quinta-feira, março 04, 2010

Naquela mesa tá faltando ele

Assim que me mudei para São Paulo, um amigo do Jornal da Tarde me levou para jantar na cantina Famiglia Mancini, uma maneira carinhosa de me dar as boas-vindas à cidade. Eu já conhecia o lugar e confesso que nunca esteve entre meus prediletos. Em todo caso, achei que seria pouco elegante recusar o convite e lá fomos nós, enfrentar as filas na calçada do Bexiga. O garçom nos acomodou em uma daquelas saletas em que havia lugar para duas mesas – a nossa e a de um casal que chegara praticamente na mesma hora que nós. Eles deviam ter por volta de 40 anos e talvez, mas agora o cálculo é por conta e risco da minha imaginação – devessem estar juntos por mais de dez.

Cada um abriu o seu próprio cardápio e fez um pedido diferente ao garçom. Mergulharam, então, em um silêncio que perdurou pelo jantar inteiro, mais de uma hora de um mutismo assustador. Cada um olhava para um canto, os rostos não se encontravam jamais; um polvo talvez soubesse o que fazer com as mãos melhor que eles. A única expressão que ouvi, dele, foi um muito obrigado quando o garçom trouxe o troco. E foram embora tão mudos quanto chegaram. Eu e meu amigo, que à época era solteiro e hoje está no terceiro casamento, comentamos como devia ser chato voltar para casa daquele jeito, praticamente na companhia de um estranho. Imaginamos que aquele não deveria ter sido um episódio particular – era possível que aquele silêncio e aquele desconhecimento da presença do outro já rondassem aquele casal por muito tempo. Concordamos que a solidão a dois é um espetáculo muito triste.

Ainda hoje me lembro daquele jantar porque ele não foi só marcante, foi o primeiro de uma série que eu pude ver se repetir ao longo dos anos. Encontros tingidos pelo silêncio ou por um único assunto, repetido à exaustão. Há um mês, sentei-me ao lado de um casal num restaurante da Vila Madalena. Era horário de almoço e eles estavam visivelmente apressados e nervosos. Melhor dizendo, ela estava nervosa. Quanto a ele, não posso me certificar se estava realmente vivo. Ou ali. Foi impossível ignorar o motivo do nervosismo dela. Com a voz em volume máximo, ela contou que precisava ser operada e o plano de saúde não permitia que o procedimento fosse feito por um médico não conveniado. O problema era exatamente este – nem uma vírgula a mais, nem uma exclamação a menos. E ela levou cerca de 40 minutos para explicar isso para o marido. Ele deve ter entendido logo na primeira vez, mas ela repetiu a informação com todas as variações possíveis, enquanto ele não abriu a boca uma única vez, a não ser para introduzir o garfo. Pensei no que era mais dolorido – o silêncio total do casal do passado ou a repetição obsessiva de uma única fala para que não despontasse um abismo entre o casal atual.

Como às vezes alguns assuntos parecem nos perseguir em determinadas épocas, três ou quatro dias depois daquele almoço saí para comer uma pizza, desta vez com dois amigos. Era domingo de carnaval e a pizzaria, concorrida durante todas as noites do ano, exibia uma calma estranha. Ao nosso lado, sentou-se – e lá vamos nós de novo – um outro casal, elegante e cheio de distinção. Pois ela passou todo o tempo, todo o tempo mesmo, contando de como perdera e mais tarde recuperara um anel de brilhantes, o mesmo que ela orgulhosamente exibia como prova de sua aventura. Novamente a história foi repetida pelo menos cinco vezes pela mulher, enquanto o marido entornava suas tacinhas de vinho tinto e mal tocava na pizza. No resto do país era carnaval, mas na mesa deles já havia sido decretada a quarta-feira de cinzas.

