segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Ensaio aberto

Sempre que posso, evito falar de teatro neste espaço. São dois os motivos. Em primeiro lugar, acredito que os acadêmicos e críticos fazem isso bem melhor que eu. Quando eu estava no twitter, costumava usar meus parcos 140 caracteres para sugerir alguma peça em cartaz na cidade; agora, longe do twitter, que infelizmente se transformou, como quase tudo na internet, em um indigesto exercício de promoção pessoal, nem isso mai s faço. Em segundo lugar porque, depois que passei a ter peças encenadas, me sinto um pouco constrangido em falar a respeito do trabalho dos colegas, ainda que seja para elogiar. Sendo assim, o teatro virou um assunto muito raro neste blog – principalmente o teatro feito por mim.

Senti vontade de voltar ao assunto depois de ter assistido, neste início de ano, a alguns espetáculos que me provocaram tédio, irritação e uma sensação incômoda de estar sendo enganado ao vivo e mediante meu consentimento. Não vou dizer aqui que espetáculos são estes. Quem acompanha a cena teatral da cidade talvez já saiba de que peças estou falando já que, em comum, elas trazem uma série de sintomas geralmente associados ao chamado teatro pós-dramático – narrativa fragmentada, projeção de vídeos, uma pretensa modernidade que já chega até nós cheirando a mofo, um jeitão descompromissado dos atores em cena que já antecipa a atitude que eles terão no coquetel de estreia, trilha sonora em excesso, discursos em primeira pessoa, utilização do nome de batismo do ator, postura de marqueteiros e mais uma coisinha ou outra que fazem a nossa plateia de caipiras e sentir em Berlim.

Num destes espetáculos, cruzei um amigo que estava mudando de lugar na plateia. Ele ocupava uma das primeiras fileiras e estava migrando para a última. Perguntei o motivo. “Olha só quanta coisa tem no palco”, ele me alertou. “No mínimo, eles estão tentando esconder algo”. Sábias palavras as do meu amigo. Eles estavam tentando esconder, sim. Estavam tentando esconder que não tinham nada para contar. É como se diretor e elenco nos dissessem assim: “Vejam bem, temos apenas um fiapo de história, ou talvez história nenhuma. Mas isso não é importante. Prestem atenção em como nós sabemos disfarçar isso com toda a nossa parafernália eletrônica e nosso descolado jogo de cintura”.

Sei que este conceito de teatro pós-dramático ainda não está totalmente estabelecido. Mesmo o papa do assunto, o crítico e professor alemão Hans Lehmann, já chegou a declarar em entrevistas que as bases deste tipo de linguagem ainda continuam a ser estabelecidas, o que não nos impede de apontar belas experiências neste campo. Eu arriscaria dizer que Ensaio Hamlet, da Cia dos Atores, levou estas bases do pós-drama a um patamar sublime. Sei que podem dizer que neste caso havia um Shakespeare por trás. Concordo. Mas acredito que alguma coisa deve haver por trás desta quebra da linguagem e do formalismo do drama convencional. Se algo precisa ser quebrado, ótimo, vamos quebrar. Vamos, sim, porque às vezes o resultado pode ser surpreendente e animador. Mas vamos, em primeiro lugar, encontrar alguma coisa que possa ser quebrada em cena, que possa ser rompida para que, a partir daí, brote uma proposta estética inovadora e uma narrativa que nos envolva de imediato. Vamos encontrar uma história que, ao ser quebrada, nos encante com suas infinitas possibilidades de interpretação. Porque, até o momento, a única coisa que eu vi sendo quebrada, sem pudor e sem vergonha, é a cara de quem vai ao teatro.

4 comentários:

Frederico disse...

Acho que tbm assisti essa peça e concordo com vc. Só me diga se é uma que tem nomes globais, tvs no palco e está em cartaz lá perto do Mackenzie. É essa, não é?

Lucas Mayor disse...

Corte Seco. Mas eu não acho a Jatahy esse engodo aí que você propõe não, Sérgio. A Falta que nos Move (2005) aponta respiros pra lá de renovodores e essenciais, além de trazer um fiapo de história nada precário(um tipo de acerto de contas geracional). E ela faz um puta trabalho de pesquisa mesmo, Sérgio (e daí você pode dizer, claro, que a pesquisa dela não dá em nada). Acho que seu amigo foi um tanto quanto apressado, pra mantermos as coisas num terreno civilizado.

Também vi Corte Seco e senti falta da palavra, da dramaturgia. Sou um cara que dá valor ao que e como é dito, mas não acho a peça de maneira nenhuma um exercício inócuo. Enfim.

Caso se interesse, dá uma lida nessa entrevista com a Jatahy (é realmente muito boa, Sérgio, pode confiar):

http://www.questaodecritica.com.br/category/conversas/

Abraços

Mário Viana disse...

Serginho, não sei se é o afã da juventude, mas o pessoal quer praticar a página 115 do kama sutra sem ter aprendido o papai-mamãe, né?
Nego surge já quebrando conceitos que ele nem sabe direito quais são.

Só no blog disse...

Mário e Fred, valeu pela visita, meus caros.
Lucas, muito obrigado pela visita ao blog, também. Mas, se você prestar atenção, verá que estou falando de vários espetáculos que vi este ano. Meu post, ao menos foi esta a intenção, quis fazer referência a todos eles, e não a apenas um. Mais uma vez, brigadão pelo seu comentário