quinta-feira, agosto 05, 2010

Unha e carne

Depois de assistir ao filme Vincere, do diretor italiano Marco Bellocchio, passei alguns dias acreditando que as mulheres são capazes de amar de forma muito mais obsessiva que os homens. Entenda-se por obsessão o ato da entrega, da fidelidade e da dedicação ao outro de uma maneira tão cega e radical, que a própria vida de quem ama é posta em rico. E, no caso do filme, destruída.

O filme retrata Benito Mussolini antes de ele se tornar líder do partido fascista e ditador italiano que se uniria a Adolf Hitler na Segunda Guerra Mundial. O filme tem uma atmosfera opressiva, com personagens amedrontados diante de uma Itália convulsionada pela ascensão de um regime totalitário. A ordem é obedecer e calar. Mas uma jovem e bela mulher, Ida Dasler, dona de um salão de belezas, não faz nem uma coisa nem outra. Prefere propagar a quem estiver disposto a ouvir (e ninguém parece estar, a menos que seja para prejudicá-la) que ela é a verdadeira mulher de Mussolini, com quem teve um filho batizado com o mesmo nome do ditador. Mais eu não conto. O filme está em cartaz no CineSesc.

Fiquei com a imagem e a atitude temerária daquela mulher na cabeça. E imaginei se um homem, nas condições em que ela se encontrava, seria capaz de amar e manter-se fiel da mesma maneira. Longe de mim acreditar que a capacidade de amar e manter-se fiel em meio ao caos seja um atributo exclusivamente feminino. Penso que os homens também sejam capazes de sacrifícios semelhantes, porém, e nestas histórias sempre existe um porém, julgo que os homens são educados de forma a encontrar alguma praticidade neste jogo amoroso. Em função disso, acreditava eu, eles resistiriam um pouco mais antes de se atirar à fogueira por causa de um amor.

Este conceito permanecia quase consolidado na minha cabeça até semana passada, quando um amigo, sem avisar da visita, bateu em minha porta. Achei estranho, já que hoje em dia nem os amigos mais íntimos surgem sem um telefonema prévio. Durante as duas horas em que ficou em casa, não foi de outra coisa que ele falou a não ser do quanto estava sofrendo...por amor. Tanto que tinha adquirido uma doença psicossomática que o fazia lembrar de sua paixão opressiva todas as vezes em que se olhava no espelho. A garota com quem ele tinha se envolvido, e que no dia da visita já o havia trocado por outro, não era assim uma Mussolini, mas sabia muito bem como pisar de salto alto num coração desavisado. O amigo não dormia mais, tinha mudado seus hábitos no bairro para não encontrá-la nas ruas e passava os dias a escrever cartas quilométricas em que tentava convencê-la de que ele era o homem da vida dela. Porque, na cabeça dele, ele já estava mais do que convencido disso.

Depois que ele foi embora, o filme me voltou à cabeça com uma nitidez impressionante. Separados por 70 anos de história, meu amigo e a personagem Ida Dasler se reencontraram por uma tarde em minha casa. E deste encontro me sobrou uma lição: se o assunto é padecer por amor, os homens também conseguem ser muito bons nisso.

5 comentários:

Kiko Rieser disse...

Acho que até mais, porque os homens são mais inseguros. Sorte sua ter conservado essa espécie de frieza em alguma medida. Ela é um escudo necessário.

Janaína disse...

Fiquei feliz por seu amigo ter te salvado desse conceito.
E acho mais...falando de amor...não existem HOMENS ou MULHERES, existem PESSOAS, cada uma com suas marcas.
Beijo grande.

Janaína disse...

Que bom que seu amigo te salvou desse conceito.
E digo mais...falando de amor...não existem HOMENS ou MULHERES, existem PESSOAS, cada um com suas marcas.
Beijo grande

pedro braga disse...

Oi Sérgio, tudo bom? Meu nome é Pedro, estou me formando em Artes Cênicas pela ECA/USP, e estou montando 'Ponto de Partida' do Guarnieri neste ano. Queria um contato seu pra conversarmos a respeito do projeto, você pode me mandar um email no pe.bragacac@hotmail.com ?
Grato, desde já.

SweetyChaos disse...

Olá!
Desculpe a intromissão mas, é que estranhei o fato de você não ter atualizado o blog... acostumei com os posts semanais. Espero que esteja tudo bem!
Abraço :)