Mais do que entrar em restaurantes, fazer compras, bater pernas, dormir tarde e tomar caipirinha na praia, há dois hábitos que definem com mais precisão os meus períodos de férias: voltar para a cama depois de tomar café da manhã e ver novelas. Quando estas coisas se juntam, das duas uma: ou estou doente ou estou viajando. A segunda opção costuma ser muito melhor. Se eu não morasse em São Paulo, onde a quantidade de peças e filmes em cartaz às vezes chega a ser angustiante, pois sabemos que não conseguiremos ver tudo mesmo, e onde a disposição dos amigos para um chopinho também merece respeito, eu seria um noveleiro irrecuperável. Tenho certeza disso. Esta semana mesmo, em que Paraíso Tropical está chegando ao fim, sei que sairei de casa com dor no coração e com a cabeça no assassino da Thaís. Na quinta e na sexta, no entanto, dias em que as centenas de falcatruas criadas por Gilberto Braga começarão a ser resolvidas, estou pensando em deixar o telefone fora do gancho, o celular desligado e inventar uma ótima desculpa para poder ficar em casa quietão, vendo o Olavo do magistral Wagner Moura quebrar a cara. Ou não, já que neste país os canalhas podem começar a se dar bem até em novelas.
Embore eu goste de novelas, fico muito feliz de constatar que a maioria delas é medonha. Assim a gente fica livre, e sem culpa, para fazer coisas muito mais interessantes, como ir ao cinema e ao teatro, ler, tomar biritas com os amigos, ver as entrevistas da Oprah e do David Letterman, assistir a House e a outros seriados médicos e de investigação policial que, de tão parecidos, a gente sempre acha que está vendo o mesmo, e ainda assim curte todos, ficar de bobeira na Internet, ir à academia ou simplesmente jogar conversa fora no telefone enquanto presta mais atenção nas coisas que precisam ser feitas pra deixar a casa da gente mais transada do que na conversa de quem está do outro lado da linha. Mas como fazer tudo isso nesta semana em que a gente vai descobrir quem tentou matar a Marion, quem envenenou o personagem do Edwin Luisi (esqueci o nome do cara), quem mandou a Thaís desta pra pior e que dia a Bebel vai perder o bebê? Vai ser duro fazer outra coisa....
Mas há algo maravilhoso pairando no ar: durante os intervalos de Paraíso Tropical, a Globo vem bombardeando a gente com as chamadas de Duas Caras, a nova trama do Aguinaldo Silva. E, graças a Deus, tudo tem uma cara de pão amanhecido que vai ser fácil, muito fácil, fugir da Suzana Vieira, da Renata Sorrah e de uma galera que já conseguiu cansar a gente antes mesmo do primeiro capítulo. É só mostrar uma ao lado da outra, uma vilã e a outra boazinha, pra gente achar que se enganou e está revendo Senhora do Destino. E então a gente já sabe que vai colocar o cinema em dia, vai ver as peças que estão em cartaz nos Satyros de segunda a quinta, vai terminar o livro novo do Philip Roth e, mais que tudo, vai sentir como é bom se libertar deste vício maldito que é novela boa...
segunda-feira, setembro 24, 2007
quinta-feira, setembro 20, 2007
Um mundo ruim pra cachorro
São raras as notícias de jornais que eu não consigo ler. Por falta de coragem ou por saber, antecipadamente, que elas vão me fazer mal, viro a página rapidamente. Sei que se eu continuar com essas manias, e do jeito que as coisas vão, dentro de pouco tempo talvez eu não tenha estômago para ler mais nada. Hoje, por exemplo, topei com uma dessas notícias cuja leitura eu tive de interromper ainda no título: Revoltado, dono espanca e põe fogo em pitbull. Poucas vezes vi um grau de violência tão concentrado em tão poucas palavras. Além de não ter conseguido ler a notícia, encontro ainda mais dificuldade em tentar imaginar a cena.
