terça-feira, julho 01, 2008

Com medo da lei seca

Na noite de domingo, após sair da última sessão do genial Wall-e, o robozinho que é capaz de cativar qualquer um mesmo em cópias dubladas, eu e dois grandes amigos, o ator e professor Alberto Guzik e o jornalista Ricardo Moreno, paramos em um restaurante para a tradicional saideira do domingo. Passava um pouco das onze da noite. O Guzik pediu uma cerveja longneck, o Ricardo foi de caipirinha de lichia e eu, bem...como naquela noite eu estava dirigindo, pedi um copo de água e aceitei dar no máximo dois goles na cerveja do Guzik, linda, gelada, amarelinha e irresistível. Naquela hora eu senti o peso da lei seca e, ainda que sob o risco de atrair uma chuva de críticas à minha opinião, gostaria de explicar aqui como eu me senti naquele momento. Eu me senti infeliz.

Concordo com um outro grande amigo que costuma dizer que os números de acidentes de trânsito no Brasil são pornográficos. Concordo com qualquer medida, lei ou decreto que visem diminuir tais estatísticas e preservar a vida de motoristas e pedestres, principalmente dos mais jovens, que parecem ser as principais vítimas desta guerra que se trava nas ruas do País. Concordo também que tolerância zero é tolerância zero, sem brechas, exceções ou jeitinhos. Mas, apesar de tudo isso, continuo achando que esta lei ainda é um pouco difícil de engolir - e não sei se ela se tornará mais digestiva com o tempo, pois o problema não parece estar em sua adaptação, mas sim em suas raízes.

É ridículo acreditar que alguém possa ser flagrado pelo bafômetro por ter usado Listerine, ser diabético, tomado antidepressivos ou, o que é pior, comido dois bombons recheados de licor. Com apenas um chopinho a gente já corre o risco de perder a carteira de habilitação e ainda arcar com uma multa de quase mil reais. Conversei hoje com um psiquiatra, estudioso de vários tipos de drogas e seus efeitos sobre o organismo humano a partir de certas dosagens. Ele diz que não há consenso médico que classifique como alcoolizada um pessoa que tenha ingerido um copo de chope. Parece pouco. Sei que se a lei usasse como parâmetro a medida mínima de dois copos de chope, ainda assim haveria reclamações - até porque somente os outros ficam bêbados. Nós, no máximo, ficamos alegrinhos, e olhe lá.

Repito que sou favorável a qualquer lei criada para diminuir o número de acidentes de trânsito, mas esta me parece invasiva demais, penalizante demais, espetaculosa demais. Ou seja: um cenário propício para casos de propina que nosso jeitinho brasileiro bem sabe como administrar. Acredito que esta lei, da maneira como vem sendo aplicada, só reforça a idéia de que o mundo está se tornando um lugar cada vez menos prazeroso, cada vez mais vigiado e repressor.

Naquele domingo à noite, ao lado do Guzik e do Ricardinho, tomei dois goles tão pequeninos de chope que parecia que estava tomando a vacina Sabin: deu para molhar a língua, mas não para engolir. Na volta, tive de cruzar toda a Vila Madalena para deixar o Ricardinho na casa dele. Fiz este trajeto com medo de ser parado pela polícia, eu olhava para cada esquina da Vila com tamanho pavor de ser flagrado que parecia que eu estava transportando um cadáver no porta-malas. Mas não um cadáver qualquer: um cadáver que eu mesmo havia produzido. Achava que a qualquer momento uma viatura ia interceptar o meu caminho, um policial desceria com um bafômetro, meu carro seria guinchado e eu passaria a noite na cadeia por causa daqueles dois golinhos de chope. E talvez nunca mais pudesse dirigir. E é isso que me dá medo nesta lei e no mundo de hoje: parece haver uma ação orquestrada para que a gente viva acuado, temeroso, marginalizado e com aquela sensação de que está constantemente fazendo algo de errado.

Eu trabalhei, há alguns anos, com um famoso jornalista que matou a namorada com dois tiros nas costas. E continua em liberdade. Se eu tivesse sido pego no domingo, talvez fosse detido após meus dois goles de cerveja. Repito que não quero ser contra a lei, mas que mundo é este em que dois goles de cerveja são mais graves do que dois tiros pelas costas? É para dar medo ou estou exagerando?

3 comentários:

alberto disse...

não tá exagerando não, serginho. eu também sinto tudo cada vez mais repressivo. bjs e boa viagem! e não vá beber na estrada, heim!

Kiko Rieser disse...

Me senti assim hoje, após ter bebido meia long neck, dividida com minha namorada, o que não me causou nem cócegas. Me incomoda muito não só o fato de essa lei ser geradora de tamanho medo, mas também o fato de querer igualar as pessoas. Já há medidas demais: idade mínima para isso, idade mínima para aquilo. Se no quesito etário ainda se pode falar em uma aproximação entre o desenvolvimento das pessoas, na questão alcoólica é impossível. A bebida se manifesta de formas absolutamente diferentes em cada um. Essa lei parece querer uniformizar as pessoas. É um pouco como os rótulos implantados nos vestibulares: negro, pardo, branco, índio, sei lá mais o quê. Se somos iguais em direitos (e devemos de fato ser), jamais uma pessoa será verdadeiramente igual a outra. E, se é preciso nivelar, que se nivele pela média ou por cima, não por baixo. É arredondamento falsificador este que presenciamos. Verdadeiro absurdo!!!

fernanda teixeira disse...

é para dar medo mesmo! também me sinto assim. beijinhos.