quarta-feira, março 18, 2009

Cartão de ponto

Quem mora sozinho e trabalha em casa precisa tomar muito cuidado para não dar bom dia à samambaia de vez em quando. Eu poderia enumerar vários prazeres que estão ao alcance de quem tem o escritório a cinco passos da cama – a gente se esquece de que vive numa cidade com trânsito muito ruim, o horário de almoço é a gente que faz, a hora de encerrar o expediente é a gente que determina e, para onde quer que a gente olhe, jamais avista a figura do chefe. Mas eu confesso que, em alguns dias, tudo isso faz um pouco de falta. Não é sempre, mas às vezes faz. Depois de cinco anos trabalhando em casa, talvez eu sentisse uma dificuldade grande em me habituar novamente à rotina das redações de jornais – ainda que, repito, aquela adrenalina toda, aquela cobrança por resultados e cumprimento de horário e até os plantões de fim de semana fazem qualquer um se sentir mais pulsante e integrado do que quem trabalha sozinho em casa. O que me incomoda um pouco nesta minha atual fase profissional é justamente a falta de bate-bola com um colega, alguém a quem você possa perguntar o que ele acha do seu texto e da sua apuração, do seu título e da abordagem que você deu a determinada matéria. Sinto falta deste tipo de retorno e, para compensar, procuro trabalhar com atenção redobrada para que eu seja meu próprio crítico e jamais deixe de acreditar que sempre é possível melhorar o resultado de um produto.

Semana passada ocorreu o seguinte: eram quase quatro horas da tarde e eu não tinha conversado com ninguém ainda. Estava escrevendo uma matéria grande cuja apuração eu havia feito nos dias anteriores – era o típico dia do trabalho essencialmente solitário. Então toca o telefone e eu, animado por botar as cordas vocais para funcionar, atendo com muita disposição. Era uma moça muito educada, funcionária de um instituto de pesquisa que estava fazendo um levantamento sobre a satisfação dos clientes com o serviço bancário. Logo de início ela me garantiu que não iria me vender nada e que ocuparia apenas cinco minutos do meu tempo com perguntas absolutamente profissionais.

Bom, não era exatamente o tipo de papo que eu estava esperando ter, mas na falta de um telefonema mais excitante, fiquei antecipadamente feliz com os cinco minutos de conversa que me aguardavam.

Primeira pergunta da moça: sua faixa etária está entre 30 e 50 anos? Respondi que sim

Segunda pergunta: sua renda mensal é de no mínimo 12 mil reais? Respondi que não.

“Então muito obrigado pela atenção, senhor”, ela me disse. “Infelizmente o senhor não se encaixa no nosso perfil de entrevistado”. E despediu-se de mim com a mesma polidez com que se apresentou.

Senti vontade de correr para os classificados e procurar um emprego na mesma hora, de preferência num lugar com muita gente. Mas daí a pouco passou.

segunda-feira, março 16, 2009

Quadro negro

Eu havia prometido a mim mesmo que não iria assistir aos documentários Uma Verdade Inconveniente, de Al Gore, A Última Hora, produzido e narrado por Leonardo DiCaprio, e O Planeta Branco, sobre a vida (ou o término dela) no pólo norte. Acabei vendo os três. Estes filmes que anunciam o fim do mundo me deixam seriamente deprimido, porque eu acredito neles. Não que eu pense que o mundo vá terminar como um todo, mas sinto que este mundo, tal como a gente o conhece, parece estar mesmo com os dias contados. Sinto que esta é a nossa verdadeira ameaça, e não a crise, os conflitos políticos e as guerras religiosas. A batalha para recuperar o planeta – que muitos já anunciam perdida – promete ser mais traumática do que todas as guerras que já enfrentamos.

Mas eis que ontem entro no cinema para ver Entre os Muros da Escola – sem saber que estava diante de um verdadeiro filme-catástrofe. Nem Al Gore e suas previsões fatalistas foram capazes de me provocar tamanho mal-estar quanto este filme francês. A realidade daquele professor de francês em uma escola pública de Paris, às voltas com uma turma de adolescentes em que o mais bonzinho não pensaria duas vezes caso tivesse de matar a própria mãe, quase me fez sair do cinema. E eu ficava me perguntando, a todo momento, o que é que estava me incomodando tanto. Percebi que mais do que geleiras derretendo ou ursos brancos sem território para caçar e viver, Entre os Muros já nos revela um mundo que acabou bem antes do pólo norte. E este mundo que acabou era o mundo em que, bem ou mal, fomos criados com alguma noção de respeito, civilidade e convivência. Entre os Muros nos assegura que a guerra já começou e só não se dá conta disso quem não quiser.