Deve haver algo errado nesta minha maneira de compreender o mundo, pois percebo, escrevendo aqui agora, que fui capaz de ler todas as notícias sobre os diversos ataques de pitbulls ocorridos nas últimas semanas - e resolvo amarelar justamente agora, quando o cão se transforma em vítima. A bem da verdade, acredito que em todos os casos de ataques os cães são tão vítimas quanto suas presas indefesas: vítimas de donos cruéis e inescrupulosos, vítimas de veterinários que aceitaram mutilar suas orelhas e caudas, vítimas de maus tratos e treinamentos irresponsáveis que só fizeram aumentar uma provável vocação para a violência com que a natureza já dotou esta raça, vítimas de provocações, de correntes amarradas em seus pescoços, de cubículos em que eles não conseguem exercitar o mais básico de seus instintos, vítimas, enfim, de um certo destino que conspirou para dotá-los de uma incompreensível bestialidade.
Ao ler a notícia de hoje, entendi que um dono de pitbull que tenha tido a coragem de espancá-lo e depois queimá-lo, seguramente também teve a vocação anterior de treiná-lo para ser um monstro capaz de saltar na jugular de uma criança de três anos. Não tenho nenhuma experiência sobre comportamento animal, mas acredito que os bichos, principalmente os cães, são, ou se transformam, naquilo que queremos e esperamos deles. Outro dia, andando pela Vila Madalena, vi uma senhora carregando um pitbull maravilhoso no colo. Era um filhotão cinza claro, de olhos verdes absolutamente fascinantes e bondosos. Ela estava saindo do veterinário e, como o animal não havia ainda tomado todas as vacinas, decidiu protegê-lo da sujeira das ruas, carregando-o nos braços. Fui brincar com o bicho e ele festejou minha presença como se fosse o mais paciente dos labradores. Duvido que este cão, aparentemente acostumado a receber um amor incondicional de sua dona, e por isso mesmo sedento para externar este amor diante de qualquer estranjo, venha a ser capaz algum dia de travar suas poderosas mandíbulas sobre uma simples barata.
Não satisfeitos com a nossa violência atávica, capaz de queimar e espancar índios até a morte, arrastar crianças e enfermeiras nas rodas de nossos carros e chutar empregadas domésticas nos pontos de ônibus, estamos nos especializando também em transformar nossos cães em feras. E, quando por algum motivo eles não cumprem exatamente o que esperamos deles, optamos por espancá-los e queimá-los...como se eles fossem humanos!!!. Por isso eu não consegui ler a notícia até o fim: ao espancar e queimar o animal, aquele dono insandecido deve ter enxergado nele um status de ser humano - já que, até agora, somente pessoas são queimadas ou espancadas até a morte. Talvez tenha sido um upgrade para o cachorro: agora eles também podem ter o mesmo fim destinado a nós, humanos. É um mundo assustador este nosso.
Deve haver algo errado nesta minha maneira de compreender o mundo, pois percebo, escrevendo aqui agora, que fui capaz de ler todas as notícias sobre os diversos ataques de pitbulls ocorridos nas últimas semanas - e resolvo amarelar justamente agora, quando o cão se transforma em vítima. A bem da verdade, acredito que em todos os casos de ataques os cães são tão vítimas quanto suas presas indefesas: vítimas de donos cruéis e inescrupulosos, vítimas de veterinários que aceitaram mutilar suas orelhas e caudas, vítimas de maus tratos e treinamentos irresponsáveis que só fizeram aumentar uma provável vocação para a violência com que a natureza já dotou esta raça, vítimas de provocações, de correntes amarradas em seus pescoços, de cubículos em que eles não conseguem exercitar o mais básico de seus instintos, vítimas, enfim, de um certo destino que conspirou para dotá-los de uma incompreensível bestialidade.
Ao ler a notícia de hoje, entendi que um dono de pitbull que tenha tido a coragem de espancá-lo e depois queimá-lo, seguramente também teve a vocação anterior de treiná-lo para ser um monstro capaz de saltar na jugular de uma criança de três anos. Não tenho nenhuma experiência sobre comportamento animal, mas acredito que os bichos, principalmente os cães, são, ou se transformam, naquilo que queremos e esperamos deles. Outro dia, andando pela Vila Madalena, vi uma senhora carregando um pitbull maravilhoso no colo. Era um filhotão cinza claro, de olhos verdes absolutamente fascinantes e bondosos. Ela estava saindo do veterinário e, como o animal não havia ainda tomado todas as vacinas, decidiu protegê-lo da sujeira das ruas, carregando-o nos braços. Fui brincar com o bicho e ele festejou minha presença como se fosse o mais paciente dos labradores. Duvido que este cão, aparentemente acostumado a receber um amor incondicional de sua dona, e por isso mesmo sedento para externar este amor diante de qualquer estranjo, venha a ser capaz algum dia de travar suas poderosas mandíbulas sobre uma simples barata.
