segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Cenas do próximo capítulo

Adoro as novelas da Glória Perez por um motivo muito particular. Quando elas estão sendo exibidas, sei que posso ir ao cinema sem o menor receio de estar perdendo alguma coisa bacana. Algo que não ocorria, por exemplo, quando A Favorita entrou em sua reta final: era impossível sair de casa e ficar sem saber quem seria a vítima da Flora naquela noite. E não que A Favorita fosse assim um Roque Santeiro ou um Vale Tudo. Ela era apenas aquilo que toda novela em princípio deveria ser: um folhetim emocionante com personagens do bem que sofrem durante grande parte da trama, para ser compensados no final com uma herança, um amor ou a descoberta de um filho querido e distante, enquanto os personagens ruins terminam mortos, presos ou condenados à infelicidade. Nada assim tão complicado. Tudo bem que Gilberto Braga subverteu esta ordem e nos deixou a todos com cara de bobos ao permitir que o personagem de Reginaldo Faria em Vale Tudo escapasse impune depois de tantas trapaças, e ainda desse uma banana para o país no horário nobre. Gilberto Braga, embora talentosíssimo, nem precisou ser assim um gênio da raça: ele só teve a coragem de mostrar na novela aquilo que estamos acostumados a ver no nosso dia a dia.

Mas por que A Favorita e Vale Tudo, para ficar apenas em dois exemplos, eram novelas deliciosas de ver enquanto que Caminho das Índias, de Glória Perez, é um porre? Minha explicação bem simples: porque em A Favorita e Vale Tudo os personagens falavam como gente normal e nenhum deles tinha a pretensão de revelar uma parábola a cada diálogo. Suas falas cotidianas não tinham a obrigação de se converter em mandamentos sagrados – até porque o nosso mundo real vai um pouco além das páginas da Bíblia, graças a Deus. Vi apenas um capítulo de Caminho das Índias e tenho a certeza de que não preciso ver mais nada. A impressão que eu tive era de que estava diante de uma animação feita a partir da Wikipedia: todos falam por meio de verbetes, ninguém é natural, ninguém é espontâneo. Todo personagem surge em cena, antes de mais nada, para nos dar uma lição de moral, para nos dizer que todas as ações negativas que praticamos um dia vão se voltar contra nós mesmos e para nos ameaçar com as chamas do castigo eterno. Então eu pergunto: para que ver novela se é isso o que elas têm a nos dizer? Não seria melhor ir direto à igreja ou ler os discursos do papa, já que pelos menos eles nos dão estes mesmos conselhos com mais propriedade e terror?

Confesso que imagino um dia na vida de Tony Ramos ou Lima Duarte, dois grandes atores brasileiros. Eles têm de sair de casa cedinho, chegar ao Projac, pintar uma bolinha vermelha na testa, vestir um saiote ridículo e ficar ensinando o Brasil inteiro a diferença entre o bem e o mal, o pecado e a virtude, o céu e o inferno. Nada de uma boa intriga, de um saboroso complô, de uma personalidade sacana que adoramos ver quebrar a cara depois da janta. As nossas noites na Globo viraram uma grande aula de catecismo.

E então decidimos trocar de canal, mas para continuar nas novelas, porque somos fãs do gênero, fazer o quê? E o que nos aguarda na emissora vizinha, a Record? Uma legião de atores com dentadura de vampiros, cabeleiras desgrenhadas, unhas de feras e superpoderes que nos remetem à pré-história dos efeitos especiais. Se em Caminho das Índias os diálogos já são pobres, em Caminhos do Coração, na Record, eles beiram à indigência. Basta um capítulo desta novela para que aprendamos que o amor move montanhas, a fé é o que nos mantêm vivos, o bem sempre vencerá no final e não há extraterrestre no universo capaz de arranhar a dignidade das pessoas de bom coração. Nossa paciência chega ao limite quando todos estes ensinamentos saltam da boca de crianças de seis anos – nesta novela da Record, até os recém-nascidos já se mostram catequizados e doidinhos para descortinar a harmonia do universo diante da nossa boca aberta de sono e incredulidade.

No meio desta aridez de emoções, só nos resta torcer para que um Silvio de Abreu, um Lauro César Muniz e um Gilberto Braga voltem depressa para lavar a nossa honra de noveleiros. Até porque, acabo de conferir a programação de cinema e só há dois filmes que eu ainda não vi. E estou guardando estes dois com a parcimônia de quem reserva uma garrafa de água no deserto: algo me diz que, na falta de alho, é sempre bom ter um filminho na manga para espantar os vampiros da Record e as vacas sagradas da Globo.

4 comentários:

Anônimo disse...

Serginho, em nome da equipe do Lauro Cesar Muniz, prometo fazer de tudo pra prender você em casa quando PODER PARALELO estrear. Lição de moral? necas. Parábola edificante? jamé. Verdades definitivas da existência? quaquaquá. Mas que a gente pretende tocar em feridas públicas, ah, isso sim... E com muito romance, pq ninguém, nem os vilões, é de ferro.
Até.
Mário

Só no blog disse...

Ôba, e só de saber que ninguém vai ter caninos salientes e nem vai ser sócio da Liga do Bem, eu prometo desde já ficar mais em casa! beijão

Vanessa disse...

Eu também fico contando os filmes que ainda não vi, economizando para um dia de desepero total, mas me consolo pensando que posso ir à 2001 e alugar algum clássico, você já percebeu que eles são infinitos?
Ai meu Deus, soei agora como personagem de novela ruim?
Muitos beijos,
Vanessa

Só no blog disse...

Oi, Vanessa, eu também vejo aquelas prateleiras da 2001 e penso que o nosso futuro está salvo. Mas, cá entre nós, R$ 9,50 por locação está caro demais, não está? Deste jeito, até a 2001 empurra a gente pras novelas. Não pode...Beijão