segunda-feira, abril 30, 2007

Carta aberta ao doutor Freud

Há algum tempo que venho pensando na terapia. Não na minha, especificamente - que faço há seis anos e que, por isso mesmo, acaba de se transformar na atividade mais longeva da minha vida depois do emprego no Jornal da Tarde. Nunca fiquei tanto tempo na mesma escola, na mesma academia de ginástica (este tópico chega a ser covardia, assumo) e nem com o mesmo carro. Seis anos que, vejo agora, passaram rápido demais e foram insuficientes para tentar explicar uma existência que se prolonga por muito mais tempo. A terapia, para o bem e para o mal, nunca vai alcançar a vida real. Um encontro casual na esquina, na saída do consultório, pode durar dois minutos e render no mínimo três sessões de análise ao final das quais continuaremos sem saber se o tal encontro, tão inocente, foi casual mesmo ou se nosso cérebro armou um plano diabólico durante o último ano para que, naquele exato momento, fôssemos obrigados a encarar alguém de quem preferíamos manter distância. Sei lá. Resolver alguma coisa na terapia é, para mim, um sonho tão impossível quanto o de conhecer a Superterra, o novo planeta que fica logo ali, a 20 anos-luz de distância deste nosso mundinho cada vez menos azul. E, ainda assim, há seis anos eu olho para o meu terapeuta com a esperança infantil de que ele encontre as soluções para problemas que nem dele são.

Depois de muito pensar sobre a terapia, cheguei à conclusão pessoal de que podem ser três os motivos que nos levam a pousar as costas sobre um divã: um trauma específico e localizado, o desejo de um aprimoramento pessoal também específico (uma espécie de upgrade que a gente costuma dar no computador de dois em dois anos desde que nossos arquivos pessoais sejam preservados), ou a tentativa de nos transformar em outra pessoa, definitivamente melhor do que esta que somos e da qual às vezes nos sentimos irremediavelmente cansados. Talvez eu tenha sido fisgado por esta terceira opção, a mais cruel, traiçoeira e ingrata entre elas. Mas acredito que, no fundo, é a que nos seduz a todos. Se vamos mexer em algumas de nossas estruturas, por que não colocar o edifício todo abaixo e reconstruí-lo com uma arquitetura mais moderna, funcional, cool, contemporânea, bela e isenta aos terremotos da vida? É um direito legítimo que temos, não é? Não fosse a nossa própria mente a primeira autoridade a embargar a nossa obra ainda tão incipiente, ainda tão no alicerce, ainda tão sujeita à menor das intempéries.

Não, não nos daremos o nosso próprio alvará para prosseguir com esta reforma tão radical. Não colocaremos nosso edifício abaixo, não implodiremos nossas estruturas e jamais construíremos um edifício mais belo no lugar deste que tantas vezes se revela capenga. No máximo, mudaremos um quadro de lugar, um detalhe na decoração, com muito esforço a cor da fachada, talvez. Mas sinto que cada um dos nossos cômodos continuará a ser do mesmo tamanho, nossos móveis prosseguirão obsoletos e cada vez mais difíceis de serem mudados de lugar, o capim continuará a crescer no nosso quintal, não teremos um jardim de inverno e nem carpas japonesas, continuaremos a riscar nosso carro nos limites estreitos da garagem da nossa alma, às vezes faltará água, às vezes o cobertor será curto, às vezes a geladeira estará vazia, às vezes as lâmpadas se queimarão no momento em que mais precisamos de luz. E ainda assim, quando tudo isso ocorrer, simultaneamente ou a intervalos mais suportáveis, continuaremos a abrir nossas janelas para que entre um pouco de sol e calor. E, no final da tarde, olharemos com certa ternura para esta nossa casa um pouco velha. E ficaremos felizes de saber que ela ainda é o melhor abrigo para a noite que se aproxima.

Balu num céu de girassóis...