Não satisfeitos com a nossa violência atávica, capaz de queimar e espancar índios até a morte, arrastar crianças e enfermeiras nas rodas de nossos carros e chutar empregadas domésticas nos pontos de ônibus, estamos nos especializando também em transformar nossos cães em feras. E, quando por algum motivo eles não cumprem exatamente o que esperamos deles, optamos por espancá-los e queimá-los...como se eles fossem humanos!!!. Por isso eu não consegui ler a notícia até o fim: ao espancar e queimar o animal, aquele dono insandecido deve ter enxergado nele um status de ser humano - já que, até agora, somente pessoas são queimadas ou espancadas até a morte. Talvez tenha sido um upgrade para o cachorro: agora eles também podem ter o mesmo fim destinado a nós, humanos. É um mundo assustador este nosso.
domingo, setembro 16, 2007
Cinzas
Fumei uma única vez na vida, e deve ter sido algo tão marcante que até hoje me lembro das circunstâncias: foi num show da Angela Rô Rô, em 1988, em uma casa de espetáculos já extinta na rua Butantã. Tinha ido ao show com um amigo que, anos mais tarde, me venderia o apartamento em que eu vivo hoje, na Vila Madalena. Só agora me dou conta que, em 1988, ainda era possível assistir a um show com um cigarrinho entre os dedos. Naquela noite, como nas outras em que tive a chance de ver algum show de Angela Rô Rô, ela se mostrou novamente tomada por alguma entidade politicamente incorreta, pois ouvir alguns de seus comentários maliciosos sobre os companheiros da classe artística era tão prazeroso quanto viajar em sua voz rouca e dolorida por alguns clássicos da MPB. No meio do show, talvez por ver tanta gente fumando em pé ao meu lado, pedi ao meu amigo que me desse um cigarro e o fumei inteirinho. Minutos depois da última tragada, estava com uma dor de cabeça muito chata - e assim me despedi para sempre da nicotina, cinco minutos após ter sido apresentado a ela.
Mas sou, e quem me conhece sabe disso, completamente tranqüilo em relação a quem fuma. Meus amigos fumantes podem soltar suas baforadas em minha casa, no meu carro, na mesa do restaurante ou em qualquer outro lugar que eu não me incomodo mesmo. É claro que existe uma certa fumacinha pentelha, que parece sair do cinzeiro para se dirigir exatamente na direção do nariz de quem não fuma. Mas nunca, na minha vida inteira, pedi para que alguém deixasse de fumar ao meu lado. Eu acho que os fumantes, com razão, aliás, já são devidamente policiados em todos os lugares desta cidade - talvez eu me sentisse mal em engrossar esta patrulha.
Eu me lembro de ter presenciado dois episódios constrangedores envolvendo cigarro. Um sábado à tarde, muitos anos atrás, eu fui almoçar no restaurante Pequi, que acabava de ser aberto e ainda estava longe de se tornar um dos locais mais freq6uentados pela classe teatral de São Paulo. Além de mim, havia apenas um outro rapaz, também sozinho, almoçando em uma mesa perto da porta. Então entrou um casal e se acomodou no meio do salão. Aquele cara, quando terminou de almoçar, perguntou para o garçom se era permitido fumar ali. O garçom disse que não era, mas caso eu e o casal não nos incomodássemos, ele podia acender seu sagrado cigarrinho depois da refeição. Eu dei sinal verde, mas o casal, que estava pelo menos a uns oito metros daquele cara, não permitiu que ele fumasse, ainda que ele se encontrasse ao lado da porta. Ele pagou a conta e foi embora, fumar em pé lá na calçada.
O segundo episódio envolveu dois amigos, também numa tarde de sábado. Eu não os via fazia muito tempo, quando eles me ligaram me chamando para um almoço. Passaram em casa e, assim que entrei no carro, um deles acendeu um cigarro. O amigo que estava ao volante disse, então, que no carro dele ninguém fumava. Achamos que ele estivesse brincando, mas não. O amigo fumante ainda insistiu, dizendo que seguraria o cigarro do lado de fora da janela. Não houve acordo: ou ele apagava o cigarro ou teria de descer do carro. Ficou um climão tão chato que o resto do almoço não foi lá grande coisa também.
