A foto do garoto Gabriel, de sete anos, assistindo ao enterro dos seus pais, em Recife, publicada hoje em todos os jornais de São Paulo, já é forte candidata ao título de uma das imagens mais tristes do ano. Na noite de terça-feira, em uma das ruas mais movimentadas do bairro do Morumbi, Gabriel viu seus pais serem mortos a tiros por alguns adolescentes que continuam foragidos. Segundo os jornais, após os tiros o garoto teria descido do carro e gritado por socorro, sozinho, no meio da rua. Imagino o quanto de Gabriel também morreu naquela noite. O menino mal reage e agora passa horas em silêncio absoluto - um quadro que estamos acostumados a ver em adultos submetidos a traumas absurdamente brutais. Não é preciso ser psicólogo ou psiquiatra para saber que o garoto jamais será o mesmo e que os tiros que vitimaram seus pais, naquela noite, mataram também sua infância, sua adolescência e seguirão como um eco em seus ouvidos pelo resto de sua vida. Não é justo.
Não temos mais tempo para digerir a violência e tentar entender suas causas. Um dia, lemos nos jornais que um garoto é arrastado até a morte preso à porta de um carro, no outro, uma empregada doméstica é espancada por garotos de classe média, no outro vemos a imagem de um menino no enterro dos pais, no outro conchavos políticos para que a corrupção se perpetue no país... Depois ficamos pensando de onde vem a nossa tristeza, de onde vem esta melancolia que insiste em nos perseguir mesmo quando nossa vida está aparentemente em ordem, de onde vem esta sensação de que a qualquer momento seremos despejados deste mundo em que vivemos e de onde vem, principalmente, este desejo animalesco de fazer justiça a qualquer custo - ou ao menos de ver a justiça sendo feito de alguma maneira.
Outro dia, ouvi de um amigo, enquanto tomava um chope num bar do Itaim: se alguém fizesse com a minha mãe ou com a minha irmã o que fizeram com aquela empregada no Rio, eu não descansaria enquanto não encontrasse e matasse o agressor. Na hora, senti que não estava mais no badalado Itaim, e sim em algum ponto do velho oeste dos filmes americanos, em que a justiça tinha de ser feita com as próprias mãos. É uma idéia apavorante esta, a de que os séculos de civilização falharam e que alguém que não seja a polícia ou a justiça precise sair por aí à cata dos assassinos e transgressores da lei. Mas no fundo da alma, em algum recôndito absolutamente escuro e primitivo, naquele ponto em que somos metade humanos e metade macacos, é justamente este o desejo que prevalece - o de provocar o sofrimento naqueles que causam dores irreparáveis nos outros. É claro, para o bem da humanidade, que esta sensação dura pouco e voltamos imediatamente a acreditar no poder constituído, no direito de defesa, nos julgamentos justos, nas punições merecidas e no entendimento entre os homens. Mas hoje, ao abrir os jornais e ver a dor impressa no rosto do pequeno Gabriel, me deu uma vontade incontrolável de provocar a mesma dor no rosto daqueles que mataram seus pais. Depois passa, depois voltamos a pensar que os adolescentes que mataram seus pais não tiveram estudo, não tiveram oportunidades, não tiveram família constituída, não tiveram isso e aquilo. A gente entende tudo isso. Mas por cinco minutos, por cinco minutos apenas, eu adoraria que eles sentissem a mesma dor que vai acompanhar para sempre o pequeno Gabriel. E fodam-se a prudência e a justiça: que a merda caia também na cabeça deles. Por todo o sempre.
sexta-feira, junho 29, 2007
terça-feira, junho 26, 2007
Pessoas
Quinta-feira à noite, no metrô, a caminho do Teatro Municipal para ver o ensaio aberto da ópera A Italiana em Argel, dirigida pelo parlapatão Hugo Possolo. Na estação Consolação, duas garotas entram no vagão e vêm sentar-se ao meu lado. A conversa entre elas já estava adiantada.
