Eu sempre achei uma bobagem dizer que os ricos não deveriam fazer festonas em épocas de crise. Eu penso que quem tem dinheiro, havendo ou não crise, tem mais é que comemorar. Porque não vai ser uma festa que vai resolver o problema da distribuição de renda no Brasil e no mundo. Se eu fosse rico, talvez fizesse grandes festas também, porque é sempre muito bom ter os amigos por perto. Claro que a ostentação é algo que nos incomoda. Mas a gente vai exigir o que dos muito ricos? Que eles peçam para que seus convidados levem três latinhas de cerveja na festa? Ou que eles comemorem numa pizzaria em que a noite sempre termina em briga porque cada um tem de pagar pelo que consumiu? Sendo que quem vai embora antes sempre deixa menos dinheiro na caixinha! E quem não bebe odeia ter de pagar R$ 2,80 do chope que não tomou. Ou que os ricos convidem só metade dos amigos porque a casa é pequena e não cabe todo mundo? E ainda peçam assim para os convidados: olha, não comenta com ninguém, porque não deu para eu chamar todo mundo, sabe... Entre inúmeras outras coisas, o bom de ser rico é que eles não estão sujeitos a estas picuinhas. Eles chamam quem eles querem, gastam o quanto querem, bebem até não mais poder e, quer saber, os incomodados que se mudem. Porque dinheiro foi feito para isso mesmo, e quem acha que eles não devem comemorar, no fundo não passa de um pobre invejento.
Isto posto, revelo aqui minha total indignação com a festa que a empresária Lucília Duniz, uma das donas do grupo Pão de Açúcar, promoveu em sua mansão do Jardim Europa para comemorar os 80 anos da Hebe Camargo. Leio nos jornais que havia garrafas e garrafas de Chateau Petrus 1997 (estou copiando tudo da Folha de S. Paulo, porque nunca ouvi falar nestes vinhos), Chateau Haut Bergey 1994, Veuve Clicquot e vinho tinto português Quinta do Vale Meão – seja lá o que isso queira dizer.
Então eu pergunto: nesta época de crise, em que os bancos estão quebrando, as pessoas estão sendo demitidas, formam-se filas de sopa em Nova York e ninguém compra nada nas lojas, a Lucília Diniz esbanja esta fortuna numa festa e convida a Preta Gil, o Roberto Justus, o Luciano Huck, o Tom Cavalcante e o Julio Iglesias? Deus me livre! Como diria meu pai: já que é para gastar, vamos gastar com coisa boa! Ah, que desperdício de bebida, credo. Se eu tivesse uma garrafinha de cada bebida dessas aqui em casa, eu juro pra vocês que ia chamar gente bem mais bacana pra beber.
No meu aniversário, em setembro, eu convido todos vocês. Claro, se vocês puderem trazer três latinhas de cerveja cada um, eu agradeço muito. E não vai ter som, porque a síndica reclama. E seria ótimo se, antes de irem embora, vocês me ajudassem a dar uma ajeitadinha na bagunça, porque a faxineira não vem no dia seguinte. Ah, claro, não espalhem este lance da festa, porque minha casa é pequena e só posso chamar pouca gente. Pobre é uma merda!
terça-feira, março 10, 2009
domingo, março 08, 2009
Minha estreia como garoto-propaganda
Não me lembro de já ter dado uma de garoto-propaganda aqui, mas abro uma exceção porque o assunto é realmente de utilidade pública para solteiros e descasados. Creio que como toda pessoa que mora sozinha, eu adoro fuçar as prateleiras dos supermercados em busca de novidades culinárias. Principalmente as que dizem respeito a pratos prontos e embalagens individuais. Esta seção dos supermercados me atrai muito mais que as vitrines da Tiffany’s, é sério. Pois esta semana o Grupo Pão de Açúcar começou a vender uma linha de pratos prontos chamada Fugini – há feijoadas, risoto com champignon e lasanha. Preste bem atenção para não errar: são umas bandejinhas com embalagem cor de laranja e verde, fáceis de manusear e que trazem duas importantes advertências: não necessita de refrigeração e não contém conservante. Vi aquela imensa prateleira e pensei: minhas noites estão salvas para o resto da vida.
