Há algumas semanas pude assistir à montagem de um dos textos clássicos da dramaturgia americana do século 20. É um destes textos capazes de colocar o tempo no bolso: quanto mais os anos passam, mais parece que eles foram escritos ontem. E eis que não saí especialmente tocado pelo espetáculo por sentir que algo nele não se cumpriu: acredito, e isso é uma opinião pessoal que pode ser contestada por qualquer um, que havia no texto um certo tipo de dor, uma desesperança quase palpável que não chegou ao palco. Uma das atrizes em cena, profissional tarimbada e de reconhecido valor, construiu sua personagem com uma alegria histérica e um cinismo incômodo que eu nunca havia localizado no texto. Confesso que achei aquilo um pouco estranho e inoportuno – mas não critico as opções pessoais que cada ator faz no momento de levantar seus personagens. Até porque, pela reação de grande parte da platéia, percebia-se que a atriz não estava sozinha em sua escolha arriscada: como uma regente, ela parecia se deliciar com as gargalhadas que brotavam a cada um dos seus comandos.
No dia seguinte, uma diretora de teatro, também profissional de reconhecido valor, me ligou para perguntar o que eu havia achado do espetáculo. Disse a ela que no geral havia gostado, embora tivesse saído do teatro muito incomodado com a performance da atriz. Ela então me disse que havia gostado da peça exatamente pela performance da atriz, muito adequada aos nossos tempos. “A única maneira desta peça se tornar palatável ao público de hoje”, ela me confessou, “é extraindo toda a graça possível do texto. Ninguém agüenta mais sofrer numa poltrona de teatro. As pessoas querem rir e os atores que querem público devem saber disso”.
E então ontem fui assistir a um espetáculo este sim brilhante – Réquiem, do dramaturgo israelense Hanoch Levin, em cartaz no Centro Cultural São Paulo. Inspirado em três contos de Tchechov, Levin, até então inédito no Brasil, construiu uma dolorida parábola sobre a vida que se esvai sem que nos demos conta disto. Quando os personagens percebem que a morte (ou a vida?) acaba de roubar deles tudo que de mais importante eles tinham, parece ser tarde para qualquer tipo de reação – eles se conformam e seguem adiante sem o pouco que um dia possuíram. Poucas vezes eu chorei tanto diante de uma dor tão domada quanto aquela exibida pelos personagens da peça. Eu não acho que nada na vida seja obrigatório, mas se for possível abrir uma exceção aqui, eu diria que Réquiem é um espetáculo obrigatório.
Em uma das cenas mais pungentes do espetáculo, quando um querubim surge em cena para ler um cartão postal que um bebê de seis meses, morto por queimaduras, enviou à sua jovem mãe, as gargalhadas começaram a pipocar na fileira atrás da minha. “Como seu filho não sabia ler e nem escrever, e morreu antes de conhecer as palavras, eu vou traduzir para a senhora o que ele escreveu”, diz o querubim. Poucos corações de concreto não se partiriam diante de um enunciado deste tipo. E então o querubim transmite a mensagem de conforto infantil que o bebezinho morto enviou do céu, ou de algum lugar melhor que este, para sua inconsolável mãe que se mostrava incapaz de chorar. Eram duas ou três linhas escritas com navalha, de uma dor tão seca, tão avessa ao melodramático que por isso mesmo dilacerantes. E as pessoas, atrás de mim, rindo como se estivessem na gravação do Zorra Total ou do Pânico.
Tive vontade, ao sair do teatro, de ligar para a diretora e cumprimentá-la: você estava certa. Não é que as pessoas estejam saindo de casa dispostas a rir, é mais grave: elas saem de casa dispostas a encontrar a gargalhada onde ela positivamente não existe. Sei que este post está assumindo o tom de algo que eu mais abomino na vida: a cagação de regra. Que cada um ria e chore com aquilo que melhor lhe aprouver. Mas se alguém é capaz de gargalhar – estou ressaltando: o verbo é gargalhar - diante da imagem de uma mãe que viu seu bebê de seis meses morrer queimado, então eu já não sei mais para quem ou o quê devemos dedicar aquelas poucas lágrimas que não temos vergonha de exibir em público. Temo pelo futuro do teatro, sinceramente. Cresci ouvindo a ameaça de que a tevê e o cinema um dia o destruiriam. Acho que não: o grande inimigo do teatro são aqueles que, impiedosamente, saem de casa noite após noite para pisotear a máscara da tragédia.
