terça-feira, julho 29, 2008
Uma cerveja com A e B
Eu já escrevi sobre os dois aqui neste espaço e, se mais não disse, é porque nem mesmo eu os conheço o suficiente. Sei que um deles é mais velho e mais desesperançoso - não que a idade nos traga a desesperança, mas talvez nos traga a sensatez e o espírito crítico, coisas que, no fundo, talvez não combinem mesmo com a esperança. O outro é mais jovem e cheio de vida e de ilusões, mas nem por isso consegue escapar de um destino trágico que, desde sempre, parece ter sido reservado para ele. Os dois se encontram por apenas um dia e provam, de maneira dolorida, que um dia pode fazer toda a diferença do mundo. Não sabemos muito sobre eles, não temos certeza de quem são, de onde vieram e para onde vão. Se é que vão. O primeiro é chamado de prisioneiro A e o segundo, obviamente, de prisioneiro B. São belos, másculos e aparentemente indestrutíveis, mas o tempo se encarrega de mutilá-los nas ambições e nos movimentos. Quando, por fim, chega a hora de nos despedirmos deles, não encontramos mais do que dois cotocos rastejando à nossa frente, dois seres dignos de piedade ou repulsa, dependendo do humor de quem os enxerga. Eles são os personagens da peça A Coleira de Bóris, que nesta segunda-feira recebeu três indicações ao Prêmio Shell. O que só reafirma a minha convicção de que, na maioria das vezes, a felicidade nos chega dos lugares mais improváveis e pelas vias mais tortuosas. Se eu pudesse, eu chamaria os dois para tomar uma cervejinha hoje comigo e comemorar estas indicações. Mas, como eu disse ali em cima, eu não os conheço direito e, por esta hora, nem imagino para onde eles foram depois que escaparam de mim. De qualquer forma, gostaria de dizer meu muito obrigado aos dois e convidá-los a viver comigo um dia mais feliz do que aquele que eu lhes ofereci. Acho que todos nós merecemos isso. Um beijão para os dois e para todos aqueles que também os viram nos últimos dois meses.
sábado, julho 26, 2008
Lei seca da boca pra fora
É a terceira vez, em menos de duas semanas, que eu falo sobre a lei seca aqui neste espaço. Talvez as pessoas desconfiem que eu seja contra a lei - principalmente neste fim de semana, em que as manchetes dos jornais e a reportagem de capa da Vejinha comemoram um mês da implantação da lei com índices e números pra lá de otimistas. A rigor, não sou contra o princípio da lei, mas gostaria de entender algumas coisas.
Por exemplo: vi hoje, nos jornais, que um motorista de caminhão comprovadamente alcoolizado dirigiu na contramão por uma rodovia movimentada na região de Campinas e chocou-se de frente com dois veículos, provocando a morte do motorista do primeiro carro e uma fratura no fêmur no do segundo. E o que aconteceu com ele? Simples: pagou uma fiança de R$ 1,2 mil e foi solto, como se não tivesse acontecido nada.
Depois de ler esta notícia, saí para almoçar e, ao passar pela Avenida Pedroso de Morais, em Pinheiros, vi uma imensa blitz, com policiais armados de fuzis e muitas, muitas emissoras de televisão doidas para flagrar a imagem de um motorista soprando o bafômetro às três da tarde de um dia ensolarado. Então, eu pergunto: se o camarada que saiu de casa para comer uma feijoadinha com os amigos e tomou um ou dois chopinhos tivesse sido parado pela blitz, que encheu a rua de barricadas, seria levado à delegacia, multado em quase mil reais e, dependendo da boa-vontade do delegado e da quantidade de álcool ingerida, talvez tivesse de pagar uma fiança em torno de R$ 1,2 mil para ser liberado também. Ainda que não tivesse sequer encostado o pneu da frente na faixa de pedestres.
Enquanto que o outro motorista, aquele que estava com uma quantidade de álcool no sangue equivalente a 12 chopes, que dirigiu na contramão, matou um e feriu seriamente um outro, também pagou os R$ 1,2 mil e foi pra casa. Ou seja: qualquer pessoa minimamente mal-intencionada vai pensar o seguinte - se é pra beber e pagar multa, então é melhor tomar 15 chopes logo de uma vez, sair barbarizando e acabar famoso por um dia nos jornais. Afinal, esta tão elogiada lei parece só funcionar mesmo na rua: quando os casos chegam às delegacias, todo mundo dá uma graninha e volta pra casa feliz da vida e trançando as pernas. Tenha tomado dois ou 30 chopes, esteja íntegro ou tenha matado um inocente pelo caminho. É impressão minha ou tem algo de muito errado nisso tudo?
