terça-feira, outubro 02, 2007

Um dedinho de prosa

Não sei se é impressão minha, mas acredito que as pessoas do interior, como eu, adoram dar explicações que vão muito além do necessário, ou do esperado. Na maioria das vezes, um sim, um não ou um muito obrigado já seriam suficientes para responder a quase todas as questões que nos apresentam. Mas nós, eternamente caipiras, nunca nos contentamos só com isso. Nenhuma dúvida parece estar suficientemente esclarecida até que revelemos parte de nossa intimidade ao mais completo estranho. Vejo isso em minha mãe. Se uma visita, por exemplo, elogiar o pedaço de bolo ou torta que ela oferecer, minha mãe jamais irá se satisfazer com um muito obrigado. Ela, seguramente, sairá com esta resposta: "Imagine, tão fácil de fazer. Olha só: vão três ovos, um copo de leite morno, a mesma medida de leite condensado, duas colheres de manteiga..." Pronto, o visitante, feliz ou não, irá embora levando de presente uma receita na cabeça.

Se você resolver elogiar a roupa de alguém do interior, é quase certo que também sairá da conversa com um guia de compras cheio de ótimas dicas. Tenho uma prima que é assim. Se alguém disser, "nossa, que blusa bonita", ela vai responder "ah, paguei só 35 reais naquela loja que fica perto do correio, sabe? Na verdade, custava 40 reais, mas como era a última peça deste número, a moça fez um desconto, até porque ficou um pouco justa e, está vendo este botãozinho aqui, então, ele veio meio solto e eu tive de dar um pontinho quando cheguei em casa. Mas olha, pra ficar em casa, está bom demais, não está?"

Eu não sei se rio ou choro diante destas situações, pois me pego fazendo a mesma coisa quase todos os dias. Quando eu tomo um táxi e o motorista me pergunta para onde eu quero ir, além de dar o endereço eu digo o que estou indo fazer lá, por que não fui de metrô, se é dia do meu rodízio, se estou a trabalho ou a passeio e, se não chegarmos logo, sou capaz de dizer qual o saldo da minha conta bancária. Outro dia estava tomando chope com um amigo do interior de Minas, bonitão, jovem e ator descolado. No fundo, tão bocó quanto eu. Quando o garçom perguntou se ele queria o terceiro chope, em vez de responder não, muito obrigado, ele saiu com exatamente isso: "Não vou querer, não. É que, saindo daqui, eu vou na casa de uma amiga que mora aqui perto e acho que lá só tem vinho, porque ela está de regime. E eu não quero misturar, porque amanhã é domingo e eu trabalho mais cedo". O garçom olhou para a cara dele, virou as costas e foi embora, equilibrando um copo de chope na bandeja e, provavelmente, sem dar a mínima bola para as combinações etílicas ou os compromissos dominicais do meu amigo.

Não sei se foram todas as cadeiras na calçada da nossa infância, todos os portões e janelas abertos, toda falta de cerimônia na hora de entrar na casa dos vizinhos, todas as brigas ouvidas através das paredes das casas geminadas, todas as rodinhas que se formavam na frente de qualquer boteco, todas as novenas, todas as procissões, todos os recados que levamos e trouxemos numa época em que telefone era coisa de rico, todas as festinhas em que entrava qualquer um, todas as quermesses em que dedicávamos músicas de amor nos alto-falantes, todas as festas juninas no terreno baldio, todo jogo de bola nas ruas sem carro, tudo isso e nossa eterna aversão interiorana ao isolamento nos deixaram assim: loucos para falar muito mais do que a prudência nos recomenda. Mas existe uma questão que para mim continua sem resposta: falamos tanto por sentir orgulho real dos nossos atos ou por que, na falta de atributo melhor, jogamos todas as fichas na nossa sincera ingenuidade?

Só existe uma coisa que nós, do interior, gostamos mais do que falar: é exibir as cicatrizes das nossas cirurgias e contar quantos pontos levamos... Mas isto é assunto para outro dia. Estou começando a desconfiar que por hoje já falei demais.

Um comentário:

fezoca disse...

seu texto eh o maximo! :-)
cheguei aqui por recomendacao da Rê Gallo e nao sai mais. Rri muito dessas caipirices, porque me vi nesse mundo do interior, apesar de ja ter saido dele ha anos. beijo pra voce,