quarta-feira, janeiro 28, 2009
terça-feira, janeiro 27, 2009
Velha roupa colorida
Estava almoçando sozinho e pensando na vida (acho que ainda sob influência do filme O Curioso Caso de Benjamin Button, que teima em ficar na minha cabeça ainda que eu não tenha saído tão apaixonado assim do cinema – ou será que saí?) quando entrou no restaurante um senhor de seguramente mais de 70 anos, trajando uma calça azul-marinho, paletó de linho, gravata colorida dobrada ao meio e com os cabelos longos e grisalhos presos à nuca por uma piranha marrom. Sorridente, permitiu que duas pessoas mais jovens passassem na sua frente na fila da salada. Olhei para ele e pensei: aí está alguém que não deve dar muita bola para a passagem do tempo. Ou, no mínimo, alguém que foge um pouco, ao menos no figurino, daquilo que se convencionou esperar de alguém com mais de 70 anos. Continuei e comer e a pensar.
Acho que existe algo de irônico, ou cruel, a respeito da vida: é a crença de que seremos poupados daquilo que não desejamos para nós. Observamos aqueles que vieram antes, aqueles que caíram em algumas armadilhas à nossa frente, e temos quase a certeza de que conosco tudo será diferente – ainda que estejamos a trilhar o mesmo caminho das armadilhas, existe a fé no atalho que irá nos desviar para uma rota mais segura no último instante. E, de repente, no mais prosaico dos dias, nos assustamos com o barulho da nossa própria queda. Logo nós, que parecíamos tão cautelosos e previdentes. Que estávamos seguros da eficácia de um imaginário air-bag nos dado de presente pelo destino, que iria nos poupar das colisões mais doloridas. Que nada.
Então eu vejo que existe uma diferença muito grande entre fugir daquilo que não desejamos e caminhar na direção daquilo que sonhamos. Infelizmente, uma coisa parece não ser sinônimo da outra: evitar o indesejável não significa ir ao encontro da alegria. Me parece que entre as duas coisas existe um limbo gigantesco, dentro do qual passamos quase toda a vida a patinar, como se fôssemos personagens do seriado Lost sem a audiência do horário nobre e a esperança, ainda que remota, de redenção. Não há pessimismo nisso, ao contrário. Ter consciência das duas coisas – do indesejável e da alegria -, cada uma delas em uma das pontas do nosso caminho, ainda que estejamos perdidos no meio dele, é no mínimo sinal de que estamos vivos e atentos. Talvez não seja pouca coisa, não.
Ainda assim, é triste reconhecer que não somos tão especiais, ao menos aos olhos da vida, como acreditávamos ser em algum momento. Às vezes eu acho que eu daria um bom escritor de livros de baixo-ajuda, com esta minha tendência incurável de acreditar que eu não estou Ok e você não está Ok e que as dez pessoas que encontraremos no paraíso serão todos os chefes que odiamos ao longo da vida. E que, ao chegarmos lá, o primeiro deles irá nos abraçar e dizer: quem disse que terminou, tolinho?
Em todo caso, eu vou continuar fugindo daquilo que não quero para mim e, a cada vez que cair em uma armadilha, cairei esperneando e amaldiçoando cada instante da queda, por acreditar, antes de chegar ao fundo, que eu era diferente e especial, sim. Acho que este é o nosso único consolo – afinal, aceitar as regras do jogo nesta altura do campeonato me parece um pouco submisso.
Antes de sair do restaurante, olhei para o prato do senhor de trajes coloridos. Enquanto eu havia traçado dois pedaços de alcatra bem-passados, ele estava comendo sushi e salada de alface. Decidi uma coisa: já que sou muito covarde e convencional para imitá-lo no figurino, não seria má ideia imitá-lo no cardápio. Quem sabe eu também não passe dos 70 sem dar bola para o mundo?
Acho que existe algo de irônico, ou cruel, a respeito da vida: é a crença de que seremos poupados daquilo que não desejamos para nós. Observamos aqueles que vieram antes, aqueles que caíram em algumas armadilhas à nossa frente, e temos quase a certeza de que conosco tudo será diferente – ainda que estejamos a trilhar o mesmo caminho das armadilhas, existe a fé no atalho que irá nos desviar para uma rota mais segura no último instante. E, de repente, no mais prosaico dos dias, nos assustamos com o barulho da nossa própria queda. Logo nós, que parecíamos tão cautelosos e previdentes. Que estávamos seguros da eficácia de um imaginário air-bag nos dado de presente pelo destino, que iria nos poupar das colisões mais doloridas. Que nada.
