quarta-feira, dezembro 17, 2008

A estrela que bate ponto

Apesar da generosa oferta de ingressos – somente nesta última semana recebi três e-mails de amigos interessados em vender seus bilhetes – é muito provável que eu não vá assistir ao show da Madonna. Continuo gostando muito dela, bem menos do que nos anos 90, é verdade, mas já não é uma admiração que me estimule a enfrentar a espera e o provável caos em frente aos portões do Morumbi. Tenho um amigo que vem do Recife apenas para ver o show, outros me avisam que estão vindo do interior do Estado com a mesma e única finalidade. Penso neles e me pergunto em que momento minha preguiça se tornou maior que meu entusiasmo. Só de imaginar o trânsito a caminho do estádio e as horas que terei de ficar em pé no gramado até que a cantora surja majestosa em seu trono, já me dá uma vontade louca de me jogar no sofá e ver quem a Flora vai matar no capítulo de hoje de A Favorita. Eu sei que talvez eu tenha ficado um pouco velho e careta. Mas, ao ler tudo que está saindo na mídia sobre Madonna, me conformo em saber que ela, a tal rainha do pop, também anda careta e muito mais metódica do que eu.

Creio que ninguém simbolize melhor a nossa época, uma época de riscos calculados e transgressões com hora marcada, do que Madonna. Ninguém como ela sabe se expor tanto e, ao mesmo tempo, se manter tão segura e protegida. Madonna é aquela criança que só aceita descer pelo escorregador se os pais estiverem ali embaixo para ampará-la na queda. Ela jamais vai se esfolar à toa. Leio nos jornais que ela não gosta de surpresas, que nada foge ao seu controle, que ninguém pode se aproximar dela sem sua autorização mais do que prévia, que ninguém pode cumprimentá-la antes que ela o faça, que ninguém a toca, que ninguém a vê, que ninguém a saúda com um tipicamente brasileiro tapinha nas costas. Vocês se lembram de um filme em que John Travolta interpretava um menino que vivia dentro de uma bolha? Pois então: o menino cresceu, aprendeu a cantar (nem tão bem quanto Amy Winehouse, esta sim uma louca das boas), pintou o cabelo, virou mulher e deu à luz Madonna. Mais que uma cantora e uma performer genial, Madonna é a executiva bem-sucedida que todos nós invejamos.

O palco, para ela, deve ser o terreno da catarse de uma vida extremamente regrada. Ali, naquelas duas horas e debaixo de todos os holofotes, ela faz tudo o que não se permite fazer à luz do dia. O controle rígido e absoluto sobre sua carreira e seus passos foi a fórmula que ela encontrou para sobreviver ao mito que ela própria criou: Billie Holiday, Janis Joplin, Maria Callas, Elis Regina, Marilyn Monroe e Piaf, só para ficar nos nomes que me vêm de pronto à mente, sucumbiram por muito menos que ela. Sábia e astuta, Madonna se fortalece justamente com aquilo que as outras pareciam ter de mais frágil – a imagem da mulher solitária e de infância pobre que, graças a uma combinação extraordinária de talento e carisma, de repente se viu no centro do mundo. E não teve força de peitar a imagem que o espelho lhe devolveu. Madonna, ao contrário, coloriu de vermelho-vivo os lábios desta imagem e, orgulhosa, exibiu o espelho para todo o planeta, dizendo em cada uma de suas músicas: vejam como eu sou bonita, gostosa e desejada. E, por ser tão convincente neste papel, há vinte anos estamos acreditando nela. Um gênio da raça!

Ficamos sabendo que a atual turnê de Madonna emprega três aviões – um para a equipe e os outros dois para cenários, figurinos e toda parafernália à disposição da diva. São mais de 200 pessoas envolvidas na produção – mas ela só fala com dez, desde sempre as mesmas dez. E, no palco, tem repetido os mesmíssimos movimentos e as mesmíssimas canções desde o primeiro show de Sticky & Sweet. Se está dando certo, é proibido mudar ou tocar. Madonna é a nossa Mona Lisa que vive protegida por um vidro à prova de balas. Este deve ser o preço de ser Madonna. Um preço que ela paga com a disciplina dos economistas e dos auxiliares de contabilidade. Apesar de toda fama, de toda fortuna e de todo sucesso, Madonna leva uma vida muito mais regrada e rotineira que a minha e a sua. O resto é pose.

