Não são os terremotos, os tsunamis ou o derretimento da calota polar que me fazem acreditar que deve haver algo de errado com o clima. O que me leva a pensar que alguma coisa está mudando na natureza é ver que até na Sexta-Feira Santa agora faz calor. E até onde minha memória me permite viajar, eu garanto que não era mesmo assim. Desde quando aquelas sextas-feiras frias e tristes da minha infância, quando não havia nada mais animado a fazer além de esperar pela procissão que passava na frente de casa, deram lugar a praias com sol e tempo bom? Este sim, para mim, é um dos mistérios da fé. Naqueles dias santos, havia uma melancolia e um inexplicável temor diante da morte que, penso eu agora, estavam intimamente ligados às nuvens cinzentas que cobriam o céu da minha cidade. Era um convite natural à tristeza que, felizmente, parece que abandonamos.
Me lembro de minha mãe dizendo que, em seus tantos anos de vida, nunca ter visto uma Sexta-Feira Santa ensolarada. Para ela, talvez, a natureza em si fosse uma católica praticante que recolhesse parte do seu brilho em respeito ao deus morto. Meu pai não se barbeava naquele dia e nós, crianças, deveríamos ficar longe da tevê e do rádio. Tínhamos reforçada a recomendação de, especificamente naquele dia, não brigar na rua e nem dizer palavrões, ao menos em voz alta. Era proibido rir alto, correr ou jogar bola no campinho esburacado. Acho que era proibido ser muito feliz também.
Diante de tantas restrições, talvez eu me obrigasse a encontrar algum encantamento naquele dia, alguma brechinha para me extasiar no meio de um ritual de cores escuras, velas mal-cheirosas e estátuas de semblantes doloridos e machucados. Encontrei o tal encantamento numa misteriosa figura feminina. Ela tinha o rosto coberto por véu e um pano amarelado nas mãos que, mais tarde vim a saber, trazia a imagem da face de Jesus. Para mim, aquela mulher, chamada Verônica, era o que havia de mais misterioso e fascinante na Procissão do Senhor Morto.
Ao longo do percurso da procissão, todos paravam, se não me engano nove vezes, para ouvi-la cantar. Uma dessas paradas se dava bem em frente ao portão da minha casa. Quando a procissão se aproximava, minha mãe arrastava para a calçada uma cadeira que em pouco tempo iria se converter num minúsculo palco sobre o qual Verônica soltaria sua voz fina, dolorida e potente, enquanto desenrolava o pano amarelado com a imagem do rosto do Cristo martirizado. O que ela está cantando, eu perguntava para quem estivesse mais perto. Devia ser algo em latim, já que ninguém nunca me respondeu satisfatoriamente. O canto da Verônica era o acontecimento mais aguardado de um dia em que nada mais deveria acontecer. Com o tempo, aquela mulher que eu ingenuamente acreditava ganhar vida só no dia da procissão, deu um toque de Natal para a minha Sexta-Feira Santa. Ela era uma espécie de Papai Noel entristecido que trazia um único presente: a voz misteriosa e incompreensível que fazia uma serenata pungente na frente da minha janela.
E durante anos eu aguardava a procissão da Sexta-Feira Santa, na certeza de que, num milagre tão potente quanto o da ressurreição de Cristo, Verônica voltaria para a vida bem em cima da cadeira da nossa cozinha. E então, numa tarde, enquanto acompanhava minha mãe até uma loja recém-aberta no bairro, passamos na frente de uma casa simples, com jardinzinho ressecado e duas janelas azuis cravadas numa parede que havia sido branca algum dia. “É aqui que mora a Verônica”, minha mãe disse, sem nem sequer diminuir o passo. Gelei. “Que Verônica?”, eu perguntei, talvez já com medo da resposta. “A que canta na procissão. Ela mora aí com os dois filhos”. A vida, então, era só isso: a Maria Callas da minha infância morava no mesmo bairro e tomava conta de dois filhos numa casinha modesta. Talvez até trabalhasse fora, mas nisso eu nunca quis pensar.
