segunda-feira, julho 12, 2010

Desculpem o nosso atraso

Vejo o goleiro Bruno lendo a bíblia na cela de um presídio mineiro. Me vem à lembrança a imagem do casal Nardoni também com a bíblia nas mãos numa penitenciária paulista. Concluo que a bíblia é um livro que chega um pouco tarde aos lugares em que deveria chegar. Se a houvessem lido um pouco antes, talvez Bruno e o casal Nardoni não tivessem feito o que são acusados de fazer. Alexandre e Ana Carolina Jatobá haviam rompido, para mim, a barreira do inominável. Nunca consegui visualizar a totalidade da barbárie pela qual eles foram julgados e condenados. A cena, na minha imaginação, termina no momento em que Alexandre teria carregado a filha, já inconsciente, até a janela. O que veio depois eu consigo ler e mesmo assistir nas reconstituições feitas pela polícia. Mas não consigo imaginar. Existe em mim um freio mental – criado talvez mais pela covardia do que pela nobreza – que me impede de produzir tais imagens na cabeça. Simplesmente me sinto incapaz de imaginar um pai soltando uma garotinha de cinco anos da janela do sexto andar de um edifício. Sou capaz até de escrever, mas não de visualizar. Agora, no caso da ex-modelo Eliza, ocorre o mesmo. Minha imaginação, com muito custo, vai até o momento em que ela é morta por asfixia por um dos capangas do goleiro. A sequencia de horror que irá terminar num canil de rotweilers também não se processa na minha imaginação. Quando a gente achava que Alexandre Nardoni havia atingido uma marca inigualável na competição da maldade humana, vem alguém e quebra seu recorde.

Vejo também, em prantos, a mãe de Eliza diante das câmeras de televisão. Algo muito conservador em mim, uma força retrógrada e reacionária que às vezes me assola – como o vilão Mr. Hyde assolava o doutor Jekyll, já que O Médico e o Monstro está na moda – me faz lembrar que esta mãe agora banhada em lágrimas abandonou Eliza quando ela tinha poucos dias de vida, talvez meses. Não sei qual foi o motivo deste abandono, e eu não teria a mais remota condição de julgar esta mulher. Mas é que eu não consigo afastar um pensamento daninho. A exemplo do que ocorreu com a bíblia de Bruno, eu tenho a impressão (vejam bem, o termo é impressão) de que as lágrimas da mãe de Eliza também chegaram atrasadas vários anos. Olho para ela e, antes de enxergar a mãe da filha morta, eu enxergo a mãe da filha abandonada. Paciência.

E vejo, ainda, as ações espetaculares promovidas pelas polícias do Rio de Janeiro e de Minas Gerais para solucionar o assassinato da ex-modelo. São imagens que levam ao deleite as câmeras do Jornal Nacional. E, como no caso da bíblia e das lágrimas, também me pergunto se nada poderia ter sido feito um pouco antes, quando Eloíza denunciou o goleiro por agressões, ameaças e indução ao aborto. Somente agora, oito meses depois de a modelo ter oferecido uma prova de urina ao Instituto Médico Legal, sai o resultado confirmando a presença de substâncias abortivas no material que ela entregou. Tudo me soa atrasado, criminoso e inconseqüente em relação à vida de uma jovem – até o momento em que as câmeras de tevê são ligadas. Daí surgem a bíblia, as lágrimas e as buscas. Eliza, mesmo, esta não surge mais.

Para terminar, vale o registro da dupla alegria que a Espanha nos ofereceu neste fim de semana. A primeira, pela vitória na Copa; a segunda, por ter dado asilo aos presos políticos que Cuba começou a libertar. Mais de 60 presos (incluindo aí os familiares) devem chegar a Madri nas próximas horas. Faz um tempinho que apenas dois, somente dois, atletas do boxe haviam pedido asilo político para o presidente Lula. Mais do que depressa, ele despachou os dois de volta para a formosa ilha de Fidel. Que lição a Espanha está nos dando, no campo do futebol e no das relações internacionais. Já que está bem velhinho para aprender a primeira lição, Lula poderia, ao menos, se esforçar para aprender a segunda.

3 comentários:

SweetyChaos disse...

Seria chover no molhado ficar elogiando os textos que você escreve. Porque você escreve bem, e isso é óbvio. E sei que a intenção do blog não é essa, ficar caçando elogios. Faço um comentário aqui outro ali, mas não fico elogiando, porque senão ficaria chato, parecendo tiete que acha tudo "lindo e maravilhoso". Mas desta vez vou abrir uma exceção pra confessar: é que (os textos) são de uma lucidez e sabedoria... este então...
Abraço!

Só no blog disse...

ôba, muito obrigado pelo carinho, querida.
apareça sempre.
abração

Dalva Maria Ferreira disse...

Concordo demais com ela, e sinto uma invejinha!