É pretensioso demais tentar desvendar o que vai pela cabeça dos outros, embora alguns sinais sejam visíveis. Mas todos estes episódios de absoluta falta de comunicação e entrosamento só me fazem acreditar que muita gente já não está mais onde deveria estar. O corpo ainda continua saindo e fazendo companhia para o outro, mas a mente e o coração já escaparam faz tempo.

segunda-feira, março 01, 2010

Lei do psiu

Não houve nenhuma briga no caminho, nada de especialmente ruim aconteceu e também não estamos de mal com o mundo. Ao menos, acreditamos que não. Mesmo assim, não sentimos muita vontade de conversar, de sair, de encontrar as pessoas pelo prazer de jogar conversa fora, de passar um tempão com um amigo diante de uma xícara de café falando de nossa surpresa por até hoje não terem encontrado o túmulo da Cleópatra, ou qualquer outro assunto igualmente palpitante. A gente só quer ficar quieto. No máximo, ouvir vozes que não sejam as vozes dos amigos, mas aquelas que vêm dos livros, dos filmes, da nossa quietude. É aquela época em que a gente tem a certeza de que não veio do macaco, mas sim dos ursos – e por isso precisa hibernar, ainda que não seja inverno. Mas em algum lugar talvez já seja. Em algum lugar que talvez só a gente conheça já está fazendo frio.

Eu não costumo me assustar muito com estes períodos. Sei que eles partirão com a mesma delicadeza com que chegaram. Eu só sinto que é preciso levar a sério este momento, é preciso calar um pouco as outras vozes para que possamos ouvir o que esta voz especial que nos visita de vez em quando tem a nos revelar. O problema é que esta voz costuma falar baixo e insiste em que a conversa seja particular – daí nossa necessidade de se ausentar um pouquinho. Não tem a ver com tristeza, não tem a ver com depressão, não tem a ver com a incompreensão da qual às vezes nos achamos vítimas. Tem a ver com o silêncio – o que não é menos assustador.

Penso se às vezes não temos o direito de dizer não ao mundo, não estamos interessados, volte outra hora. Não estamos interessados em saber se as ONGs que firmaram parceria com a Madonna ainda não receberam nenhum tostão da estrela; se a atual edição do Big Brother é a mais homofóbica – ou a mais homoafetiva – da história; se Jesus era gay, se o Aécio Neves vai ser o vice na chapa de José Serra à presidência da República ou se irá se lançar senador por Minas Gerais, se o ator Robert Pattinson, o vampiro do filme Crepúsculo, tem alergia à vagina e é dono de uma cabeleira indecentemente oleosa, se a Dilma Roussef caiu no gosto popular um mês antes do previsto e se, como eu li hoje numa matéria sobre teatro, ser broxa e fracassado é a cara dos paulistanos do ano 2 mil. Sei que é o mundo que temos, ou pelo menos parte dele (torço para que existam coisas bem melhores no nosso horizonte). Mas será que não temos o direito de, pelo menos por alguns dias, não fazer parte de nada? Será que estaríamos sendo arrogantes e prepotentes se pedíssemos para descer um pouquinho deste ônibus para verificar se os atalhos não são mais interessantes que as pistas expressas em que trafegamos?

Saí para jantar há alguns dias com um amigo. Ele me disse que eu tinha perdido o brilho e o humor. É algo chato de ouvir (isso se a gente acreditar que algum dia teve brilho e humor). Mas é algo que ninguém precisa nos dizer: nós sabemos muito bem quando o nosso ibope está dando traço. Nestas horas, continuo acreditando, o melhor a fazer é não resistir a esta onda. O jeito é encher os pulmões de ar, acalmar-se, lembrar que desde criança nós já sabemos boiar e torcer, torcer de coração, para que esta onda nos leve para alguma praia bem bacana. Aonde chegaremos morrendo de saudade da algazarra dos amigos e cheios de boas histórias para contar. Até lá, só o barulho do mar. Se tanto.

domingo, fevereiro 21, 2010

Olhos de azeitona

Há algumas semanas, o amigo e editor André Fischer me convidou para escrever uma crônica para a revista mensal que ele edita, a Junior. Eu sempre fico meio prevenido diante destes convites porque acho que não vou dar conta, não por falta de tempo, mas de inspiração. Sempre acho que quem convida a gente para alguma coisa alimenta alguma expectativa, sei lá, espera que a gente entregue um produto bacana. E então eu travo, acho que não consigo produzir nada legal e que a pessoa que fez o convite vai dizer que gostou só por camaradagem.
Fui tomar um café com ele e ele me mostrou alguns números anteriores da revista. Pude ver, com muita alegria, que o espaço que ele estava me destinando fora ocupado, em meses passados, por amigos queridos como o dramaturgo Alcides Nogueira e o jornalista Carlos Hee. Quando ele me disse que eu poderia escrever sobre qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, então eu topei. Chegando em casa, li o que o Alcides e o Carlinhos haviam escrito em seus respectivos meses, entendi o espírito da seção e, na mesma tarde, escrevi a crônica que segue abaixo. O título, Olhos de Azeitona, foi dado pelo próprio André e eu achei bem legal. Espero que curtam.