Quem sabe tenha sido naquele momento, em que a magia se desfez de forma tão impiedosa, que o sol começou a raiar também na Sexta-Feira Santa.
quarta-feira, abril 20, 2011
segunda-feira, abril 18, 2011
E se...
Dia desses, durante um café com um amigo, falávamos sobre a inutilidade de imaginar a vida que poderíamos ter tido, em comparação com a vida que efetivamente temos hoje. Falamos sobre como parecia improdutível, talvez até cruel, nos debruçarmos sobre todos os “se” que deixamos para trás. Discorremos sobre onde estaríamos agora se tivéssemos feito determinada coisa no lugar da outra que realmente fizemos e que nos trouxe até aqui. É um tipo de conversa que eu gosto de ter, embora pareça, à primeira vista, um grande exercício sobre o vazio e mesmo sobre um provável arrependimento – já que a única vida que conhecemos é esta que temos, aqui e agora, e que resultou de todas as decisões que tomamos e de uma gigantesca contribuição do acaso. Ainda assim, não evito pensar em como as coisas poderiam ter sido diferentes se eu tivesse pego, lá atrás, o caminho que dobrava à direita e não aquele que me conduziu para a esquerda (nenhuma conotação política neste caso).
Eu gostaria de ser um tipo de pessoa que, decisão tomada, página virada. Não consigo. Levo muito tempo para me decidir sobre alguma coisa (na maioria das vezes, adoraria ter alguém que tomasse as decisões acertadas por mim – só as acertadas, porque das outras eu mesmo me encarrego) e mesmo assim, depois de decidir, perco noites de sono pensando em como seriam as coisas se eu tivesse tomado a opção diferente, se tivesse escolhido a alternativa que eu a duras penas descartei. Garanto que é uma bela maneira de fazer a vida empacar e me considero quase expert nisso. Uma vez, fiz meu mapa astral com uma astróloga chinesa que atendia no Conjunto Nacional. Ela disse que não havia quase nada do elemento água em meu mapa – daí minha dificuldade em “lavar as mágoas” e deixar o passado lá atrás, que é o lugar dele. Ela me recomendou fazer natação. Fiz três aulas e parei. Continuo árido e apegado ao que fiz – e também e cada vez mais, ao que deixei de fazer.
Aos 19 anos, recém-saído do Exército, não sabia que rumo tomar na vida. Fiz um ano de cursinho e prestei vestibular para duas carreiras, medicina e jornalismo. Entrei em jornalismo e fiquei na lista de espera para medicina, com apenas nove candidatos na minha frente. A secretaria da faculdade acreditava que eu seria chamado – mas não rolou. E passei os dois primeiros anos da faculdade de jornalismo lamentando profundamente estar ali. Todo dia eu pensava em trancar a matrícula, voltar para o cursinho e tentar entrar em medicina no ano seguinte. Fiquei numa espécie de limbo – não curtia o curso de jornalismo e nem tinha coragem de parar. Este desconforto só desapareceu no terceiro ano de faculdade, quando entrei pela primeira vez numa redação de jornal e compreendi que eu seria mais feliz tendo nas mãos um teclado e não um bisturi. Ainda assim, até hoje me flagro pensando em como seria minha vida, quem seriam os meus amigos, onde eu estaria agora se tivesse deixado o jornalismo de lado para tentar fazer o curso de medicina.
Este é apenas um entre as dezenas de exemplos que carrego de todas as encruzilhadas em que a vida já nos jogou. Ou isto ou aquilo, como dizia Cecília Meireles em um dos seus poemas mais famosos. Sempre que estas inquietações vêm me atazanar um pouquinho, o engraçado é que não costumo pensar se eu estaria mais rico, se moraria em outra cidade, se teria outros contatos caso tivesse feito as coisas que não fiz. O que eu sempre penso nestas horas, e é aí que está a dureza da situação, é se eu teria sido mais feliz.