Por exemplo: vi hoje, nos jornais, que um motorista de caminhão comprovadamente alcoolizado dirigiu na contramão por uma rodovia movimentada na região de Campinas e chocou-se de frente com dois veículos, provocando a morte do motorista do primeiro carro e uma fratura no fêmur no do segundo. E o que aconteceu com ele? Simples: pagou uma fiança de R$ 1,2 mil e foi solto, como se não tivesse acontecido nada.
Depois de ler esta notícia, saí para almoçar e, ao passar pela Avenida Pedroso de Morais, em Pinheiros, vi uma imensa blitz, com policiais armados de fuzis e muitas, muitas emissoras de televisão doidas para flagrar a imagem de um motorista soprando o bafômetro às três da tarde de um dia ensolarado. Então, eu pergunto: se o camarada que saiu de casa para comer uma feijoadinha com os amigos e tomou um ou dois chopinhos tivesse sido parado pela blitz, que encheu a rua de barricadas, seria levado à delegacia, multado em quase mil reais e, dependendo da boa-vontade do delegado e da quantidade de álcool ingerida, talvez tivesse de pagar uma fiança em torno de R$ 1,2 mil para ser liberado também. Ainda que não tivesse sequer encostado o pneu da frente na faixa de pedestres.
Enquanto que o outro motorista, aquele que estava com uma quantidade de álcool no sangue equivalente a 12 chopes, que dirigiu na contramão, matou um e feriu seriamente um outro, também pagou os R$ 1,2 mil e foi pra casa. Ou seja: qualquer pessoa minimamente mal-intencionada vai pensar o seguinte - se é pra beber e pagar multa, então é melhor tomar 15 chopes logo de uma vez, sair barbarizando e acabar famoso por um dia nos jornais. Afinal, esta tão elogiada lei parece só funcionar mesmo na rua: quando os casos chegam às delegacias, todo mundo dá uma graninha e volta pra casa feliz da vida e trançando as pernas. Tenha tomado dois ou 30 chopes, esteja íntegro ou tenha matado um inocente pelo caminho. É impressão minha ou tem algo de muito errado nisso tudo?
quinta-feira, julho 24, 2008
O telefone preto da dona Rosália
Dona Rosália foi a primeira vizinha em todo o bairro a ter telefone em casa – um aparelho preto e pesadão daquele tipo que nós só costumávamos ver nos filmes e nas novelas. Havia também um telefone no açougue da esquina e um outro na malharia que ficava na frente da minha casa – mas aí era comércio e não valia. A novidade era que dona Rosália tinha um telefone em casa, que repousava sobre uma toalhinha bordada em cima de um aparador num canto de sua grande sala, que vivia com as cortinas sempre fechadas. Por que só ela tinha telefone na sala era um mistério que nós, crianças que brincávamos descalças pelas ruas de terra do bairro, não conseguíamos compreender.
Uma ou duas vezes por mês eu sentia vontade de telefonar para alguém e pedia para que minha mãe me levasse até a casa de dona Rosália. “Mas você não conhece ninguém que tem telefone. Pra quem você vai ligar?”, minha mãe perguntava. Ao perceber que minha falta de resposta não era mesmo sinônimo de desistência, ela parava o que estava fazendo e me levava para telefonar na casa da dona Rosália. “Dona Rosália, o menino está com vontade de telefonar de novo. A senhora deixa?”. Paciente, dona Rosália me conduzia até sua sala, onde eu adentrava com um encantamento respeitoso, e ficava à espera de que ela discasse somente quatro números – os números da casa de uma amiga, que vivia em outro bairro e, que luxo, também tinha telefone em casa. Quando a amiga atendia, dona Rosália dizia: “Não é nada, não. Fala só oi pro menino que está com vontade de telefonar”. Eu segurava o fone com as duas mãos sujas de moleque e ouvia uma voz fina que me perguntava, do outro lado, se estava tudo bem. Eu nunca consegui responder, tinha medo. Devolvia depressa o telefone à dona Rosália, minha mãe dizia um obrigado meio sem jeito, e eu voltava correndo para brincar com os outros meninos da rua. Dali a três ou quatro semanas eu sei que pediria de novo para telefonar para alguém e a amiga da dona Rosália teria apenas de dizer um olá para que eu me desse por feliz.