O filme, no meu entendimento que ainda está se processando, parece ser uma miniatura cruel da época de intolerâncias que estamos atravessando e que não se limita às salas de aulas. Não fiquei assustado por tudo aquilo estar ocorrendo na França, país notório por sua diplomacia e seu apego ao diálogo e à razão. Fiquei assustado porque aquilo deve estar ocorrendo no mundo inteiro. Fiquei me lembrando dos meus tempos de ginásio, também em escola pública, e vi que o que mantinha a nossa disciplina e o nosso interesse nas salas de aula não era o medo dos castigos e da reprovação no fim do ano. Éramos disciplinados, ordeiros e até certo ponto submissos porque acreditávamos não exatamente na autoridade do professor, mas na sua capacidade de transmitir conhecimento. Nós os respeitávamos, acredito eu, porque tínhamos a certeza de que não estávamos perdendo tempo ali, e que ele, o professor, era alguém acima de tudo útil em nossas vidas, alguém que tinha algo de muito valioso a nos ofertar. Em troca do conhecimento dele, entrávamos com nossa dedicação, nosso silêncio e nosso respeito. Era uma troca que, de novo sob o meu ponto de vista muito particular, era vantajosa para os dois lados. A nossa colaboração em troca de conhecimento.

Entre os Muros mostra a derrocada deste sistema – sem que tenha surgido algo melhor para entrar em seu lugar. É ruína e só. O mais assustador do filme é a certeza expressa por todos aqueles alunos de que a escola não tem absolutamente mais nada a lhes ensinar – e talvez não tenha mesmo. E então a gente se lembra de todos aqueles professores que tiraram nota zero e vão continuar lecionando aqui em São Paulo e é nesta hora que o filme se torna visionário. Se acabou a escola – aquela extensão da nossa casa onde vamos aprender realmente o que interessa naquela idade – o que é que restou?

Hoje, ao conversar com um amigo que também viu o filme, ele me recomendou pensar melhor em tudo isso. “Calma”, ele me disse. “Não é a França que vai salvar aqueles alunos aparentemente desordeiros. São aqueles alunos que vão salvar a França e o resto do mundo. Temos de prestar atenção no que eles têm a dizer. Eles são a nossa única salvação possível”. Sinceramente não sei. Meu primeiro impulso foi sentir uma raiva tão danada daquela pirralhada toda que não sei se quero ser salvo por eles....

quinta-feira, março 12, 2009

Vala comum

Um tablóide americano publicou hoje uma foto estarrecedora do ator Patrick Swayze. Devastado pela quimioterapia empregada no combate a um câncer de pâncreas, o ator em nada lembra o galã do filme Ghost: está completamente careca, macérrimo e envelhecido. Obviamente, é o tipo de foto tirada sem o consentimento do ator. Por maior que seja o desapego de qualquer pessoa pela imagem, é difícil acreditar que alguém aceite posar em circunstâncias tão frágeis para a capa de um jornal sensacionalista. No entanto, muito mais triste que a imagem, é a manchete que o jornal estampou, em letras maiúsculas: THE END (É o fim). Talvez o zeloso jornaleco conte com oncologistas em seu conselho editorial que, após examinar a foto em questão, tenham dado a sentença de que o ator estaria em seus últimos dias. É o tipo de manchete que me faz perguntar: para quê? Aumentaram as vendas do tablóide nas bancas? Com certeza! Mas a que preço, não é mesmo? A imprensa tem o direito de fotografar uma pessoa doente e decretar em manchete que ela está praticamente morta?

Então eu respondo: não tem, mas deve pensar que tem. Por um motivo simples: do outro lado do mar, uma jovem participante de um Big Brother inglês, também encontra-se em estado terminal, vítima de um câncer tão invasivo quanto o de Swayze. Só que a moçoila, contaminada muito mais pelo ambiente de reality show em que ela se criou do que pela doença em si, aceitou morrer diante das câmeras. E está recebendo uma grana alta por isso. A cada dia somos obrigados a ver nas páginas de rosto dos sites que ela já perdeu a visão e os cabelos, que não consegue mais se alimentar e que também ruma a uma velocidade assustadora para a morte. E a cada nova foto ou boletim médico, acredito eu, alguns milhares de libras são depositados em sua conta bancária. Representante máxima desta horrorosa sociedade de espetáculos em que vivemos, ela só vai largar o osso na hora em que fecharem o caixão. É triste demais, é deprimente demais.