Eu gostaria de ser um tipo de pessoa que, decisão tomada, página virada. Não consigo. Levo muito tempo para me decidir sobre alguma coisa (na maioria das vezes, adoraria ter alguém que tomasse as decisões acertadas por mim – só as acertadas, porque das outras eu mesmo me encarrego) e mesmo assim, depois de decidir, perco noites de sono pensando em como seriam as coisas se eu tivesse tomado a opção diferente, se tivesse escolhido a alternativa que eu a duras penas descartei. Garanto que é uma bela maneira de fazer a vida empacar e me considero quase expert nisso. Uma vez, fiz meu mapa astral com uma astróloga chinesa que atendia no Conjunto Nacional. Ela disse que não havia quase nada do elemento água em meu mapa – daí minha dificuldade em “lavar as mágoas” e deixar o passado lá atrás, que é o lugar dele. Ela me recomendou fazer natação. Fiz três aulas e parei. Continuo árido e apegado ao que fiz – e também e cada vez mais, ao que deixei de fazer.
Aos 19 anos, recém-saído do Exército, não sabia que rumo tomar na vida. Fiz um ano de cursinho e prestei vestibular para duas carreiras, medicina e jornalismo. Entrei em jornalismo e fiquei na lista de espera para medicina, com apenas nove candidatos na minha frente. A secretaria da faculdade acreditava que eu seria chamado – mas não rolou. E passei os dois primeiros anos da faculdade de jornalismo lamentando profundamente estar ali. Todo dia eu pensava em trancar a matrícula, voltar para o cursinho e tentar entrar em medicina no ano seguinte. Fiquei numa espécie de limbo – não curtia o curso de jornalismo e nem tinha coragem de parar. Este desconforto só desapareceu no terceiro ano de faculdade, quando entrei pela primeira vez numa redação de jornal e compreendi que eu seria mais feliz tendo nas mãos um teclado e não um bisturi. Ainda assim, até hoje me flagro pensando em como seria minha vida, quem seriam os meus amigos, onde eu estaria agora se tivesse deixado o jornalismo de lado para tentar fazer o curso de medicina.
Este é apenas um entre as dezenas de exemplos que carrego de todas as encruzilhadas em que a vida já nos jogou. Ou isto ou aquilo, como dizia Cecília Meireles em um dos seus poemas mais famosos. Sempre que estas inquietações vêm me atazanar um pouquinho, o engraçado é que não costumo pensar se eu estaria mais rico, se moraria em outra cidade, se teria outros contatos caso tivesse feito as coisas que não fiz. O que eu sempre penso nestas horas, e é aí que está a dureza da situação, é se eu teria sido mais feliz.
quarta-feira, abril 13, 2011
Acaju
Ouço de muitas pessoas, amigos inclusive, que se existe alguma vantagem no correr dos anos(que podemos chamar aqui de maturidade) é que se perde o medo do ridículo. Infelizmente, não é o que acontece comigo. Quanto mais passa o tempo, mais cresce o meu medo de ser ridículo. Caberia uma imensa discussão aqui sobre o que é, afinal, ser ridículo. Mas no íntimo, cada um de nós, por experiência própria ou observação do mundo, tem, ou deveria ao menos ter, o seu conceito de ridículo muito bem formulado. Eu também tenho o meu. Gostaria que ele fosse um pouco mais elástico, ou menos autoritário, mas não é o caso: sempre tive medo de ser ridículo e este medo, ao contrário de outros que domei na vida, continua a me infernizar.
É este medo que muitas vezes me faz calar diante de fatos e coisas que não consigo entender direito. Aprendi que o silêncio costuma estar do lado oposto do ridículo – e o silêncio pode ser a nossa maior contribuição diante do inexplicável. Ouvi, como todo mundo deve ter ouvido, centenas de explicações igualmente ridículas sobre o comportamento e as motivações daquele jovem que abriu fogo contra crianças numa escola do Rio. Frases feitas, conceitos surrados, a chamada psicologia de botequim quando o botequim já está prestes a fechar. Estamos adquirindo o terrível vício de tentar explicar aquilo que foge da nossa compreensão. E tentar explicar sempre, como se a nossa opinião, e só ela, definisse a nossa postura no mundo. E quando não temos opinião? E quando a nossa opinião não acrescenta absolutamente nada de louvável e interessante a tudo aquilo que já foi dito e escrito? Qual o problema de se calar? Qual o problema de se ficar quieto num canto e evitar, acima de tudo, ser apenas mais um ridículo?
