segunda-feira, maio 19, 2008

Ingredientes de primeira: mas o bolo não cresceu.

Quando eu estava no cursinho, tive um professor de inglês nascido em Toronto, no Canadá, que parecia não se dar conta de que havia se mudado para um país tropical. Ele era extremamente formal, avesso a brincadeiras, tinha a pele do rosto constantemente avermelhada e nunca foi visto sem seu guarda-pó branco de mangas longas. Era um tipo exótico e desprovido de senso de humor, o que não o impediu de ser, até hoje, o melhor professor de inglês que eu já encontrei. Um dia, ao falar sobre o emprego dos gerúndios, ele saiu com a seguinte teoria. Segundo ele, quando falamos "I like to dance", queremos dizer que gostamos de dançar, de curtir uma balada ocasionalmente, de não ficarmos sentados nas festinhas. Agora, quando se diz "I like dancing", é bom que se seja um Baryshnikov, pois esta forma só é empregada por aqueles que dançam profissionalmente. Como nenhum outro professor repetiu esta lição, não consegui descobrir, até hoje, se ela tem algum fundamento ou não.

Mas isso não importa. Eu emprego aquela teoria até hoje não para mostrar que meu inglês é melhor do que realmente é, mas para fazer uma distinção, nem sempre precisa e acima de tudo nem sempre justa, entre o esforço e o talento, entre o fazer bem-feito e o fazer com classe e encantamento, entre a aprovação pura e simples e a aprovação com louvor. Esta fronteira costuma ser imprecisa e nebulosa, mas quando conseguimos cruzá-la nos damos conta do abismo que se configurou à nossa frente. Sempre que penso nisso, me vem à mente um exemplo clássico: Marília Pêra canta muitíssimo bem, tem uma noção de ritmo impressionante, sabe dividir, consegue encontrar a carga exata de emoção para cada canção e, em seus dias de bom-humor, bate uma bola deliciosa com os músicos. Com todos estes predicados, Marília Pêra poderia ser uma grande cantora, mas não é. Não consigo me imaginar colocando um CD de Marília Pêra no carro e pegar uma estrada numa manhã de sol. O que impede Marília Pêra de ser, por exemplo, uma Gal Costa? Tudo aquilo que foi dito de Marília pode ser aplicado com as mesmas medidas no caso de Gal Costa. Mas Gal é uma cantora, Marília não. Não estamos falando que uma seja melhor que a outra - cada uma se mostra brilhante no ofício que abraçou.

O que eu quero dizer é que existe algo, um ingrediente misterioso e absolutamente ingrato que separa alguém que sabe cantar de um verdadeiro cantor. Podemos dar a este ingrediente o nome de talento, de dom, de vocação ou mesmo de aprovação coletiva - afinal, chamamos Gal Costa de cantora porque existe um consenso social que a vê como tal. Eu prefiro acreditar, no entanto, que este ingrediente ainda não foi batizado: ele faz parte de algo que nos toca, nos comove e nos convence ainda que não saibamos que nome dar a tal coisa.

Escrevo tudo isso a propósito de um livro que terminei de ler. Ele foi escrito por um profissional respeitado em sua área, um homem que, me parece, dedicou sua vida e sua formação acadêmica ao duro exercício de entender e reinterpretar a realidade. Ou, ao menos, de tentar torná-la um pouco mais compreensível para nós, seus leitores. Neste livro ele deixa clara sua familiaridade com as letras: sua narrativa é fluente, seu poder de observação é considerável e o convite para que o leitor mergulhe em sua história chega a ser quase irrecusável... quase! Ainda assim, ao me aproximar das últimas páginas, tive aquela sensação de que não estava diante da obra de um escritor. E isso me incomodou tanto que me senti obrigado, durante um bom tempo, a pensar no que havia de errado com o livro, em que momento o bolo não tinha crescido se os ingredientes eram bons e o chef, tarimbado.

Cheguei a uma conclusão talvez pueril, mas quem sabe todas as conclusões o sejam. O livro não é bom, como poderia ser, porque o autor nunca deixou sua história seguir sozinha. E nós, como leitores, nunca podemos nos apoderar de uma história que já tem dono, nunca podemos fazer parte de um clube que não nos quer como sócios. Um bom autor, pensei eu, se dilui em sua própria história a ponto de fazer com que ela, a história, tenha uma voz que nos soe mais límpida e agradável do que a voz do autor. Se a cada linha o autor faz questão de se fazer presente, se a todo momento ele se utiliza de algum recurso para nos lembrar de que aquele livro tem dono, se aqui e ali ele tenta nos mostrar como sua experiência pessoal pode ser mais rica e invejável do que a história que ele se propôs a nos narrar, então a comunhão não se faz. Não nos tornamos íntimos de seus personagens, não ouvimos seus sussurros, não imaginamos seus rostos e, o que me parece mais grave na literatura, não podemos fazer parte do seu mundo. Assim, entre nós e o livro cria-se uma barreira intransponível porque não é na erudição do autor que estamos interessados, e sim no convite para entrarmos num mundo do qual ele detém apenas as chaves, mas não todas as sinalizações do caminho.

Creio, então, que um bom autor sabe que em algum momento ele tem de soltar a mão de sua própria história, ainda que ela corra o risco de tropeçar e cair três páginas adiante. Não faz mal. Mais do que isso: ele tem de abrir mão da tentação irresistível de acariciar seu próprio ego. Ao contrário do que parece ocorrer no mundo real, acredito que na literatura não é o olho do dono que engorda o rebanho. Se o autor souber se diluir dentro de sua obra, teremos o prazer de nos reconhecer em seu próprio território e de nos tornarmos íntimos dos personagens que ele criou. Caso contrário, ele terá feito um diário. Ainda que muito bem escrito, mas apenas um diário.

3 comentários:

alberto disse...

cara, tenho certeza que sei de que livro você está falando. e ao ler seu texto, entendi o que me incomodou, ainda que eu tenha gostado mais que você, com certeza. que texto lindo. e como é boa a história do professor de inglês pra pôr a história em movimento! grande abraço!

alexandre staut disse...

bela reflexão... bjs p vc, querido
a.

Marcelo Da Viá disse...

Muito bom esse seu insight, Roveri. Descobri seu blog tardiamente, ontem, e estou gostando bastante. Tenho um blog desde o final de 2009, quando tiver um tempinho dê uma espiada e veja o que acha, abração M
PS: o autor do livro seria aquele famous psicanalista/colunista?

http://oluziada.blogspot.com/