quinta-feira, agosto 02, 2007

O dono do mar

Fui assistir à pré-estréia do filme O Dono do Mar, do diretor Odorico Mendes, baseado no livro do ex-presidente José Sarney. Pouco antes do início da sessão, um dos atores, microfone em punho, disse que tinha gostado muito de participar do filme, "independentemente do resultado". Achei a colocação um pouco estranha. Quase duas horas depois, quando a projeção terminou, entendi o que o ator estava querendo dizer. O Dono do Mar é um daqueles filmes que temos dificuldade de definir ou mesmo emitir uma opinião a respeito. EStá longe de ser bom, mas também não é ruim no sentido mais clássico da palavra. Há alguma coisa em seu arremedo de narrativa, uma certa estranheza no colorido exagerado de sua fotografia, na pobreza de seus efeitos especiais, no amadorismo de alguns atores e na quantidade inexplicável de nudez que a questão parece inevitável: estamos diante de um filme trash e, por isso mesmo, candidato a cult? Ou é apenas mais um desastre do cinema nacional endossado por uma fileira invejável de patrocinadores? Tudo aquilo que se revela como uma cinematografia pobre e uma aparente ausência de técnica teria sido proposital? Odorico Mendes, de sólida carreira no mercado publicitário, ousou ou apenas errou feio? Diante de tantas perguntas sem resposta, fica realmente difícil falar a respeito de O Dono do Mar. Assim, prefiro ficar com a definição dada pelo meu amigo Ricardo Moreno, que me convenceu a ir à pré-estréia mais interessado em ver de perto uma das atrizes do longa, a belíssima Paula Franco, do que assistir ao realismo fantástico de José Sarney transposto para a tela. "Isto é uma mistura de Tarantino com Gerald Thomas e Didi Mocó", disse-me ele ao final. Concordo. Infelizmente, o alquimista não manipulou a receita com equilíbrio - e o gosto que ressalta na boca é somente o de Didi Mocó.

Mas existe um detalhe que realmente me chamou a atenção nesta produção - e me deixou sinceramente triste. O Dono do Mar levou dez anos para ficar pronto. Dez anos! Imagino o que seja você gastar dez anos em cima de um projeto que, sejamos francos, vai resultar em 90 minutos de uma projeção que ficou longe de agradar a platéia presente na pré-estréia. E que reúne poucas chances de cair nas graças do público pagante a partir desta sexta-feira, dia 3, quando entra em cartaz. Deve haver algo de quixotesco em Odorico Mendes e nos produtores do filme. Fica claro que também parece ser mais fácil lutar contra moinhos de vento quando se tem o patrocínio da Petrobrás, da Embraer e de todas as outras estatais atraídas pelo nome da família Sarney nos créditos. Os atores surgem em cena muito mais jovens do que estavam ali, no saguão do HSBC, recepcionando o público. Sérgio Marone disse que nem se lembrava direito do que fazia no filme - comprovando que em alguns casos o esquecimento é mesmo um bálsamo. Regiane Alves era quase uma garota, embora já desse pistas de que se tornaria uma atriz de bons recursos. Por tudo isso, acredito que O Dono do Mar nos queira dizer alguma coisa. Não como o resultado que se vê nas telas - mas como uma história que nos obriga a pensar sobre a produção artística neste país, seus resultados, seus meios de financiamento e, acima de tudo, sobre o que fazemos com dez anos de nossas vidas. Sejam quais forem eles.

11 comentários:

Anônimo disse...

deve ter sido pela quantidade de dinheiro que embolsou o odorico mendes para suas 04 esposas e vários filhos, drogas e loucuras que o fizeram um fracasso no mercado publicitário. isso você pode ter certeza... eu estava lá para ver. jurei que este filme não sairia mas, saiu porque com certeza o sarney deve ter lhe perguntado o que aconteceu e ele é muito mais poderoso do que o netinho do negritude junior... tente descobrir o que aconteceu com o filme que o mesmo odorico resolveu fazer com o vocalista do negritude. embolsou a grana. todo mundo sabe mas, o publico não vê.... só sente no resultado.

Anônimo disse...

Também me lembro do episódio do Negritude Junior. O filme nunca ficou pronto? E o dinheiro que o diretor arrecadou, onde foi parar?

Anônimo disse...