Meu medo de ser ridículo talvez resulte do fato de eu já não me sentir mais tão jovem. Quando se é adolescente, o nosso ridículo pode ser confundido com rebeldia, auto-afirmação, desajuste ou algum processo desenfreado de busca. Explicações maravilhosas que realmente funcionam. O tempo, aos poucos, vai eliminando estes nossos álibis. E é por isso que eu não compro muito esta idéia de que a maturidade nos abre a porta para o ridículo. A maturidade fez com que eu desse menos importância a uma série de coisas – menos ao temor de ser ridículo.
Se não me engano, Fernando Pessoa diz em um poema que só as pessoas ridículas não escrevem cartas de amor ridículas, pois todas as cartas de amor são, por definição, ridículas. Mas ser ridículo, por descuido ou deliberadamente, é um tipo de exercício que eu não pretendo realmente praticar. Isso não vai me impedir, obviamente, de tomar atitudes ridículas até o último dos meus dias. Talvez este post em si já seja uma prova da minha indisfarçável capacidade de ser ridículo. Talvez daqui a meia hora, ao sair de casa, eu tome uma atitude ridícula em cada esquina. Talvez eu buzine para o carro da frente porque ele não arrancou quando o semáforo abriu, como eu fiz ontem. Talvez eu seja cruel com alguém que não é de forma alguma responsável por uma eventual tristeza ou frustração de minha parte. Talvez eu alimente sentimentos de vingança, talvez eu não reconheça no outro uma certa nobreza apenas pelo meu medo da competição. Talvez eu me deite e me levante com a sensação de ter sido ridículo justamente por que fiz um pouco disso tudo. Talvez eu pinte meu cabelo de acaju e passe os dias a distribuir selinhos na boca de todo mundo.
Mas eu garanto que não vou me orgulhar disso. E que não vejo o passar dos anos como um salvo-conduto, como uma autorização para que meus atos pequem pela falta de inteligência, generosidade e bom-senso. A cada dia o ridículo me dói mais. E sinceramente não invejo os que acreditam que ser ridículo é uma conquista que a idade nos traz.
É este medo que muitas vezes me faz calar diante de fatos e coisas que não consigo entender direito. Aprendi que o silêncio costuma estar do lado oposto do ridículo – e o silêncio pode ser a nossa maior contribuição diante do inexplicável. Ouvi, como todo mundo deve ter ouvido, centenas de explicações igualmente ridículas sobre o comportamento e as motivações daquele jovem que abriu fogo contra crianças numa escola do Rio. Frases feitas, conceitos surrados, a chamada psicologia de botequim quando o botequim já está prestes a fechar. Estamos adquirindo o terrível vício de tentar explicar aquilo que foge da nossa compreensão. E tentar explicar sempre, como se a nossa opinião, e só ela, definisse a nossa postura no mundo. E quando não temos opinião? E quando a nossa opinião não acrescenta absolutamente nada de louvável e interessante a tudo aquilo que já foi dito e escrito? Qual o problema de se calar? Qual o problema de se ficar quieto num canto e evitar, acima de tudo, ser apenas mais um ridículo?
Meu medo de ser ridículo talvez resulte do fato de eu já não me sentir mais tão jovem. Quando se é adolescente, o nosso ridículo pode ser confundido com rebeldia, auto-afirmação, desajuste ou algum processo desenfreado de busca. Explicações maravilhosas que realmente funcionam. O tempo, aos poucos, vai eliminando estes nossos álibis. E é por isso que eu não compro muito esta idéia de que a maturidade nos abre a porta para o ridículo. A maturidade fez com que eu desse menos importância a uma série de coisas – menos ao temor de ser ridículo.
