sexta-feira, fevereiro 20, 2009

O bloco do eu sozinho

Existem algumas pessoas que não precisam de ninguém neste mundo. Elas não costumam sair de casa em busca de amigos ou diálogos – saem apenas para divulgar a grandeza dos seus gestos e feitos; saem para nos brindar, a nós, a quem elas acreditam seus súditos, com o brilho de sua imagem sempre digna de louvor; saem para mostrar, no fundo, como elas podem ser generosas diante da pequenez do nosso cotidiano opaco. Em nenhum momento passa pela cabeça delas a possibilidade de nos fazer qualquer pergunta – pois elas já sabem, previamente, que tudo que sair de nossas bocas não será mesmo digno de atenção. Porque, no fundo, nossa existência não é reconhecida por elas – somos figurantes silenciosos de um mundo muito particular que elas criaram para si próprias; um mundo, afinal, em que só existe lugar para elas e seus atos. Elas nos dirigem a palavra apenas para evitar a ideia de que andam por aí a falar sozinhas. Embora não percebam, elas estão falando sozinhas, pois para elas, de tão desinteressantes e descartáveis que somos, é como se não estivéssemos mesmo por ali.

Antes de mais nada, elas se bastam e se completam. Acreditam tanto em si e na relevância do seu trabalho, que é como se o mundo não precisasse mesmo de mais ninguém. E elas nos irritam, nos irritam tanto porque a odiosa superioridade que exibem surge travestida de um delicado ar professoral. É como se elas, a todo instante, precisassem ser adoravelmente didáticas diante do nosso despreparo intelectual e da escassez das nossas conquistas. E usam todas as ferramentas que estão ao seu dispor, do encontro casual ao e-mail, para revelar uma quantidade enlouquecedora de auto-elogios que não despertam outra coisa em nós senão uma terrível sensação de pena e escárnio. Fazem, a si próprias, todos os salamaleques e rapapés que gostariam de ouvir do mundo – e parecem não se abalar com o fato de que o mundo não está preocupado em elogiar seus feitos, pois o mundo percebeu, bem antes delas, que seus feitos não são dignos de elogio algum.

Estas pessoas não compreendem que um homem elegante é, acima de tudo, um homem discreto em relação às suas conquistas. Mostram-se incapazes de conviver com a ideia de que um homem elegante é também um homem paciente, que sabe esperar pelo reconhecimento dos tais feitos e que já aprendeu, em alguma altura da vida, que não existe nada mais constrangedor do que bancar o relações públicas de si próprio. O que nos mantém, e não sei por quanto tempo ainda, próximos destas pessoas é a convicção de que elas não são exatamente chatas – só são momentaneamente insuportáveis. Mas como não as vemos com frequência, sempre temos a esperança de que se mostrarão um pouco mais evoluídas e despidas de si em nosso próximo encontro. E até nisso elas conseguem nos decepcionar. No próximo encontro, tudo que elas são capazes de nos dizer é o quanto foram absolutamente geniais desde a última vez em que nos vimos. Se o mundo ainda não as reconheceu e nem destinou a elas o trono que lhes parecia de direito, o problema é do mundo e tudo não passa, afinal, de uma questão de tempo. Elas já se reconheceram e isso parece bastar.

Estas pessoas também são autoras de uma proeza acima de tudo biológica: já eliminaram o outro de suas vidas. Se tudo que elas gostariam de ouvir escapa de suas próprias bocas, então não se torna mais necessária a existência de ninguém. Elas se encarregaram da limpeza étnica do seu próprio mundinho: fomos primeiramente marcados a ferro, depois incinerados e por fim jogados em uma vala comum, de onde nossa ousada figura jamais deveria ter se levantado para fazer frente ao gigantismo de sua presença. E assim elas seguirão para sempre, satisfeitas e sozinhas, ainda que exista uma corte sempre pronta a aplaudir com falsa sofreguidão o ruído de seus passos. E caminharão convictas de que todo o universo foi gerado com o único propósito de abrigar um dia sua passagem efêmera por aqui. Se uma destas pessoas ler este post, com certeza se perguntará: nossa, mas de quem será que ele está falando? Jamais irão se reconhecer nestas palavras, pois eu sou a voz do outro – e o outro, para elas, nasceu, viveu e deverá morrer mudo.

E antes de dormir, realizadas por mais uma aparição diante das feições mortais que a contemplaram, é altamente provável que elas dirijam um olhar de cumplicidade para o espelho. Pois é ele, o espelho, o único objeto em todo universo que elas próprias criaram ainda capaz de refletir o talento e a grandiosidade dos quais se julgam possuidoras. Nós já nos tornamos cegos para elas. E mudos. E surdos. E indiferentes. E foram elas e sua empáfia que nos deixaram assim. Que o sono possa ser leve e justo para elas e para cada um de nós também. E que a inevitável queda da cama, por fim, não as machuque tanto: o mundo ainda não está preparado para descobrir que elas, assim como nós, também podem ter hematomas.

5 comentários:

Paulo Marra disse...

vc está inspiradíssimo.
o máximo esse texto.
o máximo

Só no blog disse...

Marreta, brigadão pela visita, meu lindo.

Ivam Cabral disse...

nossa, me deu medo, hehe.

Só no blog disse...

Seu bobão!!!!

Anônimo disse...

lindo.

Existe uma cura? Como faço?