Um dia eu perguntei ao meu pai por que nós também não podíamos ter um telefone. Ele me explicou que era problema de linha, que ele já havia ido até a telefônica mas não havia mais disponibilidade de linha no bairro, só dali a muitos anos. Mas eu não queria uma linha, eu repetia para o meu pai, eu queria só um telefone preto e pesado como o da dona Rosália. “Mas é a mesma coisa”, meu pai dizia, “sem linha o telefone não serve para nada”. De todas as respostas que eu tive na infância, esta sempre foi a mais difícil de engolir. Que raio de linha era aquela que nos impedia de ter um telefone na sala, em cima de uma toalhinha branca e rendada?
Dona Rosália fazia balas de noiva, que agora nós chamamos de bala de coco. Ela e as duas filhas. Casamento sem as balas da dona Rosália não tinham futuro. No início, ela só fazia balas de coco, depois vieram as de amendoim e de castanha. Quando eu chegava na casa de dona Rosália para meu telefonema mensal para sua amiga, estavam as três, dona Rosália e as duas filhas, com as mãos ocupadas nas massas de bala, uma espécie de gororoba branquinha e elástica que não podia passar do ponto de jeito nenhum. Um pouco mais, açucarava; um pouco menos, virava puxa-puxa. E as noivas do bairro, assim como nós, queríamos suas balas sempre no ponto. Quando me levava até a sala para telefonar, dona Rosália ficava de olho nas mãos das filhas e, de longe, sabia o momento exato em que aquela grande massa podia ser enrolada em pequenas tiras e finalmente cortadas no tamanho das balas.
Dona Rosália também tinha cinco filhos homens, com no máximo dois anos de diferença entre um e outro. Para dar conta das encomendas, ela tinha pouco tempo para vigiar aquela meninada toda. Assim, nas semanas de muito serviço, dona Rosália vestia todos os filhos homens com batinhas marrons que iam até os pés. Não eram vestidos, porque os vestidos tinham golas e um ou outro adereço. O que os meninos usavam era uma espécie de camisolão sem ajustes, um exatamente igual ao outro. Com vergonha de sair nas ruas naqueles trajes, os cinco filhos de dona Rosália ficavam com a cara espremida no portão vendo do que nós, os outros meninos, brincavam nas calçadas. E assim, dona Rosália tinha a tranqüilidade necessária para encontrar o ponto certo de suas balas.
O tempo passou, o filho mais velho de dona Rosália abriu uma farmácia e ganhou de cara a confiança de todo o bairro. Nenhum enfermo jamais ia ao médico sem antes ouvir os conselhos do Zé da Farmácia. Era assim que ele passou a ser chamado – se ele não conseguisse resolver o problema ali mesmo, na sua salinha de azulejos brancos, daí sim iríamos para o hospital, mas isto era raro, muito raro. E ainda assim, quando voltávamos do médico, passávamos antes pela farmácia para ver se o filho mais velho de dona Rosália concordava com o diagnóstico. E só então comprávamos os remédios, com a certeza de que estávamos em boas mãos.
Um dia, muitos anos depois, um caminhão da telefônica parou em nossa rua e os homens começaram a puxar fios que iam do poste até o telhado de nossas casas. O problema da falta de linhas finalmente havia sido resolvido e as casas do bairro começaram a receber seus aparelhos de telefone também – menores, mais leves e mais claros do que aquele de dona Rosália. A partir daquele dia, sempre que queríamos telefonar, podíamos fazer tranqüilamente da nossa sala, sem termos de pedir nada para a dona Rosália. Mas então, ligar para os outros não tinha mais graça nenhuma.
Uma ou duas vezes por mês eu sentia vontade de telefonar para alguém e pedia para que minha mãe me levasse até a casa de dona Rosália. “Mas você não conhece ninguém que tem telefone. Pra quem você vai ligar?”, minha mãe perguntava. Ao perceber que minha falta de resposta não era mesmo sinônimo de desistência, ela parava o que estava fazendo e me levava para telefonar na casa da dona Rosália. “Dona Rosália, o menino está com vontade de telefonar de novo. A senhora deixa?”. Paciente, dona Rosália me conduzia até sua sala, onde eu adentrava com um encantamento respeitoso, e ficava à espera de que ela discasse somente quatro números – os números da casa de uma amiga, que vivia em outro bairro e, que luxo, também tinha telefone em casa. Quando a amiga atendia, dona Rosália dizia: “Não é nada, não. Fala só oi pro menino que está com vontade de telefonar”. Eu segurava o fone com as duas mãos sujas de moleque e ouvia uma voz fina que me perguntava, do outro lado, se estava tudo bem. Eu nunca consegui responder, tinha medo. Devolvia depressa o telefone à dona Rosália, minha mãe dizia um obrigado meio sem jeito, e eu voltava correndo para brincar com os outros meninos da rua. Dali a três ou quatro semanas eu sei que pediria de novo para telefonar para alguém e a amiga da dona Rosália teria apenas de dizer um olá para que eu me desse por feliz.