Se não me engano, Fernando Pessoa diz em um poema que só as pessoas ridículas não escrevem cartas de amor ridículas, pois todas as cartas de amor são, por definição, ridículas. Mas ser ridículo, por descuido ou deliberadamente, é um tipo de exercício que eu não pretendo realmente praticar. Isso não vai me impedir, obviamente, de tomar atitudes ridículas até o último dos meus dias. Talvez este post em si já seja uma prova da minha indisfarçável capacidade de ser ridículo. Talvez daqui a meia hora, ao sair de casa, eu tome uma atitude ridícula em cada esquina. Talvez eu buzine para o carro da frente porque ele não arrancou quando o semáforo abriu, como eu fiz ontem. Talvez eu seja cruel com alguém que não é de forma alguma responsável por uma eventual tristeza ou frustração de minha parte. Talvez eu alimente sentimentos de vingança, talvez eu não reconheça no outro uma certa nobreza apenas pelo meu medo da competição. Talvez eu me deite e me levante com a sensação de ter sido ridículo justamente por que fiz um pouco disso tudo. Talvez eu pinte meu cabelo de acaju e passe os dias a distribuir selinhos na boca de todo mundo.
Mas eu garanto que não vou me orgulhar disso. E que não vejo o passar dos anos como um salvo-conduto, como uma autorização para que meus atos pequem pela falta de inteligência, generosidade e bom-senso. A cada dia o ridículo me dói mais. E sinceramente não invejo os que acreditam que ser ridículo é uma conquista que a idade nos traz.
quarta-feira, dezembro 08, 2010
Magiclick
Domingo passado fui visitar meus pais, que moram em Jundiaí. Levei para minha mãe um presente mais que modesto: um acendedor de fogão, uma bugiganga que custa menos de 15 reais em qualquer banca de camelô. Claro que não se tratava do presente de Natal. Mesmo minha mãe, que a vida toda sempre demonstrou não dar a mínima para presentes de Natal, ficaria ofendida com um presente tão sem charme. Comprei-o porque, na última vez em que estive lá, minha mãe disse que o acendimento automático do fogão havia pifado e ela, depois de anos, se vira obrigada a resgatar as caixinhas de fósforos.
Nenhum relato pode ser mais cotidiano e pueril que este. Mas a banalidade do ato termina por aqui. Minha mãe não conseguiu fazer o acendedor funcionar, seu polegar direito, tão necessário para o gesto, talvez como o resto do seu corpo já esteja mais fraco é débil. Minha mãe não está doente, nada disso. Ela está envelhecendo – o que talvez, para os nossos conceitos atuais, seja pior que adoecer. Constrangida diante da família, como se carregasse nas mãos um revólver que não conseguiu disparar num momento de necessidade, ela passou o acendedor a meu pai, na esperança de que ele tivesse melhor sorte.
Meu irmão, eu e minha sobrinha, como se possuídos por um abjeto acesso de vitalidade do qual viríamos a nos arrepender no momento seguinte, exibimos para os dois como era fácil, prático, elegante e viril fazer brotar uma chama amarelada na ponta do acendedor. Depois desta tripla exibição, meu pai tentou e também não conseguiu.
É um relato de nada, uma coisinha tão à toa e por isso mesmo tão dolorida. Saber que a velhice - e a debilidade que ela acarreta - não precisa de grandes fracassos físicos para revelar sua face. Dispensa gritos noturnos, incontinência urinária e as traições da memória. Num almoço de domingo, diante de toda família, um maldito acendedor nos revelou que meus pais há muito deixaram de ser jovens. Não era segredo para ninguém, há anos que nunca foi. Mas lembrar do desconforto e da frustração presentes no rosto deles, duas pessoas idosas metaforicamente incapazes de produzir fogo, o segredo da vida, é algo que machuca legal.
