por semana, emprestar algum livro do meu irmão – a quem chamava também de senhor. Na semana seguinte, devolvia o já lido e perguntava se havia algo de novo que ele pudesse levar.

Durante a semana, liguei para minha mãe apenas para saber do garoto. Ele tinha tido alta, os pais já estavam procurando a ajuda de um psicólogo ou psiquiatra. Minha mãe contou que havia se encontrado com o avô dele no dia anterior. O homem estava invadido pela dor e pela insegurança; é seu único neto. “Ninguém entendeu ainda o que aconteceu”, disse o homem. “Ele fez uma festa de aniversário para comemorar os 16 anos e, dois dias depois, isso. Agora nós temos tanto medo, a gente vai ter medo para sempre porque a gente nunca mais vai saber o que fazer”, completou...

A gente nunca mais vai saber o que fazer....

4 comentários:

Kiko disse...

E continua o último ovo de chocolate remanescente da páscoa na prateleira, esperando que alguém o compre. Se demorar, talvez ele pule da prateleira. E assim seguimos todos esses estrangeiros ao mundo que nos cerca. Talvez o mundo não mereça mesmo esse ovo...

Só no blog disse...

Boa lembrança, meu querido. Também pensei nisso... ´"Mas nós estamos tão longe da páscoa..."
Talvez este seja o problema, né?
beijão

Isabella disse...

É tão tênue essa linha que separa a lucidez do desespero. Dia desses fui ao Sesc Av. Paulista e estava interditado. Uma mulher se jogou da comedoria. E eu fiquei pensando no que será que antecede essa decisão. Uma pessoa que trabalha por lá disse que ela frequentava sempre a comedoria, era complicada. Complicada como? O ano passado todo não valeu? Na comemoração de seu aniversário, pensou que seria o último? Como aproveitou os últimos minutos? Se livrou deles? Pensou em quem choraria por sua morte? Quem se espantaria? Quem tentaria entrar no Sesc naquele mesmo dia e não conseguiria? No que pensariam sobre ela?
Lembro sempre daquela peça "Boa noite, mãe". Nunca assisti a uma montagem, mas só de ler o texto, fico com um nó no peito. É tudo tão TÃO tênue que às vezes penso que poderia ser qualquer um de nós...

Anônimo disse...

Oi, Sérgio. Jurava que tinha escrito algo aqui! Este teu texto me tocou muito. Me lembro que escrevi ou pensei a partir da frase final: "agora a gente nunca mais vai saber o que fazer". Olha, eu torço que os parentes se aproximem deste rapaz e se mostram tão frágeis quanto ele, que comecem do zero, que falem o que estão sentindo; e sinto que esta frase é muito sensível é um possível "eu estou aqui com vc e também não sei o que fazer, vamos ver o que podemos fazer juntos?" Sei lá, esta situação é delicada, fiquei pensando nisso, pois é tudo tão triste e assustador pra todos. Espero que... não sei o qeu esperar, mas torço pelo alívio e encontro de almas.
bjim
Valéria