O grupo de pagode Negritude Jr. não está para brincadeira. Na quinta-feira 27, seus integrantes foram ao 26. Distrito Policial de São Paulo para abrir um inquérito contra Odorico Mendes, da Chroma Filmes. O cineasta teria recebido do grupo cerca de R$ 600 mil, em 1998, para iniciar as filmagens do longa-metragem Negritude - Drama Urbano, orçado em R$ 2 milhões. Parte do faturamento do filme seria revertido para o projeto comunitário da Cohab Carapicuíba, que é presidido pelo líder do grupo, Netinho. "Ele não só lesou o grupo como uma comunidade", protesta o vocalista. "O dinheiro foi gasto durante a produção", rebate Odorico.

Blog do Massa disse...

Oi, pessoal, obrigado pela visita ao meu blog e pelos comentários. Eu procurei me limitar ao assunto O Dono do Mar até porque, confesso, não sabia (ou não me lembrava) deste outro episódio que vocês abordam aqui. Grande abraço.

Antonio disse...

Tem que existir um limite de valor para financiamento público de produções cinematográficas. É possível fazer bons filmes com "pouco" dinheiro. E bons. Vide Pasolini, Fassbinder. No Brasil temos o "Cheiro do Ralo". Além disto, a tecnologia digital permite a redução dos custos de produção. "Cama de Gatou" não saiu, em modo cooperativo, por R$ 30.000,00 ? O problema é sempre o mesmo. No capitalismo brasileiro, são raros os que querem assumir riscos. Além disto, qual seria a causa deste fetiche por cinema ? Existe a TV. Que tal ser criado um canal público, aberto, especializado em cinematografia nacional, para criação de público - ou compensar a carência em salas de cinema -, como HBO ? Com propagand entre filmes, para se financiar ?

Lissandra disse...

entendo bem pouco de cinema, mas pergunto aos distintos...
alguém aqui se deu o trabalho de ler o livro do Sarney??
Parece-me que não!
Só sinto por isso...
Talvez assim entendessem o "fiasco" (dito por vocês) do filme, que pra mim, parece mais ser despeito, ou simples falta de sensibilidade sua(s)!
Queridos, infelizmente, o tão falado dinheiro já foi gasto!
Se no filme ou não, não importa mais...
O que importa é que, em vez de tentar valorizar, um pouco que seja, o que é brasileiro, aqui me parece que os distintos acima preferem um idiota besteirol americano...
Fiquem felizes com suas produções americanas!
Eu, prefiro o Dono do Mar...

Atenciosamente... Lissandria

Anônimo disse...

Quase não entendo de cinema mas gostaria de comentar minha satisfação em ter assistido "O DONO DO MAR" no teatro de minha cidade com a presença dos atores Jackson Costa e Pepita Rodrigues que participaram do filme,lí a obra e esperava ansiosa pelo lançamento do filme,e fiquei encantada com as adaptações e de como foram fiés a obra dentro do possível,não deixaram nada a desejar.O que não se pode é criticar sem pelo menos ter lido o livro,total dispeito e desvalorização com as produções brasileiras,e com o trabalho de atores brasileiros que deram um show de atuação o resto é conversa fiada.

Iris disse...

"Dispeito"?

O fantasminha aí de cima só pode ser um dos atores do filme.

E essa Lissandra, coitada, prefere valorizar lixo brasileiro só porque tem um carimbo de "brasileiro" enfeitando em cima. Pura falácia. Nem tudo que é brasileiro é ruim, assim como nem tudo que é brasileiro é bom.

São atitudes como a sua, de conformismo, de contentamento com misérias, que dão continuidade às misérias do "nosso Brasil brasileiro".

Não foi aqui mesmo no Brasil que 70% aprova a qualidade de ensino no país? A maioria dá nota 7 às escolas. Apenas 9% dão nota inferior a 5 aos estabelecimentos de ensino.

E ainda empurram a questão com a barriga: para 68%, ela é de total responsabilidade dos governantes.

Assim como você: "se (o dinheiro) no filme ou não, não importa mais...". Óbvio que importa: o dinheiro é nosso, se é gasto para uma meia dúzia encher a pança, pra quê pagar imposto? Pra que rasgar nosso suado dinheiro?

Desculpe o longo desabafo, sr. dono do blog. É que não gostaria de viver num país com gente como a moça acima de belo nome... oh, droga, já vivo no mesmo país que ela.

Iris disse...

A propósito... me passaram um link para este post. Foi assim que cheguei aqui.

Gostei do seu blog. Seus artigos são muito bem escritos. Tá favoritado! =)

Anônimo disse...

Com o lixo escrito por Sarney e a produção e direção capenga de um babaca metido metido a querer ser cult, o que vocês esperavam.

Anônimo disse...

O que vocês esperavam de um livro do boçal Sarney transformado em filme e dirigido por um babaca com vontade de ser cult.O filme é imbecíl, produção precária, um lixo.
Com 60 mil dava pra fazer tudo.