Como um exemplar de brasileiro típico, deixei para ver no último dia de temporada o espetáculo Adubo, Ou a Sutil Arte de Escoar Pelo Ralo, do grupo Tucan, de Brasília. O folheto da peça, de um indiscutível mau gosto, não traduz a beleza, o lirismo e o impacto deste trabalho - desde já uma das melhores coisas de 2007 nos palcos da cidade. Adubo é um espetáculo que fala da morte de maneira obsessiva, por meio de colagens de textos, narrativas entrecortadas, cenas curtas e um ritmo que às vezes lembra um videoclipe. E que consegue uma proeza invejável: ao falar da morte, a paeça parece despertar um interesse incontrolável pela vida. Difícil apontar algum elemento que se sobressaia nesta montagem tão equilibrada: a direção é primorosa, o texto é de uma qualidade cada vez mais rara nos palcos e o elenco, bem, o elenco é um caso à parte: quatro atores habilidosos, que trafegam pela comédia, pela farsa, pelo drama, pelo musical e até pela tragédia. Sem um tropeço, sem um deslize, com a competência de músicos clássicos diante de uma partitura habilmente ensaiada. Adubo é um desses espetáculos que têm a força de empurrar o teatro um pouco acima e além do terreno mais ou menos seguro onde estamos acostumados a trafegar. Sem grandes recursos cênicos - o elemento mais eclético no palco é uma lousa em que os atores vão desenhando os cenários - Adubo é a prova de que o triplé texto-elenco-direção sobrevive ainda como a mais prazerosa equação teatral. A cena final, em que Balu, o cachorrinho atropelado no início do espetáculo revela que existe, sim, vida após a morte, e que nesta vida há girassóis amarelos - já entrou, sem exagero, para a história do moderno teatro brasileiro. É para ver e rever várias vezes - se eu não tivesse deixado para o último dia, claro.

sábado, abril 28, 2007

Detalhes tão pequenos de nós dois...

Roberto Carlos conseguiu, enfim, suspender a comercialização do livro Roberto Carlos em Detalhes, do jornalista e pesquisador Paulo César Araújo. Não li o livro - a vida de Roberto Carlos, para ser sincero, não me interessa tanto. Gosto muito de algumas composições dele - o disco As Canções que Você Fez pra Mim, de Maria Bethânia, só com as músicas de Roberto, é um primor. Mas Roberto, longe do microfone, parece ter pouco a dizer: ele nunca tem opinião formada sobre política, sobre o Brasil, sobre comportamento, sobre nada. É um Rei que parece viver de costas para o seu reino. Sabe-se pouco dele: que é supersticioso, que não gosta de marrom, que ninguém toca em seus cabelos e que, só há pouco tempo, resolveu tratar seu transtorno obsessivo-compulsivo. O que, e isso é fato, humanizou demais sua figura.

Roberto tem todo direito de ver sua intimidade longe das livrarias. É um direito dele e de qualquer outra pessoa que deseje passar ao largo desta mundanidade em que se transformou a nossa época. Mas me parece que os motivos que levaram o Rei a pedir a proibição do livro são tão banais: o que muda, na rotação da Terra, saber que a cantora Maysa tomou um litro de uísque em alguma noite dos anos 60? Ou que sua ex-mulher Maria Rita, a exemplo de todo doente terminal de câncer, sofreu antes de morrer? Ou que o próprio Roberto, garoto ainda, perdeu parte de sua perna num acidente de trem? Esses detalhes constituíram, segundo a imprensa, o estopim para que o cantor enfrentasse uma batalha judicial para proibir um livro que, de resto, parecia ser uma grande homanagem à sua indiscutível importância dentro da música popular brasileira.

Com a proibição, os leitores ficaram sabendo apenas daquilo que Roberto não gostou - três míseros relatos que não devem somar mais de duas páginas. E ficarão sem conhecer, provavelmente, milhares de outros fatos que contribuíram para que Robero Carlos se tornasse o maior nome da música nacional. Ele estava em seu direito de não gostar e proibir - e nem sei se isso configura exatamente um ato de censura. Soa mais como intransigência. Sobra, para o historiador Paulo Cesar ARaujo, uma triste lição: da próxima vez, ele deverá escrever a biografia de Ana Maria Braga, Suzana Vieira ou Luciana Gimenez. Elas jamais brigariam na justiça por ter sua intimidade revelada. E era bem capaz que saíssem por aí dizendo que o livro contou pouco...

