segunda-feira, julho 02, 2007

Ela

Ela começou muito cedo na carreira. Antes dos 20 anos já era uma das atrizes mais conhecidas do País. Seu primeiro trabalho na televisão ainda é, para muita gente, o único que merece ser lembrado, o que não é totalmente justo. Eu sempre achei que ela era muito mais talentosa do que demonstrou ser ao longo desta última década. Como muitos outros atores, no entanto, ela deixou-se seduzir por uma das mais insidiosas armadilhas da televisão: aquela que obriga os artistas a serem eles próprios pela vida afora. Jack Nicholson consegue fazer bem isso; Lima Duarte às vezes. Ela não conseguiu. Não sei se durante estes anos todos ela recebeu alguma proposta mais ousada, se teve a chance de se atirar em algum projeto mais autoral, se alguém pediu para que ela se mostrasse menos bonita ou menos apática e simplesmente mais viva. O que eu sei é que sua carreira vem sendo marcada por uma suave e segura repetição de si própria - nas várias novelas que fez, tudo que vimos foi ela mesma, em outros vestidos e em outros horários. Nunca uma transgressão escapou de sua boca, nunca uma faísca brilhou em seus olhos. Ela parece ter se conformado com a idéia de que sua importância nas tramas diminuiria na exata proporção em que sua beleza começasse a se despedir do seu rosto. Talvez ela tenha contas a pagar e tudo se resuma a isso.

Fiquei muitos anos sem contato com ela. E neste período eu a julgava em paz, aquele tipo de pessoa que descobriu que seu combustível não era suficiente para a ambição do seu vôo, mas que nem por isso haveria risco de a aeronave se espatifar no chão. Ela teria de pousar antes, mas ainda assim seria um pouso tranquilo. Eu a via aqui e ali, em papéis pequenos aos quais tentava dar um pouco de consistência, embora nem sempre os diálogos colaborassem. Ela continua sendo conhecida, recebe convites e olhares sempre que entra em um bar, em uma casa noturna, em um teatro. Mas, aos poucos, o público não se lembra mais de onde realmente a conhece. Seria da tevê?, eles parecem perguntar. De alguma capa de revista de fofoca, de algum comercial... Todos sabem que aquele rosto não é estranho, mas já não são mais capazes de associá-lo a algum trabalho.

Nos últimos meses voltei a conversar com ela. E vi que não havia tanta paz assim em seu espírito. Dos homens, agora ela fala com desprezo. Não acredita que eles possam se interessar por ela e não pela atriz que ela ainda julga ser. Em relação ao trabalho, seus olhos procuram mais curiosos pelos números no holerite do que pelos eventuais conflitos de seus personagens. Ninguém pode acusá-la de ter se vendido - por aquela boca estreita do funil, ela foi mais uma das inúmeras que não conseguiram passar. Ficou entalada naquele ponto que parece separar os grandes artistas da massa comum de atores que apenas preenchem as polegadas cada vez maiores dos aparelhos de televisão. E assim ela vai seguir sua vida, até que a chamem para representar a mãe na trama secundária, para vender detergente e cola para dentadura no horário nobre, para apresentar rodeios e fazer escada nos humorísticos do fim da noite.

O mais triste desta história não é saber que ela realmente existe. É ter a certeza de que ela é um pouco cada um de nós.

Um comentário:

Patrícia disse...

Combustível,um bom avião e um pouco de sorte.Êta combinação difícil...beijos,querido.