A moça do Big Brother e Patrick Swayze: duas pessoas ainda jovens que estão morrendo do mesmo mal. Ela, de forma mórbida e espalhafatosa. Ele, ao que tudo indica, com muito mais nobreza e serenidade. No entanto, a mesma imprensa que paga fortunas pelas fotos assustadoras da ex-big brother moribunda, covardemente corre atrás de imagens do mesmo quilate do ator. Na hora da morte, a imprensa resolveu jogar os dois na mesma vala comum. E, com isso, este nosso mundo vai ficando cada dia mais nojento.

terça-feira, março 10, 2009

Parabéns pra você!

Eu sempre achei uma bobagem dizer que os ricos não deveriam fazer festonas em épocas de crise. Eu penso que quem tem dinheiro, havendo ou não crise, tem mais é que comemorar. Porque não vai ser uma festa que vai resolver o problema da distribuição de renda no Brasil e no mundo. Se eu fosse rico, talvez fizesse grandes festas também, porque é sempre muito bom ter os amigos por perto. Claro que a ostentação é algo que nos incomoda. Mas a gente vai exigir o que dos muito ricos? Que eles peçam para que seus convidados levem três latinhas de cerveja na festa? Ou que eles comemorem numa pizzaria em que a noite sempre termina em briga porque cada um tem de pagar pelo que consumiu? Sendo que quem vai embora antes sempre deixa menos dinheiro na caixinha! E quem não bebe odeia ter de pagar R$ 2,80 do chope que não tomou. Ou que os ricos convidem só metade dos amigos porque a casa é pequena e não cabe todo mundo? E ainda peçam assim para os convidados: olha, não comenta com ninguém, porque não deu para eu chamar todo mundo, sabe... Entre inúmeras outras coisas, o bom de ser rico é que eles não estão sujeitos a estas picuinhas. Eles chamam quem eles querem, gastam o quanto querem, bebem até não mais poder e, quer saber, os incomodados que se mudem. Porque dinheiro foi feito para isso mesmo, e quem acha que eles não devem comemorar, no fundo não passa de um pobre invejento.

Isto posto, revelo aqui minha total indignação com a festa que a empresária Lucília Duniz, uma das donas do grupo Pão de Açúcar, promoveu em sua mansão do Jardim Europa para comemorar os 80 anos da Hebe Camargo. Leio nos jornais que havia garrafas e garrafas de Chateau Petrus 1997 (estou copiando tudo da Folha de S. Paulo, porque nunca ouvi falar nestes vinhos), Chateau Haut Bergey 1994, Veuve Clicquot e vinho tinto português Quinta do Vale Meão – seja lá o que isso queira dizer.

Então eu pergunto: nesta época de crise, em que os bancos estão quebrando, as pessoas estão sendo demitidas, formam-se filas de sopa em Nova York e ninguém compra nada nas lojas, a Lucília Diniz esbanja esta fortuna numa festa e convida a Preta Gil, o Roberto Justus, o Luciano Huck, o Tom Cavalcante e o Julio Iglesias? Deus me livre! Como diria meu pai: já que é para gastar, vamos gastar com coisa boa! Ah, que desperdício de bebida, credo. Se eu tivesse uma garrafinha de cada bebida dessas aqui em casa, eu juro pra vocês que ia chamar gente bem mais bacana pra beber.

No meu aniversário, em setembro, eu convido todos vocês. Claro, se vocês puderem trazer três latinhas de cerveja cada um, eu agradeço muito. E não vai ter som, porque a síndica reclama. E seria ótimo se, antes de irem embora, vocês me ajudassem a dar uma ajeitadinha na bagunça, porque a faxineira não vem no dia seguinte. Ah, claro, não espalhem este lance da festa, porque minha casa é pequena e só posso chamar pouca gente. Pobre é uma merda!

domingo, março 08, 2009

Minha estreia como garoto-propaganda

Não me lembro de já ter dado uma de garoto-propaganda aqui, mas abro uma exceção porque o assunto é realmente de utilidade pública para solteiros e descasados. Creio que como toda pessoa que mora sozinha, eu adoro fuçar as prateleiras dos supermercados em busca de novidades culinárias. Principalmente as que dizem respeito a pratos prontos e embalagens individuais. Esta seção dos supermercados me atrai muito mais que as vitrines da Tiffany’s, é sério. Pois esta semana o Grupo Pão de Açúcar começou a vender uma linha de pratos prontos chamada Fugini – há feijoadas, risoto com champignon e lasanha. Preste bem atenção para não errar: são umas bandejinhas com embalagem cor de laranja e verde, fáceis de manusear e que trazem duas importantes advertências: não necessita de refrigeração e não contém conservante. Vi aquela imensa prateleira e pensei: minhas noites estão salvas para o resto da vida.