quinta-feira, abril 26, 2007

Selton Mello

Entrevistei Selton Mello apenas uma vez. Foi em meados de 2003, quando ele estreava como diretor teatral no espetáculo Zastrozzi, que em São Paulo ficou em cartaz no Teatro Folha. A entrevista foi marcada para as 14h de uma terça-feira, na lanchonete America do Shopping Pátio Higienópolis. Cheguei no horário. Selton estava começando a almoçar e o assessor de imprensa me disse que a entrevista poderia ser feita enquanto ele comia. Achei melhor esperar. Nun ca gostei de entrevista durante o almoço: o entrevistado não come direito e a gente não pergunta direito também. Quando terminou o almoço, ele mandou me chamar. Assim que me sentei à mesa, ele pediu para que um garçom lhe trouxesse um milkshake de chocolate. Para ele. Tive a certeza de que nenhum ator preocupado em ser apenas um galã saradão tomaria um milkshake de chocolate imediatamente após o almoço. Durante boa parte da entrevista, ele manteve as duas mãos ocupadas: a esquerda, com um cigarro; a direita segurando o canudinho do milkshake. A entrevista foi publicada dois dias depois na capa do caderno de Variedades do Jornal da Tarde.

Depois desse nosso primeiro contato, voltamos a nos falar por e-mail, com uma frequência que eu gostaria maior. Selton Mello é, para mim, o grande ator do cinema brasileiro. Ainda que às vezes os filmes pareçam obrigá-lo a permanecer num tipo mais ou menos confortável, sempre se percebe nele uma queda incontida pela ousadia, uma vontade incubada de tentar o diferente, o inovador, o provocador. Selton faz, aqui, o que Johnny Depp faz em Hollywood: os dois poderiam passar o resto da vida fazendo apenas o que sabem fazer bem - atuar. Mas isso parece pouco para dois dois. A cada novo trabalho eles parecem ir mais fundo em algo que talvez nem saibam exatamente o que seja, contanto que seja diferente do anterior. E, se possível, mais ousado. Preservam a vida pessoal, não posam de gatinho, ficam feios se os papéis exigem, engordam, emagrecem e, o melhor de tudo, não estão nem aí para o politicamente correto. Duvido que qualquer um dos dois estivesse disposto a correr o mundo em busca de uma nova criança para adoção.

Logo após a estréia de O Cheiro do Ralo, voltei a falar com Selton, novamente por e-mail. De tudo que ele falou - e nem foi tanta coisa assim - houve algo que me chamou muito a atenção. Segundo ele, o filme representou uma viagem solitária, muito solitária. "Eu nem estava ali", revelou. Não sei como é o trabalho num set de filmagem, não sei como é ficar solitário no meio de técnicos, cameramen, diretores, iluminadores e mais uma porção de gente que deve circular pelos estúdios. Mas, ao ver o filme pronto - e o filme pronto é o que nos interessa, em última análise - senti que muita gente embarcou na viagem de Selton. Na tela, podem dizer tudo a respeito dele, mas nunca que ele está sozinho. Tudo me leva a crer que existe uma platéia cada vez mais ávida por acompanhá-lo em cada passo que ele dá.

sábado, abril 21, 2007

Um grito de independência no 21 de abril

Feriado enrustido de 21 de abril. Metade dos lugares funcionando, a outra metade fechada. Não sei se é mania de perseguição da minha parte, mas hoje, justo hoje, inventei de precisar dos serviços daquela metade que estava fechada. Do café aqui perto de casa a uma loja na Vila Madalena, onde eu precisava comprar um presente e dei com a cara na porta.

Sem pressa, resolvo caminhar por um parque perto da Doutor Arnaldo. Típica manhã paulistana: algumas crianças brincando na grama, passarinhos cantando nas árvores e labradores fazendo a festa nos postes e no pouco de terra batida que eles encontraram. De repente, um grito. Dali a pouco, o grito de novo - o mesmo grito. Não um grito de quem pede socorro, de quem está assustado ou foi surpreendido por um ladrão. Mas um grito dolorido, sincopado, sempre da mesma altura e com a mesma intensidade. Como o badalar de um relógio.

Havia um deficiente caminhando pelo parque, sozinho e não tão jovem. A cada dois ou três passos, era ele que emitia um grito. Um ruído seco que parecia fazer parte da sua anatomia, um gesto tão natural quanto balançar os braços enquanto se caminha. Talvez ele nem notasse mais os próprios gritos, como nós não notamos os nossos braços a balançar quando andamos. E então eu fiquei irritado - por mais horrível que seja confessar isso aqui, eu fiquei mesmo irritado. Aquele grito quebrava a harmonia de um pequeno mundo perfeito, verde e seguro: um mundo de crianças, passarinhos, labradores e adultos tomando água de coco. Um mundo de paisagem. E o grito, a cada vez que era emitido, corrompia esta nossa natureza morta.