“Poucas coisas o irritavam mais nas noites de sábado do que o cheiro de pizza que escapava com igual incômodo dos dois elevadores do seu prédio. Ele sempre acreditou que aquele aroma, em que sobressaíam de maneira indisfarçável rastros de cebolas e lingüiças, era a principal prova da existência de vidas monótonas ao seu redor. Vidas que, em sua compreensão contaminada de inquestionável soberba, haviam se atrofiado tanto ao longo dos anos que hoje podiam ser acomodadas nas mesmas caixas de papelão em cujo interior as pizzas trepidavam ao ritmo dos baques do elevador. Em seu íntimo, ele sabia que era uma forma preconceituosa de diagnosticar os seus vizinhos, mas ele nunca acreditou que a melhor tradução da felicidade fosse a imagem de um queijo derretido escapando dos lábios num sábado à noite.

Mas naquele sábado ele concordou que precisaria se render. Havia acordado às sete da noite, confuso e enjoado depois de um chill out em que os copos de vodca e uísque repousavam sobre bandejas nas quais as carreiras de cocaína tinham traçado irresistíveis pegadas. A cabeça pesava e o estômago doía. Devia ser fome. Àquela hora, sabia, seria impossível encontrar companhia para jantar. Lembrou-se, sem muito ânimo, do imã que havia grudado em sua geladeira com o telefone de uma pizzaria. Resistiu em telefonar porque, se o fizesse, acreditava que em poucos minutos iria se igualar aos vizinhos que tanto desprezava. Olhou em sua despensa: um vidro pela metade de shoyu, uma lata de ervilha e uma embalagem de Bis com a data vencida. Discou e pediu uma pizza média, a mais simples do cardápio. Margherita, disseram do outro lado da linha. E três latas de Coca Cola normal.

Cinco minutos antes do previsto, o interfone tocou. Um motoboy trazendo a pizza estava à sua espera na calçada. Desceu com o cheque já preenchido. Nestas horas, pensou, era sempre bom ganhar tempo. O rapaz conferiu o valor, agradeceu os dois reais a mais pela gorjeta e pediu para que ele anotasse o número do celular no verso do cheque. À falta de caneta, usou a do motoboy. “O senhor é novo aqui no prédio?”, perguntou o rapaz, então com a viseira do capacete levantada, enquanto ele anotava o telefone. “Nem novo e nem senhor”, respondeu, mal-humorado. “É que pizza o senhor nunca pediu”. Ao levantar a cabeça para devolver a caneta, deparou com dois olhos negros e curiosos, que o observavam entre as grades do portão. Negros como as azeitonas que, pouco mais tarde, ele encontraria decorando sua pizza. “É que”, balbuciou hipnotizado pelo olhar do motoboy, “eu não gosto tanto assim de pizza”. O rapaz o encarou por alguns segundos em silêncio, baixou a viseira do capacete e respondeu que daquela ele gostaria.

Comeu apenas metade da pizza. O que não o impediu de, na sexta-feira seguinte, fazer um novo pedido. E assim na terça, na quinta, e assim no outro sábado. Jogava fora as bordas da pizza, grossas e mal assadas. Às vezes, jogava fora o recheio também. O que o alimentava, a iguaria das suas noites, ainda que o excesso de romantismo e a infantilidade da situação o incomodassem profundamente, eram os olhos negros do motoboy. Os olhos de azeitona. As azeitonas que, ainda que murchas e pequenas, ele se recusava a jogar fora.

No fim de tarde do terceiro sábado, o interfone tocou. O motoboy havia chegado. “Mas eu não pedi nada”, disse ao porteiro. “O motoboy mandou dizer que é por isso mesmo que ele veio”. Ele desceu e, pela primeira vez, viu o motoboy sem capacete, seus cabelos que, fossem mais longos, seriam encaracolados. “Tem uma coisa que eu faço todo sábado à tarde”, disse o motoboy, antes mesmo que o portão se abrisse. “Eu faço sempre sozinho, mas fiquei com vontade de te levar desta vez”. Ele olhou para aqueles olhos negros, que à luz da tarde nem tão negros assim eram, e não sentiu medo. Sentou-se na garupa, vestiu o capacete cinza que o motoboy lhe trouxera, e ficou feliz por, depois de muito tempo, se permitir ser conduzido para algum lugar que ele desconhecia.