- Eu acho que ele é gay, sim - disse uma delas, a mais morena.
- Todo mundo acha, aliás, todo mundo já sabe - respondeu a outra.
- Menos ele - disse a primeira. - É uma pena, ele está com 16 anos e perdendo tanta coisa boa da vida. Se ele assumisse que é gay, todo mundo ficaria do lado dele, não ficaria?
Silêncio.
- Ficaria, sim - continuou a garota. - Se ele me dissesse que é gay, eu ia ajudar ele a arranjar namorado, ia apresentar um carinha pra ele. Você não ia?
Silêncio
E assim, divididas, elas desceram na Estação Brigadeiro.
Domingo à noite, no teatro, à espera do início do espetáculo Garota Glamour, que já estava com 15 minutos de atraso. Duas senhorinhas, bem vestidas e penteadas, jóias discretas nas mãos e um batom delicado nos lábios.
- O RPG da Mariza é muito melhor que o meu, disse a que usava um terninho xadrez.
- Eu pensei que vocês fizessem no mesmo lugar - respondeu a de paletó florido.
- Não, a Mariza faz em outro lugar - esclareceu a primeira. - Quando ela começou, estava com 69 quilos, e agora está com 62. O RPG da Mariza tem muito mais exercícios que o meu. Ela usa bola, elástico, eu não uso nada. A barriga dela sumiu. Tudo na Mariza está no lugar.
- Mas a Mariza tem uma dor na coxa que não passa. Ela me contou isso.
- Não é na coxa, é no joelho. Ela está fazendo muitos exercícios de coxa para fortalecer o joelho. O problema da Mariza é que ela não toma remédio nenhum. Ela só passa arnica. Eu digo para ela que arnica demora 250 anos para fazer efeito e que é melhor tomar logo um Tylenol.
- É... Sua mão não fica ressecada no frio?
- Fica. Mas o lábio fica mais. Eu vou passar batom e ele está todo rachado.
Terceiro sinal. O espetáculo começa.
- Eu acho que ele é gay, sim - disse uma delas, a mais morena.
- Todo mundo acha, aliás, todo mundo já sabe - respondeu a outra.
- Menos ele - disse a primeira. - É uma pena, ele está com 16 anos e perdendo tanta coisa boa da vida. Se ele assumisse que é gay, todo mundo ficaria do lado dele, não ficaria?
Silêncio.
- Ficaria, sim - continuou a garota. - Se ele me dissesse que é gay, eu ia ajudar ele a arranjar namorado, ia apresentar um carinha pra ele. Você não ia?
Silêncio
E assim, divididas, elas desceram na Estação Brigadeiro.
Domingo à noite, no teatro, à espera do início do espetáculo Garota Glamour, que já estava com 15 minutos de atraso. Duas senhorinhas, bem vestidas e penteadas, jóias discretas nas mãos e um batom delicado nos lábios.
- O RPG da Mariza é muito melhor que o meu, disse a que usava um terninho xadrez.
- Eu pensei que vocês fizessem no mesmo lugar - respondeu a de paletó florido.
- Não, a Mariza faz em outro lugar - esclareceu a primeira. - Quando ela começou, estava com 69 quilos, e agora está com 62. O RPG da Mariza tem muito mais exercícios que o meu. Ela usa bola, elástico, eu não uso nada. A barriga dela sumiu. Tudo na Mariza está no lugar.
- Mas a Mariza tem uma dor na coxa que não passa. Ela me contou isso.
- Não é na coxa, é no joelho. Ela está fazendo muitos exercícios de coxa para fortalecer o joelho. O problema da Mariza é que ela não toma remédio nenhum. Ela só passa arnica. Eu digo para ela que arnica demora 250 anos para fazer efeito e que é melhor tomar logo um Tylenol.
- É... Sua mão não fica ressecada no frio?
- Fica. Mas o lábio fica mais. Eu vou passar batom e ele está todo rachado.
Terceiro sinal. O espetáculo começa.