Então eu vejo que existe uma diferença muito grande entre fugir daquilo que não desejamos e caminhar na direção daquilo que sonhamos. Infelizmente, uma coisa parece não ser sinônimo da outra: evitar o indesejável não significa ir ao encontro da alegria. Me parece que entre as duas coisas existe um limbo gigantesco, dentro do qual passamos quase toda a vida a patinar, como se fôssemos personagens do seriado Lost sem a audiência do horário nobre e a esperança, ainda que remota, de redenção. Não há pessimismo nisso, ao contrário. Ter consciência das duas coisas – do indesejável e da alegria -, cada uma delas em uma das pontas do nosso caminho, ainda que estejamos perdidos no meio dele, é no mínimo sinal de que estamos vivos e atentos. Talvez não seja pouca coisa, não.
Ainda assim, é triste reconhecer que não somos tão especiais, ao menos aos olhos da vida, como acreditávamos ser em algum momento. Às vezes eu acho que eu daria um bom escritor de livros de baixo-ajuda, com esta minha tendência incurável de acreditar que eu não estou Ok e você não está Ok e que as dez pessoas que encontraremos no paraíso serão todos os chefes que odiamos ao longo da vida. E que, ao chegarmos lá, o primeiro deles irá nos abraçar e dizer: quem disse que terminou, tolinho?
Em todo caso, eu vou continuar fugindo daquilo que não quero para mim e, a cada vez que cair em uma armadilha, cairei esperneando e amaldiçoando cada instante da queda, por acreditar, antes de chegar ao fundo, que eu era diferente e especial, sim. Acho que este é o nosso único consolo – afinal, aceitar as regras do jogo nesta altura do campeonato me parece um pouco submisso.
Antes de sair do restaurante, olhei para o prato do senhor de trajes coloridos. Enquanto eu havia traçado dois pedaços de alcatra bem-passados, ele estava comendo sushi e salada de alface. Decidi uma coisa: já que sou muito covarde e convencional para imitá-lo no figurino, não seria má ideia imitá-lo no cardápio. Quem sabe eu também não passe dos 70 sem dar bola para o mundo?
quinta-feira, janeiro 22, 2009
Um brinde
Os ponteiros do relógio quebrado marcavam dez e vinte quando ele encheu duas taças de vinho tinto e se sentou para esperar por ela. Pelo vidro embaçado da janela, percebeu que naquela noite a torre da antena de televisão estava iluminada de verde. Até a noite anterior, ele não estava bem certo, a cor era azul. Ele notou que havia mais vinho na taça que devia ser a dela, e com um gole curto e sem cerimônia conseguiu equilibrar a quantidade da bebida nas duas taças. O toque dos seus lábios deixou embaçada a borda da taça que devia ser a dela, mas ele não notou. Os vidros de sua casa, todos eles, nunca foram muito limpos afinal. E foi com o olhar sem brilho na torre de antena da televisão, que voltara a ser azul - será que em algum momento tinha sido verde mesmo? - que ele esvaziou pacientemente sua taça e seus pensamentos.
Antes de pegar no sono, ainda olhou as horas no relógio quebrado pela última vez. Eram dez e vinte. Mas só ele sabia o quanto havia envelhecido.
Na manhã seguinte, ele jogou fora o vinho da taça que devia ser a dela. E tingiu o fundo da pia da cozinha de um vermelho claro e sem paixão.
Antes de pegar no sono, ainda olhou as horas no relógio quebrado pela última vez. Eram dez e vinte. Mas só ele sabia o quanto havia envelhecido.
Na manhã seguinte, ele jogou fora o vinho da taça que devia ser a dela. E tingiu o fundo da pia da cozinha de um vermelho claro e sem paixão.
quarta-feira, janeiro 21, 2009
Uma bem curtinha
Esta semana, assim do nada, uma amiga me disse uma frase de dolorida sabedoria. Aqui vai, na íntegra:
- Quando eu ligo a televisão e vejo as vinhetas do carnaval, as chamadas do Big Brother e os noticiários da São Paulo Fashion Week, me dá uma vontade de pegar no sono e acordar só no fim de março, quando tudo isso já acabou.