Além de tudo, é muito fácil de fazer: você chega em casa, retira parcialmente a embalagem plástica e coloca no microondas por dois minutos, tempo suficiente para que você apanhe os talheres, o guardanapo, o prato e um copo de refrigerante. E então o microondas apita – indicando também que sua fome chegou ao auge. Agora, tudo que você tem a fazer é abrir o cesto de lixo e jogar tudo fora. Minha querida amiga, que hoje comemora o Dia Internacional da Mulher: a linha Fugini é a coisa mais horrorosa que eu já coloquei na boca – e olha que eu servi o Exército e, durante um ano, comi comida de soldado. Mas não há nada no mundo que se assemelhe ao gosto de plástico estragado do risoto de champignon da Fugini. E sem falar que, além de ruim de doer, não há um único grão de arroz mais rebelde que aceite se separar daquele bolo disforme em que se transformou o meu risoto.
Graças a Deus eu tinha dois ovos na geladeira, um pedaço de queijo, duas laranjas e uma caixa inteirinha de Bis. Reconheço que não é um menu dos deuses, mas salvou o meu jantar. E é muito mais honesto que aquele risoto homicida.
Além de tudo, é muito fácil de fazer: você chega em casa, retira parcialmente a embalagem plástica e coloca no microondas por dois minutos, tempo suficiente para que você apanhe os talheres, o guardanapo, o prato e um copo de refrigerante. E então o microondas apita – indicando também que sua fome chegou ao auge. Agora, tudo que você tem a fazer é abrir o cesto de lixo e jogar tudo fora. Minha querida amiga, que hoje comemora o Dia Internacional da Mulher: a linha Fugini é a coisa mais horrorosa que eu já coloquei na boca – e olha que eu servi o Exército e, durante um ano, comi comida de soldado. Mas não há nada no mundo que se assemelhe ao gosto de plástico estragado do risoto de champignon da Fugini. E sem falar que, além de ruim de doer, não há um único grão de arroz mais rebelde que aceite se separar daquele bolo disforme em que se transformou o meu risoto.
Graças a Deus eu tinha dois ovos na geladeira, um pedaço de queijo, duas laranjas e uma caixa inteirinha de Bis. Reconheço que não é um menu dos deuses, mas salvou o meu jantar. E é muito mais honesto que aquele risoto homicida.
quinta-feira, março 05, 2009
Frente a frente
Pelo visto, a atriz Suzana Vieira não estava brincando quando disse, há poucas semanas, que já sentia-se pronta para namorar novamente, após a morte do seu ex-companheiro. Nos últimos dias, jornais, revistas e sites publicaram fotos da atriz com seu novo namoradinho, um ator de 26 anos, se não me engano.
Eu acho, na verdade, que o grande sonho de Suzana Vieira é ser como a personagem de Cate Blanchet no filme O Curioso Caso de Benjamin Button: quanto mais ela vai ficando velhinha, mais o namorado vai ficando criança.
Não vai causar espanto se, daqui a algum tempo, a gente ler uma legenda deste tipo numa foto da revista Caras: “Suzana Vieira aproveita o sábado de sol para levar seu novo namoradinho tomar a segunda dose da vacina Sabin”.
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Apesar de tantos anos de jornalismo, ainda fico intimidado diante de algumas entrevistas. E olhem que minha especialidade nunca me obrigou a enfrentar presidentes ou ministros de Estados. E nem me colocou no centro de algum grande furacão político ou econômico. Mas isso não me deixa menos assustado: alguns diretores e atores têm, sem exagero, status de presidente ou ministros dentro de suas respectivas carreiras. E eles, talvez pelo excesso de respeito profissional que eu lhes dedico, ainda me botam medo.
Há uns dois anos, a Revista Bravo me encomendou uma entrevista de seis páginas com Antunes Filho. Passei dias me preparando. Na noite anterior, sonhei que ele tinha ficado irritado com minha primeira pergunta e me colocado para correr na frente de todos os atores do CPT. Obviamente, cheguei muito nervoso à salinha que o Antunes ocupa no sétimo andar do prédio do Sesc Anchieta. Educadíssimo, ele me conduziu ao teatro, dizendo que preferia conversar lá. O papo foi tão maravilhoso que, lá pelas tantas, Antunes Filho pediu para que as luzes do palco fossem acesas e, durante meia hora, atuou como ator para que eu visse como era o seu famoso método de trabalhar com a voz. Era um teatro vazio: eu na platéia e Antunes no palco, indo da tragédia ao drama para o meu deleite egoísta. Foi uma dessas experiências que valem por anos de profissão.
Quando fui entrevistar Zé Celso, desta vez para a Revista Key, também uma matéria grande, fiquei nervoso do mesmo jeito. E novamente Zé Celso, com sua adorável verborragia e seu malabarismo corporal, transformou aquela entrevista num happening.
