quarta-feira, março 10, 2010

Café pequeno

Há dois meses foi inaugurado um restaurante sérvio na Vila Madalena. Um casarão quase de esquina, de paredes revestidas com páginas de jornais impressas em alfabeto cirílico e uma simpática varanda onde é possível ouvir um tipo de música que me pareceu cigana. Antes, no mesmo endereço, funcionou por pouquíssimo tempo um restaurante de comida mineira que eu visitei apenas uma vez, na companhia do amigo Márlio Vilela, um mineiro bem mais original do que a refeição que nos foi servida. Sou curioso por estes cardápios meio exóticos ao nosso paladar, como o catalão, o húngaro, o peruano. Embora, sempre que visite um lugar assim, talvez por medo eu peço o prato que me soa mais familiar. No caso do restaurante sérvio, onde estive no último domingo, optei por um peixe cozido com legumes. Mais banal, impossível. O que valeu a visita, no entanto, ainda estava por acontecer.

O garçom, vestido com roupas militares, perguntou se eu gostaria de um café expresso ou do café turco. Pedi o expresso. Ele me disse, então, que se eu optasse pelo turco, o dono do restaurante, que nasceu em uma localidade próxima a Belgrado e está no Brasil há seis anos, iria ler minha sorte na borra do café. Cortesia da casa, ele me explicou. Óbvio que troquei o pedido. Meu café turco chegou em uma xícara grande e, com ele, algumas instruções. Antes de tomar, eu deveria esperar dois minutos, até que a borra se depositasse no fundo. Depois de tomar, eu deveria virar a xícara, esperar cinco minutos e chamar pelo dono. Foi o que fiz.

O dono, rapaz simpático e de bom papo, veio, se apresentou e sentou-se à mesa. Perguntou se eu era destro ou canhoto e então segurou a xícara com as duas mãos. Minutos de um silêncio apavorante, enquanto ele manipulava a xícara como quem está diante de um diamante de incontáveis quilates. “Eu não vejo futuro”, ele me nocauteou. “Que ótimo”, eu respondi. “Então eu nem vou pagar a conta”. Concentrado, ele retomou a leitura. “Eu vejo que em sua vida está tudo redondo”. Olhei preocupado para a minha circunferência e pensei que o cara sabia o que estava dizendo. “Você....”, ele prosseguiu.... “você é uma pessoa que demora muito tempo para reformar a casa. Hum... você demora uns dez anos para reformar a casa”. Desde quando os astros se preocupam com a reforma da nossa casa, eu ia dizer, quando ele continuou. “Eu vejo uma torre, um farol, um farol de mar...E vejo também um vulcão, um vulcão em cima de uma base muito sólida”. Perguntei se isso era bom. Ele respondeu que achava que era, porque a erupção do vulcão podia ser um grande acontecimento. Sempre que a televisão mostra erupção de vulcão, as pessoas estão correndo, apavoradas e sujas de cinza. Achei que as coisas estavam piorando legal.

Então ele pediu para que eu colocasse o dedo indicador dentro da xícara, girasse-o na borra de café de forma a produzir um furinho e fizesse um desejo. Obedeci. “Eu vejo um desejo muito fraquinho”, ele falou, enquanto eu tentava tirar aquela porra de café de debaixo da minha unha. “É um desejo fraquinho mesmo, viu. Nem sei se vai se realizar. Se for se realizar, vai demorar muito, mas acho que nem vai. Dá uma olhada na xícara, seu desejo é este buraquinho em forma de cisne aí no fundo”. Olhei a xícara e disse a ele que aquilo lá no fundo parecia um pato, e não um cisne. “Eu também acho que é um pato”, ele me disse. “Eu só falei que é um cisne para ficar um pouquinho mais bonito”.

Paguei a conta e fui embora. De todas as vezes em que visitei videntes e cartomantes, esta foi, disparada a melhor. Porque eu comi um peixinho bom, por um preço justo e o dono do restaurante não me enganou como as cartomantes sempre fizeram: ele deixou claro que sabia do meu futuro tanto quanto eu. Ou seja, nadinha!

3 comentários:

Kiko disse...

Opa! Restaurante aqui do lado?! Onde? Qual o nome?

fátima disse...

nunca quis saber meu futuro, morro de medo...
já pensou se alguém me diz que eu vou morrer na semana que vem? se acreditar, o que que eu faço com os dias que me restam? e mesmo que não acredite, acho que sempre vai ficar aquela pulguinha ali atrás da orelha...

bj

Barbara disse...

E olha que nada disso é papo de dramaturgo para dourar o post. Fui testemunha dos fatos aqui narrados e me diverti muito. O bom é que o sérvio,além de sincero, era um gatinho.