Concordo com ela integralmente. Mas acho março ainda um pouco cedo. Se a gente acordar em março, ainda vai estar passando Caminho das Índias, a novela nova da Glória Perez, e vamos correr o risco de ver o Toni Ramos dançando de túnica e o Osmar Prado perguntando sobre a linhagem familiar do Márcio Garcia. Vou combinar com minha amiga de a gente dormir e acordar só em novembro. Acho mais prudente e saudável: a gente acorda e já começa a falar mal do Natal que se aproxima. Graças a Deus que o fígado se regenera, né?
- Quando eu ligo a televisão e vejo as vinhetas do carnaval, as chamadas do Big Brother e os noticiários da São Paulo Fashion Week, me dá uma vontade de pegar no sono e acordar só no fim de março, quando tudo isso já acabou.
Concordo com ela integralmente. Mas acho março ainda um pouco cedo. Se a gente acordar em março, ainda vai estar passando Caminho das Índias, a novela nova da Glória Perez, e vamos correr o risco de ver o Toni Ramos dançando de túnica e o Osmar Prado perguntando sobre a linhagem familiar do Márcio Garcia. Vou combinar com minha amiga de a gente dormir e acordar só em novembro. Acho mais prudente e saudável: a gente acorda e já começa a falar mal do Natal que se aproxima. Graças a Deus que o fígado se regenera, né?
segunda-feira, janeiro 19, 2009
Cada um tem a estrela que merece
Na semana passada, pensei em escrever alguma coisa sobre a aterradora entrevista da atriz Suzana Vieira, publicada nas páginas amarelas da revista Veja. Mas como vi que o Alberto Guzik já havia escrito no blog dele sobre o mesmo assunto, e com uma linha de raciocínio muito semelhante àquela que eu pretendia utilizar, resolvi deixar quieto. Mais elegante que eu, o Guzik decidiu apenas comentar o teor monstruoso da entrevista, optando por deixar de fora algumas declarações deprimentes da atriz, como estas poucas a seguir (afinal, resolvi ser menos elegante que o Guzik)
1) “Só soube agora que pessoas com deformidade da mente, como ele, transam muito bem”;
2) “Precisei de quatro sessões de psicanálise para me recuperar das revelações que a namorada do Marcelo me fez ao telefone’ (Aqui, ponto para Suzana Vieira ou para a maravilhosa psicanalista que ela resolveu procurar, pois com quatro sessões a gente cura, no máximo, um torcicolo ou uma unha encravada. Eu faço terapia há seis anos e sinto que grande parte dos meus problemas não foi sequer mencionada ainda);
3) “Eu, que sempre gostei de sexo, amor e carinho...se ele me completava neste departamento, não precisava falar de museu”. (Acredito que nem de museu e nem de outra coisa qualquer. Provavelmente, porque ele não devia possuir conhecimento algum sobre qualquer museu do mundo. E, caso tivesse, garanto que não encontraria na atriz uma boa interlocutora)
4) “Envelhecer deve ser horrível, mas, como não envelheço, estou ótima” (com esta resposta, a atriz deixa claro que deixou de pertencer à raça humana e deve ter se transformado em tartaruga sem que o público tenha percebido)
Escrevi no blog do Guzik que o que mais me revoltava nesta história toda não era o corolário de absurdos proferido pela atriz, mas a certeza de que, na edição desta semana da Revista Veja, haveria uma série de cartas de leitores apoiando o pensamento vivo de Suzana Vieira. Não deu outra. Da Bahia à Irlanda, de Santa Catarina ao Paraná, choveram cartas de leitores dispostos a ressaltar o caráter inabalável da atriz, sua força, sua inteligência, sua lucidez, sua personalidade e até a “grandiosidade de sua alma”. Um dos leitores termina a carta assim: Parabéns, grande Mulher!
Desde pequeno a gente é ensinado a respeitar a opinião dos outros. Então, respeito a opinião de todos aqueles que escreveram para comparar Suzana Vieira a uma grande pensadora, a uma grande atriz e até mesmo a uma grande mulher. Da mesma maneira que eu acho que Suzana Vieira e o finado Marcelo Silva foram feitos um para o outro, agora acho que Suzana Vieira e os missivistas da revista Veja também foram feitos um para o outro. Que sejam felizes. E que possam se reunir, um dia, em um almoço de confraternização comandado pela Ana Maria Braga na casa dos Big Brother, com narração do Pedro Bial. Neste dia, a tragédia estará completa. E sinto dizer que não estamos longe disto.