No sábado de ruas mais desertas, em menos de 15 minutos estavam no Ibirapuera. Caminharam em silêncio até o lago, sentaram-se na grama e, de dentro de uma bolsa de plástico, o motoboy retirou um mundo de fatias de pizza assadas e grosseiramente recortadas que jogava aos patos e cisnes com uma alegria infantil. “É só por isso que eu sou feliz de fazer o que eu faço”, disse, com os olhos fixos no lago. “Preferi que você visse. Se eu contasse, não ia ter a mesma graça”. Envergonhado, ele colocou a mão na bolsa do motoboy e prendeu entre os dedos uma quantidade tão grande de massa de pizza que chegou a espantar os gansos mais próximos. Olhou para o motoboy e riu de um jeito quase abobalhado. “Eu queria te pedir um favor”, disse o motoboy. “Se você for pedir pizza hoje...lá por volta da meia-noite, quando eu já estiver terminando o serviço, eu posso subir para comer junto?”.

Ao voltar para casa, no início daquela noite de sábado, alegrou-se diante do aroma de cebolas e lingüiças que vazava dos elevadores”.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Começar de novo

Eu sempre alimentei a fantasia – ou deveria dizer ilusão? – de começar uma vida nova em algum lugar distante. Este sonho nunca teve nada a ver com trabalho ou estudo, pois quando viajamos para trabalhar ou estudar, normalmente damos continuidade a alguma coisa que já vínhamos fazendo por aqui. Seria um desdobramento, no máximo um aperfeiçoamento, de algo que sempre nos foi íntimo. Meu desejo era muito mais radical: eu pensava em partir para um local desconhecido onde pudesse ter uma outra vida. Começar de novo. Tentar ser outra pessoa, de preferência alguém que pouco lembrasse a pessoa que eu sou e sempre fui. A distância e o anonimato total me reinventariam, me deixariam talvez mais próximo da pessoa ideal, daquilo que a gente tenta ser e não consegue.

De todos os chavões contidos no parágrafo acima, nenhum parece ser tão improvável quanto o da pessoa ideal. Sei que, acima de tudo, são dois conceitos que não combinam: sendo pessoa, é impossível ser ideal; sendo ideal, é impossível ser humano. Mas nada me impede de sonhar, de sonhar com a possibilidade de um dia pairar um pouco acima dos erros e das deficiências que eu sempre critiquei, em mim e nos outros. Engraçado que eu nunca acreditei que as possíveis correções em minha rota pudessem ser feitas aqui mesmo, na casa em que vivo, no trabalho que exerço e na companhia das pessoas que conheço. Para ser outro, para ser um outro melhor do que eu, primeiramente a geografia teria de vir ao meu socorro. Uma nova paisagem, um novo clima, uma nova língua e o estranhamento decorrente de tudo isso: só assim eu poderia mudar.

Precisei de quase 40 anos de vida para escrever meu primeiro texto de ficção. Coincidentemente, este primeiro texto, que me abriu as portas para uma concorrida oficina de monólogos oferecida por alguns professores da USP, tratava exatamente disto. Era um conto de três páginas chamado O Fantasma de Nova York. Espero que ele esteja arquivado em algum lugar, gostaria de reler em algum momento. Era a história de um homem de 30 e poucos anos que trabalhava no World Trade Center. Na manhã do 11 de setembro de 2001, ele decidiu que chegaria um pouco mais tarde ao escritório. Ao contrário do que sempre fazia, desceu do metrô uma estação antes e parou para tomar um café. A pouco menos de uma quadra das Torres Gêmeas, viu o choque do primeiro avião. Paralisado na rua, assistiu ao segundo choque e à conseqüente queda dos edifícios. Em seus devaneios, acreditou que o ataque significava, antes de mais nada, um aviso cósmico de que ele deveria mudar de vida. Afinal, se não tivesse parado para o cafezinho, àquela hora estaria morto como todos os seus amigos do trabalho.

