sexta-feira, março 27, 2009

Bom só na memória

Há muitos anos, a namorada do meu irmão, com quem ele viria a se casar algum tempo depois, deu de presente para minha mãe uma caixa de figos cobertos com chocolate da Kopenhagen. Na época não havia loja da Kopenhagen em Jundiaí, onde eu morava, e então aquela caixa de figos foi saudada como uma iguaria de um outro mundo. Não sei se aquela embalagem luxuosa, com papel celofane e fitas de veludo, trazia dez ou doze figos, mas me lembro muito bem que eles foram consumidos com uma parcimônia religiosa – saboreados talvez com a mesma delicadeza que Proust dedicou às suas madeleines.

Durante muito tempo aqueles figos alimentaram minhas memórias degustativa e emocional – mais do que um doce, eles serviam como referência de alguma coisa muito boa em uma época que, provavelmente, tivesse sido muito boa também. Por um destes mistérios da lembrança, depois daquele dia eu viria a entrar centenas de vezes nas lojas da Kopenhagen, atrás de chocolates, cafés, capucinos, sorvetes, bombons e aquelas garrafinhas de chocolate recheadas de licor. Nem me lembro de quantas vezes presenteei meu pai com os chocolates desta marca. Mas nunca, nunca mesmo, meus olhos procuraram pelos figos cobertos de chocolate. Na minha cabeça, era certo que eles não existissem mais.

Semanas atrás, eu estava tomando café na loja da Kopenhagen da rua Purpurina, na Vila Madalena, com o amigo Márlio Vilela, psicanalista que, um pouco por dever do ofício, um pouco pela curiosidade natural pela alma humana, parece se deliciar com estes fiapos de memória que às vezes a gente deixa vir à tona. Contei a história dos figos para ele e levantei-me para pedir um outro café. Então desviei o olhar para uma vitrine à minha esquerda e constatei, na última prateleira inferior, a inacreditável presença de uma bandeja forrada com aqueles figos. “Mas eles não tinham saído de linha?”, perguntei à vendedora. Ela me respondeu que não, apenas não eram mais vendidos em embalagens. Agora podiam ser comprados assim, soltos. Durante todos estes anos devo ter esbarrado incontáveis vezes nos figos de chocolate e nunca notara a presença deles.

Pedi um, no mesmo instante. Eles agora são vendidos por peso. O meu pesou pouco mais de 50 gramas e custou absurdos R$ 9,60. Em outra situação, eu teria recusado, mas havia tanta coisa em jogo que resolvi desembolsar quase dez reais por um único figo. Ao levá-lo à boca, toda aquela lembrança foi imediatamente implodida: o figo era completamente ressecado e o chocolate que o recobria esfarelou-se no primeiro contato com os meus dentes, partiu-se em minúsculas faíscas que escorregaram pela minha camisa até chegar ao chão.

Então eu pensei se era por causa daquela coisa mais sem graça que eu tinha me enganado durante tantos anos. Prefiro acreditar que não. Voltei à mesa e comentei com o Márlio que talvez fosse melhor não cutucar tanto o passado assim. O bom de algumas lembranças se dá exatamente por isso: são só lembranças. E não precisam ser ressuscitadas. Não mesmo.

14 comentários:

Mário Viana disse...

Sergio, acho que pelo preço vc comprou uma raridade gastronômica, um figo que veio no barco da Cleópatra, mas não o da sua infância... ou vai ver, eram da mesma safra, mas esse atual ficou meio passadinho... Não é possível que aquele caipirinha de calças curtas tivesse se enganado tanto esses anos todos. bjs

Anônimo disse...

Oi Massa, duca o perfil da Marília Pêra, em tempo, a nhá benta continua bacana, valeu

Só no blog disse...

Mário, querido. O mais triste desta história é saber que eu já usava calças compridas naquela época. Ou seja, a gente continua a se enganar mesmo depois de grande. E algo me diz que o outro comentário é do Celsinho Fonseca. Fonsa, é você mesmo?

Mário Viana disse...

Rapaz, realmente o perfil da Marília Pêra ficou muuuuito legal. Os quadros, então, foram ótimos. Parabéns.
Agora, sim, Sergio, eu topo dar entrevista pra vc. Vi que vc trata bem o entrevistado.

Só no blog disse...

Adorei. Já tenho até um lead pra voc~e. Veja se gosta: Aos 27 anos de idade (tá bom ou quer que eu diminua) e 12 de carreira, o dramaturgo Mario Viana ....... o resto eu invento na hora, tá?)

Escritor disse...

Boas lembranças as que esses figos trazem. Também lembro de outro bombom da Kopenhaguen que era uma cereja coberta de chocolate. Era uma delícia. E os chocolates da Sonksen (é assim que se escreve?)?Tinha o Urso Branco, robusto como um urso do ártico...

Parabéns pelo seu blog que é muito bom e divertido.

Só no blog disse...

Se eu não estiver enganado, e tomara que não esteja, este bombom recheado de cereja ainda é muito bom mesmo... uma hora dessas eu vou comer e depois te conto. abração e obrigado pela visita.
sérgio

fátima disse...

eu acho que, às vezes, a gente fabrica um pouco das memórias, usando parte das verdadeiras e tirando o resto sei lá de onde. acontece sempre comigo.
decepção, né?

Só no blog disse...

Pois é, Fátima. E então, quando a gente vai checar, parece que não era tão bom, né? beijão. sérgio

Anita disse...

Li num livro de psicologia qualquer que os homens tendem a idealizar a época que vai da adolescência ate os 25 anos. Mesmo que nao tenha acontecido nada extraordinário, se lembram geralmente com muito carinho dessa época.

Só no blog disse...

Ixi, e não é que foi bem neste período que os figos apareceram!!!!

Sarah disse...

Que post excelente, achei e resolvi ler porque estava procurando sobre os chocolates Sönksen na net. Eu era bem criancinha mas viciada no choco Urso branco. Que saudades.
Na verdade essa experiência pela qual vc passou com os figos só reafirmam aquilo que quem viveu nos anos 80 ( infância ou não) sabe: todas as guloseimas de hoje em dia, ainda que da mesma marca, não possuem mais mesmo gosto, não são bem feitos como antes. Não são!
E isso não é só nossa memória que costuma endeusar o passado, é fato mesmo, a qualidade dos produtos decaiu de modo vergonhoso. Hoje a gente compra um chocolate brnco e parece que tá comendo vela derretida. Credo.
Muit saudades dos tempos do dadinho, do sorvete Kibon em lata, do Lollo(chocolate grande, fofo, com sabor perfeito), dos Sönksen, do queijo Rex ( lembra desse? rsrssr).Bons tempos!

JM Redes de Proteção disse...

Vendo os comentários, eu como chocólatra assumida, vou deixar todos com inveja: A Sonksen não existe mais, no entanto a empresa que fabricava os chocolates para ela existe e fabrica um chocolate maravilhoso...
Como direto pois é próximo a minha casa. Pra quem quiser conhecer:
CHOCOLATES BORNAL.
é só buscar no google.
vale a pena!

Daniel Martins disse...

A verdade é que a qualidade caiu mesmo colega... o cacau e o figp não é mais o mesmo, pois os mesmos são estimulados geneticamente a serem produzidos o ano todo, mas perdem mto qualidade ao ser colhidos fora de época... É igual frango de granja e frango caipira....