1) “Só soube agora que pessoas com deformidade da mente, como ele, transam muito bem”;
2) “Precisei de quatro sessões de psicanálise para me recuperar das revelações que a namorada do Marcelo me fez ao telefone’ (Aqui, ponto para Suzana Vieira ou para a maravilhosa psicanalista que ela resolveu procurar, pois com quatro sessões a gente cura, no máximo, um torcicolo ou uma unha encravada. Eu faço terapia há seis anos e sinto que grande parte dos meus problemas não foi sequer mencionada ainda);
3) “Eu, que sempre gostei de sexo, amor e carinho...se ele me completava neste departamento, não precisava falar de museu”. (Acredito que nem de museu e nem de outra coisa qualquer. Provavelmente, porque ele não devia possuir conhecimento algum sobre qualquer museu do mundo. E, caso tivesse, garanto que não encontraria na atriz uma boa interlocutora)
4) “Envelhecer deve ser horrível, mas, como não envelheço, estou ótima” (com esta resposta, a atriz deixa claro que deixou de pertencer à raça humana e deve ter se transformado em tartaruga sem que o público tenha percebido)
Escrevi no blog do Guzik que o que mais me revoltava nesta história toda não era o corolário de absurdos proferido pela atriz, mas a certeza de que, na edição desta semana da Revista Veja, haveria uma série de cartas de leitores apoiando o pensamento vivo de Suzana Vieira. Não deu outra. Da Bahia à Irlanda, de Santa Catarina ao Paraná, choveram cartas de leitores dispostos a ressaltar o caráter inabalável da atriz, sua força, sua inteligência, sua lucidez, sua personalidade e até a “grandiosidade de sua alma”. Um dos leitores termina a carta assim: Parabéns, grande Mulher!
Desde pequeno a gente é ensinado a respeitar a opinião dos outros. Então, respeito a opinião de todos aqueles que escreveram para comparar Suzana Vieira a uma grande pensadora, a uma grande atriz e até mesmo a uma grande mulher. Da mesma maneira que eu acho que Suzana Vieira e o finado Marcelo Silva foram feitos um para o outro, agora acho que Suzana Vieira e os missivistas da revista Veja também foram feitos um para o outro. Que sejam felizes. E que possam se reunir, um dia, em um almoço de confraternização comandado pela Ana Maria Braga na casa dos Big Brother, com narração do Pedro Bial. Neste dia, a tragédia estará completa. E sinto dizer que não estamos longe disto.
quinta-feira, janeiro 15, 2009
Pedalando, pedalando...
Acidentes de trânsito, mesmo os que produzem vítimas fatais, é aquele tipo de ocorrência que, de tão banalizada, já não nos choca mais. Se o assunto é acidente de trânsito, todos nós, famosos ou anônimos, estamos fadados a nos transformar em cifras. Prestamos um pouco de atenção neles somente após algum feriado prolongado, quando os jornais noticiam o número de mortos nas estradas do país – algo de causar inveja à truculência do exército israelense sobre a população de Gaza. Não temos mais nomes, não temos mais rostos, e toda nossa vida e nossa história passam a caber numa notinha de rodapé de algum jornal qualquer.
Esta semana, no entanto, a tragédia mostrou que consegue se aprimorar. A ciclista Márcia Regina de Andrade Prado, de 40 anos, foi atropelada e morta por um ônibus na Avenida Paulista. Chocante? Sim. E muito, ainda mais quando nos lembramos de que ela era uma ativista pelos direitos dos ciclistas. Porém, tão ou mais chocante que sua própria morte foi o descaso da Secretaria de Segurança, que levou quatro horas para recolher seu corpo, que permaneceu coberto por um plástico preto, a despertar a atenção e curiosidade de pedestres e motoristas. Não sei se por ironia ou um cuidado detalhado na qualidade de suas informações, os jornais informaram que o corpo da ciclista, exposto na avenida, provocou um congestionamento de quase dois quilômetros. “Morreu na contramão atrapalhando o trânsito”, já disse Chico Buarque há mais de 30 anos. Poucas vezes um detalhe me pareceu tão cruel no noticiário.