Laranja mecânica
É compreensível que os pais estejam dispostos a fazer qualquer coisa - e a falar qualquer coisa também - para proteger os filhos, ainda que estes estejam inegavelmente errados. Ainda assim, a declaraçao do pai de um dos jovens acusados de espancar uma empregada doméstica num ponto de ônibus na Barra da Tijuca, no Rio, é de provocar calafrios. Ele disse que o filho não poderia ser preso, por se tratar de um garoto com boa formação, bom caráter, endereço fixo, anos de estudo nas costas, situação financeira estável, família constituída e, quem sabe até, apartamento com vista para o mar. Caso fosse preso, o garotão seria misturado à escória da sociedade brasileira, aqueles criminosos de procedência desconhecida, uns pardos sem pedigree e seguramente monoglotas. Não foram estes os termos exatos que ele usou, mas a idéia não está muito distante. Até na hora da punição para um crime revoltante, os garotos de classe média alta, moradores da zona sul do Rio, deveriam receber um tratamento diferenciado.
Trata-se, é claro, de uma declaração absurda, mas não fora de propósito. O pai somente espera que seu filho receba o mesmo tipo de justiça que impera no País, um direito mais do que justo. Jurisprudência é que não falta neste caso: criminoso rico aguarda tudo em liberdade, os pobres que vão para o xadrez. Depois de ler todos os predicados do rapaz, a gente fica pensando numa coisa: mas não é exatamente seu currículo que deveria afastá-lo da delinquência? Sua formação, sua família e seu poder aquisitivo não deveriam ter funcionado como uma reserva moral que o impedisse de cometer tamanha atrocidade? Se nada disso funcionou, é certo que a cadeia também não vai funcionar. Mas, ao menos por enquanto, ela desponta como o endereço mais adequado para os próximos anos do rapaz.
Trata-se, é claro, de uma declaração absurda, mas não fora de propósito. O pai somente espera que seu filho receba o mesmo tipo de justiça que impera no País, um direito mais do que justo. Jurisprudência é que não falta neste caso: criminoso rico aguarda tudo em liberdade, os pobres que vão para o xadrez. Depois de ler todos os predicados do rapaz, a gente fica pensando numa coisa: mas não é exatamente seu currículo que deveria afastá-lo da delinquência? Sua formação, sua família e seu poder aquisitivo não deveriam ter funcionado como uma reserva moral que o impedisse de cometer tamanha atrocidade? Se nada disso funcionou, é certo que a cadeia também não vai funcionar. Mas, ao menos por enquanto, ela desponta como o endereço mais adequado para os próximos anos do rapaz.
sexta-feira, junho 22, 2007
Tudo por um final feliz
Há várias semanas que uma idéia não me sai da cabeça. Sinto uma imensa vontade de convidar, para uma mesa de bar, gente como Aimar Labaki, Alcides Nogueira, Gero Camilo, Ivam Cabral, Alberto Guzik, Marta Góes, Marici Salomão e tantos outros amigos queridos que passam, como eu, grande parte da vida tentando encontrar explicações, justificativas e arremates lógicos para as histórias que criam. Então, quando todos estivessem devidamente acomodados e bem servidos de cervejas geladas, seria lançada a seguinte questão: e se, a partir de agora, nossas peças, cenas, novelas, artigos e crônicas não precisassem mais fazer sentido nenhum? E se nossa escrita se aproximasse de uma maneira tão assustadora da realidade que não seria mais necessário escolher entre vilões e mocinhos, entre o bem e o mal, entre a lógica e o absurdo, entre o previsível e a estupefação? E se, quando o garçom trouxesse a conta, passássemos a nos sentir liberados de qualquer responsabilidade de sermos - ou ao menos tentarmos ser - justos e inteligíveis em nossa produção?