13 comentários:

Anônimo disse...

concordo concordo concordo. a crise momentânea que tive ontem de vontade de ver madonna passou assim que pensei nas mesmas coisas que você, os portões, na fila, o gramado hiperlotado. e tem uma coisa também: tudo que eu vejo deste show me lembra exatamente o 'girlie show' que a gente viu junto há 15 anos. mudou o repertório. o conceito, a marcação, o jogo de cena, tudo permanece imutável. acho que eu sou mais nina hagen, esteja ela o que estiver fazendo hoje. enfim, adorei teu post. guza

Denise Silveira disse...

oi, roveri. sou sua leitora. adorei o que você escreveu e chamei o seu post no meu blog. bjs denise

Anônimo disse...

"Transgressão com hora marcada". Genial, isso. Vc é genial! Quanto a Madonna, ela nunca mexeu com uma fibra do meu coração. Nem me lembro de sua existência, nem de suas músicas. No meu caso, não é nem preguiça, é indiferença mesmo.
Abraço do Mário Baggio

Só no blog disse...

Mário e Denise, muito obrigado pelo carinho e pelas visitas que vocês fazem aqui. Valeu mesmo. beijo grande.
roveri

Anônimo disse...

Serginho, simplesmente primorosa a sua análise da Madonna. E ninguém pode dizer que é a análise de um azedo, pelo contrário. É um cara que gosta da Madonna!
A criança que só desce pelo escorregador se os pais estiverem embaixo... Puta imagem legal, perfeita.
Parabéns, parabéns!
Mas uma coisa ficou no ar: quem será que a Flora vai matar hoje?
beijos
Mário Viana

Só no blog disse...

Mário, querido, será que além de nós dois tem mais alguém interessado, nesses dias de Madonna, em saber quem a Flora vai matar? SE você souber antes de mim, me conta, hein! beijo

Otavio Martins disse...

Não se contrói uma Madonna com espontaneidade.

Iris disse...

Concordo, a vida dela é calculada milimetricamente... é o preço que ela paga, e é bem alto. Ela merece o que conquistou. God save the Queen, your Madgesty! (e olha que eu não sou fã xiita e não gostei das últimas músicas)

Isabella disse...

ROVERIIIIIIIIIIIIII,
Por que vc lê meus pensamentos? Desculpe, tive que roubar uma frase sua para colocar lá no meu blog...
O fato é: fui até a porta do Morumbi ontem. Vendi meus dois ingressos. Estava com taaaanta preguiça daquilo tudo. Quando comprei, achei que seria ótimo. Mas é qe este fim de ano me deixou exausta de tudo e seria perfeito me desligar um pouco com a maldosa Flora (ela consegue tudo o que quer, é quase uma musa minha! hehehe).
Pena que enfrentei um belo trânsito e só cheguei a tempo de me jogar na cama.

Adorei o post, como sempre...

Um beijo!

Só no blog disse...

Hahahaha, que ótimo, isabella. Adorei. E viu que os flanelinhas estavam cobrando 200 pilas para que a gente deixasse o carro na rua? E os táxis cobrando 150 pra levar o povo ao estádio??? Deus do céu, ninguém vale tudo isso, né? beijão e feliz natal

Marcio Gaspar disse...

perfeito o seu post, massinha. só que voce cita callas, elis, janis, billie, piaf... essas eram cantoras de verdade que sucumbiram às engrenagens do mercado; enquanto madonna (com claro talento comercial, não nego), dominou o tal do mercado, mas cantora mesmo... nunca foi e nem nunca será.

Só no blog disse...

Marcinho, querido. Brigadão pela visita, de novo. E, claro, nem preciso dizer o quanto concordo com suas observações. abraço grande, massinha.

Aimar disse...

Elis, Amy, Billie, Piaf eram artistas. Madona é uma profissional,uma grande profissional. Mas seu salto, como diz você, é com rede. A rede garante o corpo - mas prende a alma.
abraço,
Aimar