terça-feira, março 18, 2008

Este Valdir não vale nada, credo.

Uma hora dessas ainda vou levar uns sopapos no metrô por minha mania de ficar prestando atenção na conversa dos outros. Sei que é uma prática deselegante e invasiva, mas não consigo evitar. Embarco com livros, revistas e até o jornal do dia ainda não lido, mas é tudo inútil. Basta eu ouvir alguém perguntando para o acompanhante algo do tipo, sabe o que me aconteceu hoje?, que não há notícia quente, palavras cruzadas ou o último capítulo de um belo romance que segurem mais minha atenção. Minha cabeça irá se voltar para o canto de onde partiu a pergunta, vou aguçar meus ouvidos como um felino na hora da caça e os olhos vão crescer como os de uma coruja em noite sem lua. A partir deste momento, não existe nada mais importante no mundo a não ser saber o que de tão especial, ou de tão banal, aconteceu na vida daquele estranho tão bem-vindo.

Aprendi algumas coisas nestas observações indiscretas. A primeira delas é que os homens conversam menos e seus diálogos têm muitas e intermináveis pausas. É como se eles discutissem alguma questão de física quântica, que exigisse um raciocínio elaboradíssimo antes de cada resposta, quando, na verdade, um só perguntou para o outro se no dia seguinte é o dia do seu rodízio. Parei de prestar atenção na conversa dos homens, elas me ensinam poucas coisas e só reforçam uma antiga idéia de que o mundo masculino anda bem chatinho. Mas quando as portas do metrô se abrem e entra um grupo de mulheres, ah... a redenção. Se elas estão de uniforme, então, o prazer virá redobrado, pois sei que, assim que se acomodarem, vão dar início ao assunto que eu mais gosto na vida: conversas de repartição.

Por isso é ótimo pegar o metrô por volta das seis ou seis e meia da tarde. Assim que o trem pára na estação Consolação elas começam a subir e eu já rezo para que dêem início imediatamente à conversa - já que temos pouco mais de cinco minutos até a estação Paraíso, onde todos nós vamos descer. E não há nada mais triste no mundo do que desembarcar sem conhecer o final de uma boa história.

Semana passada três moças de uniforme azul-marinho deram de falar de um tal de Valdir, o chefe delas, é claro. Um carrasco, este Valdir. Nunca o vi na vida, mas se for verdade tudo aquilo que andam falando dele no metrô, ele é um sujeitinho desprezível. O Valdir faz intrigas, joga uma funcionária contra a outra, promove uma moça incompetente no lugar daquela funcionária dedicada e, ainda por cima, adora tirar o corpo fora quando algo dá realmente errado, deixando a bomba estourar nas mãos de suas subalternas. Alguém da repartição criou no Orkut uma comunidade contra o Valdir e, já que as moças não podem fazer nada contra ele no mundo real, elas andam se divertindo muito ao ver as mazelas do Valdir expostas no espaço virtual. O chato é que elas perderam o tempo entre duas estações só divagando sobre quem teria criado a tal comunidade, enquanto eu, agoniado, tinha vontade de gritar no vagão: isso não importa, falem mais do que o Valdir anda fazendo...

Agora, quando vejo que a cidade está parada em virtude dos seis milhões de carros que entopem nossas ruas, surge em mim uma pontinha de excitação. Hoje vai ter gente nova no metrô, penso eu. Uma categoria que rende uma conversa um pouco enfadonha, mas relaxante, é a de jovens mamães, sempre interessadas em saber se o filho da outra come mais, dorme melhor e é mais bonzinho que seus próprios rebentos. Um dia, juro por tudo que é mais sagrado, havia duas mulheres com bebês de colo. Daí uma perguntou para a outra: é seu primeiro filho? A outra respondeu assim: não, eu já tenho um de dois anos. Mas aquele lá é bem melhor do que este aqui. Este aqui não tem caráter... Coitadinho do bebê, não devia ter mais do que quatro meses de idade e já estava sendo difamado em público. Estudantes de cursinho também falam muito, mas quase sempre das mesmas coisas: quem anda azarando quem e qual professor tem exagerado no ritmo. A coisa mais chata é quando alguém senta ao nosso lado e dorme. Quanto tempo perdido....

Mas das centenas de conversinhas que eu vou roubando sem pudor algum, a minha predileta continua sendo a que ouvi numa agência do correio que funcionava na rua Heitor Penteado. Era a semana do Natal e as filas estavam imensas. Duas atendentes silenciosas tentavam dar conta de tantos clientes, tantos selos e tantos carimbos. Até que uma delas, a mais gordinha, parou tudo por alguns segundos, olhou para a companheira e disse: "Eu estava aqui pensando....". Imediatamente a outra parou o que estava fazendo para ouvir. Estiquei o pescoço e me preparei para a pérola da semana que se anunciava. "Sabe o que eu resolvi fazer? Eu vou comprar um carnê do Baú da Felicidade só para mim. Vou mesmo". Dito isto, as duas voltaram a se ocupar das cartas e sedex e não disseram mais nada por um bom tempo. E eu voltei para casa feliz da vida por ter, mais uma vez, a confirmação de que não é nos livros ou no cinema, mas no nosso cotidiano tão miudinho, que brotam as revelações e os acontecimentos mais deliciosos deste mundo.

3 comentários:

Patrícia disse...

Serginho,vc é um barato mesmo...

alberto disse...

cara, eu faço a mesma coisa! o tempo todo. também acho que um dia vou levar uns sopapos.

Barbara disse...

É Massa, a realidade é muito melhor que a ficção. Você não é o único.