segunda-feira, maio 28, 2007

Nem tanto lá, nem tanto cá

Fim de semana teatral, como têm sido quase todos os outros, para ser sincero. Mas neste houve algo de especial, que talvez mereça registro: a distância estética entre os espetáculos vistos. No sábado, O Manifesto, no Teatro Renaissance; no domingo, O Perfeito Cozinheiro das Almas Deste Mundo, no Sesc Avenida Paulista, duas peças separadas por quilômetros de ousadias, propostas, encenações e perfomance do elenco.

O Manifesto é um brinde ao convencionalismo. Tudo funciona de uma maneira tão milimetricamente já testada que é difícil conseguir algum arrebatamento na história de um casal que passa quase duas horas discutindo suas desavenças políticas e suas picuinhas amorosas tendo como pano de fundo a invasão americana no Iraque e uma doença terminal que afeta a personagem Margareth, vivida com a costumeira elegância e competência por Eva Wilma. A atriz encontra em Othon Bastos um parceiro à altura, mas a peça não vai muito além disso: é uma bela partida de tênis entre dois grandes atores que não deixam a bolinha tocar o solo. O texto, escrito pelo inglês Brian Clark há mais de 20 anos, foi atualizado por ele mesmo especialmente para esta montagem. No original, a peça fazia referência à Guerra do Vietnã. No meio do espetáculo, me lembrei de uma pergunta feita há algumas semanas pelo dramaturgo Mário Viana: será que todo espetáculo de dois atores está eternamente condenado ao velho esquema pergunta-resposta, indagou ele. Não sei se está, mas O Manifesto leva esta equação às alturas. Do cenário à trilha sonora, tudo é de um deja-vu indisfarçável. Flávio Marinho, que não ousou em nenhum segundo do espetáculo, atinge o auge do previsível quando, a poucos minutos do fim, presenteia a platéia com uma chuva de folhas secas que avisam que está chegando a hora de ir para casa.

O Perfeito Cozinheiro das Almas Deste Mundo segue uma trilha completamente oposta. Ali tudo tem gosto de surpresa e frescor, do cenário deslumbrante à narrativa fragmentada, da interpretação naturalista do elenco à projeção de vídeos que ilustram as cenas. A peça é dirigida pelo carioca Jefferson de Miranda, que há três anos mostrou o estupendo Deve Haver Algum Sentido em Mim que Basta, no Sesc Belenzinho, considerado pela APCA, merecidamente, como o melhor espetáculo do ano. O Perfeito Cozinheiro retoma a fórmula vitoriosa de Deve Haver, mas não chega tão longe quanto a matriz. Esteticamente é um espetáculo deslumbrante, mas a dramaturgia de Nina Crintzs não fornece um alicerce tão seguro para as ousadias da encenação. A história de amor de final infeliz entre uma normalista e Oswald de Andrade, que tinha como cenário uma garçonnière mantida pelo escritor no centro de São Paulo, nunca chega realmente a decolar e a ambientação da trama em três épocas diferentes precisaria de alguma costura um pouco mais consistente. A passagem ambientada no futuro, por exemplo, soa deslocada do resto do espetáculo e parece ter sido criada apenas para nos mostrar que, daqui a algumas décadas, as pessoas vão se vestir muito mal.

Um comentário:

Gabriel disse...

Prezado Sérgio:

Aqui é Gabriel, repórter da revista IMPRENSA: preciso do seu contato para uma entrevista. É possível fornecê-lo? Se sim, encaminhe-o para gabrielkwak@portalimprensa.com.br

Obrigadíssimo.