Esta idéia me persegue porque, a cada dia que se passa neste País, a vida e a ordem parecem fazer menos sentido. Então, como já aprendemos a aceitar este descalabro que tomou conta da realidade, vamos buscar todo e qualquer sentido na ficção - já que a vida real nos presenteia com uma banana diária. Nos nossos filmes, nas nossas peças e romances, nos nossos curtas e nos nossos artigos, cada personagem deve ser um exemplo de coerência e bom senso, cada frase deve ser milimetricamente dissecada em nome do entendimento, cada situação tem de ser arquitetonicamente estável para que a estrutura inteira não venha abaixo. E, nos momentos finais, tudo deve ser absolutamente claro e transparente: a ficção tem de amarrar habilidosamente cada fio solto, ou sairemos do teatro dizendo que não vimos coisa com coisa, quer perdemos o nosso tempo e o nosso dinheiro. Que o autor foi incapaz de colocar ordem em seu pequeno mundo - e isso nos desagradou profundamente. Saímos tão irritados de uma obra que não se mostrou conclusiva que nos esquecemos que, na manhã seguinte, os jornais vão nos trazer dezenas de histórias injustas e anárquicas - mas a vida pode se dar ao luxo de ser caótica e revoltante; a nossa ficção, não. Temos de passar a nossa existência produtiva atrás de soluções para os enigmas que nós próprios criamos - e não nos damos conta de que a vida não está nem aí para as nossas questões. E muito menos tem a obrigação de se mostrar justa - ainda que todos os culpados já tenham sido descobertos e revelados.
Antes de deixarmos esta hipopética mesa de bar, todos seríamos informados de que haveria um dever de casa a ser feito: seríamos obrigados a criar uma história que tem como cenário um país imaginário, governado por um presidente que nunca soube de nada, nem que seus filhos e seu irmão mais velho possam estar envolvidos em operações pouco éticas. O presidente do Senado deste país imaginário teria suas contas pagas por empreiteiros, os aeroportos deste país viveriam num caos, e as estradas não seriam melhores, pois nelas haveria o risco de tiros, assaltos e bloqueios. Seria difícil criar uma trama doméstica para este presidente, pois o País nunca ouviu a voz de sua mulher - e existem dúvidas se ela realmente continua viva, ou se um dia foi. Este país estaria entre os dez mais ricos do mundo, mas suas crianças viveriam esmolando e esfomeadas pelas ruas das grandes cidades. Uma grande floresta neste país, que poderia ser a maior do mundo, sumiria um pouco a cada dia, pois até os índios deste país ajudariam os madeireiros ilegais que jamais seriam presos. Este país teria a maior carga tributária do mundo, mas não oferecia hospitais e escolas decentes para a população. Neste país, presidentes da OAB e ex-ministros não encontrariam nenhum impedimento ético de defender quem quer que fosse - afinal todos os moradores deste país imaginário teriam direito a uma defesa- que seria proporcional aos seus rendimentos. Neste país...neste país...neste país...
Aimar, Tide, Ivam, Guzik, Gero, Marta e Marici: se vocês aceitarem o desafio, por favor, criem um final feliz para esta história, vai. A gente tá precisando tanto. Lembram de quando a gente se sentia feliz e vingado no capítulo final da novela - quando os vilões eram presos ou mortos e todos os personagens do bem acabavam numa grande festa de casamento? Então, a gente adoraria um final assim.
