terça-feira, maio 19, 2009

Primeiro sinal

Nesta quarta-feira, dia 20, entra em cartaz no auditório do Sesc Vila Mariana, às 20h30, o projeto Dueto da Solidão, espetáculo composto por dois textos de minha autoria, Ensaio Para um Adeus Inesperado, que abre a programação, e A Noite do Aquário. As duas peças são dirigidas por Sérgio Ferrara e contam com a presença sempre luminosa da atriz Clara Carvalho, que vive duas mães de diferentes épocas e essência, mas semelhantes no seu sentimento de perda. O elenco se completa com um trio de jovens e talentosos atores, os já amigos Chico Carvalho, Gustavo Haddad e Leonardo Miggiorin. O espetáculo ficará em cartaz até o fim de julho, somente nas noites de quarta.

Raramente eu uso o espaço deste blog para falar dos projetos em que estou envolvido. Resolvi abrir uma exceção desta vez por alguns bons motivos. O primeiro deles é o fato de eu ter me cercado de gente tão querida e empenhada em levar adiante estas duas peças intimistas que não precisam de quase nada para ocupar o palco: uma mesa, alguns copos, uma jarra de água e um velho baú. Não acompanhei os ensaios, mas soube que, em sua busca pela concisão, o diretor Sérgio Ferrara aboliu até a trilha sonora, que já era tão mínima. Diretor e elenco resolveram contar as duas histórias confiantes apenas no poder que as palavras têm de criar imagens. No fundo, era o que eu queria também. Um espetáculo intimista, de emoções calculadas. Pequeno como pode ser pequena a vida daqueles que perdem. Ou se deixam perder pelo caminho.

Quanto ao segundo motivo, eu não chegaria a dizer que ele é o mais importante, mas é o mais caro para mim. Tenho um grande carinho, e às vezes alguma saudade, de todas as peças que escrevi, mas A Noite do Aquário brotou após um período de mudez criativa. O texto foi escrito no início de 2007, quando eu, por algum motivo, acreditava que o pouco que eu havia dito até então era tudo o que eu tinha para dizer. Antes de começar a escrever esta peça, atravessei um período grande em que não tinha ideia para um diálogo sequer, o que dizer de uma história inteira. Eu me esforçava por fazer anotações, por pesquisar, por ouvir casos e casos no intuito de levar para o palco um fiapo de narrativa que fosse. Mas nada vingava. Cheguei a pensar que era isso, então: aquela voz que tinha me levado a escrever pelos quatro anos anteriores, período no qual nasceram, entre outros, os textos de Andaime, O Encontro das Águas e Abre as Asas Sobre Nós, tinha se calado. Nunca mais um personagem, nunca mais uma história, nunca mais o prazer solitário de presentear com perguntas e respostas toda aquela gente que até então brotava do teclado do computador com relativa facilidade.

Um dia, eu disse ao terapeuta que aquele dom, ou aquela habilidade, não sei que nome dar a isso, que tinha me visitado já tão tarde na vida, resolveu partir, me deixando no mais completo silêncio e abandono. Ele apenas ouviu. Eu continuei, dizendo que sentia fisicamente a dor daquele abandono (e quem escreve, canta, pinta, dança, toca um instrumento já deve ter ficado apavorado diante da perda da inspiração) e que eu acreditava, por antecipação, que seria muito difícil viver sem as histórias. Me lembro de ter dito que era uma perda semelhante à de um amigo querido que se vai.

Depois de várias semanas, algumas imagens foram aos poucos tomando forma na minha cabeça: a imagem de uma casa num litoral perdido, castigada pelo vento e pela areia, onde viviam uma mãe tão árida quanto o clima ao seu redor, na companhia de um filho caçula que, contrariando todas as expectativas, recusava-se a abandoná-la. Um dia, o filho mais velho, que um dia partiu daquela praia tão melancólica para trabalhar na construção de Brasília, resolveu voltar para resgatar afetos e pedaços de vida esquecidos como seixos à beira-mar. Para os que haviam ficado, o retorno do filho aventureiro era um sinal de que a vida estava voltando ao eixo. Uma noite serviu para provar que o engano não podia ser maior.

Quando eu coloquei o ponto final em A Noite do Aquário, respirei aliviado. As histórias estavam voltando e, embora nunca seja fácil lidar com elas, não há nada que se assemelhe ao temor de sua ausência. Depois disso, vieram A Coleira de Bóris e Ensaio Para um Adeus Inesperado, que nesta quarta vai ganhar a luz pela primeira vez. Tanto os personagens da Coleira quanto do Ensaio não têm nome, o que lhes dá a chance de ser qualquer um de nós, ainda que por alguns momentos. Por tudo isso resolvi falar um pouco das peças aqui, que talvez se assemelhem um pouco às pessoas: quando elas estão por perto, nos rodeando, é preciso ter muita dedicação e paciência, mas quando elas vão embora sem avisar, chega a ser triste demais.

6 comentários:

Kiko disse...

Eba, já tô ansioso!!! Bjão e boa sorte!

Mário Viana disse...

sergio, a gente que tem mania de trabalhar pra pagar conta e que não perde certos luxos, como teto, comida na geladeira e luz elétrica... enfim... a gente que viveu de escrever pra pagar as tais contas, no jornal, nas revistas, nos frilas... a gente estabelece uma outra relação com a palavra. Quando é pra escrever 'nossas' coisas, complica mesmo. É como se tivéssemos de escrever sempre, industrialmente. O Teatro pede outro tempo. Consome outra energia.
Que bom, que bom mesmo, que vc 'sarou'.
bjs e merda na estréia! beijos em gustavo, clara e serginho, que conheço e adoro.

Anônimo disse...

Agora já deve ter acontecido a primeira vez da encenação para o público. Tenho certeza de que foi festejada entre flores e delicadezas. E este filho mais velho voltou e passeou no terreno e foi-se, talvez diferente, não sei. Mas vc, elaborando esta sua aparente aridez se deixou fertilizar; e agora, aí está vc, grávido novamente! Parabéns por dar mais textos à luz do palco.
com carinho,
Valéria

Anônimo disse...

Eu vou ver tudo. bjo. Adorno.

Anônimo disse...

Sérgio,

Há uns 2 meses estava procurando um determinado assunto no google, quando de repente veio seu blog como indicação, comecei a ler, e me identifiquei com vários temas, depois daquele dia acompanho semanalmente seu blog...é uma terapia ler seus textos...

Curiosa, hj fui assistir a peça de sua autoria Dueto da Solidão, Parabéns pela peça...Adorei..sai de lá muito pensativa principalmente com a 1a. parte do Ensaio para um Adeus inesperado...Obrigada...

Só no blog disse...

Pôxa, eu fico duplamente feliz. Com a leitura do blog e com sua presença na peça. Valeu mesmo pela força. Um grande abraço, sérgio