Mas, nos últimos tempos, eu comecei a me incomodar com os fumantes. E não por causa da fumaça, e sim em virtude das embalagens de cigarro. Não reclamar da fumaça, ainda que ela realmente incomode, é uma coisa. Agora, almoçar vendo a imagen de um rato morto estampada no maço de cigarro, uma gengiva carcomida pela nicotina, um bebê prematuro nascido de mãe fumante e alguém com uma doença pulmonar acoplado a um monte de tubos de respiração, putz, isso sim é foda. Então eu percebi que quem fuma não vai deixar de fazê-lo porque as embalagens de cigarro se tornaram monstruosas - sobrou mais uma vez para os não fumantes que, além do ar carregado da fumaça produzida pelos amigos, ainda são obrigados a ver um ratinho morto ao lado do couvert na hora do almoço...
E antes que alguém me pergunte por que eu não peço para que meus amigos não fumem perto de mim, eu já respondo: eu gosto muito deles, mesmo dos defumados. E eles já são perseguidos demais, no cinema, no trabalho, no avião, nos restaurantes e em todos os outros lugares imagináveis. Na minha casa eu os deixo em paz, com a janela sempre aberta e, de preferência, com o rato do maço de cigarro virado para baixo.
Mas sou, e quem me conhece sabe disso, completamente tranqüilo em relação a quem fuma. Meus amigos fumantes podem soltar suas baforadas em minha casa, no meu carro, na mesa do restaurante ou em qualquer outro lugar que eu não me incomodo mesmo. É claro que existe uma certa fumacinha pentelha, que parece sair do cinzeiro para se dirigir exatamente na direção do nariz de quem não fuma. Mas nunca, na minha vida inteira, pedi para que alguém deixasse de fumar ao meu lado. Eu acho que os fumantes, com razão, aliás, já são devidamente policiados em todos os lugares desta cidade - talvez eu me sentisse mal em engrossar esta patrulha.
Eu me lembro de ter presenciado dois episódios constrangedores envolvendo cigarro. Um sábado à tarde, muitos anos atrás, eu fui almoçar no restaurante Pequi, que acabava de ser aberto e ainda estava longe de se tornar um dos locais mais freq6uentados pela classe teatral de São Paulo. Além de mim, havia apenas um outro rapaz, também sozinho, almoçando em uma mesa perto da porta. Então entrou um casal e se acomodou no meio do salão. Aquele cara, quando terminou de almoçar, perguntou para o garçom se era permitido fumar ali. O garçom disse que não era, mas caso eu e o casal não nos incomodássemos, ele podia acender seu sagrado cigarrinho depois da refeição. Eu dei sinal verde, mas o casal, que estava pelo menos a uns oito metros daquele cara, não permitiu que ele fumasse, ainda que ele se encontrasse ao lado da porta. Ele pagou a conta e foi embora, fumar em pé lá na calçada.
O segundo episódio envolveu dois amigos, também numa tarde de sábado. Eu não os via fazia muito tempo, quando eles me ligaram me chamando para um almoço. Passaram em casa e, assim que entrei no carro, um deles acendeu um cigarro. O amigo que estava ao volante disse, então, que no carro dele ninguém fumava. Achamos que ele estivesse brincando, mas não. O amigo fumante ainda insistiu, dizendo que seguraria o cigarro do lado de fora da janela. Não houve acordo: ou ele apagava o cigarro ou teria de descer do carro. Ficou um climão tão chato que o resto do almoço não foi lá grande coisa também.
Mas, nos últimos tempos, eu comecei a me incomodar com os fumantes. E não por causa da fumaça, e sim em virtude das embalagens de cigarro. Não reclamar da fumaça, ainda que ela realmente incomode, é uma coisa. Agora, almoçar vendo a imagen de um rato morto estampada no maço de cigarro, uma gengiva carcomida pela nicotina, um bebê prematuro nascido de mãe fumante e alguém com uma doença pulmonar acoplado a um monte de tubos de respiração, putz, isso sim é foda. Então eu percebi que quem fuma não vai deixar de fazê-lo porque as embalagens de cigarro se tornaram monstruosas - sobrou mais uma vez para os não fumantes que, além do ar carregado da fumaça produzida pelos amigos, ainda são obrigados a ver um ratinho morto ao lado do couvert na hora do almoço...
