quarta-feira, julho 15, 2009

A homeopatia da saudade

Nós não somos exatamente amigos. Sei que temos um carinho grande um pelo outro, mas não cultivamos a convivência que costuma ser a base das grandes amizades. Nos encontramos, quase sempre por acaso, no cinema, no teatro ou em alguma exposição. Nestas ocasiões, sempre nos cumprimentamos com carinho, perguntamos como anda a vida, nos brindamos com um beijo rápido e então cada um segue à procura do seu assento. Mas há algumas semanas, quando nos vimos pela última vez, foi um pouco diferente. Ela resolveu falar sobre a saudade do companheiro que perdeu no ano passado. Foi uma conversa que não se estendeu por mais de dez minutos, mas sinto que depois dela talvez nossos encontros nunca mais sejam iguais: não é para todo mundo que revelamos as nossas dores.

Ela me disse que estava vivendo o que, em sua logística muito particular, poderia ser definida como a terceira fase do luto – ou da saudade, que embora seja tão dolorida quanto o luto, ao menos é uma palavra mais poética. O primeiro momento da perda, ela me revelou, e vejam só que estranho, foi percebido mais pelo ouvido do que pela alma. De repente, ela me disse, era como se ela estivesse dentro de um túnel, um submarino ou uma câmara onde todos os sons chegavam distorcidos. Era o estranhamento do impacto, aquele momento em que o cérebro recusa-se a processar o que se ouve e por isso mesmo todas as vozes soam estranhas. E ainda que todas elas afirmassem a mesma coisa – ele se foi! – o cérebro distorcia o som, mascarava o significado das palavras, para que a mensagem não fosse compreendida em toda sua tragédia e dimensão. É uma fase que dura muito pouco, segundo ela. Não mais que alguns minutos. Depois disso, você precisa agir.

E então vem a segunda etapa, em que a dor transmuta-se em algo prático: há muito a ser feito. Pessoas têm de ser avisadas, papéis precisam ser assinados e os olhos devem estar secos para que a vida não se revele embaralhada até nos documentos, os braços devem estar abertos e aptos para as condolências, o juízo deve estar minimamente em ordem, para que as pessoas não pensem que você já enlouqueceu diante da solidão que se revela, talvez um sorriso seja necessário, para deixar claro que a perda já era esperada e que você estava desde sempre pronta. E, depois do adeus físico, começam as despedidas burocráticas: a conta no banco é fechada, os advogados começam a esmiuçar o espólio, correspondências precisam ser abertas – é um longo ritual em que o nome da pessoa começa a ser apagado de um certo tipo de história oficial.
Quando tudo isso está concluído – e no caso dela foi necessário quase um ano – chega a hora de se haver com a saudade em seu estado bruto. Tudo que precisava ser feito já o foi, agora todo o tempo pode ser consumido em lembranças – ou não. No caso dela, foi.

Então ela percebeu que a saudade é um sentimento que exige atenção e certos rituais. A saudade exige alimento. Uma ração diária não de dor, mas da falta. A saudade se alimenta daquilo que não temos mais para dar. Ouvi, então, a parte mais dolorida do seu breve relato. Ela me disse que começou a buscar nos outros aquilo que havia lhe sido roubado pela morte do companheiro. No olhar dos outros ela buscava o brilho dos olhos do marido que se fora. Ela buscava encontrar o mesmo tipo de humor, a mesma inteligência mordaz, a mesma observação cúmplice que denunciava anos de convivência, o mesmo retorno, o mesmo eco, a mesma comunicação sem palavras.

E então ela percebeu o quanto isto era cruel, com ela e com os outros. Ninguém conseguiria substituir aquilo que ela havia perdido – e nestas horas ela entendia que o que havia perdido era algo único, que jamais seria encontrado nos que haviam ficado, por mais que ela os amasse. E por mais que fosse amada por eles.

