domingo, novembro 11, 2007

Romeu, Julieta e algumas pulgas.

Até aquele dia, todos os nossos cachorros haviam sido vira-latas. Uns bichinhos amorosos, que se serviam dos restos das nossas refeições e eram chamados de nomes banais como Bob, Duque e Sultão. Nunca nenhum deles soube o que era um consultório de veterinário. Viveram muitos anos e só ficaram doentes uma vez na vida - para morrer. E então meu irmão apareceu em casa com um filhote diferente, uma robusta e legítima fêmea de pastor alemão. Junto com ela, um saco de ração para cachorros, pois ela devia ser nobre demais para comer arroz, feijão e algum pedaço de carne acomodados em uma latinha de goiabada. Demos a ela o nome de Dione, mas ninguém a chamava em voz alta no quintal porque, soubemos logo depois, Dione era também o nome de uma enfermeira que se mudara três casas depois da nossa. E, para aumentar o constrangimento, Dione, a enfermeira, começou a tratar de um tio que morava na rua ao lado. Em nome da boa vizinhança e da saúde do meu tio, chamávamos a cachorra bem baixinho e ainda assim só quando não havia ninguém por perto.

Dione cresceu muito e depressa. Não sei se pela genética de sua raça ou pelo amor incondicional que nutria por cada um de nós, ela se tornou um excepcional cão de guarda. Ninguém se aventurava pelo nosso quintal se ela estivesse solta. Mesmo tocar a campainha da casa tornou-se um gesto arriscado para os vizinhos. Ela vigiava a casa, a calçada e o pedaço de rua que conseguia ver através do muro. Me lembro de uma noite em que, ao voltar da faculdade, o guarda do quarteirão deu um tapinha em minhas costas em sinal de camaradagem. Nunca mais ele conseguiu trabalhar sossegado. Se pudesse, acho que ela avançaria até sobre sua sombra.

Quando ela entrou no segundo cio, meu irmão julgou prudente preservar aquela linhagem tão forte e altiva. Foi buscar, num sítio próximo, um macho da mesma raça, tão imponente quanto ela, ainda maior e mais forte. Diziam, e não sei se isso tem algum fundamento, que as cachorras sentem-se mais à vontade para o galanteio na própria casa: os machos é que devem vir até elas. Quando soltaram o macho no nosso quintal, ela revelou seu lado mais bestial: seus pêlos de um marrom escuro eriçaram-se, os caninos escaparam dos limites da boca e seu latido se transformou num rosnado ameaçador. E foi assim, vestida para matar, que ela avançou sobre o macho invasor. Depois de dez minutos, ele era levado de volta ao sítio, com o nariz sangrando e todo seu tesão canino reprimido. Achamos que Dione não estava pronta para uma noite de núpcias, ou talvez não tivesse aprovado o noivo escolhido pela família.

Dois dias depois, quando meu irmão levantou-se cedo para ao trabalho, Dione dormia feliz na área de serviço, ao lado de um cachorrinho vagabundo, sem lenço e sem documento, sem pedigree e de procedência desconhecida. E, ainda por cima, com apenas a metade do tamanho dela. Não pode ter acontecido, praguejou meu irmão, enquanto mostrava o caminho da rua para o invasor. Mas aconteceu. Algumas semanas depois, suas tetinhas já estavam inchadas, sua barriga havia se transformado numa bola e seu latido era um canto de felicidade. Meu irmão passou alguns dias andando pelo bairro, atrás daquele cachorro. SEria ele saudável, estava vacinado, tinha ao menosr um dono ou um pedaço de tapete surrado sobre o qual dormir? Nunca mais o cão foi visto, ninguém soube de onde ele vaio e para onde ele foi.

Dois meses depois de sua lua-de-mel subversiva, Dione voltou à area de serviço onde havia perdido a virgindade tão bem guardada pela família. Com seus dentes afiados, tosou uma quantidade imensa dos seus próprios pêlos para fazer uma espécie de caminha para os oito filhotes que nasceriam a seguir. Todos com a cara dela, todos com o tamanho dele. O primeiro filhote nasceu às 11 da noite, o último, quase às quatro da manhã. A cada filhote que vinha ao mundo, ela cortava a placenta com os dentes, deitava-se e, carinhosamente, mostrava-lhe o caminho de uma de suas tetas. Ficamos todos, eu, meu pai, minha mãe e meu irmão ali, ao lado dela, acompanhando emocionados aquele longo trabalho de parto. E, do lado de fora da casa, como o mais zeloso dos pais, o cachorrinho vira-lata assistia a tudo através das grades do portão. Durante os dois meses da gravidez, nunca mais ninguém o vira no bairro. Mas, no dia do parto, ele voltou, exatamente na hora em que o primeiro cachorrinho nasceu. E se foi, sabe-se lá para onde, assim que o último cachorrinho aninhou-se nas tetas generosas da mãe. Talvez tenha ido prestar o mesmo tipo de assistência para alguma outra cachorra a quem ele seduziu durante suas andanças noturnas. Quem sabe foi embora porque, instintivamente, soubesse que Dione e seus oito filhos seriam muito bem tratados e que sua presença era mais necessária em outro lugar.

Faz tanto tempo que tudo isso aconteceu. Dione morreu aos onze anos, de câncer, e seu enterro teve todas as lágrimas que normalmente são guardadas para os humanos. Seus filhotes, a esta altura, estão todos mortos também, bem como o vira-latinha que apareceu em nossas vidas em apenas duas noites. Mas de quem eu nunca me esqueço. Pela sua dedicação e por sua ingênua capacidade de nos mostrar que, quando se está realmente disposto, não há grades, portões altos, pedigrees e famílias bravas a nos separar da nossa felicidade.

5 comentários:

Isabella disse...

Não queria dizer de novo que seu texto é lindo, mas não acho outras palavras para traduzi-lo.
Posso tentar...
Sensível, delicado, intenso: senti cada pêlo da Dione e dos seus filhotes, cada latido dela, cada lágrima da família. SENTI.
Ando por aí, já pulei algumas grades e dei adeus ao pedigree, mas este ensinamento da Dione vai me render bons pensamentos...

alberto disse...

me comoveu de botar lágrima no olho. obrigado, compadre.

Blog do Massa disse...

Isabella e Guza, meus queridos. obrigado pelo carinho e pela compreensão destas memórias todas.
Beijão pra vocês.

Juli =) disse...

Tive uma pequetica que também morreu de câncer. Mas ela era misturada - meia pastor, meia vira-lata (tipo pizza). Uma das orelhas era levantada (pastor), outra caidinha (vira-lata). O nome brotou da criativadade da minha irmã: Fofa.

Beijo. Parabéns pela tua sutileza.

Dalva M. Ferreira disse...

Esses nossos irmãozinhos de quatro patas nos ensinam tanto! Beleza de texto, muito a la Tolstoi (pinta a tua aldeia e serás universal...)