Nenhum relato pode ser mais cotidiano e pueril que este. Mas a banalidade do ato termina por aqui. Minha mãe não conseguiu fazer o acendedor funcionar, seu polegar direito, tão necessário para o gesto, talvez como o resto do seu corpo já esteja mais fraco é débil. Minha mãe não está doente, nada disso. Ela está envelhecendo – o que talvez, para os nossos conceitos atuais, seja pior que adoecer. Constrangida diante da família, como se carregasse nas mãos um revólver que não conseguiu disparar num momento de necessidade, ela passou o acendedor a meu pai, na esperança de que ele tivesse melhor sorte.
Meu irmão, eu e minha sobrinha, como se possuídos por um abjeto acesso de vitalidade do qual viríamos a nos arrepender no momento seguinte, exibimos para os dois como era fácil, prático, elegante e viril fazer brotar uma chama amarelada na ponta do acendedor. Depois desta tripla exibição, meu pai tentou e também não conseguiu.
É um relato de nada, uma coisinha tão à toa e por isso mesmo tão dolorida. Saber que a velhice - e a debilidade que ela acarreta - não precisa de grandes fracassos físicos para revelar sua face. Dispensa gritos noturnos, incontinência urinária e as traições da memória. Num almoço de domingo, diante de toda família, um maldito acendedor nos revelou que meus pais há muito deixaram de ser jovens. Não era segredo para ninguém, há anos que nunca foi. Mas lembrar do desconforto e da frustração presentes no rosto deles, duas pessoas idosas metaforicamente incapazes de produzir fogo, o segredo da vida, é algo que machuca legal.
domingo, dezembro 05, 2010
Cabecinha dura
Nos últimos meses, minha memória inventou de me punir. De cada dez lembranças que me veem à cabeça, assim do nada, nove não são lembranças boas. Não acredito que eu tenha me convertido em uma pessoa mórbida ou derrotista – ainda que eu tenha sempre cultivado estes dois defeitos (será que são defeitos mesmo ou apenas um providencial freio para que a gente não se transforme em um babaca deslumbrado?) não acho que eles tenham fugido do controle de uma hora para outra.
As tais lembranças que vira e mexe me atazanam não têm nada a ver com mortes ou outros episódios igualmente tristes. São apenas um conjunto mais ou menos tolerável de decepções, de gafes, de mal entendidos, de pequenas mágoas que talvez pudessem ser evitadas, mas não foram. Então, nos últimos meses, quando minha memória decide resgatar algumas coisas do meu arquivo morto, só por pirraça resgata justamente os momentos em que fui patético – deixando encobertos pelo pó do tempo os momentos em que não o fui. Talvez fosse querer demais ser visitado apenas pelos episódios do passado em que eu marquei o gol – mas também não precisava ser assombrado por aqueles em que eu perdi o pênalti e ainda fui vaiado. Tudo me leva a crer que eu tenha desenvolvido uma memória seletiva ao contrário – só as chateações é que estão sendo preservadas pela minha massa cinzenta cada dia mais ranzinza.
Estou fazendo o possível para acreditar que existe algo de positivo nisso. Talvez minhas memórias se mostrem mais interessadas em me educar do que em me punir – é como se, ao recuperar uma mancada de dez anos atrás, meu cérebro procurasse me dizer que eu não estou livre de novas mancadas, mas que aquela mancada específica eu não preciso mais reproduzir. É amarga, mas não deixa de ser uma lição. Meu medo é de que, a continuar assim, minhas memórias assumam o papel de uma grande mãe universal, disposta a me deixar de castigo até que eu peça perdão e jure não fazer mais traquinagens.
Se este é o lado positivo da questão (haja otimismo nesta constatação), também existe o lado que chega a ser quase desesperador. É ele que me diz que, por mais que o tempo passe, por mais que a gente acredite ter ganhado alguma sabedoria e por mais que a gente tenha se esforçado para refinar os nossos sentimentos em relação ao mundo e a nós mesmos, a gente não precisa de mais do que dez minutos para trocar os pés pelas mãos de novo. Basta botar a cara para fora que a gente vai começar a errar, a tropeçar, a dar cabeçada e a magoar a quem não devia. E, muitas vezes, esta pessoa a quem a gente magoa tanto, é aquela que invariavelmente trazemos de volta para casa noite após noite: nós mesmos.
