quinta-feira, julho 24, 2008

O telefone preto da dona Rosália

Dona Rosália foi a primeira vizinha em todo o bairro a ter telefone em casa – um aparelho preto e pesadão daquele tipo que nós só costumávamos ver nos filmes e nas novelas. Havia também um telefone no açougue da esquina e um outro na malharia que ficava na frente da minha casa – mas aí era comércio e não valia. A novidade era que dona Rosália tinha um telefone em casa, que repousava sobre uma toalhinha bordada em cima de um aparador num canto de sua grande sala, que vivia com as cortinas sempre fechadas. Por que só ela tinha telefone na sala era um mistério que nós, crianças que brincávamos descalças pelas ruas de terra do bairro, não conseguíamos compreender.

Uma ou duas vezes por mês eu sentia vontade de telefonar para alguém e pedia para que minha mãe me levasse até a casa de dona Rosália. “Mas você não conhece ninguém que tem telefone. Pra quem você vai ligar?”, minha mãe perguntava. Ao perceber que minha falta de resposta não era mesmo sinônimo de desistência, ela parava o que estava fazendo e me levava para telefonar na casa da dona Rosália. “Dona Rosália, o menino está com vontade de telefonar de novo. A senhora deixa?”. Paciente, dona Rosália me conduzia até sua sala, onde eu adentrava com um encantamento respeitoso, e ficava à espera de que ela discasse somente quatro números – os números da casa de uma amiga, que vivia em outro bairro e, que luxo, também tinha telefone em casa. Quando a amiga atendia, dona Rosália dizia: “Não é nada, não. Fala só oi pro menino que está com vontade de telefonar”. Eu segurava o fone com as duas mãos sujas de moleque e ouvia uma voz fina que me perguntava, do outro lado, se estava tudo bem. Eu nunca consegui responder, tinha medo. Devolvia depressa o telefone à dona Rosália, minha mãe dizia um obrigado meio sem jeito, e eu voltava correndo para brincar com os outros meninos da rua. Dali a três ou quatro semanas eu sei que pediria de novo para telefonar para alguém e a amiga da dona Rosália teria apenas de dizer um olá para que eu me desse por feliz.

Um dia eu perguntei ao meu pai por que nós também não podíamos ter um telefone. Ele me explicou que era problema de linha, que ele já havia ido até a telefônica mas não havia mais disponibilidade de linha no bairro, só dali a muitos anos. Mas eu não queria uma linha, eu repetia para o meu pai, eu queria só um telefone preto e pesado como o da dona Rosália. “Mas é a mesma coisa”, meu pai dizia, “sem linha o telefone não serve para nada”. De todas as respostas que eu tive na infância, esta sempre foi a mais difícil de engolir. Que raio de linha era aquela que nos impedia de ter um telefone na sala, em cima de uma toalhinha branca e rendada?

Dona Rosália fazia balas de noiva, que agora nós chamamos de bala de coco. Ela e as duas filhas. Casamento sem as balas da dona Rosália não tinham futuro. No início, ela só fazia balas de coco, depois vieram as de amendoim e de castanha. Quando eu chegava na casa de dona Rosália para meu telefonema mensal para sua amiga, estavam as três, dona Rosália e as duas filhas, com as mãos ocupadas nas massas de bala, uma espécie de gororoba branquinha e elástica que não podia passar do ponto de jeito nenhum. Um pouco mais, açucarava; um pouco menos, virava puxa-puxa. E as noivas do bairro, assim como nós, queríamos suas balas sempre no ponto. Quando me levava até a sala para telefonar, dona Rosália ficava de olho nas mãos das filhas e, de longe, sabia o momento exato em que aquela grande massa podia ser enrolada em pequenas tiras e finalmente cortadas no tamanho das balas.

Dona Rosália também tinha cinco filhos homens, com no máximo dois anos de diferença entre um e outro. Para dar conta das encomendas, ela tinha pouco tempo para vigiar aquela meninada toda. Assim, nas semanas de muito serviço, dona Rosália vestia todos os filhos homens com batinhas marrons que iam até os pés. Não eram vestidos, porque os vestidos tinham golas e um ou outro adereço. O que os meninos usavam era uma espécie de camisolão sem ajustes, um exatamente igual ao outro. Com vergonha de sair nas ruas naqueles trajes, os cinco filhos de dona Rosália ficavam com a cara espremida no portão vendo do que nós, os outros meninos, brincavam nas calçadas. E assim, dona Rosália tinha a tranqüilidade necessária para encontrar o ponto certo de suas balas.

O tempo passou, o filho mais velho de dona Rosália abriu uma farmácia e ganhou de cara a confiança de todo o bairro. Nenhum enfermo jamais ia ao médico sem antes ouvir os conselhos do Zé da Farmácia. Era assim que ele passou a ser chamado – se ele não conseguisse resolver o problema ali mesmo, na sua salinha de azulejos brancos, daí sim iríamos para o hospital, mas isto era raro, muito raro. E ainda assim, quando voltávamos do médico, passávamos antes pela farmácia para ver se o filho mais velho de dona Rosália concordava com o diagnóstico. E só então comprávamos os remédios, com a certeza de que estávamos em boas mãos.
Um dia, muitos anos depois, um caminhão da telefônica parou em nossa rua e os homens começaram a puxar fios que iam do poste até o telhado de nossas casas. O problema da falta de linhas finalmente havia sido resolvido e as casas do bairro começaram a receber seus aparelhos de telefone também – menores, mais leves e mais claros do que aquele de dona Rosália. A partir daquele dia, sempre que queríamos telefonar, podíamos fazer tranqüilamente da nossa sala, sem termos de pedir nada para a dona Rosália. Mas então, ligar para os outros não tinha mais graça nenhuma.

4 comentários:

jessica disse...

isso é Nelson? tenho a impressão, a cronica talvez.....
bjo!bjo!bjo!

Só no blog disse...

Nelson Rodrigues? Pôxa, quanta honra. Mas sou eu mesmo, e tudo isso se deu em Jundiaí, lá atrás. Beijão

pão e poesia disse...

Que mundo deliciosamente pequeno. Estava eu procurando alguém que fizesse bala de noivas para o aniversário da minha filha, que "encarnou" no doce. Entrei na Internet e me dirigi ao Google com a pesquisa: Bala de noivas em Jundiaí. Me deparei com o nome Dona Rosália e pensei: "Batata, nome de quem faz bala". Entrei e comecei a ler o texto. Só vi a foto do autor depois de terminar. "Nossa, parece o Sérgio Roveri!" E era. Adorei!
Mônica, de Jundiaí (para localizar, era namorada do André, jornalista, amigo da Fátima, sua prima e fui em algumas festas famosas suas)

Só no blog disse...

Oi, Mônica, claro que me lembro de você. Que surpresa boa encontrá-la por aqui, no meio das balas da Dona Rosália...tanto tempo depois, as balas dela ainda aproximam as pessoas, hein. Um grande abraço e sucesso pra vocês.