E antes que alguém me pergunte por que eu não peço para que meus amigos não fumem perto de mim, eu já respondo: eu gosto muito deles, mesmo dos defumados. E eles já são perseguidos demais, no cinema, no trabalho, no avião, nos restaurantes e em todos os outros lugares imagináveis. Na minha casa eu os deixo em paz, com a janela sempre aberta e, de preferência, com o rato do maço de cigarro virado para baixo.
sexta-feira, setembro 14, 2007
Entre ser otário e ser sacana
Há mais ou menos um mês eu estava na fila do cinema com um amigo, também jornalista, quando, praticamente do nada, ele me disse que, em sua opinião, só restavam duas opções para nós, brasileiros: ou sermos sacanas ou sermos otários. No pouco tempo que teve para defender seu ponto de vista, antes de o filme começar, ele disse que não acreditava mais na possibilidade de sermos honestos sem que isso representasse o primeiro passo para que fôssemos passados para trás, deixados de lado como um objeto antiquado. Não concordei com ele, argumentei que era um pensamento alarmista, sem fundamento e, acima de tudo perigoso, por representar um convite ou um passe-livre para a bandalheira. Se não quisermos ser otários, e acredito que ninguém realmente o queira, a única alternativa seria a pilantragem. É isso? Prefiro não pensar assim.
Embora o assunto Renan Calheiros já tenha nos cansado demais, volto a ele apenas para dizer que a absolvição do senador me fez pensar novamente naquela conversa do cinema. Hoje, com pesar, eu daria razão para aquele amigo. Espero mudar de opinião em breve, mas hoje eu fecho com ele: o Brasil ficou dividido entre milhões de otários que acreditavam na justiça e na sua representatividade no Senado, e uns poucos sacanas que livraram a barra de um político acusado de um sem-número de atitudes ilícitas.
Por algum motivo que eu não sei direito qual, tenho pensado muito nos petistas nestes últimos dias, principalmente nos meus amigos petistas, que não sei mais de onde eles são capazes de buscar argumentos para defender este governo e suas convicções. Cheguei à conclusão de que defender o PT, hoje, é como defender algo de puro e cristalino que um dia existiu em nós e que agora se acabou. Desistir do PT, como eu desisti depois de 20 anos votando incondicionalmente neste partido, significa desistir de nossas próprias esperanças, é como encarar que ficamos órfãos de um tipo de ideologia e crença que nos alimentou durante muito tempo. Desistir do PT é , principalmente, aceitar o fato de que estamos sozinhos de novo. Por isso deve ser tão difícil, tão penoso.
Talvez estes argumentos soem infantis e debilóides, mas é a única explicação que eu encontro para se continuar acreditando em um partido que fez o inimaginável para manter Renan Calheiros na presidência do Senado. Como aceitar a abstenção de um Aloízio Mercadante, que alegou não haver provas suficientes para incriminar Renan? Meus Deus, o que será que o nobre Mercadante tem lido nos jornais e nas revistas nos últimos dias, além da sessão de horóscopo? Como olhar para a senadora Ideli Salvatti e não sentir uma incontrolável vontade de vomitar na tela da tevê, diante de uma traidora tão contumaz, tão contrária aos anseios populares, tão interessada em aprender a coreografia grotesca de sua coleguinha Angela Guadagnin, aquela da dança da pizza? Como encarar ainda com um certo deleite e cumplicidade a postura anacrônica e cada vez mais insossa de Eduardo Suplicy, que continua cantando Blowin' the Wind quando os ventos que realmente sopram ou são os da corrupção ou o dos furacões?
Como diria a Regina Duarte, hoje eu tenho medo, muito medo. Sabem do quê? De ir ao cinema neste fim de semana e encontrar de novo aquele meu amigo. Tenho medo de que ele me encontre na fila, abra um sorriso sarcástico e me diga: E então, eu não te falei??? Vai ser foda. Acho mais prudente alugar um vídeo e ficar em casa.
Embora o assunto Renan Calheiros já tenha nos cansado demais, volto a ele apenas para dizer que a absolvição do senador me fez pensar novamente naquela conversa do cinema. Hoje, com pesar, eu daria razão para aquele amigo. Espero mudar de opinião em breve, mas hoje eu fecho com ele: o Brasil ficou dividido entre milhões de otários que acreditavam na justiça e na sua representatividade no Senado, e uns poucos sacanas que livraram a barra de um político acusado de um sem-número de atitudes ilícitas.