Esta semana, uma outra revista me encomendou um perfil de um outro grande (e com fama de inacessível) artista. A negociação para chegar até ele foi complicada – não posso dizer de quem se trata, pois a matéria ainda não foi publicada. A única coisa que posso adiantar é que me apresentei para a entrevista ainda mais nervoso que das vezes anteriores. E agora havia o agravante de que o local da conversa seria a casa do artista – o território onde a gente costuma reinar como um leão na savana. Assim que a empregada abriu a porta, ele veio me receber e disse assim: “Sérgio, como marcamos a entrevista para a hora do almoço, imaginei que você fosse chegar com fome. Mandei preparar suco de uva e uns salgadinhos. Espero que você goste. Estou à sua disposição”. Pronto, desarmei total.
E, durante duas horas, tive uma das conversas mais deliciosas da minha vida. O teatro me dá grandes alegrias, isso é inegável. Mas quando o jornalismo resolve ser generoso também, sai da frente.
Eu acho, na verdade, que o grande sonho de Suzana Vieira é ser como a personagem de Cate Blanchet no filme O Curioso Caso de Benjamin Button: quanto mais ela vai ficando velhinha, mais o namorado vai ficando criança.
Não vai causar espanto se, daqui a algum tempo, a gente ler uma legenda deste tipo numa foto da revista Caras: “Suzana Vieira aproveita o sábado de sol para levar seu novo namoradinho tomar a segunda dose da vacina Sabin”.
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Apesar de tantos anos de jornalismo, ainda fico intimidado diante de algumas entrevistas. E olhem que minha especialidade nunca me obrigou a enfrentar presidentes ou ministros de Estados. E nem me colocou no centro de algum grande furacão político ou econômico. Mas isso não me deixa menos assustado: alguns diretores e atores têm, sem exagero, status de presidente ou ministros dentro de suas respectivas carreiras. E eles, talvez pelo excesso de respeito profissional que eu lhes dedico, ainda me botam medo.
Há uns dois anos, a Revista Bravo me encomendou uma entrevista de seis páginas com Antunes Filho. Passei dias me preparando. Na noite anterior, sonhei que ele tinha ficado irritado com minha primeira pergunta e me colocado para correr na frente de todos os atores do CPT. Obviamente, cheguei muito nervoso à salinha que o Antunes ocupa no sétimo andar do prédio do Sesc Anchieta. Educadíssimo, ele me conduziu ao teatro, dizendo que preferia conversar lá. O papo foi tão maravilhoso que, lá pelas tantas, Antunes Filho pediu para que as luzes do palco fossem acesas e, durante meia hora, atuou como ator para que eu visse como era o seu famoso método de trabalhar com a voz. Era um teatro vazio: eu na platéia e Antunes no palco, indo da tragédia ao drama para o meu deleite egoísta. Foi uma dessas experiências que valem por anos de profissão.
Quando fui entrevistar Zé Celso, desta vez para a Revista Key, também uma matéria grande, fiquei nervoso do mesmo jeito. E novamente Zé Celso, com sua adorável verborragia e seu malabarismo corporal, transformou aquela entrevista num happening.
Esta semana, uma outra revista me encomendou um perfil de um outro grande (e com fama de inacessível) artista. A negociação para chegar até ele foi complicada – não posso dizer de quem se trata, pois a matéria ainda não foi publicada. A única coisa que posso adiantar é que me apresentei para a entrevista ainda mais nervoso que das vezes anteriores. E agora havia o agravante de que o local da conversa seria a casa do artista – o território onde a gente costuma reinar como um leão na savana. Assim que a empregada abriu a porta, ele veio me receber e disse assim: “Sérgio, como marcamos a entrevista para a hora do almoço, imaginei que você fosse chegar com fome. Mandei preparar suco de uva e uns salgadinhos. Espero que você goste. Estou à sua disposição”. Pronto, desarmei total.
