terça-feira, julho 15, 2008

Com medo de farda

Ando assustado com a polícia. Talvez não haja nenhuma novidade nesta afirmação, então o correto seria dizer que ando ainda mais assustado com a polícia. Passei a última semana ocupado com um interesse mórbido - o de me informar sobre todos os erros policiais, ao menos aqueles que chegaram à grande mídia, e que resultaram na morte de gente jovem e inocente. Primeiro, o caso do garoto de três anos, fuzilado no Rio de Janeiro quando os policiais confundiram o carro de sua mãe com o de bandidos em fuga. Depois, o de uma jovem do Paraná, morta com um tiro na cabeça em situação semelhante. Na seqüência, a da bela engenheira carioca, misteriosamente desaparecida após cruzar com alguns policiais na saída de um túnel no Rio. Sem falar no caso dos soldados que invadiram uma escola e espancaram adolescentes, entre eles um com deficiência física, e num outro ocorrido no fim de semana, em que a polícia chegou com tudo em uma festa na cidade de Três Rios, no Rio de Janeiro, lançou spray de pimenta sobre crianças e esmurrou uma senhora de 60 anos.

Se todos estes fatos tivessem ocorrido de maneira mais espaçada, eles engrossariam alguma estatística qualquer e só diriam respeito aos poucos interessados. Mas como todos se deram em pouco menos de uma semana, fica difícil fechar os olhos diante desta barbárie institucionalizada e continuar andando pelas ruas sem medo de sermos sumariamente fuzilados por um soldado desavisado. Depois, alguma autoridade irá pedir desculpas aos nossos familiares, alegar que a tropa anda estressada e que, desgraçadamente, fomos confundidos com um criminoso procurado. Mais algum dia e a tal autoridade, ciente da impunidade deste país, vai acrescentar o seguinte: também, quem mandou estar no caminho da polícia bem naquela hora? SE estivesse quietinho em casa, a esta hora ele provavelmente estaria vivo.

Há pouco tempo, entrevistei vários adolescentes, de diversas classes sociais, num trabalho de pesquisa para a produção da peça Cidadão de Papel, baseada no livro do Gilberto Dimenstein e produzida pelo grupo Os Satyros. Alguns muito ricos, outros muito pobres. Fiz praticamente as mesmas perguntas para todos os jovens e pude constatar que a polícia havia conseguido, enfim, eliminar o famoso abismo social entre as classes: todos, pobres e ricos, tinham igual pavor dos meganhas. Entre os mais de 20 tópicos levantados pela pesquisa, o medo da violência policial foi o único a aproximar estes dois universos. Garotos do Alto de Pinheiros e seus pares do Jardim Pantanal, endereços separados por quilômetros de estrada e anos-luz de renda familiar, só concordaram diante do pavor de topar com uma blitz policial em uma noite qualquer.

Sei bem do que eles estavam falando. Fui parado duas vezes pela polícia. Em uma delas, estava com um casal de jornalistas a pouco mais de 200 metros da minha casa. Quando um policial me perguntou onde eu morava, foi mais fácil apontar o edifício do que dar o endereço. Eu e o casal ficamos rendidos, com as mãos na parede e as pernas separadas, enquanto o carro era revistado. A operação só não foi mais longe porque, ao pedirem nossos documentos, viram logo de cara nossas carteiras de jornalistas profissionais. O tratamento, então, mudou: a truculência deu lugar a um respeito hipócrita e achei que isso foi ainda pior que a humilhação.

Na segunda vez eu me encontrava na companhia do Gustavo Fioratti, repórter da Revista da Folha que há poucas semanas escreveu uma brilhante matéria sobre os carroceiros de São Paulo. Era um sábado, pouco depois das oito da noite, e fomos abordados enquanto nos dirigíamos ao cinema do Shopping Frei Caneca. Novamente ficamos os dois ali, mãos na parede, pernas separadas e com fuzis apontados para nossas cabeças, com soldados doidinhos para nos enviar dali para um show solo do Kurt Cobain. Tiraram tudo que era possível do carro e, ao constatar que estávamos limpos, nos mandaram seguir.

Entendo perfeitamente que zelar pela ordem pública deve ser missão da polícia e, nesta hora, brancos e negros, ricos e pobres, empregados ou não, devem ter o mesmo tratamento. Mas eu me pergunto se é realmente necessário expor as pessoas a tamanha humilhação? Pedir para que alguém, às oito da noite, com o comércio todo aberto e as calçadas cheias de gente, seja colocado contra a parede e com uma arma apontada para a cabeça, me parece muito mais uma encenação armada para humilhar e intimidar o cidadão do que para efetivar algum tipo de busca. É um aparato criado para apontar previamente qualquer um como culpado. E cabe a nós, com as mãos na cabeça, as pernas abertas e um fuzil apontado para o nariz, tentar provar a nossa inocência. Me parece um jogo injusto e muito, muito desconfortável.

3 comentários:

Elfo disse...

Está assustador Roveri! Provavelmente enquanto você escrevia esse post assassinavam outro inocente, desta vez em frente às câmeras de TV.
Com o bandido a gente ainda tem alguma chance. Já os fardados...
Tropa de Elite... pega um, pega geral...
Abraço e sorte
Elton

Ricardo disse...

"Na segunda vez eu me encontrava na companhia do Gustavo Fioratti, repórter da Revista da Folha que há poucas semanas escreveu uma brilhante matéria sobre os carroceiros de São Paulo." Você disse que nem tinha lido a matéria, Sérgio...

Só no blog disse...

Não li na semana da publicação, li na semana seguinte e tenho um exemplar da revista guardado comigo até hoje. Eu leio tudo, li até uma entrevista com a Paola Oliveira na Revista Criativa.