Por algum motivo que eu não sei direito qual, tenho pensado muito nos petistas nestes últimos dias, principalmente nos meus amigos petistas, que não sei mais de onde eles são capazes de buscar argumentos para defender este governo e suas convicções. Cheguei à conclusão de que defender o PT, hoje, é como defender algo de puro e cristalino que um dia existiu em nós e que agora se acabou. Desistir do PT, como eu desisti depois de 20 anos votando incondicionalmente neste partido, significa desistir de nossas próprias esperanças, é como encarar que ficamos órfãos de um tipo de ideologia e crença que nos alimentou durante muito tempo. Desistir do PT é , principalmente, aceitar o fato de que estamos sozinhos de novo. Por isso deve ser tão difícil, tão penoso.
Talvez estes argumentos soem infantis e debilóides, mas é a única explicação que eu encontro para se continuar acreditando em um partido que fez o inimaginável para manter Renan Calheiros na presidência do Senado. Como aceitar a abstenção de um Aloízio Mercadante, que alegou não haver provas suficientes para incriminar Renan? Meus Deus, o que será que o nobre Mercadante tem lido nos jornais e nas revistas nos últimos dias, além da sessão de horóscopo? Como olhar para a senadora Ideli Salvatti e não sentir uma incontrolável vontade de vomitar na tela da tevê, diante de uma traidora tão contumaz, tão contrária aos anseios populares, tão interessada em aprender a coreografia grotesca de sua coleguinha Angela Guadagnin, aquela da dança da pizza? Como encarar ainda com um certo deleite e cumplicidade a postura anacrônica e cada vez mais insossa de Eduardo Suplicy, que continua cantando Blowin' the Wind quando os ventos que realmente sopram ou são os da corrupção ou o dos furacões?
Como diria a Regina Duarte, hoje eu tenho medo, muito medo. Sabem do quê? De ir ao cinema neste fim de semana e encontrar de novo aquele meu amigo. Tenho medo de que ele me encontre na fila, abra um sorriso sarcástico e me diga: E então, eu não te falei??? Vai ser foda. Acho mais prudente alugar um vídeo e ficar em casa.
quarta-feira, setembro 12, 2007
O Senado te merece, Renan. Sejam felizes

HOJE É UM DAQUELES DIAS EM QUE A GENTE SENTE MUITO NOJO, VERGONHA, REVOLTA E PRINCIPALMENTE MUITA RAIVA DE SER BRASILEIRO.
COMO É TRISTE FAZER PARTE DESTE FILME RUIM, DESTE BANGUE-BANGUE DE PÉSSIMA QUALIDADE, EM QUE O BANDIDO VENCE E O MOCINHO SEMPRE MORRE NO FINAL.
SE É QUE AINDA EXISTE ALGUM MOCINHO NESTE PAÍS, TEM HORAS QUE A GENTE NEM SABE MAIS.
SABEM O QUE VAI RESTAR DESTA HISTÓRIA DE ESCÃNDALOS? UMA REVISTA PLAYBOY NAS BANCAS, COM AS FOTOS DA MÕNICA VELOSO PELADONA NA CAPA. E VAI SER RECORDE DE VENDA. GANHOU ELA, GANHOU O RENAN, GANHARAM OS SENADORES TÃO CORRUPTOS QUANTO ELE - E A GENTE, SÓ PARA NÃO PERDER O COSTUME, LEVOU NA BUNDA DE NOVO. SÉRIO MESMO: TEM HORA QUE DÁ VONTADE DE DESLIGAR O COMPUTADOR, PARAR DE TRABALHAR, PARAR DE PAGAR TODOS OS IMPOSTOS QUE A GENTE PAGA, E MUDAR DE LADO TAMBÉM. O PROBLEMA É QUE A GENTE NUNCA VAI SER TÃO COMPETENTE QUANTO ELES. PAÍS DE BOSTA ESTE AQUI
segunda-feira, setembro 10, 2007
Mulher-sanduíche
Impressionante a entrevista da atriz Juliana Paes na Folha de S. Paulo deste domingo. Tive de reler algumas declarações da moça para ter certeza de quão longe podia ir o raciocínio da atriz que estréia no sábado o musical Os Produtores. Garota-propaganda de uma marca de cerveja, ela banalizou as estatísticas que associam o consumo de álcool aos acidentes de carro. Depois, pediu para não ser fotografada ao lado de produtos da concorrência e precisou esconder suas unhas curtas, já que anuncia uma linha de unhas postiças. Por alguns instantes, eu já não sabia se ela era realmente uma pessoa ou algum tipo de painel publicitário, uma versão mais bela, desejada e esteticamente impecável daqueles homens-sanduíches que circulam espremidos entre placas de compra e venda de ouro pelo centro da cidade.