Esta idéia me persegue porque, a cada dia que se passa neste País, a vida e a ordem parecem fazer menos sentido. Então, como já aprendemos a aceitar este descalabro que tomou conta da realidade, vamos buscar todo e qualquer sentido na ficção - já que a vida real nos presenteia com uma banana diária. Nos nossos filmes, nas nossas peças e romances, nos nossos curtas e nos nossos artigos, cada personagem deve ser um exemplo de coerência e bom senso, cada frase deve ser milimetricamente dissecada em nome do entendimento, cada situação tem de ser arquitetonicamente estável para que a estrutura inteira não venha abaixo. E, nos momentos finais, tudo deve ser absolutamente claro e transparente: a ficção tem de amarrar habilidosamente cada fio solto, ou sairemos do teatro dizendo que não vimos coisa com coisa, quer perdemos o nosso tempo e o nosso dinheiro. Que o autor foi incapaz de colocar ordem em seu pequeno mundo - e isso nos desagradou profundamente. Saímos tão irritados de uma obra que não se mostrou conclusiva que nos esquecemos que, na manhã seguinte, os jornais vão nos trazer dezenas de histórias injustas e anárquicas - mas a vida pode se dar ao luxo de ser caótica e revoltante; a nossa ficção, não. Temos de passar a nossa existência produtiva atrás de soluções para os enigmas que nós próprios criamos - e não nos damos conta de que a vida não está nem aí para as nossas questões. E muito menos tem a obrigação de se mostrar justa - ainda que todos os culpados já tenham sido descobertos e revelados.
Antes de deixarmos esta hipopética mesa de bar, todos seríamos informados de que haveria um dever de casa a ser feito: seríamos obrigados a criar uma história que tem como cenário um país imaginário, governado por um presidente que nunca soube de nada, nem que seus filhos e seu irmão mais velho possam estar envolvidos em operações pouco éticas. O presidente do Senado deste país imaginário teria suas contas pagas por empreiteiros, os aeroportos deste país viveriam num caos, e as estradas não seriam melhores, pois nelas haveria o risco de tiros, assaltos e bloqueios. Seria difícil criar uma trama doméstica para este presidente, pois o País nunca ouviu a voz de sua mulher - e existem dúvidas se ela realmente continua viva, ou se um dia foi. Este país estaria entre os dez mais ricos do mundo, mas suas crianças viveriam esmolando e esfomeadas pelas ruas das grandes cidades. Uma grande floresta neste país, que poderia ser a maior do mundo, sumiria um pouco a cada dia, pois até os índios deste país ajudariam os madeireiros ilegais que jamais seriam presos. Este país teria a maior carga tributária do mundo, mas não oferecia hospitais e escolas decentes para a população. Neste país, presidentes da OAB e ex-ministros não encontrariam nenhum impedimento ético de defender quem quer que fosse - afinal todos os moradores deste país imaginário teriam direito a uma defesa- que seria proporcional aos seus rendimentos. Neste país...neste país...neste país...
Aimar, Tide, Ivam, Guzik, Gero, Marta e Marici: se vocês aceitarem o desafio, por favor, criem um final feliz para esta história, vai. A gente tá precisando tanto. Lembram de quando a gente se sentia feliz e vingado no capítulo final da novela - quando os vilões eram presos ou mortos e todos os personagens do bem acabavam numa grande festa de casamento? Então, a gente adoraria um final assim.
quarta-feira, junho 20, 2007
Eu quero ver Mônica Veloso de tailleur
Leio que a jornalista Mônica Veloso, pivô do escândalo que envolve o senador Renan Calheiros, está sendo assediada pela revista Playboy para posar nua. Torço para que ela não aceite. Não por qualquer questão moral - cada um que faça o que bem entender com suas xoxotas e pingolins. Torço para que ela não aceite porque, neste momento, quem precisa aparecer completamente nu são os fatos e não os envolvidos neles. Por maior que seja nossa tradição cultural de resolver alguns assuntos com as partes à mostra, seria bacana se a nudez revelada agora fosse a das notas fiscais aparentemente frias emitidas pelo senador, fossem os seus débitos com a Receita Federal, fosse a verdade sobre o valor dos seus bois superfaturados em tempos de febre aftosa, fossem seus cheques de mesmo número e valores distintos, fosse a conduta ética daqueles que o defendem no senado e lutam por sua permanência na presidência da casa.
