terça-feira, julho 17, 2007

Depois da queda

Estava subindo a rua Heitor Penteado ontem de manhã quando, na frente da agência do Banco do Brasil, quase esquina com a Avenida Pompéia, uma senhora idosa, de blusa branca e calça comprida verde, caiu bem na minha frente. Ela torceu o pé no respiradouro do metrô e foi ao chão, assustadoramente pesada. Corri para socorrê-la. Sua expressão de dor era indisfarçável e seu medo de ter quebrado a perna, ainda maior. Perguntei se ela conseguia ficar em pé ou se preferia que eu fosse em busca de um táxi ou uma ambulância. Com muito esforço, ela se levantou e caminhou apoiada até o táxi. Percebi que em seu rosto a expressão da dor ia aos poucos dando lugar à da culpa. Por que os velhos se sentem culpados quando caem? Ela me agradeceu de uma maneira tão ostensiva que mais parecia um pedido de desculpas por ter obstruído o meu caminho com seu corpo velho e pouco ágil.

Há algum tempo minha mãe deixou de sair de casa. Havia sempre uma desculpa para que ela recusasse um pequeno passeio, até a padaria que fosse. Achávamos aquilo estranho, eu, meu pai e meu irmão. Não muito estranho, porque minha mãe nunca foi dada a viagens, passeios ou aventuras além do portão da rua. Mas aquele seu período de reclusão era tão convicto que começou a nos preocupar. Fomos ligando os pontos e descobrimos que ela havia deixado de sair de casa depois de um tombo na rua. Ao contrário da senhora a quem socorri, minha mãe se machucou mais: rosto, mãos, braços e pernas eram a prova de que a queda havia sido realmente feia. Soubemos também que ela foi socorrida por dois funcionários de um salão de cabeleireiro. Ela disse que sentiu muita vergonha, tanto da queda quanto da necessidade de socorro. Compreendi bem o que era isso ao ver o rosto daquela idosa enquanto eu a ajudava a pôr-se em pé na avenida Heitor Penteado, sozinha e assustada. De repente, toda a experiência de vida, toda a dignidade que uma pessoa acomodou entre as rugas, toda a serenidade de um rosto idoso são substituídas por uma expressão de dor, medo, abandono e culpa. É tão triste o que o corpo resolve fazer com o ser humano só para lembrá-lo de que a conta a ser paga pela vida só cresce com a idade.

Não sei se por relapso dela ou por falta de atenção nossa, o certo é que minha mãe foi-se fechando cada vez mais, até que um dia foi necessária intervenção médica para que ela reunisse forças de cruzar novamente a barreira do quarto. Não que hoje ela tenha se transformado em alguma cigana, mas a rua voltou a exercer um pequeno fascínio em seu cotidiano. Pequeno como sempre foi, mas ao menos presente. Será que todos os tombos que levamos na vida, em público ou no nosso íntimo, na rua ou na alma, têm de necessariamente nos condenar ao isolamento? Em que momento desaprendemos a lição mais bonita da infância - aquela que nos ensinava a chorar só um pouquinho após a queda e depois seguir adiante, mais felizes e mais leves do que antes? E, geralmente, com os braços ainda mais abertos para o mundo.

5 comentários:

alberto disse...

um dos textos mais bacanas que você já escreveu. sei por experiência própria o que é ser vítima de tombos, e você capturou a situação com essa sensibilidade toda sua. mas além disso, as imagens que vc usa pra descrever a cena são incrivelmente boas. uau!

fernanda teixeira disse...

Seu relato sensível me fez lembrar de meu pai. Com osteoporose, ele caiu muitas vezes, chegando a quebrar o fêmur. Duro na queda, sempre se levantava para enfrentar as várias doenças que teve durante a vida. Hoje tenho preocupação com minha mãe e incentivo seus passeios diários com Dudu, nosso "salsicha".

Alberico disse...

Nossa Roveri , sempre que passo por aqui fico muito emocionado com o seu estilo tão peculiar de escrever . Adorei a imagem dos
"TOMBOS NA ALMA" ... Esses são os deixam as maiores cicatrizes . Estive em Recife recentemente onde mora minha mãe com 81 anos e ela sofreu tb um tombo nos últimos dias . A idéia é bem essa mesmo . Pena que a gente viva num país que não RESPEITA OS DIREITOS DOS IDOSOS .... Abraço !

Blog do Massa disse...

Alberico e Fernandinha: muito obrigado pela visita ao meu blog. E pelo pequeno relato pessoal que vocês deixaram aqui. Grande abraço pra vocês!

Ricardo Lombardi disse...

adorei o texto, sensacional. meu pai, sabe-se lá por que razão, luta contra o fato de não conseguir andar sem a ajuda de um enfermeiro. às vezes ele escapa, sai sozinho e pimba, se esborracha. ele parece que prefere isso a depender de alguém.