E, durante duas horas, tive uma das conversas mais deliciosas da minha vida. O teatro me dá grandes alegrias, isso é inegável. Mas quando o jornalismo resolve ser generoso também, sai da frente.
quinta-feira, fevereiro 26, 2009
Os autores que dizem adeus - e seus livros que ficam
Eu devia ter 15 anos quando li Cem Anos de Solidão e me vi imediatamente encantado por aquele mundo fantasioso – e paradoxalmente familiar – de Gabriel Garcia Márquez. Por um longo tempo, eu não queria fazer mais nada da vida a não ser ler tudo que o escritor colombiano houvesse publicado e, assim, me tornar mais íntimo daqueles personagens que viviam mais de cem anos e se reconheciam pelos cheiros, que cruzavam desertos misteriosos em caravanas improvisadas, ou que, de tão sedutores, conseguiam despertar paixões ainda que já estivessem mortos. Naquela época, se alguém me oferecesse uma viagem, eu diria, sem hesitar, que meu sonho era conhecer Macondo, a cidade imaginária fundada pela família Buendia em Cem Anos de Solidão, indiscutivelmente meu livro de cabeceira, de escrivaninha, de sofá, e de todo resto da mobília.
Algum tempo depois, conversando com uma amiga mais velha, já formada em jornalismo, sobre minha paixão pela obra de Garcia Márquez, ela se revelou sabiamente impiedosa: “Eu não acho Garcia Márquez tão bom assim”, ela me disse. “Toda família tem a sua Macondo, ele só foi perito em descobrir isso antes dos outros. Quem nasceu numa cidade pequena, pode dizer, sem medo, que também nasceu em Macondo. E isso não faz de ninguém um grande escritor”.
Fiquei muito tempo com este diagnóstico a me assombrar a cabeça – e hoje, muitos e muitos anos depois daquela conversa, me vejo obrigado a dar um pouco de razão a ela. Abandonei o gosto por Garcia Márquez na mesma época em que a adolescência me abandonou. Li outras coisas dele, é claro, mas nunca mais sua obra me causou impacto considerável. Para mim, seu último grande livro foi o pequeno Crônica de Uma Morte Anunciada – mas ainda assim ficou longe de iluminar em mim aquela Macondo eclipsada pelos anos.
Às vezes, me pego pensando se havia realmente algo de Macondo no lugar em que nasci – e talvez a amiga jornalista estivesse certa sobre isso também. Havia Iracema, sobre quem já falei aqui, a mulher de uma brancura fantasmagórica que era espancada pelo marido sempre que saía de casa para cantar; havia o Zé da Hélia, o louquinho boa praça que entrava em surto psicótico toda vez que ouvia a palavra chuva; havia o Dito Cruz, em cuja boca sempre risonha despontavam apenas os caninos superiores, que se perdia em passeios solitários que nunca duravam menos de três dias, deixando sua única irmã, tão velha e solteira quanto ele, em pânico; havia o homem que se enforcou em uma árvore de quintal a quatro casas da minha; havia a mulher que encharcou seu corpo em álcool e riscou um palito de fósforo – e foi enterrada com os cabelos terrivelmente vermelhos e o rosto cheio de sulcos; havia o funcionário de uma fábrica de cadeiras, moreno e calvo, do qual todas as mães mantinham seus filhos afastados – ninguém falava em pedofilia na época, mas todo cuidado em se tratando dele parecia pouco; havia o seu Domingos, o homem carrancudo e solitário que, quando jovem, matou a facadas um primo da mesma idade por causa de uma mulher; havia Lúcia, a guardiã da moral de todo bairro, a jovem freirinha que um dia fugiu do convento para se casar com um motorista de ônibus, enfraquecendo um pouco a fé de cada um de nós; havia uma família de anões; havia um menino que ficou cego com a bicada de um passarinho que fora presente do seu pai; havia os bêbados, havia os cachorros loucos, havia os jovens que morriam cedo de meningite ou tiro e havia ainda todos nós, os outros, um grupo mais ou menos coeso e que parecia não reunir, assim à primeira vista, qualquer particularidade para esperar um papel de protagonista caso alguém um dia resolvesse escrever esta história. Seríamos uns figurantes simpáticos, não mais que isso. A menos que o tal escritor fosse suficientemente talentoso para descobrir aquilo que nós, tão habilmente, passamos a vida a esconder.
Se ainda penso nisso tantos anos passados, é sinal de que a obra de Garcia Márquez se aconchegou em algum canto da minha memória. Talvez os escritores não precisem nos acompanhar para sempre. Basta que tenham sido nossos confidentes, em algum momento das nossas vidas, e toda obra já estará justificada.
Algum tempo depois, conversando com uma amiga mais velha, já formada em jornalismo, sobre minha paixão pela obra de Garcia Márquez, ela se revelou sabiamente impiedosa: “Eu não acho Garcia Márquez tão bom assim”, ela me disse. “Toda família tem a sua Macondo, ele só foi perito em descobrir isso antes dos outros. Quem nasceu numa cidade pequena, pode dizer, sem medo, que também nasceu em Macondo. E isso não faz de ninguém um grande escritor”.