As tais lembranças que vira e mexe me atazanam não têm nada a ver com mortes ou outros episódios igualmente tristes. São apenas um conjunto mais ou menos tolerável de decepções, de gafes, de mal entendidos, de pequenas mágoas que talvez pudessem ser evitadas, mas não foram. Então, nos últimos meses, quando minha memória decide resgatar algumas coisas do meu arquivo morto, só por pirraça resgata justamente os momentos em que fui patético – deixando encobertos pelo pó do tempo os momentos em que não o fui. Talvez fosse querer demais ser visitado apenas pelos episódios do passado em que eu marquei o gol – mas também não precisava ser assombrado por aqueles em que eu perdi o pênalti e ainda fui vaiado. Tudo me leva a crer que eu tenha desenvolvido uma memória seletiva ao contrário – só as chateações é que estão sendo preservadas pela minha massa cinzenta cada dia mais ranzinza.
Estou fazendo o possível para acreditar que existe algo de positivo nisso. Talvez minhas memórias se mostrem mais interessadas em me educar do que em me punir – é como se, ao recuperar uma mancada de dez anos atrás, meu cérebro procurasse me dizer que eu não estou livre de novas mancadas, mas que aquela mancada específica eu não preciso mais reproduzir. É amarga, mas não deixa de ser uma lição. Meu medo é de que, a continuar assim, minhas memórias assumam o papel de uma grande mãe universal, disposta a me deixar de castigo até que eu peça perdão e jure não fazer mais traquinagens.
Se este é o lado positivo da questão (haja otimismo nesta constatação), também existe o lado que chega a ser quase desesperador. É ele que me diz que, por mais que o tempo passe, por mais que a gente acredite ter ganhado alguma sabedoria e por mais que a gente tenha se esforçado para refinar os nossos sentimentos em relação ao mundo e a nós mesmos, a gente não precisa de mais do que dez minutos para trocar os pés pelas mãos de novo. Basta botar a cara para fora que a gente vai começar a errar, a tropeçar, a dar cabeçada e a magoar a quem não devia. E, muitas vezes, esta pessoa a quem a gente magoa tanto, é aquela que invariavelmente trazemos de volta para casa noite após noite: nós mesmos.
quarta-feira, outubro 27, 2010
Agulha
O Louco Amor de Yves Saint-Laurent, documentário sobre a vida e a carreira de um dos gênios da alta-costura francesa, em exibição na Mostra Internacional de Cinema, tem um título enigmático: depois de duas horas de exibição, saí sem entender o que havia de louco no relacionamento de 50 anos que o estilista manteve com o empresário e colecionador Pierre Bergé. Seria justamente a longevidade da relação? Nos dias que correm, loucura seria conviver com a mesma pessoa ao longo de meio século? Não me parece que este tenha sido o sentido do documentário, que só reforçou em mim uma antiga suspeita de que a convivência, ainda mais as duradouras, é um tipo de coquetel que exige uma dose de paciência e respeito muito maior do que de loucura. Ao menos por parte de um dos envolvidos.
Não por coincidência, o documentário abrange os 50 anos que Saint-Laurent viveu ao lado de Pierre Bergé – período em que ele se consolidou como um dos maiores estilistas do mundo e, ao lado do parceiro, também um dos maiores colecionadores de arte moderna do planeta. Após a morte de Saint-Laurent, Bergé decidiu se desfazer desta monumental coleção que incluía mais de 700 itens, entre quadros de Picasso, Mondrian e Matisse. Num concorrido leilão realizado pela Christie’s, no Petit Palais de Paris, as peças, juntas, movimentaram mais de 200 milhões de euros.
