quinta-feira, abril 08, 2010

Gasparzinho

Na noite de quarta-feira, participei de uma demorada reunião em um café ao lado de um cinema de shopping. Enquanto a chuva desabava lá fora, o trânsito estava caótico e a vontade de todo mundo provavelmente era de ficar em casa, eu me surpreendia com o tamanho das filas diante das salas que exibiam o filme sobre o Chico Xavier. Achei que aquela visão era tudo o que a família Barreto havia desejado para o seu Lula, O Filho do Brasil. Ainda não assisti ao filme do Chico Xavier, mas fiquei sinceramente feliz ao ver tanta gente no cinema numa noite tão inóspita. Chico Xavier é o nosso Avatar que não precisou de óculos 3D para enxergar os desejos do público.

Eu sempre simpatizei com o espiritismo, embora não consiga acreditar em quase nada do que os espíritas dizem. O que não chega a ser um demérito para a religião, pois também acho complicado acreditar que Maria concebeu uma criança sendo virgem e que Cristo, antes de experimentar ele próprio o milagre da ressurreição, tenha trazido de volta à vida alguns mortos que julgava ou queridos ou importantes. E que, depois de ressuscitado, tenha subido aos céus com corpo e tudo. Prefiro acreditar no muito pouco que a ciência consegue nos explicar e deixo as questões celestiais para um outro momento da vida, quem sabe para quando a vida estiver perto do fim e a gente então, por medo e covardia, decide se apegar a qualquer coisa.

Pensar desta forma não faz de mim uma pessoa mais feliz. Ao contrário. Na maioria das vezes fico desesperado com tantas perguntas sem resposta e com a aparente inutilidade de nossa existência. Eu invejo (olha aí um pecado!) quem tem fé. Mas a fé dos convictos, não a fé de quem acha prudente acreditar em algo para garantir um cantinho gostoso no além. Invejo os que acreditam sinceramente que Deus nos ouve, que olha por nós, que um dia mandou seu filho único para dar um upgrade na nossa humanidade tão mesquinha. Invejo quem acredita de coração que exista um lugar melhor à nossa espera, que iremos encontrar as pessoas queridas que já foram e que, neste lugar, a nossa alma vai ficar bem mais bacana do que ela é hoje em dia. São todas coisas nas quais eu gostaria de acreditar, mas tenho uma dificuldade imensa. A fé deve ser algo que deixa as perguntas de lado. Se a gente já começa duvidando, nem adianta entrar no jogo.

Eu tenho um amigo muito querido que há algum tempo decidiu aproximar-se do espiritismo. Ele ficou, mesmo, uma pessoa mais feliz, mais leve e mais compreensiva. Mostra-se sempre disposto a ajudar quem precisa e o mau humor é uma condição que ele riscou do seu cotidiano. Então ele me conta algumas coisas que aprendeu no centro espírita e eu penso: ai, meu pai, como minha alma é rasteira e incrédula. Eu juro que tento crer nas coisas que ele me diz, como na existência de hospitais espirituais nos quais a nossa alma vai ser tratada após a nossa morte, em todos os entes de luz que vão nos ajudar no momento da travessia, nos estágios que faremos antes de decidirmos reencarnar novamente, em todos os obstáculos e provações que optaremos por encontrar na nossa próxima vida, nas nódoas espirituais que carregaremos justamente por não termos cuidado do nosso corpo.

Além de duvidar de tudo isso,eu não consigo entender como é que todo mundo de repente fica bom só porque morreu. Nos relatos que ele me conta, parece não haver mais lugar para raivas, ciúmes, decepções, invejas e angústias depois do nosso último suspiro. Extinguem-se todas as maravilhas e os horrores das paixões humanas. Então, é como se todos os males do mundo fossem responsabilidade do nosso corpo de carne. Liberta da nossa forma humana, a única forma que conhecemos e que a natureza levou milhares de anos para delicadamente esculpir, a nossa alma, enfim, conheceria a bondade e a perfeição. Repito: eu gostaria de acreditar, mas como é difícil.