Há alguns meses, vendo televisão, tive um susto semelhante. Em um dos intervalos da novela das oito, acredito eu, apareceu a Ivete Sangalo anunciando uma marca de iogurte que tinha 0% de gordura. No bloco seguinte, estava ela de novo, desta vez para tentar vender um novo tipo de chocolate da Kopenhagen. Como um mesmo artista pode se prestar a papéis tão dinstintos: primeiro, tenta vender um iogurte sem gordura; cinco minutos depois, surge diante das câmeras com os lábios cobertos de chocolate...Ou bem uma coisa ou bem outra, penso humildemente. E fico assustado com o comprometimento da nossa classe artística com tantos produtos, com tantos lançamentos.... Priscila Fantin, outro dia, estampava um anúncio de copiadoras; Daniela Mercury aceitou dançar entre as prateleiras de um desinfetante; Suzana Vieira exibe com orgulho um adesivo para dentaduras; o rosto de Maitê Proença aparece gigante em um outdoor que anuncia apartamentos para a classe média-baixa e por aí a coisa vai indo.
Nossos intelectuais, depois que se convenceram de que o governo Lula está afundando sozinho, sem o auxílio de qualquer teoria conspiratória, entraram num processo de hibernação e só devem ser vistos passeando pelas alamedas da Cidade Universitária. Nossos artistas só mostram a cara nos anúncios publicitários. Dos políticos, Fernando Gabeira é um dos únicos em quem ainda vale muito a pena prestar atenção...E a gente vai ficando sozinho, sem nada e ninguém que nos transmita aquela velha e boa sensação de alma lavada. Daí a gente liga a televisão e já vê os anúncios da oitava edição do Big Brother Brasil. Se não estivesse tão quente, eu entraria debaixo do edredon e ficaria lá até o ano que vem...
Há alguns meses, vendo televisão, tive um susto semelhante. Em um dos intervalos da novela das oito, acredito eu, apareceu a Ivete Sangalo anunciando uma marca de iogurte que tinha 0% de gordura. No bloco seguinte, estava ela de novo, desta vez para tentar vender um novo tipo de chocolate da Kopenhagen. Como um mesmo artista pode se prestar a papéis tão dinstintos: primeiro, tenta vender um iogurte sem gordura; cinco minutos depois, surge diante das câmeras com os lábios cobertos de chocolate...Ou bem uma coisa ou bem outra, penso humildemente. E fico assustado com o comprometimento da nossa classe artística com tantos produtos, com tantos lançamentos.... Priscila Fantin, outro dia, estampava um anúncio de copiadoras; Daniela Mercury aceitou dançar entre as prateleiras de um desinfetante; Suzana Vieira exibe com orgulho um adesivo para dentaduras; o rosto de Maitê Proença aparece gigante em um outdoor que anuncia apartamentos para a classe média-baixa e por aí a coisa vai indo.
Nossos intelectuais, depois que se convenceram de que o governo Lula está afundando sozinho, sem o auxílio de qualquer teoria conspiratória, entraram num processo de hibernação e só devem ser vistos passeando pelas alamedas da Cidade Universitária. Nossos artistas só mostram a cara nos anúncios publicitários. Dos políticos, Fernando Gabeira é um dos únicos em quem ainda vale muito a pena prestar atenção...E a gente vai ficando sozinho, sem nada e ninguém que nos transmita aquela velha e boa sensação de alma lavada. Daí a gente liga a televisão e já vê os anúncios da oitava edição do Big Brother Brasil. Se não estivesse tão quente, eu entraria debaixo do edredon e ficaria lá até o ano que vem...
Assinar:
Postagens (Atom)
