segunda-feira, abril 16, 2007

Águaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

O mundo está acabando e parece que desta vez é sério. Jornais, rádios, tevês e sites na internet só falam nisso. Parece que a cada dia mais um pedacinho da Terra vai embora, mais alguns animais e plantas se extinguem, mais uma área de floresta vira cerrado, mais uma campina vira deserto, mais um rio exibe seu leito seco. A sensação que dá é de que chegou o síndico para dizer que a festa que estava bombando nas costas deste planeta acabou.

É impossível não pensar sobre isso em cada um dos nossos pequenos gestos diários. Viver está ficando cada vez mais chato em função desta paranóia toda. Sei que cada atitude preservacionista, por menor que seja, se torna urgente e necessária. Mas, de verdade, que saco... a cada vez que vou usar meu desodorante aerosol fico com medo de estar deixando um urso polar sem seu pedacinho de gelo no Ártico, a cada vez que tomo um banho de mais de dez minutos me vêem à mente milhares de criancinhas sem água para beber, a cada vez que vou dar uma caminhada pela avenida sumaré imagino minha pele sendo devorada por raios solares cujos nomes eu não sei. Putz, que merda, de verdade.

Fico me lembrando dos meus banhos de criança, quando eu só saía do chuveiro depois que minha mãe se lembrava de que havia um filho dela perdido em algum lugar da casa. Eu saía da água com os dedos enrugados...e ainda sujos, porque eu tinha aproveitado o banho para fazer qualquer coisa, menos me lavar. Também me lembro que lavar o carro e a calçada era quase tão divertido quanto ir à praia. Há alguns dias, quando estive em Jundiaí, minha cunhada me falou que tinha visto a vizinha lavando a calçada, com a gravidade de quem presenciara um estupro ou uma chacina. Agora a gente tem de se ensaboar com o chuveiro desligado, e tem de esfregar a louça com a torneira da pia fechada. E não tem nada mais sem graça do que espuma sem água...e não tem nada pior do que ficar com a pele meio grudentona porque ficou com o sabonete por muito tempo nela...E quando a gente vai passear na praia, não pode tomar sol. E quando vai passear no mato, tem de tomar cuidado e andar somente sobre as pedras, para não pisar em nenhuma graminha. Outro dia uma barata entrou voando pela minha janela do 13º. andar. Corri para pegar a latinha de rhodiasol mas, na hora de espirrar na bichinha, fiquei pensando que ela também podia ser o último exemplar de algum tipo de barata que vem sendo destruída por blá blá blá... fiquei sacudindo uma toalha até ela escapar pela janela de novo. Eu sei que era só mais uma barata, mas dizem que a gente já matou tanta coisa neste mundo, mas tanta coisa, que eu não quis carregar mais esta culpa, a de ter matado alguma barata sagrada de asas rosadas... sei lá...

Tenho dois gatos, o Pirulito e a Ritinha. Eles ficam o dia inteiro tomando banho... de língua. Estão sempre limpos, mas sempre secos. Não sabem o prazer que é, ou que era, passar a agenda da semana inteirinha na cabeça enquanto a água morna ia caindo do chuveiro, cantar umas dez músicas bem compridas do Legião Urbana enquanto o banheiro ia ficando todo embaçado e as pontas do dedo enrugadas, assobiar, imitar os outros, falar mal de alguém bem baixinho, escrever o nome no vidro do armário enquanto a água ia escapando do box... É muito chato saber que, daqui a algum tempo, eu terminarei meus dias como o Pirulito e a Ritinha, me lambendo inteirinho na hora do saudoso banho....

Um comentário:

paulo marra disse...

o juanito manda abraços pra Ritinha e pro Pirulito.....
e eu nem posso mais entoar por completo aquela ária do Barbeiro de Sevilha...não posso