Em vez de ligar para a mulher e os pais e comunicar que estava vivo, o homem do conto pegou um táxi até a Estação Central de Nova York, onde tomou o primeiro ônibus para longe do estado. E então começou sua saga, de estado em estado, de profissão em profissão, trabalhando de marceneiro e garçom, escondendo sua identidade, se reinventando de alguma forma em cada trailer que alugava para provisoriamente morar. Fez trabalhos que jamais imaginara fazer, conheceu gente que passava a quilômetros do seu círculo social, tornou-se um estranho para si próprio. Até que, três anos depois, ele decidiu voltar. Procurou a mulher, que então já havia se conformado com sua condição de viúva – afinal seu corpo nunca fora localizado entre os escombros. Quando tentou explicar-lhe por que fez o que fez, ela lhe estendeu um envelope e partiu. Dentro do envelope estava seu atestado de óbito, fornecido pela prefeitura de Nova York no ano anterior. O conto termina com o homem olhando para o horizonte da cidade da qual um dia ele fugiu, com seu próprio atestado de óbito nas mãos, dizendo para si próprio que, para alguém que queria se reinventar a tal ponto, era bom ter em mãos o atestado de óbito em nome da pessoa que um dia ele fora.

Este conto, vejo hoje, só expandiu o desejo que um dia também foi meu. Eu acho que não iria tão longe quanto aquele homem foi. E, caso fosse, tentaria ao menos suavizar o sofrimento daqueles que gostam e se preocupam comigo. Mas, vez ou outra eu me vejo exatamente como o homem do conto, suspenso na rua diante dos enormes prédios que desmoronam e dizendo para mim mesmo que, enfim, é chegada a hora de começar de novo em outro lugar.

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Ensaio aberto

Sempre que posso, evito falar de teatro neste espaço. São dois os motivos. Em primeiro lugar, acredito que os acadêmicos e críticos fazem isso bem melhor que eu. Quando eu estava no twitter, costumava usar meus parcos 140 caracteres para sugerir alguma peça em cartaz na cidade; agora, longe do twitter, que infelizmente se transformou, como quase tudo na internet, em um indigesto exercício de promoção pessoal, nem isso mai s faço. Em segundo lugar porque, depois que passei a ter peças encenadas, me sinto um pouco constrangido em falar a respeito do trabalho dos colegas, ainda que seja para elogiar. Sendo assim, o teatro virou um assunto muito raro neste blog – principalmente o teatro feito por mim.

Senti vontade de voltar ao assunto depois de ter assistido, neste início de ano, a alguns espetáculos que me provocaram tédio, irritação e uma sensação incômoda de estar sendo enganado ao vivo e mediante meu consentimento. Não vou dizer aqui que espetáculos são estes. Quem acompanha a cena teatral da cidade talvez já saiba de que peças estou falando já que, em comum, elas trazem uma série de sintomas geralmente associados ao chamado teatro pós-dramático – narrativa fragmentada, projeção de vídeos, uma pretensa modernidade que já chega até nós cheirando a mofo, um jeitão descompromissado dos atores em cena que já antecipa a atitude que eles terão no coquetel de estreia, trilha sonora em excesso, discursos em primeira pessoa, utilização do nome de batismo do ator, postura de marqueteiros e mais uma coisinha ou outra que fazem a nossa plateia de caipiras e sentir em Berlim.

Num destes espetáculos, cruzei um amigo que estava mudando de lugar na plateia. Ele ocupava uma das primeiras fileiras e estava migrando para a última. Perguntei o motivo. “Olha só quanta coisa tem no palco”, ele me alertou. “No mínimo, eles estão tentando esconder algo”. Sábias palavras as do meu amigo. Eles estavam tentando esconder, sim. Estavam tentando esconder que não tinham nada para contar. É como se diretor e elenco nos dissessem assim: “Vejam bem, temos apenas um fiapo de história, ou talvez história nenhuma. Mas isso não é importante. Prestem atenção em como nós sabemos disfarçar isso com toda a nossa parafernália eletrônica e nosso descolado jogo de cintura”.