Sei que alguém iniciado no espiritismo vai dizer que este meu raciocínio é de um primarismo que assustaria até uma alma-penada. Mas é a minha maneira de pensar a respeito deste assunto a partir das informações que coletei ao longo da vida. E não foram, confesso, informações preguiçosas. Mais de uma vez eu me esforcei para ler os livros psicografados, mas nunca consegui passar da página dez. Não por que eles sejam mal escritos (e são mesmo, paciência!), mas porque todos trazem uma ingenuidade comovente. Tão ingênuos e tão comoventes que eles, às vezes, levantam-se como ameaça à nossa inteligência e ao nosso discernimento.

Há alguns dias eu falei para um amigo (que parece ser tão incrédulo quanto eu eu) que apesar do meu ceticismo, eu também tenho medo de que tudo acabe nesta vida aqui. Tenho medo de que somente a escuridão profunda e eterna estará à nossa espera – em contrapartida, não teremos consciência para sofrer com isso. Então, eu disse a ele, para evitar decepções futuras e ausência total de comunicação, eu já vou deixar escritas umas 10 ou 12 cartas psicografadas que serão lidas em intervalos de um mês após a minha morte. Tudo isso já para adiantar as coisas. Não sei ainda o que vou dizer nestas cartas, mas espero ter tempo para pensar. E, para não fugir à regra, prometo que só vou falar de coisa bacana. Espero que ninguém me desmascare.

6 comentários:

Frederico disse...

Oi Roveri. O legal do filme Chico Xavier, que assiti ontem, é justamente por não querer doutrinar ninguém e nem fazer do espiritísmo o tema central. O longa mostra a vida do médium mais famoso do Brasil sem pieguices e de como uma pessoa pode viver para tentar dar uma vida melhor, ou mesmo uma palavra de fé para outras pessoas. Dá uma passadinha num cinema. Vale a pena. Abraço. FRED.
PS: Tbm não acredito muito nessas coisas e como vc, faço muitas perguntas, mas o filme me pegou.

Frederico disse...

Oi Roveri. O legal do filme Chico Xavier, que assiti ontem, é justamente por não querer doutrinar ninguém e nem fazer do espiritísmo o tema central. O longa mostra a vida do médium mais famoso do Brasil sem pieguices e de como uma pessoa pode viver para tentar dar uma vida melhor, ou mesmo uma palavra de fé para outras pessoas. Dá uma passadinha num cinema. Vale a pena. Abraço. FRED.
PS: Tbm não acredito muito nessas coisas e como vc, faço muitas perguntas, mas o filme me pegou.

Mário Viana disse...

Serginho, quanto tempo!!!! Voltei das férias, meu nego! E já voltei atualizando minhas leituras do seu blog, como sempre uma delícia de ler.
Essa coisa de espiritismo... várias pessoas da minha família são e eu mesmo, na adolescência, cheguei a flertar com a coisa, torcendo pra descobrirem em mim alguma mediunidade... Necas...
Depois achei que era tudo muito conformista e larguei mão. Hoje em dia, já não acho mais nada e defendo o direito de quem quiser acreditar, desde que não me doutrine...
Ah, e estou louco pra ver o filme.

Só no blog disse...

Fred e Mário, meus queridos. Concordo com vocês. Acho que todo mundo vê o espiritismo com muita simpatia, me parece uma doutrina super do bem, seguinda por gente de cabeça aberta. E também quero muito ver o filme. Vou tentar neste fim de semana, mas sei que está difícil...filas e filas...beijos

mar e ilha disse...

Gostei do seu post. Eu, ao contrário de vc,tenho fé e sou católica, mas gosto de algumas coisas de várias religiões.E, apesar de Católica também questiono alguns dogmas de minha religião... principalmente quando dizemos que vamos morrer e viver a vida eterna, amém.Que coisa sem graça. Neste ponto prefiro acreditar no espiritismo que diz que voltaremos. É mais interessante eu acho... Só espero voltar melhor.

Só no blog disse...

Olá, Mar e Ilha, muito obrigado pela visita e pelo comentário. Compartilho de suas incertezas e esperanças. abração