quinta-feira, dezembro 04, 2008

Um vovô para toda a vida

As últimas frases do meu post anterior, sobre as dosagens de verdade e ilusão com as quais devemos administrar nossas vidas, me trouxeram à lembrança um fato ocorrido no ano de 2000, no município de Alcântara, que fica a uma hora de barco de São Luís, capital do Maranhão. Fui para lá em companhia do amigo Alberto Guzik, na época em que tínhamos tudo que hoje já nos parece pré-histórico: emprego fixo, carteira assinada, férias remuneradas, décimo-terceiro, seguro-saúde e dinheiro para viajar. Hoje eu troquei tudo isso (ou me vi obrigado a trocar) por realização profissional e saúde mental. Tento acreditar que estou no lucro. Mas às vezes é tão difícil...

Mas vamos ao que interessa. Os guias de turismo devem afirmar o contrário, mas Alcântara me pareceu uma cidade-fantasma – e, por isso mesmo, absolutamente fascinante. No que seria seu centro histórico, ergue-se o esqueleto de uma catedral que foi destruída pelas chamas. Alguns moradores dizem que um raio caiu ali e queimou tudo. Outros preferem contar uma história ainda mais interessante: segundo eles, nas noites de vento e chuva, é possível ouvir ali o lamento das almas dos escravos martirizados nos pelourinhos. Tudo em Alcântara, com exceção de uma base militar utilizada para pesquisas espaciais, parece remeter ao passado. Como um certo prédio azul e branco, exibido com um orgulho funesto, onde os escravos recém-trazidos da África eram obrigados a ficar enquanto não surgisse algum comprador interessado em seus dentes brancos e canelas finas. Com paredes impressionantemente grossas e janelas que mais se assemelham a frestas, o prédio deveria funcionar, aos olhos dos escravos, como uma ante-sala do inferno que estava à espera de cada um deles.

Embora a paisagem de Alcântara, marcada por seu casario colonial e suas cores fortes, seja deslumbrante, o sol nos obrigou a procurar abrigo no Museu Histórico de Alcântara – e só aqui este meu diário de bordo realmente começa. O guia do museu, um senhor magro de mais de 70 anos, ligeiramente curvado, nos recebeu com uma simpatia e um conhecimento histórico impressionantes. Além de trazer na mente toda a origem da cidade, ele era capaz de revelar os detalhes mais saborosos de cada um dos objetos expostos no museu – e eles mostravam-se às centenas, grandiosos ou desprezíveis. No entanto, era visível que, a todo momento, ele estivesse em busca de uma brecha para nos ditar sua própria história. O que só foi possível já no fim da visita.

Contou-nos, então, que ele era filho de uma próspera família maranhense, senhores de terra e de escravos. Talvez, se a memória não me trai, com algumas gotas de nobreza correndo em seu sangue. Estudara fora, dominava vários idiomas e havia escolhido Alcântara para viver em função de sua paixão pela história e sua extrema dedicação ao museu. Era um lorde bem-vestido e esquecido em meio a tanto calor e tantas lembranças. Sua única filha havia se casado com um astronauta americano, que durante algum tempo trabalhara no Centro Espacial de Alcântara, um dos melhores locais para lançamento de foguetes em todo hemisfério sul do planeta. Depois de algum tempo, o casal se mudou para Cabo Canaveral, na Flórida, onde funciona o Centro Espacial Kennedy, base de lançamento da maioria das espaçonaves americanas. E era ali que os netos do nosso simpático guia haviam nascido. Na época de baixa-estação, quando o movimento de turistas caía um pouco, ele se permitia deixar o museu nas mãos de algum assistente para passar algumas semanas em companhia da filha e dos netos. Se eu exigisse um pouco mais da memória, talvez desenterrasse um ou outro detalhe, mas por ora acredito que o que temos aqui já é suficiente.

Saímos do museu encantados com a história de vida daquele velho guia. Ele parecia ser a mais improvável das criaturas a habitar aquele lugar. E então um morador local, que ganhava alguns trocados exibindo as atrações da cidade, seguramente atraído por aquela expressão de êxtase em nossas caras, nos interpelou: “E aí, vocês também caíram na história do velho?” Antes que pudéssemos pensar em responder qualquer coisa, ele continuou com o disparo: “Tudo isso que ele conta é mentira. Ele nunca saiu de Alcântara, é um sujeito pobre. Ele e seu irmão gêmeo sempre viveram aqui. Nenhum dos dois nunca se casou e nem teve filhos”. Começamos a andar em direção ao barco que nos conduziria de volta a São Luís com a sensação de que a melhor, a mais bonita a mais invejável e bem-acabada de todas as histórias que tínhamos ouvido durante aqueles dez dias de férias no Maranhão não se sustentava mais nas pernas. Impiedoso, o morador ainda nos revelou, sordidamente, o mais desnecessário dos itens. “E olha, se vocês querem saber, nem de mulher ele gosta, viu?”

Hoje, quando eu me lembro do simpático velhinho do museu, eu prefiro imaginá-lo em Cabo Canaveral, conversando em um inglês fluente com seus netinhos no colo. E contando-lhes, aos netinhos de olhos e ouvidos curiosos como foram os nossos naquela tarde, de que nobre linhagem eles descendiam. Se foi este o personagem que ele decidiu criar para si, se foi esta a história de vida na qual ele se fez confortável, não me sinto, em momento algum, autorizado a duvidar de cada um dos pequenos sonhos e ilusões que tornaram suportável a existência daquele homem. Eram todos relatos lindos, perfeitos e absolutamente verossímeis. Não havia nada que pudesse desmontar sua vida imaginária, nenhuma peça que não se encaixasse naquele maravilhoso quebra-cabeça que ele deve ter levado 70 anos para montar. A não ser, é claro, o morador de Alcântara, a nos esperar do lado de fora do museu para nos dizer que tínhamos sido espectadores de uma mentira descomunal.

Mas aí, meu caro e bronzeado morador de Alcântara, já era tarde demais. O castelinho de areia no qual aquele homem havia hospedado as nossas mentes não seria mais destruído por você, nem por sua verdade antipática e nem mesmo pelas águas revoltosas e as ondas assustadoras que separam São Luís de Alcântara. Naquele momento, a ilusão já se mostrara imperiosamente vitoriosa. E dane-se se ele nunca saiu de Alcântara, se nunca foi rico ou nobre e se nunca se deitou com mulher nesta vida: os netinhos que ele criou para si não encontrariam, neste ou em outro hemisfério, um avô mais amoroso e sedutor que ele.

3 comentários:

Lívia Sampaio disse...

Algumas pessoas são mais do que grandes ficcionistas, justamente por acreditar tanto no que contam. De uma forma ou de outra, elas realmente vivem aquilo.

dyl pires disse...

eu que moro aqui em são luís fiquei imaginando esta presença de vcs pela alcântara que continua mais fantasma ainda, sobretudo depois da instalação da base e do desalojamento de centenas de famílias de suas casas. e recordei outra vez do capítulo do livro do gabeira (O hóspede da utopia) que se passa na alcântara de 1979. abraços. dp.

isabella disse...

eu prefiro acreditar que o morador foi fazer fofoca!