sexta-feira, março 07, 2008

Sobre gatos e um gato*

Tenho dois gatos e me pergunto quase diariamente se eles são felizes. Não que falte alguma coisa a eles, alguma coisa que se pode comprar num pet shop, eu quero dizer. Mas eu os observo muito, na tentativa de descobrir o que mais eu posso lher oferecer além de um prato de ração, água da torneira (eles não tomam água na vasilha, de jeito nenhum) e um banheirinho de areia limpo todas as manhãs. Observar gatos, isso eu garanto, acalma mais do que repetir um mantra ou brincar com um jardim japonês. Em primeiro lugar, porque os gatos dormem mais de 15 horas por dia, o que torna esta observação um inigualável exercício de calmaria. Depois porque, quando acordados, eles nos dão algumas lições de elegância, alongamento e postura que meu corpo, infelizmente, já não é mais capaz de assimilar e reproduzir. Li, há muito tempo, uma entrevista em que o ator Anthony Hopkins, ao ser perguntado que tipo de pesquisa ele havia feito para compor o Hannibal, seu terrível personagem em O Silêncio dos Inocentes, respondeu com a maior naturalidade. "Não fiz pesquisa nenhuma, só passei a prestar mais atenção nos gatos. Tudo que eu usei para compor o personagem, aprendi com eles". Acho que os gatos não gostariam de saber disso.

Do casal de gatos que tenho hoje, o Pirulito foi o primeiro a chegar em casa. Eu o comprei por 150 reais em um pet shop em Pinheiros que já não existe mais. Na época, acreditei estar adquirindo um siamês. Quando o levei ao veterinário, já maiorzinho, descobri que se tratava de um vira-lata com algum parentesco muito distante com um legítimo siamês. "É o que eles chamam de siamês-bolinha", disse o veterinário. "Para os criadores, é uma maneira caridosa de dizer que o bichano não passa de um vira-lata. Um siamês pode ser tudo, menos bolinha". Pirulito tem os caninos muito avantajados, parece um vampirinho. Não um vampirinho de verdade, é claro, o sorriso dele lembra mais aquelas dentaduras de brinquedo que os meninos usam em festas à fantasia para imitar o Drácula. Passei vários meses tentando explicar ao Pirulito que ele não é um cachorro, que ele não tem de buscar com a boca a bolinha de papel que eu atiro longe, que não precisa fazer festa para todas as visitas e muito menos me acordar todas as manhãs. Não tive sucesso - mais o tempo passa, mais ele se torna habilidoso nestas práticas tão caninas. Pirulito é um gato amoroso, tão amoroso que me faz sentir culpado por dar menos atenção do que ele merece.

Quando o Pirulito já tinha um ano, arrumei uma companheira para ele, a Ritinha, também uma siamês-bolinha para que ele não se sentisse o último de sua espécie. Não sei se por se encontrarem neste limbo entre a sarjeta e o pedigree, o certo é que Pirulito e Ritinha vivem um caso de amor desde a chegada dela aqui em casa. Eles dormem juntos, lambem-se romanticamente por horas e ainda respeitam uma hierarquia que me parece estranha: na hora da comida, Pirulito é o primeiro a se servir. Só depois que ele terminou é que a Ritinha, submissa, faz sua refeição. Para compensar isso, o primeiro xixi matinal com a areia limpa é sempre o dela. Eles só deixam de ser assim britânicos quando entra uma mosca ou borboleta pela janela do 13º andar do prédio em que vivo. Quando isso ocorre, não tem para ninguém. O que sobrou do instinto deles parece transformá-los em dois tigrinhos que se mostram impiedosos diante de sua caça. Depois que dominam o bichinho, não sabem o que fazer com ele.

E assim os dias deles vão passando: duas horas dormindo aqui, outras duas ali, comida, xixi, um ronronar, um colo e eventualmente um mosquito. E é exatamente isso que me deixa triste: será que eles têm noção de que existe um mundo lá fora, com cestos de lixo a serem revirados, telhados de casas a serem usados como motel, pardais, ratos e lagartixas aptos a se converterem em um luxuoso banquete, o perigo dos faróis dos carros, o frio e a chuva das madrugadas, os garotos que atiram pedras, o coraçãozinho batendo mais forte e as pernas tendo de levá-los cadaz vez mais depressa para longe dos perigos? Eles nunca viram nada disso: nasceram num pet shop, de lá entraram no meu carro e vieram parar aqui em casa, onde estão há cinco e quatro anos, respectivamente. E é tudo isso que eles sabem do mundo. Para adaptá-los ainda mais ao nosso convívio higiênico e seguro, ao menos dentro das casas, eles foram castrados quando tinham menos de um ano. "É a melhor coisa que podemos fazer por eles", me convenceu o veterinário. "Eles sofrem muito quando não são castrados".