Mas tudo isso é estatística. O que me atraiu no documentário não foram as geniais criações de Saint-Laurent, muito menos a grandiosidade de seus quadros e esculturas – imagens que, tanto umas quanto outras, já estamos cansados de ver. Atraiu-me muito mais a disposição do diretor Pierre Thoretton em investigar a história de amor que, a exemplo da fama e da fortuna dos dois, também crescia de alguma forma – ou nem sempre. O emocionante depoimento de Bergé parecia demonstrar que ele não estava apenas interessado em passar adiante seus objetos de arte, mas também a história do seu relacionamento.
Sem que Saint-Laurent tivesse vivido para dar sua versão sobre a história, o que me sobrou foi a ideia, talvez errônea, mas sempre presente em minha cabeça, de que os relacionamentos quase nunca são feitos em porções igualitárias de amor e dedicação: me parece que sempre sobra para alguém a tarefa de carregar o piano. Me parece que alguém tem sempre de ceder, de ponderar, de ir embora já sabendo que vai voltar quando o outro chamar, de perdoar e, acima de tudo, de acreditar que mesmo quando o teto está desabando sobre o casal, tudo não passa de apenas mais uma crise. Claro que, partindo do pressuposto que um papel como este deva ser representado, é bom que seja em sistema de revezamento.
De tudo que foi dito e mostrado no documentário, uma frase persiste na minha cabeça. Ao se recordar dos anos em que Saint Laurent passou mergulhado no álcool e nas drogas, Bergé confessou que chegou a sair de casa. Ele se mudou para um hotel na mesma rua em que eles moravam. “Eu queria estar perto quando Saint-Laurent me chamasse de volta. Eu não conseguiria mesmo viver longe dele”.
É assim. Alguém vai e alguém chama de volta. E, quem foi, muitas vezes atende este pedido. Seriam dois lados da mesma moeda?
Não por coincidência, o documentário abrange os 50 anos que Saint-Laurent viveu ao lado de Pierre Bergé – período em que ele se consolidou como um dos maiores estilistas do mundo e, ao lado do parceiro, também um dos maiores colecionadores de arte moderna do planeta. Após a morte de Saint-Laurent, Bergé decidiu se desfazer desta monumental coleção que incluía mais de 700 itens, entre quadros de Picasso, Mondrian e Matisse. Num concorrido leilão realizado pela Christie’s, no Petit Palais de Paris, as peças, juntas, movimentaram mais de 200 milhões de euros.
Mas tudo isso é estatística. O que me atraiu no documentário não foram as geniais criações de Saint-Laurent, muito menos a grandiosidade de seus quadros e esculturas – imagens que, tanto umas quanto outras, já estamos cansados de ver. Atraiu-me muito mais a disposição do diretor Pierre Thoretton em investigar a história de amor que, a exemplo da fama e da fortuna dos dois, também crescia de alguma forma – ou nem sempre. O emocionante depoimento de Bergé parecia demonstrar que ele não estava apenas interessado em passar adiante seus objetos de arte, mas também a história do seu relacionamento.
Sem que Saint-Laurent tivesse vivido para dar sua versão sobre a história, o que me sobrou foi a ideia, talvez errônea, mas sempre presente em minha cabeça, de que os relacionamentos quase nunca são feitos em porções igualitárias de amor e dedicação: me parece que sempre sobra para alguém a tarefa de carregar o piano. Me parece que alguém tem sempre de ceder, de ponderar, de ir embora já sabendo que vai voltar quando o outro chamar, de perdoar e, acima de tudo, de acreditar que mesmo quando o teto está desabando sobre o casal, tudo não passa de apenas mais uma crise. Claro que, partindo do pressuposto que um papel como este deva ser representado, é bom que seja em sistema de revezamento.
De tudo que foi dito e mostrado no documentário, uma frase persiste na minha cabeça. Ao se recordar dos anos em que Saint Laurent passou mergulhado no álcool e nas drogas, Bergé confessou que chegou a sair de casa. Ele se mudou para um hotel na mesma rua em que eles moravam. “Eu queria estar perto quando Saint-Laurent me chamasse de volta. Eu não conseguiria mesmo viver longe dele”.
É assim. Alguém vai e alguém chama de volta. E, quem foi, muitas vezes atende este pedido. Seriam dois lados da mesma moeda?
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