sábado, agosto 25, 2007

Panorama visto da ponte


Cheguei ao cinema 20 minutos antes do início da sessão de A Ponte (foto), na noite de sexta-feira, com medo de encontrar lotada a única sala da cidade, no Shopping Frei Caneca, em que este devastador documentário americano está sendo exibido. Assim que terminou a sessão anterior, a responsável pela faxina entrou na sala para recolher os costumeiros saquinhos de pipoca e, alguns minutos depois, saiu de lá com o seguinte comentário: "E eles ainda colocam uma música de amor quando termina". Talvez estivesse aí, na sábia conclusão da faxineira, a principal crítica a ser feita a este documentário feito durante o ano de 2004 na paisagem da monumental Golden Gate, na baía de São Francisco: o filme é tão dolorido e perturbador que a tentativa de injetar algum lirismo em sua história por meio da trilha sonora apenas banaliza e torna melodramático aquilo que nasceu para ser simplesmente áspero e indigesto.

A Ponte é um documentário sobre as pessoas que procuram a Golden Gate para se suicidar. Somente em 2004, 24 pessoas saltaram para a morte de sua gigantesca estrutura cor de laranja. Levaram em média de quatro a sete segundos para atingir as águas geladas e revoltas do Pacífico, a uma velocidade de 200 quilômetros por hora - em alguns casos, o coração deixa de bater antes que o corpo se espatife na água. Há menos de 3% de chance de alguém sobreviver à queda - e ainda que isso ocorra, o resgate da vítima é extremamente dificultado pela imprevisibilidade das correntes marítimas naquele ponto. Os letreiros apresentados ao final da projeção revelam uma aritmética sinistra: os 24 saltos obedeceram à média de dois por mês, religiosamente. Três corpos jamais foram encontrados.

Que nenhum eventual leitor desista de ver o documentário por julgar que eu já revelei, no parágrafo anterior, mais do que deveria - estes pobres números não fazem a mais remota sombra diante das tragédias humanas, dos relatos de desespero e solidão, de revolta e arrependimento que o documentário revela por meio dos depoimentos dos amigos, parentes e pais dos suicidas. Como qualquer obra que desrespeita aquele território comum em que nossa razão e nossa emoção costumam trafegar, A Ponte é um filme que exige muito tempo para ser absorvido e analisado de uma maneira mais crítica. Talvez por tocar em um dos tabus mais misteriosos de nossa civilização, o suicídio, um ato que ainda flerta com os nossos conceitos de religião, de Deus, de pecado, de ressurreição, de vida após a morte, de infração suprema, de continuidade da espécie e, acima de tudo, de suecsso; talvez por focalizar um certo tipo de morte cuja contabilidade nunca será devidamente fechada, deixando, aparentemente sobre as costas de quem fica, um saldo impossível de ser quitado. O certo é que A Ponte incomoda a cada minuto de projeção - quando não é pelas imagens, de um realismo que nos desperta com a força de um bofetão, é pelos depoimentos. Dois são especialmente doloridos - o de um pai, aparentemente pacificado com a idéia de que seu filho jamais encontraria paz na vida e por isso saltou para uma dimensão em que ele seria mais feliz, e do amigo de um outro suicida, que diz, entre lágrimas, ter tido vontade de invadir o Instituto Médico Legal de São Francisco somente para gritar, diante do corpo do amigo morto, que ele não tinha o direito de fazer o que fez.

Senti vontade, em vários momentos, de abandonar a sessão, sob o argumento de não entender por que eu estava me submetendo àquele espetáculo de uma humanidade doloridíssima. Acostumados que estamos à violência nas telas trazida nos filmes policiais e de aventura, levamos uns belos minutos para acreditar que aqueles corpos que despencam da ponte não são bonecos, não são dublês, não são atores com salários milionários e seguro-saúde. São pessoas comuns que chegaram a um ponto a partir do qual parece não haver mais possibilidade de continuar. Há um impulso instintivo - e que se traduz em revolta - diante da impossibilidade milaculosa de impedir o salto. E a revolta, obviamente, se dirige então à grande questão ética do filme. O que era mais importante para os documentaristas: impedir os suicidas de saltar e não ter o filme ou deixar que eles se atirassem às águas feito imensos e desajeitados pássaros sem asas e com isso garantir imagens de rara contundência? Leio hoje nos jornais que os cineastas alertavam a polícia sobre cada pessoa em atitude suspeita em cima da ponte, mas nem sempre o socorro chegou a tempo. Os 24 casos em que a polícia chegou tarde renderam o documentário. Difícil de engolir - e difícil de ver.

Saí do cinema e corri desesperado para o bar dos Parlapatões, na sempre fervilhante Praça Roosevelt. Precisava, como poucas vezes na vida, ver os amigos, ouvir gargalhadas, captar histórias engraçadas e disfarçar o suor das mãos diante de um copo de cerveja gelada. Agora, pensando novamente no filme - talvez eu não tenha feito outra coisa desde ontem à noite -, chego à mais dura e à mais óbvia das conclusões: a vida não dispõe de um diretor que dá um grito de corta antes do salto. A partir da hora em que nascemos não há mais ensaios, não há mais dublês, não há mais efeitos especiais - estamos condenados a um plano seqüência que irá perdurar até o fim dos nossos dias, sem retoques e sem uma segunda chance. O grito final de corta virá, sim. Resta saber da boca de quem. No caso dos 24 suicidas do documentário, coube a eles decidir que o filme de suas vidas tinha chegado ao fim. Infelizmente longe, muito longe de um happy end.

Em tempo: não precisava ter chegado tão cedo ao cinema. Havia apenas nove pessoas na sessão.

4 comentários:

Patrícia disse...

Caramba...fiquei curiosa,mas não sei se sou macho o suficinte para ver isso.Beijos.

alberto disse...

que bela reflexão, cara! eu estava em dúvida. agora não estou mais. vou ver amanhã. e parabéns pelo "cidadão". é um trabalho bacana e necessário.

Kadu disse...

li a reportagem da folha, e nela li sobre um livro que analisa a carta dos suicidas, corri para compra-lo, mas quando abri e li umas folhas, aquilo era t�o pesado, com uma energia t�o baixa que deixei por l� mesmo, n�o sei pq , mas tem um mist�rio nesse assunto que nos faz querer saber o porque...Parab�ns pelos textos...
abra�os

Rafael Baialuna disse...

O típico filme que a Jú não gostaria de ver, mas agora vou arrastá-la pra sessão!.. rsrs!