E desta forma, protegidos das ameaças externas e privados de seus sexos, Pirulito e Ritinha compartilham da minha casa e são, até o momento, a única familiazinha que eu tive competência para criar, manter e administrar. Para mim, parece que está tudo bem. Mas tenho medo de que, caso um dia pudessem falar, eles me encarariam e se sairiam com essa: "Com que direito, seu Sérgio, com que direito? Nós não temos culpa se você nasceu humano, mas nós somos gatos. Por favor, não queira nos igualar. Isso nos ofende muito. Esta vida que você tem a nos oferecer é vida de gente".

Antes do Pirulito e da Ritinha, eu tive o Chiquinho, um gatinho persa maravilhoso. Uma prima vivia dizendo: mas isso não é um gato, é um príncipe. Um dia, eu o levei para Jundiaí. Ao conhecer um quintal, a grama, o cheiro do vento, as gotas de chuva, a delícia dos muros altos e o sol a aquecer diretamente seus pêlos longos e dourados, Chiquinho não quis mais voltar para São Paulo. Agarrou-se nas saias da minha mãe e não entrou no carro de jeito nenhum. Virou um gato do interiou, vivia sujo, com terra nas patinhas e capim preso na pelagem. Chiquinho experimentou por pouco tempo o gosto da liberdade. Um dia, pulou na casa do vizinho e, dizem, levou uma paulada que lhe rompeu a coluna e provocou uma morte lenta. Quando penso no Chiquinho, sinto uma saudade danada dele. Mas algo me consola: Chiquinho, aqui no meu apartamento, não viveu como um gato. Mas morreu como um, lá em Jundiaí. Uma vozinha lá no fundo me diz que, ao dar seu último suspiro, Chiquinho estava feliz por, finalmente, ter honrado sua natureza de gato.

* Este post é meu presente de aniversário para o Ruy Cortez, amigo querido, diretor talentoso e, acima de tudo, um gato.

10 comentários:

ruy disse...

Sérgio!!!! Amei o presente!!!! Não podia ser mais lindo.... o texto que te pedi. Já copiei..... rsrs .... e guardei no computador....Maravilhoso..... escrito com essa mão inspirada e esse olhar tcheckoviano.... Te adoro.... Muito obrigado mesmo.... mil beijos
Ruy

Cassandra disse...

Vai ver o Pirulito come primeiro para ver se não está envenenado, aí a Ritinha come em seguida, hehehe. Era assim antigamente, como um escravo/servo e sua rainha.

Que animal esse vizinho que matou o Chiquinho!

Adoro gatos... ^^

alexandre staut disse...

Como disse o Ruy, inspirado mesmo... bj para vc, querido...

Martha disse...

Querido sergio temos algo em comum.Um dos nossos oito gatos de estimaçao tambem se chama Pirulito e bebe agua na torneira.

Blog do Massa disse...

Oi, Martha, que legal saber disso. Tenho certeza de que o seu Pirulito é um gato nota dez...Também, com este nome. Beijão

Anônimo disse...

tenho um gatinho bebe não sei como o vou xamar. é branco e tem uma mancha preta,asseito sujestões.

Blog do Massa disse...

Branco com uma pinta preta? Que tal jabuticaba?
É um nome muito comprido para um gatinho?

"Belezas e Encrencas" por um Assessor de Imprensa disse...

Uau! Texto incrível. Eu, por muito tempo tive medo dos felinos, até conhecer uma que me tirou todas as antigas impressões. E hoje, lendo seu texto vi que indiferente do formato familiar que decidimos criar, o mais importante é cativar, administrando da melhor maneira o bem-estar dos nossos.

O seu blog já está em meus favoritos! Super, super!
Ah, eu também tenho um. Se quiser passar, sinta-se a vontade.
www.belezasencrencas.blogspot.com

Abraço,
Renan.

Só no blog disse...

Renan, muito obrigado pela visitinha aqui. Com certeza passarei pelo seu blog também. Abração.

Autor do blog disse...

eu também tenho uma siamês bolinha e um gato-vaquinha. eles vivem de maneira bem parecida com os seus!
sempre que eu estou muito tenso, observar o sono deles me deixa bem melhor!
gostei muito da postagem.
um abraço!