Fiquei muito tempo com este diagnóstico a me assombrar a cabeça – e hoje, muitos e muitos anos depois daquela conversa, me vejo obrigado a dar um pouco de razão a ela. Abandonei o gosto por Garcia Márquez na mesma época em que a adolescência me abandonou. Li outras coisas dele, é claro, mas nunca mais sua obra me causou impacto considerável. Para mim, seu último grande livro foi o pequeno Crônica de Uma Morte Anunciada – mas ainda assim ficou longe de iluminar em mim aquela Macondo eclipsada pelos anos.
Às vezes, me pego pensando se havia realmente algo de Macondo no lugar em que nasci – e talvez a amiga jornalista estivesse certa sobre isso também. Havia Iracema, sobre quem já falei aqui, a mulher de uma brancura fantasmagórica que era espancada pelo marido sempre que saía de casa para cantar; havia o Zé da Hélia, o louquinho boa praça que entrava em surto psicótico toda vez que ouvia a palavra chuva; havia o Dito Cruz, em cuja boca sempre risonha despontavam apenas os caninos superiores, que se perdia em passeios solitários que nunca duravam menos de três dias, deixando sua única irmã, tão velha e solteira quanto ele, em pânico; havia o homem que se enforcou em uma árvore de quintal a quatro casas da minha; havia a mulher que encharcou seu corpo em álcool e riscou um palito de fósforo – e foi enterrada com os cabelos terrivelmente vermelhos e o rosto cheio de sulcos; havia o funcionário de uma fábrica de cadeiras, moreno e calvo, do qual todas as mães mantinham seus filhos afastados – ninguém falava em pedofilia na época, mas todo cuidado em se tratando dele parecia pouco; havia o seu Domingos, o homem carrancudo e solitário que, quando jovem, matou a facadas um primo da mesma idade por causa de uma mulher; havia Lúcia, a guardiã da moral de todo bairro, a jovem freirinha que um dia fugiu do convento para se casar com um motorista de ônibus, enfraquecendo um pouco a fé de cada um de nós; havia uma família de anões; havia um menino que ficou cego com a bicada de um passarinho que fora presente do seu pai; havia os bêbados, havia os cachorros loucos, havia os jovens que morriam cedo de meningite ou tiro e havia ainda todos nós, os outros, um grupo mais ou menos coeso e que parecia não reunir, assim à primeira vista, qualquer particularidade para esperar um papel de protagonista caso alguém um dia resolvesse escrever esta história. Seríamos uns figurantes simpáticos, não mais que isso. A menos que o tal escritor fosse suficientemente talentoso para descobrir aquilo que nós, tão habilmente, passamos a vida a esconder.
Se ainda penso nisso tantos anos passados, é sinal de que a obra de Garcia Márquez se aconchegou em algum canto da minha memória. Talvez os escritores não precisem nos acompanhar para sempre. Basta que tenham sido nossos confidentes, em algum momento das nossas vidas, e toda obra já estará justificada.
domingo, fevereiro 22, 2009
Chega de aperitivo chato
O cinema sempre foi uma das minhas principais diversões em São Paulo. Às vezes, acho que o termo “diversão” nem é o mais apropriado para definir a nossa ida aos cinemas. Filmes como A Vida Dos Outros, Foi Apenas Um Sonho, Medos Privados em Lugares Públicos e Lemmon Tree, apenas para ficar em alguns títulos mais recentes, não são exatamente opções divertidas para um fim de semana: são, e talvez devamos ser gratos a isso, uma saudável vocação de parte da indústria cinematográfica de traduzir alguns dos nossos desejos, anseios e pesadelos mais recorrentes. Penso que não se pode classificar de diversão uma atividade que nos obriga a horas e horas de reflexão sobre as nossas próprias atitudes quando as luzes se acendem. Um certo tipo de cinema é, para mim, como também o é um certo tipo de teatro, algo que se aproxima da catarse, do nosso grande silêncio interior, de uma sessão de psicanálise ou de uma dessas conversas fundamentais que costumamos manter, às vezes, com nossos amigos mais íntimos e queridos enquanto a madrugada avança sobre um boteco qualquer da cidade. Neste sentido, a literatura talvez exerça um papel ainda mais preponderante – mas não é sobre isso que eu desejo falar.