Não sei para onde são encaminhados os corpos das vítimas de acidentes de trânsito. Talvez para o Instituto Médico Legal, a algumas quadras da esquina em que a ciclista foi atropelada. Ainda que o resgate tivesse vindo a pé, não teria levado mais de meia hora para chegar, recolher o corpo e aplacar um pouco a dor e a indignação da família e dos amigos de Márcia. Há um ou dois anos, não me recordo, o corpo de um homem morto por traficantes e atirado ao mar, veio dar em uma praia do Rio de Janeiro. Para azar do coitado, era domingo, dia de sol e praia cheia – e ninguém, ainda mais um morto, tinha o direito de atrapalhar a rodada de caipirinhas e de futebol de areia. Solícitos, os cariocas encobriram o corpo do homem com um plástico também preto e voltaram para sua sessão de bronzeamento dominical. O corpo foi recolhido sete horas depois. No caso de Márcia, os paulistas mostraram que não é lenda: nosso serviço público é mesmo mais eficiente. Afinal, levamos “só” quatro horas para fazer o que os cariocas fizeram em sete ou oito.
Hoje à tarde, 24 horas após o acidente, a família de Márcia Regina mostrou que a dignidade é ainda muito mais poderosa que o descaso: eles resolveram doar o corpo da ciclista para uma faculdade de Medicina. Márcia, que passou os últimos anos de sua vida lutando pelo meio ambiente e pela proteção dos animais, vai continuar servindo à sociedade mesmo depois de morta. Ainda que esta sociedade não tenha feito jus à tanta elegância e comprometimento que ela demonstrou em vida. Eu não a conhecia, mas desejo, do fundo do coração e sem medo de ser piegas, que ela esteja agora pedalando entre as nuvens e rindo da nossa boçalidade.
Esta semana, no entanto, a tragédia mostrou que consegue se aprimorar. A ciclista Márcia Regina de Andrade Prado, de 40 anos, foi atropelada e morta por um ônibus na Avenida Paulista. Chocante? Sim. E muito, ainda mais quando nos lembramos de que ela era uma ativista pelos direitos dos ciclistas. Porém, tão ou mais chocante que sua própria morte foi o descaso da Secretaria de Segurança, que levou quatro horas para recolher seu corpo, que permaneceu coberto por um plástico preto, a despertar a atenção e curiosidade de pedestres e motoristas. Não sei se por ironia ou um cuidado detalhado na qualidade de suas informações, os jornais informaram que o corpo da ciclista, exposto na avenida, provocou um congestionamento de quase dois quilômetros. “Morreu na contramão atrapalhando o trânsito”, já disse Chico Buarque há mais de 30 anos. Poucas vezes um detalhe me pareceu tão cruel no noticiário.
Não sei para onde são encaminhados os corpos das vítimas de acidentes de trânsito. Talvez para o Instituto Médico Legal, a algumas quadras da esquina em que a ciclista foi atropelada. Ainda que o resgate tivesse vindo a pé, não teria levado mais de meia hora para chegar, recolher o corpo e aplacar um pouco a dor e a indignação da família e dos amigos de Márcia. Há um ou dois anos, não me recordo, o corpo de um homem morto por traficantes e atirado ao mar, veio dar em uma praia do Rio de Janeiro. Para azar do coitado, era domingo, dia de sol e praia cheia – e ninguém, ainda mais um morto, tinha o direito de atrapalhar a rodada de caipirinhas e de futebol de areia. Solícitos, os cariocas encobriram o corpo do homem com um plástico também preto e voltaram para sua sessão de bronzeamento dominical. O corpo foi recolhido sete horas depois. No caso de Márcia, os paulistas mostraram que não é lenda: nosso serviço público é mesmo mais eficiente. Afinal, levamos “só” quatro horas para fazer o que os cariocas fizeram em sete ou oito.
Hoje à tarde, 24 horas após o acidente, a família de Márcia Regina mostrou que a dignidade é ainda muito mais poderosa que o descaso: eles resolveram doar o corpo da ciclista para uma faculdade de Medicina. Márcia, que passou os últimos anos de sua vida lutando pelo meio ambiente e pela proteção dos animais, vai continuar servindo à sociedade mesmo depois de morta. Ainda que esta sociedade não tenha feito jus à tanta elegância e comprometimento que ela demonstrou em vida. Eu não a conhecia, mas desejo, do fundo do coração e sem medo de ser piegas, que ela esteja agora pedalando entre as nuvens e rindo da nossa boçalidade.
Assinar:
Postagens (Atom)