Há tanta coisa que precisa vir abaixo neste país antes da calcinha e do sutiã de Mônica Veloso. Não se pode exigir que uma revista como a Playboy, neste momento, tenha algum freio ético - talvez seria demais esperar que seus editores, na reunião de pauta, dissessem assim: pô, vamos deixar esta mulher de lado, a nudez dela não é o que mais importa para o País neste momento. Há tantas outras mulheres cuja nudez acalentaria os sonhos masculinos sem interferir no rumo das discussões que podem trazer a público um pouco dos bastidores do Senado. Mas, com o perdão pelo excesso de vulgaridade que estou prestes a cometer, nas reuniões de pauta das revistas masculinas a cabeça que pensa é a de baixo. Novamente aqui não vai qualquer juízo moral - são as entranhas do jornalismo, atividade que tem de sobreviver do oportunismo como quase todas as outras. Mônica é a mulher da vez e, por ser jovem e bela, é natural que sua candidatura tenha sido lembrada pela revista.
Tenho alguns amigos, machistas de plantão, que condenam Mônica Veloso desde o primeiro momento. Acham que ela é oportunista, voluntariosa, chantagista e tudo o mais que se pode dizer a respeito de uma mulher disposta a usar a maternidade para extrair recursos financeiros abusivos do pai da criança. Eu nunca concordei com isso. EStou, a princípio, ao lado de Mônica e de toda e qualquer pessoa neste país que possa dizer alguma coisa séria e relevante contra a nossa classe política. Se Mônica é oportunista, ora, o que dizer dos políticos a quem ela acusa? Se ela faz chantagens para obter proveitos em benefício próprio, caramba, quem não faz isso em Brasília? Não acho que a vida deve se resumir a uma equação tão simples quanto a do olho por olho, não é isso. Mas, em casos de guerra, às vezes somos obrigados a usar as mesmas armas do inimigo. A exemplo dos amigos que desde o primeiro momento não acreditam na honestidade de Mônica, eu não acredito na honestidade dos políticos a quem ela acusa. Nos últimos anos, infelizmente virei um radical neste sentido: se existe qualquer suspeita contra um político, seja ele quem for, eu já acredito em sua culpa. Pode ser uma conduta deplorável, mas ela não surgiu à toa.
Para ficar em paz com minha consciência neste caso, resolvi simplificar a questão. Mônica Veloso nunca me deu, até hoje, nenhum motivo para que eu desconfiasse dela. Já não posso dizer o mesmo dos políticos. Assim, quem merece meu voto de confiança é ela. Pronto, simples assim. Playboy, deixem a mulher sossegada neste momento. Quando tudo isso estiver solucionado, se é que um dia vai estar, daí vocês despem a moça em paz - mas ainda neste dia vou torcer para que ela não aceite. Eu não gostaria, mesmo, de dar o braço a torcer para os amigos que desde o início dizem que ela é apenas mais uma que não quer largar o osso. E lanço aqui uma sugestão: por que alguma revista não convida o Vavá pra posar pelado? Escândalo por escândalo, o irmão do presidente é um peixe bem maior que Mônica. E seu cachê, se levarmos em consideração a pobreza de suas negociatas, deve ser bem baratinho.
Há tanta coisa que precisa vir abaixo neste país antes da calcinha e do sutiã de Mônica Veloso. Não se pode exigir que uma revista como a Playboy, neste momento, tenha algum freio ético - talvez seria demais esperar que seus editores, na reunião de pauta, dissessem assim: pô, vamos deixar esta mulher de lado, a nudez dela não é o que mais importa para o País neste momento. Há tantas outras mulheres cuja nudez acalentaria os sonhos masculinos sem interferir no rumo das discussões que podem trazer a público um pouco dos bastidores do Senado. Mas, com o perdão pelo excesso de vulgaridade que estou prestes a cometer, nas reuniões de pauta das revistas masculinas a cabeça que pensa é a de baixo. Novamente aqui não vai qualquer juízo moral - são as entranhas do jornalismo, atividade que tem de sobreviver do oportunismo como quase todas as outras. Mônica é a mulher da vez e, por ser jovem e bela, é natural que sua candidatura tenha sido lembrada pela revista.