Sei que este conceito de teatro pós-dramático ainda não está totalmente estabelecido. Mesmo o papa do assunto, o crítico e professor alemão Hans Lehmann, já chegou a declarar em entrevistas que as bases deste tipo de linguagem ainda continuam a ser estabelecidas, o que não nos impede de apontar belas experiências neste campo. Eu arriscaria dizer que Ensaio Hamlet, da Cia dos Atores, levou estas bases do pós-drama a um patamar sublime. Sei que podem dizer que neste caso havia um Shakespeare por trás. Concordo. Mas acredito que alguma coisa deve haver por trás desta quebra da linguagem e do formalismo do drama convencional. Se algo precisa ser quebrado, ótimo, vamos quebrar. Vamos, sim, porque às vezes o resultado pode ser surpreendente e animador. Mas vamos, em primeiro lugar, encontrar alguma coisa que possa ser quebrada em cena, que possa ser rompida para que, a partir daí, brote uma proposta estética inovadora e uma narrativa que nos envolva de imediato. Vamos encontrar uma história que, ao ser quebrada, nos encante com suas infinitas possibilidades de interpretação. Porque, até o momento, a única coisa que eu vi sendo quebrada, sem pudor e sem vergonha, é a cara de quem vai ao teatro.

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Quando eu morrer, me enterrem na Lapinha...

A capa deste mês da revista Super Interessante traz uma manchete de um otimismo assustador. Aplicado na foto de um garoto, surge o título “Ele Pode ser Imortal”. Embaixo, a explicação: em 50 anos é possível que ninguém mais morra de velhice. A ciência está preparando um arsenal de drogas e tecnologia que permitem manter você vivo para sempre. E com o corpo que sempre quis.

Eu teria ficado bem menos preocupado se a manchete da revista fosse: Confirmado o Fim do Mundo para 2012. Não consigo imaginar uma civilização capaz de extinguir a idéia da morte – ou sua existência, como propõe a revista. Este tipo de previsão só não me deixa mais alarmado porque eu tenho certeza de que, se tudo der certo, em 50 anos eu já estarei morto, enterrado e esquecido. E digo isso com muita alegria e um alívio maior ainda. Eu creio que só existe uma coisa pior do que a morte: é não morrer. Por mais otimista que eu esteja, e mesmo naqueles dias de alegria intensa e absoluta, me anima a ideia de que um dia as coisas vão terminar para mim e que a gente vai poder ir embora, sabe-se lá para onde. É sério.

Falo isso sem qualquer traço de morbidez ou depressão: tenho certeza de que um dia vai ser muito bom levantar acampamento deste planeta, mesmo sem saber se existe alguma coisa do lado de lá. Eu não gostaria que a ciência nos transformasse numa legião de Nosferatu: gente vivendo até os 200 anos de idade só para dizer que agora tudo é uma bosta e que bom mesmo era no tempo da juventude. Porque é isso que iremos fazer, tenho certeza. Reclamaremos destes anos extras como almas ranzinzas aprisionadas em corpos plastificados. Não sei como será o ser humano sem a ideia da finitude. Penso que continuaremos a morrer de acidentes aéreos, de desastres naturais, vítimas da violência urbana e outras dezenas de causas que seguramente surgirão. E tenho certeza, também, de que nos mataremos muito mais: aposto que, aos 120 anos, por exemplo, não agüentaremos uma nova desilusão amorosa e vamos nos atirar do primeiro prédio que encontrarmos com as janelas abertas. Porque eu acho que não fomos programados para tanta vida. Sei que odiamos a ideia da morte, da nossa e a dos nossos entes queridos. Mas odiaremos muito mais a ideia de que viveremos para sempre ao lado dos nossos entes a quem o tempo se encarregará de tornar menos queridos a cada década: a imortalidade é uma prisão que nós não merecemos.

E isso sem falar no planeta, que não aguentará este excesso de população imorredoura, e nos planos sociais de todos os governos do mundo, ensandecidos com a perspectiva de que nos aposentaremos aos 70 anos e receberemos o nosso benefício até os 350 anos, mais ou menos...Não haverá comida para tanta gente, nem habitação, nem serviços sociais e muito menos afeto: já que não vamos morrer mesmo, danem-se a culpa e a civilidade. Vou fazer o que eu quero, do jeito que eu quero e te dizer o que eu quero, na lata. E se você virar a cara para mim, tudo bem: daqui a uns 80 anos eu te procuro e, se Deus quiser (putz, como imortais, não acreditaremos mais nele!), você vai ter se esquecido da ofensa e seremos amigos novamente, andaremos de ônibus sem pagar passagem, seremos atendidos na fila preferencial do banco e do cinema e gastaremos com bebida e droga o que antes gastávamos com fraldas geriátricas.

Não sabemos de onde viemos, para onde vamos e nem o que estamos fazendo aqui. E agora vem a ciência disposta a acabar com a única certeza que a gente tem nesta vida: a de que vamos morrer.