sábado, janeiro 26, 2008

Um vício no horário nobre

Sou assinante do Terra e a página de rosto do portal, com as principais notícias do dia, é a que sempre aparece primeiro quando ligo o computador. Nos últimos dias tenho acompanhado, logo abaixo de notícias sobre a crise financeira dos Estados Unidos, a prisão dos ladrões dos quadros do Masp, o desmatamento da Amazônia e até o implante capilar do Zé Dirceu, algumas informações que me atraíram pelo seu grau de bizarrice. São coisas do tipo: "Sumiu uma sunga num dos quartos da casa", "Integrante da casa diz que já chuparam seu dedão", "Anjo vai colocar participantes para dormirem ao relento"; "Excluídos vão comer a xepa". Quem vê televisão já descobriu a que tudo isso se refere: são informações quentíssimas (?) sobre, nas palavras de Pedro Bial, a casa mais vigiada do Brasil, aquele celeiro intelectual onde se empoleiram os participantes do Big Brother Brasil.

Sem querer parecer arrogante, escrevi à redação do Terra para perguntar se este tipo de informação tinha mesmo alguma relevância a ponto de despontar com destaque, em letras grandes e vermelhas, na página de rosto de um provedor tão conceituado. No dia seguinte eles me responderam que sim, que a inclusão de chamadas diárias sobre o Big Brother Brasil fazia parte de uma decisão editorial que visava a atender o interesse de milhares de assinantes. Bom, devo ser minoria, então. Para que ninguém me acusasse de cultivar uma implicância gratuita com o programa, antes mesmo de assisti-lo, resolvi passar uma noite na casa do amigo Ricardo Moreno, jornalista também, vendo as epopéias dos participantes do Big Brother na grande tevê com tela de LCD que ele tem no apartamento. "Preste atenção só nas gostosas", ele me dizia. "Elas ficam de bíquini o tempo todo, sem fazer nada. O programa é um lixo, mas eu fico hipnotizado pelas gostosas". Senti, mais uma vez, que eu era minoria.

A impressão que me dá ao ver o Big Brother é a mesma que se tem quando a gente aluga uma casa na praia para um feriado prolongado e chove durante os quatro dias. Não há o que se fazer, os assuntos vão minando, a comida vai ficando sem graça, os lençóis se tornam amarfanhados de tanto que a gente dorme, as costas doem, os músculos atrofiam, o humor desaparece e o mofo vai tomando conta de tudo, principalmente das relações. É uma sensação insuportável de que estamos, todos nós, apodrecendo aos poucos e que na manhã seguinte, nas extremidades das nossas orelhas e dedões, irá surgir uma película verde idêntica àquela que aparece nos pães de forma que passaram do prazo de validade. Ou a gente sai da casa ou morre. Ou a gente desliga a televisão ou alguma coisa dentro da gente também morre, vítima de tédio, de overdose de estupidez, vagabundagem e burrice explícitas. Talvez as gostosas que circulam de bíquini sirvam como antídoto para alguma coisa, mas me pergunto até quando.

Tenho um amigo, com pós-graduação e doutorado em uma área delicada da medicina, que há um ano e meio vendeu a televisão. Ele diz que chegava do consultório e não conseguia tirar mais os olhos do Superpop, o programa da Luciana Gimenez. Os amigos o convidavam para jantar e ele não ia, os cinemas e teatros ofereciam ótimas opções e ele recusava todas, as estantes estavam abarrotadas de títulos que ele, até por dever do ofício, devia ler, mas sistematicamente dava as costas a tudo isso para poder acompanhar, no conforto do seu flat, todos os casos escabrosos que a apresentadora usava como atrações em seu programa. "Eu tinha me tornado um viciado", ele me disse. "Como os viciados em drogas e álcool que eu costumo tratar na clínica, eu também havia encontrado o meu vício, a minha droga, que era o programa da Luciana Gimenez. Precisei vender a televisão para me livrar daquilo. Hoje, estou limpo há um ano e meio", ele revela sem constrangimentos.

Talvez resida aí a essência do Big Brother e de outras atrações da nossa televisão: sem ser ilegal e sem dar cadeia, estes programas são o vício, a droga que injetamos todas as noites em busca do nosso inatingível nirvana. Mas, como toda droga, tenho certeza de que a ressaca virá, e não será nada agradável.

P.S.: dedico esta coluna ao novo amigo Márcio, que diz acompanhar meu blog diariamente da cidade de Tefé, cidade de 70 mil habitantes a três dias de barco de Manaus, bem no meio da selva amazônica. Ao me conhecer, ele me deu uma merecida bronca, pela minha falta de assiduidade neste espaço. Prometi a ele que vou escrever mais, embora duvide que cumpra a promessa!

4 comentários:

viralata disse...

hauahauah!!! A-d-o-r-e-i a manchete da 'sunga sumida'! kkkkkk, querido e vc se prestou ainda a escrever para o Terra né?! Tb fiz como seu amigo 'viciado', cancelei a Sky e só não dei a tv ainda por causa de um monte de dvds que é melhor na telona!
O Márcio têm razão, vc anda muito 'preguiçoso' mesmo! Aliás conheço Tefé, e saiba amigo ter um fã naquele longínquo é uma honra mesmo, estou indo pra Manaus de novo em março e fico até junho, quer que eu leve alguma coisa para ele?!Mas ele precisa me encontrar no meio do caminho, fico meio enjoado naquelas embarcações típicas!kkkkk
bjao

alberto disse...

eu concordo com nosso amigo viralata e também com o márcio. só que não vou como o viralata pra manaus e nem passarei por tefé. mas mando daqui meu abraço pro márcio e aplausos por te dar uma bronca pedindo mais postagens no seu blogue. e quanto ao bbb, estou na mesma minoria que vc. fazer o quê? nomo diz o homem das leis na última fala das "divinas", "é tapar a boca do povo e agüentar o casal"

Blog do Massa disse...

Guza e Caetano, meus lindos. Fico tão feliz quando encontro vocês por aqui. Que delícia de companhia que vocês me fazem neste espaço. Beijo nos dois!!!!

Márcio Braga disse...

Meu Deus do céu! Fiquei muito feliz e honrado com sua homenagem.Confesso emocionado, o quanto você me fez um bem. Um novo ciclo da vida se fechou com sua amizade. Acredito profundamente que ainda existem pessoas de bom coração no mundo. E vc é assim! Na Amazonia, em NY ou no Japão, as palavras tem esse poder de aproximar idéias e pessoas.
Um abraço do tamanho do Amazonas pra vc querido!
Saúde Sorte e Sucesso Sempre
ps: obrigado por voltar a escrever."sempre que der, lógico"