E foi neste ponto que nossa conversa terminou. Um pouco porque a peça que iríamos ver estava para começar, um pouco porque as lágrimas começavam a embaçar seus olhos. Desconfio que esta terceira fase da saudade ainda lhe consuma incontáveis dias, embora eu torça pelo contrário. Eu tive vontade de dizer algo inteligente e proveitoso, mas não consegui. Tive vontade, também, de dizer que se houvesse algo que eu pudesse fazer, eu não me furtaria. Mas nós dois, eu e ela, sabíamos que nada pode ser feito nestas horas. Um dia, esta dor e esta falta que ela sente agora vão ser encobertas pela fumaça do tempo. Mas eu sei, e ela também sabe, que muitos dias e noites se passarão, outras pessoas entrarão na vida dela e ela encontrará inúmeros motivos para sorrir, mas seus olhos, talvez contrariando seu desejo, vão continuar perseguindo nos outros o brilho dos olhos do amado que se foi. E não haverá nenhuma morbidez nesta hora: será apenas o amor, revelando mais uma vez que diante dele a morte não passa de uma piada.

10 comentários:

Isabella disse...

Que texto lindo... Quanta sensibilidade.
...

Lucianna Lima disse...

Sérgio, cá estou novamente, lendo, me identificando e adorando seu texto. O de hoje, me deixou com nó na garganta. Despertou o medo que tenho de ficar nesse mundo tão estranho (com o qual pouco me identifico) sem meu companheiro...De qualquer forma, achei de uma sutileza absurda tudo o que escreveu, como escreveu. Tenho tomado doses diárias de roveriblog. Como o conheci agora, vou lendo os posts antigos, passeando pelas ruas, lugares e meandros que você cita. Quando fala de Pinheiros, Vila Madalena, e outros lugares e bairros que amei, que amo, vago nas lembranças do que vivi e numa saudade mortal do que não provei mas que me parece familiar... Hoje penso que São Paulo faz isso com a gente. Por isso e sei lá mais porque, minha coragem pra voltar ao meu blog está aumentando.... já refiz um pouco da "cara" dele, tenho rascunhando algumas coisas, aos poucos, vou me convencendo, devagarzinho mesmo...no meu tempo e ponto. Pensando bem, escrevi tanto que poderia ser uma parte do texto de reinauguração do meu blog...Um abraço.

Anônimo disse...

ah, meu amigo. entendo cada uma dessas palavras. me comoveram profundamente. saudade é um aprendizado. que segue com a vida. a cada dia. como a vida, a cada dia diferente. e nada pode nem deve ser dito. como diria caeiro, assim é que isto é. e com isto temos de conviver. e não é bom nem mau. não há o que possamos fazer. e um dia volta-se a sorrir, e até a rir. beijo grande. guza

Frederico disse...

Mais um texto repleto de significados, principalmente para quem já perdeu alguém bem querido. Parabéns pela sensibilidade!
Grande beijo.

Só no blog disse...

Lucianna e Fred, meus queridos. Muito obrigado pela visita e pelos comentários aqui. Lucianna, vou adorar saber que, mesmo sem querer, eu ajudei você a voltar para o blog. Seu comentário é lindo.
beijão
sérgio

Lucianno Maza disse...

S., fazia tempo em que não entrava aqui, ando afastado dos blogs, o meu e dos que gosto, a correria. No entanto, hoje, agora, não sei bem dizer porque, entrei aqui e me deparei com esse texto sensível. De olhos marejados te agradeço e penso que não devo ficar tanto tempo longe daqui. Beijos

Só no blog disse...

Lucianno, querido. Muito bom receber sua visita de volta aqui. Venha sempre, sim. beijão, roveri

Mário Viana disse...

Sergio, há 3 anos, quando minha mãe morreu, eu passei por uma sensação... dias depois do enterro, eu encontrava as pessoas, conversava, a cabeça longe... e não conseguia falar "minha mãe morreu". Era como se eu tivesse vergonha. Não era isso, claro, mas... Aí eu saquei que certas dores são tão absurdamente íntimas, tão espantosamente intraduzíveis em palavras...
Você resgatou essa lembrança, com mais um lindo texto. parabéns!!!!

Só no blog disse...

Mário, querido.
Fiquei emocionadão com o seu comentário, de verdade. Sei bem do que você está falando.
beijo grande.
roveri

Anônimo disse...

que sensação esquisita. a ausência sentida e a procura no 'outro'. perdas materiais, que podem ser também espirituais. ao mesmo tempo que somos o 'outro', procuramos este mesmo sorriso e olhar. Afinal, o mundo é uma ilusão?
bjs,
júlia