Um dia eu perguntei ao meu pai por que nós também não podíamos ter um telefone. Ele me explicou que era problema de linha, que ele já havia ido até a telefônica mas não havia mais disponibilidade de linha no bairro, só dali a muitos anos. Mas eu não queria uma linha, eu repetia para o meu pai, eu queria só um telefone preto e pesado como o da dona Rosália. “Mas é a mesma coisa”, meu pai dizia, “sem linha o telefone não serve para nada”. De todas as respostas que eu tive na infância, esta sempre foi a mais difícil de engolir. Que raio de linha era aquela que nos impedia de ter um telefone na sala, em cima de uma toalhinha branca e rendada?
Dona Rosália fazia balas de noiva, que agora nós chamamos de bala de coco. Ela e as duas filhas. Casamento sem as balas da dona Rosália não tinham futuro. No início, ela só fazia balas de coco, depois vieram as de amendoim e de castanha. Quando eu chegava na casa de dona Rosália para meu telefonema mensal para sua amiga, estavam as três, dona Rosália e as duas filhas, com as mãos ocupadas nas massas de bala, uma espécie de gororoba branquinha e elástica que não podia passar do ponto de jeito nenhum. Um pouco mais, açucarava; um pouco menos, virava puxa-puxa. E as noivas do bairro, assim como nós, queríamos suas balas sempre no ponto. Quando me levava até a sala para telefonar, dona Rosália ficava de olho nas mãos das filhas e, de longe, sabia o momento exato em que aquela grande massa podia ser enrolada em pequenas tiras e finalmente cortadas no tamanho das balas.
Dona Rosália também tinha cinco filhos homens, com no máximo dois anos de diferença entre um e outro. Para dar conta das encomendas, ela tinha pouco tempo para vigiar aquela meninada toda. Assim, nas semanas de muito serviço, dona Rosália vestia todos os filhos homens com batinhas marrons que iam até os pés. Não eram vestidos, porque os vestidos tinham golas e um ou outro adereço. O que os meninos usavam era uma espécie de camisolão sem ajustes, um exatamente igual ao outro. Com vergonha de sair nas ruas naqueles trajes, os cinco filhos de dona Rosália ficavam com a cara espremida no portão vendo do que nós, os outros meninos, brincavam nas calçadas. E assim, dona Rosália tinha a tranqüilidade necessária para encontrar o ponto certo de suas balas.
O tempo passou, o filho mais velho de dona Rosália abriu uma farmácia e ganhou de cara a confiança de todo o bairro. Nenhum enfermo jamais ia ao médico sem antes ouvir os conselhos do Zé da Farmácia. Era assim que ele passou a ser chamado – se ele não conseguisse resolver o problema ali mesmo, na sua salinha de azulejos brancos, daí sim iríamos para o hospital, mas isto era raro, muito raro. E ainda assim, quando voltávamos do médico, passávamos antes pela farmácia para ver se o filho mais velho de dona Rosália concordava com o diagnóstico. E só então comprávamos os remédios, com a certeza de que estávamos em boas mãos.
Um dia, muitos anos depois, um caminhão da telefônica parou em nossa rua e os homens começaram a puxar fios que iam do poste até o telhado de nossas casas. O problema da falta de linhas finalmente havia sido resolvido e as casas do bairro começaram a receber seus aparelhos de telefone também – menores, mais leves e mais claros do que aquele de dona Rosália. A partir daquele dia, sempre que queríamos telefonar, podíamos fazer tranqüilamente da nossa sala, sem termos de pedir nada para a dona Rosália. Mas então, ligar para os outros não tinha mais graça nenhuma.