Tenho alguns amigos, machistas de plantão, que condenam Mônica Veloso desde o primeiro momento. Acham que ela é oportunista, voluntariosa, chantagista e tudo o mais que se pode dizer a respeito de uma mulher disposta a usar a maternidade para extrair recursos financeiros abusivos do pai da criança. Eu nunca concordei com isso. EStou, a princípio, ao lado de Mônica e de toda e qualquer pessoa neste país que possa dizer alguma coisa séria e relevante contra a nossa classe política. Se Mônica é oportunista, ora, o que dizer dos políticos a quem ela acusa? Se ela faz chantagens para obter proveitos em benefício próprio, caramba, quem não faz isso em Brasília? Não acho que a vida deve se resumir a uma equação tão simples quanto a do olho por olho, não é isso. Mas, em casos de guerra, às vezes somos obrigados a usar as mesmas armas do inimigo. A exemplo dos amigos que desde o primeiro momento não acreditam na honestidade de Mônica, eu não acredito na honestidade dos políticos a quem ela acusa. Nos últimos anos, infelizmente virei um radical neste sentido: se existe qualquer suspeita contra um político, seja ele quem for, eu já acredito em sua culpa. Pode ser uma conduta deplorável, mas ela não surgiu à toa.
Para ficar em paz com minha consciência neste caso, resolvi simplificar a questão. Mônica Veloso nunca me deu, até hoje, nenhum motivo para que eu desconfiasse dela. Já não posso dizer o mesmo dos políticos. Assim, quem merece meu voto de confiança é ela. Pronto, simples assim. Playboy, deixem a mulher sossegada neste momento. Quando tudo isso estiver solucionado, se é que um dia vai estar, daí vocês despem a moça em paz - mas ainda neste dia vou torcer para que ela não aceite. Eu não gostaria, mesmo, de dar o braço a torcer para os amigos que desde o início dizem que ela é apenas mais uma que não quer largar o osso. E lanço aqui uma sugestão: por que alguma revista não convida o Vavá pra posar pelado? Escândalo por escândalo, o irmão do presidente é um peixe bem maior que Mônica. E seu cachê, se levarmos em consideração a pobreza de suas negociatas, deve ser bem baratinho.
sábado, junho 16, 2007
Programa de domingo

Eu já disse neste blog, há algumas semanas, que não gosto muito de usar este espaço para falar de mim mesmo - embora cada linha que a gente escreve, aqui ou em qualquer outro lugar, acaba sempre falando de nós mesmos. Mas hoje vou abrir uma exceção para falar sobre duas coisas que dizem respeito diretamente a mim - mas que podem, e devem, ser compartilhadas com vocês.
A primeira é a exibição pelo programa Direções, da Tevê Cultura, do teleteatro O Encontro das Águas, às 21h. Tive a idéia de escrever este texto durante uma viagem a São Luís, no Maranhão, em 2002. Certa manhã eu resolvi tomar um táxi para visitar o centro velho da cidade - meu hotel situava-se na parte mais nova da capital, numa praia ao lado da fortaleza de um quarteirão habitada pela família Sarney. Quando o táxi cruzou uma ponte, olhei para baixo e praticamente não vi água. Perguntei para o motorista qual era a necessidade de uma ponte tão grande sobre um rio praticamente seco. O rio está seco agora, ele me respondeu. No final da tarde, quando a maré tiver subido, a água vai bater na estrutura da ponte, completou. Não deu outra: quando voltei ao hotel, perto das seis da tarde, o rio tinha se tornado assustadoramente vivo.
Fiquei com aquela imagem na cabeça e, com o tempo, percebi que tinha nas mãos a gênese de uma história. A história de um rapaz que, num desses dias em que a gente acha que não vale muito a pena continuar, chega à ponte assediado pela idéia do suicídio. Porém, ao olhar para o rio, vê que não existe água ali. Se sua intenção é a de realmente saltar, terá de esperar algumas horas até que o rio possa livrá-lo de um mergulho seco. Só que antes de a maré subir, surge em cena a figura estranha e a seu modo angelical de um outro homem, que irá questionar cada uma das suas idéias até a beira da exaustão. E é assim, entre diálogos e a subida da maré, que transcorre toda a ação de O Encontro das Águas.