Além de tudo, é muito fácil de fazer: você chega em casa, retira parcialmente a embalagem plástica e coloca no microondas por dois minutos, tempo suficiente para que você apanhe os talheres, o guardanapo, o prato e um copo de refrigerante. E então o microondas apita – indicando também que sua fome chegou ao auge. Agora, tudo que você tem a fazer é abrir o cesto de lixo e jogar tudo fora. Minha querida amiga, que hoje comemora o Dia Internacional da Mulher: a linha Fugini é a coisa mais horrorosa que eu já coloquei na boca – e olha que eu servi o Exército e, durante um ano, comi comida de soldado. Mas não há nada no mundo que se assemelhe ao gosto de plástico estragado do risoto de champignon da Fugini. E sem falar que, além de ruim de doer, não há um único grão de arroz mais rebelde que aceite se separar daquele bolo disforme em que se transformou o meu risoto.

Graças a Deus eu tinha dois ovos na geladeira, um pedaço de queijo, duas laranjas e uma caixa inteirinha de Bis. Reconheço que não é um menu dos deuses, mas salvou o meu jantar. E é muito mais honesto que aquele risoto homicida.

quinta-feira, março 05, 2009

Frente a frente

Pelo visto, a atriz Suzana Vieira não estava brincando quando disse, há poucas semanas, que já sentia-se pronta para namorar novamente, após a morte do seu ex-companheiro. Nos últimos dias, jornais, revistas e sites publicaram fotos da atriz com seu novo namoradinho, um ator de 26 anos, se não me engano.

Eu acho, na verdade, que o grande sonho de Suzana Vieira é ser como a personagem de Cate Blanchet no filme O Curioso Caso de Benjamin Button: quanto mais ela vai ficando velhinha, mais o namorado vai ficando criança.

Não vai causar espanto se, daqui a algum tempo, a gente ler uma legenda deste tipo numa foto da revista Caras: “Suzana Vieira aproveita o sábado de sol para levar seu novo namoradinho tomar a segunda dose da vacina Sabin”.

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Apesar de tantos anos de jornalismo, ainda fico intimidado diante de algumas entrevistas. E olhem que minha especialidade nunca me obrigou a enfrentar presidentes ou ministros de Estados. E nem me colocou no centro de algum grande furacão político ou econômico. Mas isso não me deixa menos assustado: alguns diretores e atores têm, sem exagero, status de presidente ou ministros dentro de suas respectivas carreiras. E eles, talvez pelo excesso de respeito profissional que eu lhes dedico, ainda me botam medo.

Há uns dois anos, a Revista Bravo me encomendou uma entrevista de seis páginas com Antunes Filho. Passei dias me preparando. Na noite anterior, sonhei que ele tinha ficado irritado com minha primeira pergunta e me colocado para correr na frente de todos os atores do CPT. Obviamente, cheguei muito nervoso à salinha que o Antunes ocupa no sétimo andar do prédio do Sesc Anchieta. Educadíssimo, ele me conduziu ao teatro, dizendo que preferia conversar lá. O papo foi tão maravilhoso que, lá pelas tantas, Antunes Filho pediu para que as luzes do palco fossem acesas e, durante meia hora, atuou como ator para que eu visse como era o seu famoso método de trabalhar com a voz. Era um teatro vazio: eu na platéia e Antunes no palco, indo da tragédia ao drama para o meu deleite egoísta. Foi uma dessas experiências que valem por anos de profissão.

Quando fui entrevistar Zé Celso, desta vez para a Revista Key, também uma matéria grande, fiquei nervoso do mesmo jeito. E novamente Zé Celso, com sua adorável verborragia e seu malabarismo corporal, transformou aquela entrevista num happening.

Esta semana, uma outra revista me encomendou um perfil de um outro grande (e com fama de inacessível) artista. A negociação para chegar até ele foi complicada – não posso dizer de quem se trata, pois a matéria ainda não foi publicada. A única coisa que posso adiantar é que me apresentei para a entrevista ainda mais nervoso que das vezes anteriores. E agora havia o agravante de que o local da conversa seria a casa do artista – o território onde a gente costuma reinar como um leão na savana. Assim que a empregada abriu a porta, ele veio me receber e disse assim: “Sérgio, como marcamos a entrevista para a hora do almoço, imaginei que você fosse chegar com fome. Mandei preparar suco de uva e uns salgadinhos. Espero que você goste. Estou à sua disposição”. Pronto, desarmei total.

E, durante duas horas, tive uma das conversas mais deliciosas da minha vida. O teatro me dá grandes alegrias, isso é inegável. Mas quando o jornalismo resolve ser generoso também, sai da frente.