Um presente do grande Marcelino Freire
Marcelino Freire é um destes escritores que, na vida, se misturam muito com aquilo que escrevem. E nós, com o tempo, vamos gostando cada vez mais das duas coisas: deles e daquilo que eles escrevem. Seria desnecessário aqui falar da qualidade dos seus livros Era o Dito e Angu de Sangue, apenas para ficar nos dois que estão aqui, à minha frente na estante. Hoje Marcelino me mandou um presentão: sua opinião sobre a peça A Coleira de Bóris, de minha autoria, que termina domingo no Satyros Um. Pedi licença ao Marcelino para compartilhar o presente com vocês. Está aí embaixo:
É um texto difícil este do Roveri. Reexplico: A Coleira de Bóris. Os diálogos dão saltos no escuro. Cambalhotas no abismo. Vejamos: dois detentos se encontram enjaulados, lado a lado. E não sabem por que vieram parar ali. Há tanto tempo. Onde estamos? Em que país infeliz? Soube eu que, quando escrita, a peça previa uma parede separando os personagens. Cada um na sua solitária. Nada de cara a cara. Apenas alma com alma, conversando. Vociferando, enfim. A solução, dada pelo diretor Marco Antonio Rodrigues, soltou os presos no mesmo chão. De gravitação. Eles se olham mas não se vêem. Triscam-se mais do que se tocam. Formam um mesmo espectro. Um, digamos, mais otimista. Seria? O outro, descrente. No entanto, acorrentados ambos. A caminho do mesmo futuro. Aliás, quão talentosos e vigorosos são os dois atores. Juro. Num embate cheio de arte. E fôlego. Algo que me fez lembrar o clássico Dois Perdidos Numa Noite Suja - este, mais circense. A Coleira, digamos, mais nonsense. E não menos visceral. Roveri, mais uma vez, captura com precisão o mundo-cão em que sobremorremos. Recomendo. E mais não digO. Paurabéns a todos do espetáculo. Aquelabraço forte e beijos no umbigO. Fui.
É um texto difícil este do Roveri. Reexplico: A Coleira de Bóris. Os diálogos dão saltos no escuro. Cambalhotas no abismo. Vejamos: dois detentos se encontram enjaulados, lado a lado. E não sabem por que vieram parar ali. Há tanto tempo. Onde estamos? Em que país infeliz? Soube eu que, quando escrita, a peça previa uma parede separando os personagens. Cada um na sua solitária. Nada de cara a cara. Apenas alma com alma, conversando. Vociferando, enfim. A solução, dada pelo diretor Marco Antonio Rodrigues, soltou os presos no mesmo chão. De gravitação. Eles se olham mas não se vêem. Triscam-se mais do que se tocam. Formam um mesmo espectro. Um, digamos, mais otimista. Seria? O outro, descrente. No entanto, acorrentados ambos. A caminho do mesmo futuro. Aliás, quão talentosos e vigorosos são os dois atores. Juro. Num embate cheio de arte. E fôlego. Algo que me fez lembrar o clássico Dois Perdidos Numa Noite Suja - este, mais circense. A Coleira, digamos, mais nonsense. E não menos visceral. Roveri, mais uma vez, captura com precisão o mundo-cão em que sobremorremos. Recomendo. E mais não digO. Paurabéns a todos do espetáculo. Aquelabraço forte e beijos no umbigO. Fui.
terça-feira, julho 22, 2008
De Coringa e outros artistas

Poucos dias antes de morrer de uma overdose acidental de medicamentos, em janeiro deste ano, o ator australiano Heath Ledger revelou em uma entrevista que não conseguia mais dormir e nem se alimentar direito após ter feito o Coringa no filme Batman, O Cavaleiro das Trevas. A gente lê este tipo de declaração, que hoje em dia já se tornou um lugar-comum, e não costuma dar muito crédito a ela. E depois é obrigado a morder a língua repetidas vezes. Assisti ao Batman na noite de segunda-feira e quase que eu não consigo mais dormir depois de ver a estupenda criação de Ledger para o vilão dos quadrinhos. Ensandecido, apaixonado, desmedido, temerário, antológico... poderíamos usar todo o estoque de adjetivos disponíveis no Aurélio para definir o trabalho do ator sem medo de incorrer em grandes exageros. Mas acho que apenas um adjetivo dá conta desta tarefa: perigoso.
Eu sempre acreditei que os artistas soubessem o caminho de volta em qualquer situação, que eles poderiam mergulhar nos abismos mais indevassáveis no encalço de seus personagens e depois voltar de lá com as mãos nas costas. Hoje eu acho que não é bem assim. Paga-se um preço alto para adentrar neste terreno perigoso em que a arte parece fazer fronteira com a insanidade. Ou com a obsessão.