A peça estreou em 2004, com os atores José Roberto Jardim e Pedro Henrique Moutinho sendo dirigidos pelo Alberto Guzik. Hoje, os personagens que eles viveram, Apolônio e Marcelo, surgirão na tevê com outros rostos - os rostos de Marat Descartes e Luciano Schwab (na foto). A direção é do sempre competente Sérgio Ferrara. Como todo mundo que um dia se envolveu com este projeto, estou muito curioso para ver como uma história concebida no pequeno palco dos Satyros vai se adaptar ao cenário realista da televisão.
E a segunda coisa é que a Revista da Folha publica, também neste domingo, uma reportagem de grande criatividade e ternura: o repórter Gustavo Fioratti recolheu desenhos feitos por clientes em mesas dos botecos da cidade e pediu para que cinco dramaturgos escrevessem pequenas histórias baseadas naqueles rabiscos urbanos. Duas das histórias são minhas. Ou seja, hoje promete ser um daqueles domingos de pouco tédio e muita emoção. Podiam ser todos assim.
A primeira é a exibição pelo programa Direções, da Tevê Cultura, do teleteatro O Encontro das Águas, às 21h. Tive a idéia de escrever este texto durante uma viagem a São Luís, no Maranhão, em 2002. Certa manhã eu resolvi tomar um táxi para visitar o centro velho da cidade - meu hotel situava-se na parte mais nova da capital, numa praia ao lado da fortaleza de um quarteirão habitada pela família Sarney. Quando o táxi cruzou uma ponte, olhei para baixo e praticamente não vi água. Perguntei para o motorista qual era a necessidade de uma ponte tão grande sobre um rio praticamente seco. O rio está seco agora, ele me respondeu. No final da tarde, quando a maré tiver subido, a água vai bater na estrutura da ponte, completou. Não deu outra: quando voltei ao hotel, perto das seis da tarde, o rio tinha se tornado assustadoramente vivo.
Fiquei com aquela imagem na cabeça e, com o tempo, percebi que tinha nas mãos a gênese de uma história. A história de um rapaz que, num desses dias em que a gente acha que não vale muito a pena continuar, chega à ponte assediado pela idéia do suicídio. Porém, ao olhar para o rio, vê que não existe água ali. Se sua intenção é a de realmente saltar, terá de esperar algumas horas até que o rio possa livrá-lo de um mergulho seco. Só que antes de a maré subir, surge em cena a figura estranha e a seu modo angelical de um outro homem, que irá questionar cada uma das suas idéias até a beira da exaustão. E é assim, entre diálogos e a subida da maré, que transcorre toda a ação de O Encontro das Águas.
A peça estreou em 2004, com os atores José Roberto Jardim e Pedro Henrique Moutinho sendo dirigidos pelo Alberto Guzik. Hoje, os personagens que eles viveram, Apolônio e Marcelo, surgirão na tevê com outros rostos - os rostos de Marat Descartes e Luciano Schwab (na foto). A direção é do sempre competente Sérgio Ferrara. Como todo mundo que um dia se envolveu com este projeto, estou muito curioso para ver como uma história concebida no pequeno palco dos Satyros vai se adaptar ao cenário realista da televisão.
E a segunda coisa é que a Revista da Folha publica, também neste domingo, uma reportagem de grande criatividade e ternura: o repórter Gustavo Fioratti recolheu desenhos feitos por clientes em mesas dos botecos da cidade e pediu para que cinco dramaturgos escrevessem pequenas histórias baseadas naqueles rabiscos urbanos. Duas das histórias são minhas. Ou seja, hoje promete ser um daqueles domingos de pouco tédio e muita emoção. Podiam ser todos assim.
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