quarta-feira, maio 28, 2008

A cerimônia do adeus

Acreditem: sou um leitor assíduo do caderno de esportes. Se me perguntarem a escalação do Corinthians, eu não saberia dizer. E se me pedirem para citar, assim de pronto, o nome de alguns ídolos do futebol, minha lista não iria além de Ronaldo, Ronaldinho, Kaká e Beckham, mas sem saber em que time cada um deles joga. O que eu tanto vejo, então, nos cadernos de esportes? Os títulos e os resultados dos jogos. Sempre penso que vou pegar um táxi e o motorista vai me perguntar o que eu achei da partida da noite anterior, entre Santos e Portuguesa, por exemplo. Nestas horas, é sempre bom saber que o Santos ganhou de dois a um com um gol aos 43 minutos do segundo tempo. Sei que isso não convence ninguém, mas me garante dois minutos de conversa com o taxista antes que o diálogo rume para as condições do trânsito.

Mas esta semana foi diferente. Li tudo sobre a despedida do Guga das quadras. Também não entendo nada de tênis, não sei o que é um tie-break, não sei o que é uma quebra de serviço e nem com quantos pontos se define um set. Independente disso, sempre achei o Guga um cara legal. Meus colegas de profissão, jornalistas de esportes que costumam entrevistá-lo, dizem sempre que o Guga continua tão simples como era antes de se tornar um campeão. Tenho uma amiga que mora em Florianópolis. Ela vive me dizendo que encontra o Guga na praia e no supermercado. Como ele nunca vestiu o figurino de ídolo, sua figura é tão acessível como o vendedor de mate da praia. Não sei se é verdade, mas acredito que seja. Quando ele disse, na terça-feira, que seu sonho agora era correr a Europa de mochila nas costas e depois fazer faculdade, pensei: pô, este cara podia ser o filho do meu vizinho aqui do prédio. Claro que o Guga vai ser o único mochileiro, acredito eu, a ter 15 milhões de dólares no banco. Mas o mundo está tão de cabeça para baixo que há lugar agora até para mochileiro milionário. Ainda bem.

Na verdade, o que me interessou no caso do Guga não foram seus planos de jovem aposentado e muito menos seu caráter aparentemente avesso a afetações. O que me atraiu, de verdade, foi o ato da despedida em si, foi este momento de dizer adeus quando ainda se está em evidência. Sei que ele foi levado a isso por limitações físicas, mas eu sempre acreditei que existe algo de muito nobre em alguém que resolve deixar a festa quando alguns convidados ainda estão chegando. Sair no auge é, acima de tudo, um ato de muita coragem. Não há nada mais triste e nem mais melancólico neste mundo do que deixar escapar a hora exata de sair de cena.

E é, acredito, o que mais fazemos nas nossas vidas. Deixamos passar o momento certo de abandonar o emprego que já não nos satisfaz, deixamos de sair de uma relação naquele instante exato em que todas as lembranças que carregaríamos conosco ainda seriam boas, deixamos para depois mesmo sabendo que o depois vai nos custar tão caro, mas tão caro que da próxima vez teremos ainda menos coragem de dizer adeus. Talvez evitemos as despedidas por medo. Medo de ficarmos sós, medo de termos menos dinheiro, menos prestígio, menos poder. Quando dizemos adeus a alguma coisa, trocamos tudo o que julgávamos conhecer bem por um futuro aparentemente incerto. Devemos nos sentir como aquele trapezista que, durante um segundo, soltou as mãos de um trapézio e encontra-se apavorado enquanto o trapézio seguinte não chega. O problema é que a vida costuma ser mais cruel e menos prudente do que o circo: há uma chance imensa de o trapézio seguinte não chegar a tempo e a certeza absoluta de que a rede de proteção não encontra-se armada aos nossos pés. Talvez cairemos de boca na serragem do picadeiro. Mas eu me pergunto: haverá, nesta vida, um momento mais valioso do que estes segundos que simbolizam a queda? Haverá, nesta vida, um outro momento em que levaremos tão a sério o nosso ideal de liberdade? Haverá, nesta vida, um único momento em que o vento nos soprará no rosto com tanta emoção e tanto pavor? Dizem que nós somos os únicos animais que sabem rir, que têm a consciência da finitude e a capacidade de se reconhecer na própria imagem. Mas eu acho que somos, para muito além de tudo isso, os únicos animais que podem dizer adeus.

E, no entanto, isso ainda nos parece tão dolorido. E vamos nos fiando nas migalhas de um amor que nunca se completa, na esperança de um dinheiro que nunca será suficiente para cobrir o saldo negativo da nossa alma, na bondade de um Deus que nos virou as costas no momento em que nascemos, na paciência de um chefe, na boa vontade de um amigo, na ilusão da arte. Sei que é isso que temos. E sei também que isto é ótimo. E é muito. E é, às vezes, até mais do que precisamos e merecemos. Mas, ironicamente, é de tudo isso, ou de parte disso, que precisamos nos despedir às vezes, em busca de um amor maior, de uma queda que, ainda que pela força da gravidade, desenhe um sorriso no nosso rosto. Sei que não teremos, na totalidade das nossas vidas, uma despedida tão coberta de honras como foi a do Guga. Mas já que a vida nos privou deste holofote derradeiro, que fiquemos atentos, ao menos, para saber o momento preciso de dizer adeus baixinho a alguém ou a alguma coisa. Antes de que chegue aquela hora, fatal para qualquer um de nós, em que, ao dizermos este adeus, já estaremos mortos há muito tempo para aquele alguém ou aquela coisa. E assim não conseguiremos ser nobres nem na hora de ir embora. Que a mochila do Guga lhe seja leve.

5 comentários:

alberto disse...

parabéns, querido. o texto me deixou sentado na ponta da cadeira , com respoiração curta e lágrimas nos olhos. [[]]

Barbara disse...

Ai Massa, passei aqui, por acaso, para invejar sua assiduidade no blog e seu texto. Mas achei tão triste isto. Nem sempre é boa a hora de dizer adeus, e o Guga foi obrigado, sim. Mas o adeus, às vezes, é tão libertador, né?!
E, sim, eu encontro o Guga direto nos lugares mais prosaicos, pode ser que agora seja mais difícil porque ele vai virar mochileiro...

Só no blog disse...

Hummmmm, quem disse que era você a amiga de Florianópolis??? Eu tava falando do Espiridião Amim, tá?

Kiko Rieser disse...

Acompanho há certo tempo seu blog, mas nunca havia deixado um comentário. Seus textos aqui são maravilhosos, assim como as suas peças (embora eu só conheça três). Parabéns!

Só no blog disse...

Oi, Kiko, muito obrigado pelo carinho e pela gentileza de ter escrito aqui. Por falar em peça, semana que vem estréia uma nova, chamada A Coleira de Bóris, algo diferente de tudo que eu já fiz. Espero que você possa ver. Grande abraço, Sérgio