Lembro-me de uma vez em que uma jovem e bela repórter do Jornal da Tarde, Paola Gentile, foi entrevistar a Bibi Ferreira a respeito do musical Piaf, então um grande sucesso na cidade. Era uma manhã de segunda-feira e a própria Bibi abriu a porta para a repórter. Estava vestida de preto, com chinelos baixos que reforçavam seu caminhar arrastado, tinha um aspecto alquebrado como o da cantora francesa em seus últimos dias. “Desculpe-me”, disse Bibi à repórter. “Ela costuma ir embora mais cedo, mas desta vez resolveu ficar no meu pé”. O “ela” a quem Bibi se referia era ninguém menos que a própria Piaf.
Desde aquele dia passei a cultivar um certo fascínio, às vezes quase mórbido, por este momento na vida do artista em que ele parece não delimitar com precisão em que momento a vida real precisa se desvencilhar do personagem para que os dois, vida e personagem, saiam ilesos desta confusão. Clarice Lispector escreveu, certa vez, que costumava associar seus defeitos às estruturas de um grande edifício. Por isso mesmo tinha receio de mexer com eles. “De repente, eu removo justamente o defeito que é a estrutura que sustenta o edifício inteiro e tudo virá abaixo”. Vindo de Clarice, é óbvio que isso foi dito de maneira muito mais elegante e poderosa, mas a imagem continua sendo a mesma.
Participei de uma entrevista coletiva com a atriz francesa Isabelle Huppert, quando ela esteve no Sesc Anchieta para interpretar o monólogo 4.48, de Sarah Kane, que a obrigava a permanecer imóvel no palco por quase duas horas, vivendo os tormentos de uma suicida. Tive a chance de perguntar a ela que tipo de memória ou sensação ela carregava para o coxia quando o espetáculo terminava. “Não levo nada. Isto aqui é trabalho. Chego ao camarim e tomo uma cerveja. Eu não sou esta personagem e nem tenho os problemas dela”. Ah, os franceses e seu apego ao distanciamento.
Quando abordaram um tema semelhante com Elis Regina, ela ficou mais ao lado de Clarice do que de Isabelle Huppert. Uma repórter de tevê quis saber se ela fazia terapia. Elis respondeu que não mais, que havia se dado alta. “Sou uma pessoa insegura e talvez eu não possa me tratar disso. Quem me garante que eu não cante justamente por ser insegura? Imagine se um dia algum psicanalista disser que eu estou curada da minha insegurança e daí eu abro a boca e não sai voz alguma. Não quero correr este risco”. Em nome do seu canto, parece ter corrido outros.
Poderíamos passar a noite aqui, lembrando casos e casos de artistas que parecem tirar tudo de letra e de outros que, ao contrário, não sentem-se realizados até que o sangue escorra. Sei que o rosto fantasmagórico de Heath Ledger travestido de Coringa vai me acompanhar ainda por muito tempo, como um alerta de que todos nós vivemos nos becos escuros de uma Gotham City de onde nenhum Batman vai nos resgatar. Por isso, todo cuidado é pouco. Que a gente possa, pra sempre, ler Clarice e ouvir Elis. Mas, acima de tudo, que a gente possa tomar a cervejinha gelada da Isabelle Huppert com a reconfortante certeza de que quando a cortina fecha é porque acabou mesmo.
Eu sempre acreditei que os artistas soubessem o caminho de volta em qualquer situação, que eles poderiam mergulhar nos abismos mais indevassáveis no encalço de seus personagens e depois voltar de lá com as mãos nas costas. Hoje eu acho que não é bem assim. Paga-se um preço alto para adentrar neste terreno perigoso em que a arte parece fazer fronteira com a insanidade. Ou com a obsessão.
Lembro-me de uma vez em que uma jovem e bela repórter do Jornal da Tarde, Paola Gentile, foi entrevistar a Bibi Ferreira a respeito do musical Piaf, então um grande sucesso na cidade. Era uma manhã de segunda-feira e a própria Bibi abriu a porta para a repórter. Estava vestida de preto, com chinelos baixos que reforçavam seu caminhar arrastado, tinha um aspecto alquebrado como o da cantora francesa em seus últimos dias. “Desculpe-me”, disse Bibi à repórter. “Ela costuma ir embora mais cedo, mas desta vez resolveu ficar no meu pé”. O “ela” a quem Bibi se referia era ninguém menos que a própria Piaf.