Depois da irritação, a constatação: aquele grito era o diferente, era a voz do outro que me irritava por me lembrar que aquele mundo embrulhado para presente era tão dele quanto meu. E tive mais uma vez a certeza, embora sem surpresa, que conviver com o outro era aprender a ouvir e a aceitar seus gritos, ainda que eles venham a riscar o vinil das nossas vidas. Depois de mais algumas voltas, o grito parou. O deficiente tinha ido embora, provavelmente sozinho. O parque voltou a ficar em silêncio e eu também tomei o caminho de casa. Aquela quietude toda havia ficado sem graça.

segunda-feira, abril 16, 2007

Águaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa

O mundo está acabando e parece que desta vez é sério. Jornais, rádios, tevês e sites na internet só falam nisso. Parece que a cada dia mais um pedacinho da Terra vai embora, mais alguns animais e plantas se extinguem, mais uma área de floresta vira cerrado, mais uma campina vira deserto, mais um rio exibe seu leito seco. A sensação que dá é de que chegou o síndico para dizer que a festa que estava bombando nas costas deste planeta acabou.

É impossível não pensar sobre isso em cada um dos nossos pequenos gestos diários. Viver está ficando cada vez mais chato em função desta paranóia toda. Sei que cada atitude preservacionista, por menor que seja, se torna urgente e necessária. Mas, de verdade, que saco... a cada vez que vou usar meu desodorante aerosol fico com medo de estar deixando um urso polar sem seu pedacinho de gelo no Ártico, a cada vez que tomo um banho de mais de dez minutos me vêem à mente milhares de criancinhas sem água para beber, a cada vez que vou dar uma caminhada pela avenida sumaré imagino minha pele sendo devorada por raios solares cujos nomes eu não sei. Putz, que merda, de verdade.

Fico me lembrando dos meus banhos de criança, quando eu só saía do chuveiro depois que minha mãe se lembrava de que havia um filho dela perdido em algum lugar da casa. Eu saía da água com os dedos enrugados...e ainda sujos, porque eu tinha aproveitado o banho para fazer qualquer coisa, menos me lavar. Também me lembro que lavar o carro e a calçada era quase tão divertido quanto ir à praia. Há alguns dias, quando estive em Jundiaí, minha cunhada me falou que tinha visto a vizinha lavando a calçada, com a gravidade de quem presenciara um estupro ou uma chacina. Agora a gente tem de se ensaboar com o chuveiro desligado, e tem de esfregar a louça com a torneira da pia fechada. E não tem nada mais sem graça do que espuma sem água...e não tem nada pior do que ficar com a pele meio grudentona porque ficou com o sabonete por muito tempo nela...E quando a gente vai passear na praia, não pode tomar sol. E quando vai passear no mato, tem de tomar cuidado e andar somente sobre as pedras, para não pisar em nenhuma graminha. Outro dia uma barata entrou voando pela minha janela do 13º. andar. Corri para pegar a latinha de rhodiasol mas, na hora de espirrar na bichinha, fiquei pensando que ela também podia ser o último exemplar de algum tipo de barata que vem sendo destruída por blá blá blá... fiquei sacudindo uma toalha até ela escapar pela janela de novo. Eu sei que era só mais uma barata, mas dizem que a gente já matou tanta coisa neste mundo, mas tanta coisa, que eu não quis carregar mais esta culpa, a de ter matado alguma barata sagrada de asas rosadas... sei lá...

Tenho dois gatos, o Pirulito e a Ritinha. Eles ficam o dia inteiro tomando banho... de língua. Estão sempre limpos, mas sempre secos. Não sabem o prazer que é, ou que era, passar a agenda da semana inteirinha na cabeça enquanto a água morna ia caindo do chuveiro, cantar umas dez músicas bem compridas do Legião Urbana enquanto o banheiro ia ficando todo embaçado e as pontas do dedo enrugadas, assobiar, imitar os outros, falar mal de alguém bem baixinho, escrever o nome no vidro do armário enquanto a água ia escapando do box... É muito chato saber que, daqui a algum tempo, eu terminarei meus dias como o Pirulito e a Ritinha, me lambendo inteirinho na hora do saudoso banho....