terça-feira, maio 08, 2007

Eu, eu, eu, eu, eu, eu, eu e depois eu também...

Estou em crise existencial com os blogs - e este é o principal motivo de eu estar escrevendo tão pouco, cada vez menos, para ser sincero. Nunca gostei de textos escritos em primeira pessoa. E os blogs são um terreno absolutamente fértil para este tipo de narrativa. Sou cria da imprensa escrita, do jornalismo diário feito em uma época em que apenas alguns poucos eleitos - a maioria por mérito e outros tantos por indicação - usufruíam do direito de escrever em primeira pessoa. Não sei se é saudosismo de minha parte, mas continuo gostando muito mais daquela época. Uma vez, no Jornal da Tarde, um editor pediu para que eu fizesse uma matéria em primeira pessoa. Sutilmente desobedeci. Mas um redator, instruído pelo tal editor, colocou todos os verbos do texto em primeira pessoa. Eu não gostei do resultado porque era uma matéria banal, que não mudaria nada em lugar nenhum do mundo. Foi escrita por mim, mas poderia muito bem ter sido escrita por outro repórter, qualquer um. E o resultado não seria tão diferente. É por isso que eu acho: se o que a gente escreve não vai fazer diferença alguma, então por que escrever em primeira pessoa?

No dia seguinte à publicação da tal matéria, um outro editor, um cara tão competente quanto mal-humorado, mas a quem eu aprendi a respeitar muito, me chamou em sua mesa e perguntou: Roveri, por que você escreveu aquela matéria em primeira pessoa? Eu disse que não havia escrito, que um redator mudara tudo. Ao que ele respondeu: ainda bem, eu sempre confiei em você. Como não gostar de um cara desses? Antes de terminar a conversa, ele completou: "Na minha opinião, existe só um tipo de matéria que mereça ser escrita em primeira pessoa. E ela seria assim: eu pulei de pára-quedas. E o pára-quedas não abriu". Ri muito do exemplo. E, como outras tantas coisas das quais a gente ri muito, nunca mais consegui me esquecer dela.

E então surgiram os blogs. E, com eles, a ilusão de que o nosso cotidiano, as pequenas coisas do nosso dia a dia, podem ser importantes para quem quer que seja. Ao navegar pelos blogs, a gente fica sabendo o que as pessoas comeram no almoço, se a digestão foi boa ou se tiveram azia, se foram trabalhar de tênis ou de sapatos, se pentearam o cabelo da direita para a esquerda ou no sentido contrário, se o banheiro entupiu, se o ônibus atrasou, se o elevador emperrou entre os andares do prédio, se o intestino funcionou direito ou se houve alguma constipação, se o celular descarregou durante uma conversa, se a vizinha olhou de atravessado....se...se...se...

Não consigo evitar a pergunta: meu Deus, a quem isso pode interessar? Que curiosidade doentia é essa que nos move? Que síndrome de revista Caras atingiu a nós, a cada um de nós, que sentimos esta necessidade estúpida de divulgar cada um dos nossos pequenos e desimportantes gestos? Que desejo obsceno de nos imortalizar, de nos tornarmos admirados pelo tão pouco que fazemos e pelas picuinhas dos nossos gestos e das nossas obrigações mais banais? Que fascínio oculto este de ser, cada um de nós, um big brother da era virtual, expondo nossas intimidades a quatro ou cinco visitantes diários? Será que, ao escrever, automaticamente passamos a acreditar que nossos afazeres são mais importantes do que realmente são? Será que revestimos uma simples ida ao supermercado do heroísmo de quem salva uma vida?

E, apesar de todas estas indagações, continuo aqui, me expondo também, ocupando este espaço que dizem ser infindo com minhas dúvidas e ansiedades. Mas, cada vez mais seguro - e espero que isso já seja um grande progresso - de que elas não têm poder de fogo algum. Que estão escritas aqui, mas poderiam estar num caderno escondido debaixo do colchão e sua relevância seria a mesma. Eu sei que alguém pode deixar um comentário sugerindo, então, minha desistência deste mundo virtual, já que eu me sinto desconfortável nele. Talvez um dia eu desista mesmo. Por enquanto, estou na fase da indignação. Ou da indagação. Mas sou virginiano. E dizem que nós, virginianos, levamos algum tempo até transformar em ação os nossos desejos. Somos práticos demais para correr riscos, prudentes demais para jogar tudo para o alto, caretas demais para ousar. Inseguros demais para deixar de fazer o que todos estão fazendo. Minha casa está cheia de espelhos. Eles já estavam lá antes de inventarem os blogs. Talvez já denunciassem o desejo oculto, obsceno, doentio e insignificante que eu tenho de me ver a partir de vários pontos de vista e de diversos ângulos. Este blog só faz, aqui, o que os meus espelhos fazem em casa....

4 comentários:

Aiimar disse...

Eu não deveria escrever nada. Afinal este post pode ser apenas uma armadilha à espera de elogios que passem por perto. Mas, como o mau-humorado aquele, sempre confiei em você, por isso me manifesto.
O post é, em si, a resposta que você procura. Este texto, excelente, só você poderia escrever. E nenhum jornal publicaria. Portanto, o local dele é o blog. Antes de ir para um livro, o que será inevitável.
Por outro lado, a qualidade do post faz, por contraste, que seu raciocínio caia como uma luva para tantos outros blogs. Exatamente por que o blog serve de espelho público, o seu é esse primor de inteligencia e bom texto. Enquanto tantos outros...
abraço,
Aimar

Anônimo disse...

Encontrei seu blog por acaso e o post seguinte (o da finitude da vida) me pareceu tão singelo e inteligente que resolvi ler mais, afinal, poderia ser um blog inteligente. Não era. Apenas mais um blog de um jornalista que se aproveita da modinha dos diários virtuais para escrever textos em primeira pessoa - coisa que não conseguiram, nem por mérito, nem por indicação, fazer nos jornais. A web é democrática. Leia apenas o que achar interessante. Mas entenda que, hoje, nós jornalistas diferimos dos outros apenas por ganharmos (ainda que pouco) por escrever.

Blog do Massa disse...

Oi, anônimo, você é jornalista?
Parabéns!

Barbara disse...

Não se desespere com essas preocupações (paranóicas?) do sentido do EU ou do incômodo de se escrever em primeira pessoa, Sergio. Afinal, escrever é um exercício gostoso. Mesmo que ninguém nos leia, isso ficará registrado. E o seu blog - como disse o Aimar - acabará virando um livro - é o rumo natural das letras quando são bem encaminhadas e fazem sentido. Mas, confesso, eu também tenho esse questionamento. O pior é a preguiça, às vezes!
Continue!