Desde aquele dia passei a cultivar um certo fascínio, às vezes quase mórbido, por este momento na vida do artista em que ele parece não delimitar com precisão em que momento a vida real precisa se desvencilhar do personagem para que os dois, vida e personagem, saiam ilesos desta confusão. Clarice Lispector escreveu, certa vez, que costumava associar seus defeitos às estruturas de um grande edifício. Por isso mesmo tinha receio de mexer com eles. “De repente, eu removo justamente o defeito que é a estrutura que sustenta o edifício inteiro e tudo virá abaixo”. Vindo de Clarice, é óbvio que isso foi dito de maneira muito mais elegante e poderosa, mas a imagem continua sendo a mesma.
Participei de uma entrevista coletiva com a atriz francesa Isabelle Huppert, quando ela esteve no Sesc Anchieta para interpretar o monólogo 4.48, de Sarah Kane, que a obrigava a permanecer imóvel no palco por quase duas horas, vivendo os tormentos de uma suicida. Tive a chance de perguntar a ela que tipo de memória ou sensação ela carregava para o coxia quando o espetáculo terminava. “Não levo nada. Isto aqui é trabalho. Chego ao camarim e tomo uma cerveja. Eu não sou esta personagem e nem tenho os problemas dela”. Ah, os franceses e seu apego ao distanciamento.
Quando abordaram um tema semelhante com Elis Regina, ela ficou mais ao lado de Clarice do que de Isabelle Huppert. Uma repórter de tevê quis saber se ela fazia terapia. Elis respondeu que não mais, que havia se dado alta. “Sou uma pessoa insegura e talvez eu não possa me tratar disso. Quem me garante que eu não cante justamente por ser insegura? Imagine se um dia algum psicanalista disser que eu estou curada da minha insegurança e daí eu abro a boca e não sai voz alguma. Não quero correr este risco”. Em nome do seu canto, parece ter corrido outros.
Poderíamos passar a noite aqui, lembrando casos e casos de artistas que parecem tirar tudo de letra e de outros que, ao contrário, não sentem-se realizados até que o sangue escorra. Sei que o rosto fantasmagórico de Heath Ledger travestido de Coringa vai me acompanhar ainda por muito tempo, como um alerta de que todos nós vivemos nos becos escuros de uma Gotham City de onde nenhum Batman vai nos resgatar. Por isso, todo cuidado é pouco. Que a gente possa, pra sempre, ler Clarice e ouvir Elis. Mas, acima de tudo, que a gente possa tomar a cervejinha gelada da Isabelle Huppert com a reconfortante certeza de que quando a cortina fecha é porque acabou mesmo.
domingo, julho 20, 2008
Só mais um dia
E então, numa manhã qualquer, você acorda mais ou menos no horário de todas as outras manhãs. A noite não foi assim tão boa. Você observou os números luminosos do rádio-relógio que tingiam de verde claro o teto do quarto, estava acordado ainda quando a luminosidade da manhã se infiltrou por aquele pedacinho aberto da cortina, que você prometeu fechar antes de se deitar, mas acabou esquecendo. Você se levanta, caminha até o banheiro, olha no espelho e ainda se julga um pouco íntimo daquela figura que o espelho lhe devolve. Escova os dentes, lembra-se de que seu dentista recomendou movimentos mais suaves com a escova, mas naquela manhã você não está nada preocupado com as suas gengivas – se alguma parte do seu corpo vai sangrar um pouco naquele dia, que sejam elas.
Você apanha o jornal no corredor e se ajeita em um canto do sofá em que ainda bate um pouco de sol. Como em todas as outras manhãs da sua vida, você vai ler o jornal de trás para a frente, como se nunca estivesse suficientemente pronto para o impacto de alguma notícia que só poderia ocupar a primeira página. Quando você finalmente chega àquele ponto do jornal do qual todas as outras pessoas provavelmente partiram, você já está um pouco cansado de ler e nada parece ser muito importante mesmo.
É uma manhã exatamente igual a todas as outras, mas você sente que no fundo talvez não seja. Só que você resolve não pensar a respeito, não naquela hora.
E seu dia, então, vagarosamente começa. Dali a pouco o telefone vai tocar, você vai ligar o computador e ver que sua caixa de correspondência está repleta de e-mails que não merecem respostas, o telefone vai tocar de novo, e desta vez você torce que seja para você, o dia avança, você sabe que logo vai precisar sair à rua, talvez tomar um banho antes, ou não, em pouco tempo vai precisar procurar alguma coisa para comer e quando pensa no quê nada lhe vem à cabeça, a não ser aquela sensação de que você está fazendo tudo como sempre fez, mas ainda há algo estranho naquele dia tão rotineiro.
Você almoça, toma duas xícaras de café como sempre, volta para casa caminhando devagar, e percebe que está na hora de trabalhar. Trabalha e é até possível que sinta-se feliz com o que acabou de produzir. Talvez nesta hora enfim chegue um e-mail que mereça resposta, o telefone toca de novo e desta vez é mesmo para você, você conversa, combina alguma coisa para a noite já prevendo que dali a pouco vai desmarcar porque os dias são cheios de imprevistos, liga a televisão porque os noticiários da noite estão começando e ainda que você já tenha visto tudo pela internet, é sempre bom conferir. E finalmente, ainda que você não queira, é preciso pensar um pouco naquele incômodo que o acompanhou durante aquele dia que ainda continua rotineiro.
E então você vê que era apenas um encanto que se quebrou, uma coisinha de nada, uma chama que se apagou tão devagarzinho como se ela não se sentisse no direito de incomodar você. Como se ela nem mesmo fizesse parte de você. Era isso, então, você diz. E era tão pouco. E era quase um nada. E se acabou. No dia seguinte, você vai acordar mais ou menos no horário em que acorda em quase todas as manhãs. E no mesmo instante vai saber que sem aquele encanto, aquela coisinha de nada, aquela chama que nem produziu assim tanto calor, a vida nunca mais será a mesma. Vai ser um dia igual a todos os outros, você sabe disso. E o mais vazio de todos os que você já enfrentou. E você sabe disso também. E contra tudo e contra todos, e contra você mesmo, você se levanta.
Você apanha o jornal no corredor e se ajeita em um canto do sofá em que ainda bate um pouco de sol. Como em todas as outras manhãs da sua vida, você vai ler o jornal de trás para a frente, como se nunca estivesse suficientemente pronto para o impacto de alguma notícia que só poderia ocupar a primeira página. Quando você finalmente chega àquele ponto do jornal do qual todas as outras pessoas provavelmente partiram, você já está um pouco cansado de ler e nada parece ser muito importante mesmo.
É uma manhã exatamente igual a todas as outras, mas você sente que no fundo talvez não seja. Só que você resolve não pensar a respeito, não naquela hora.
E seu dia, então, vagarosamente começa. Dali a pouco o telefone vai tocar, você vai ligar o computador e ver que sua caixa de correspondência está repleta de e-mails que não merecem respostas, o telefone vai tocar de novo, e desta vez você torce que seja para você, o dia avança, você sabe que logo vai precisar sair à rua, talvez tomar um banho antes, ou não, em pouco tempo vai precisar procurar alguma coisa para comer e quando pensa no quê nada lhe vem à cabeça, a não ser aquela sensação de que você está fazendo tudo como sempre fez, mas ainda há algo estranho naquele dia tão rotineiro.
Você almoça, toma duas xícaras de café como sempre, volta para casa caminhando devagar, e percebe que está na hora de trabalhar. Trabalha e é até possível que sinta-se feliz com o que acabou de produzir. Talvez nesta hora enfim chegue um e-mail que mereça resposta, o telefone toca de novo e desta vez é mesmo para você, você conversa, combina alguma coisa para a noite já prevendo que dali a pouco vai desmarcar porque os dias são cheios de imprevistos, liga a televisão porque os noticiários da noite estão começando e ainda que você já tenha visto tudo pela internet, é sempre bom conferir. E finalmente, ainda que você não queira, é preciso pensar um pouco naquele incômodo que o acompanhou durante aquele dia que ainda continua rotineiro.
E então você vê que era apenas um encanto que se quebrou, uma coisinha de nada, uma chama que se apagou tão devagarzinho como se ela não se sentisse no direito de incomodar você. Como se ela nem mesmo fizesse parte de você. Era isso, então, você diz. E era tão pouco. E era quase um nada. E se acabou. No dia seguinte, você vai acordar mais ou menos no horário em que acorda em quase todas as manhãs. E no mesmo instante vai saber que sem aquele encanto, aquela coisinha de nada, aquela chama que nem produziu assim tanto calor, a vida nunca mais será a mesma. Vai ser um dia igual a todos os outros, você sabe disso. E o mais vazio de todos os que você já enfrentou. E você sabe disso também. E contra tudo e contra todos, e contra você mesmo, você se levanta.
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