O que eu desejo falar, na verdade, é sobre um certo tipo de punição que recai sobre quem costuma ir com alguma freqüência ao cinema. E também não vou falar aqui sobre as pessoas que atendem o celular ou conversam sem parar durante a projeção – pois disso eu também já falei. Eu quero falar sobre a irritante repetição de alguns trailers, que, antes de nos atrair, acabam por nos afastar das salas quando entram em cartaz os filmes a que eles se referiam. Há uns dois anos, mais ou menos, o trailer do filme Machuca foi tão martelado em nossos cinemas, e por tanto tempo, que quando eu o via em companhia de algum amigo tão cinéfilo quanto eu, a gente costumava repetir todas as falas daqueles garotinhos chilenos afetados pelo golpe militar que derrubou Allende.
Agora eu sinto que temos um concorrente à altura de Machuca: a comédia Divã, baseada na peça teatral que a atriz Lilia Cabral mostrou com muito sucesso no Teatro Faap. Em apenas uma semana eu já vi três vezes o trailer do filme que deve entrar em cartaz só em abril. Quando abril chegar, de tão cansado do aperitivo, eu seguramente fugirei do filme com todas as forças possíveis – até porque, pelo que foi mostrado até agora, Divã encaixa-se naquela mesma linha de Se eu Fosse Você e outros filminhos que batem recordes de bilheteria graças à presença de atores da Globo fazendo exatamente o que o público espera que eles façam – acho que isto é um assunto para outro post, mas Divã e Se eu Fosse Você talvez até sejam filmes bem-feitos, mas não passam de um capítulo de novela com duas horas de duração acompanhado de pipoca e cola-cola em embalagem gigante. Ou seja, arrastam as multidões para os cinemas apenas para lhes exibir tudo aquilo que elas já veem em casa, em embalagem um pouquinho diferente, mas com o requentado e inofensivo sabor dos folhetins.
Se eu seguramente não irei ver Divã, porque dois meses antes da estreia eu já estou com o trailer até o pescoço, lanço o seguinte desafio aqui: adivinhem se irei votar em Dilma Rousseff para presidente se hoje, em pleno domingo de carnaval e faltando um ano e meio para as eleições, ela aparece em seis fotos no jornal que eu assino. E a reportagem, é claro, versa sobre a famosa plástica a que a ministra se submeteu. O que me interessa se ela anda exibindo seu rostinho repuxado até na concentração das escolas do terceiro grupo do carnaval de Quixeramobim? Os marqueteiros, todos eles, do cinema e da política, deveriam aprender uma lição bem básica: por mais requintado que seja o menu, ninguém tem estômago para engolir por muito tempo a mesma coisa. O cansaço fecha a nossa garganta e embota os nossos ouvidos – com o tempo, nada mais desce.
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E como eu falei em estômago, uma dica para quem vai ficar por aqui no carnaval: liguem para o número 2951-3056 e peçam para a moça do caixa, que irá atender o telefone, explicar como se faz para chegar ao restaurante de comida nordestina Mocotó, na Vila Medeiros, zona norte da cidade. Foi o que eu fiz no sábado e estou sentindo que meu feriadão já valeu só por isso. Há muito tempo que eu queria conhecer este restaurante, apontado por toda imprensa como um dos melhores e mais baratos da cidade. Desta vez, a imprensa acertou bacana: as caipirinhas do lugar são maravilhosas, o torresmo faz a gente se esquecer de que existe colesterol no mundo,a comida é boa pra caramba e a torta de aipim com calda de coco queimado, a sobremesa mais pedida pelo pessoal animado que lota o lugar, é a prova de que existe vida antes da morte. Tudo sem frescura, sem estrangeirismos e com um preço para lá de justo – algo cada vez mais raro em São Paulo. O Mocotó só oferece um risco: é melhor não marcar nenhum compromisso para depois do almoço, pois a comida é tão farta e tão boa que você não vai querer absolutamente mais nada deste mundo a não ser cair na cama e dormir com a felicidade das jiboias diante de um ventilador ligado.
O que eu desejo falar, na verdade, é sobre um certo tipo de punição que recai sobre quem costuma ir com alguma freqüência ao cinema. E também não vou falar aqui sobre as pessoas que atendem o celular ou conversam sem parar durante a projeção – pois disso eu também já falei. Eu quero falar sobre a irritante repetição de alguns trailers, que, antes de nos atrair, acabam por nos afastar das salas quando entram em cartaz os filmes a que eles se referiam. Há uns dois anos, mais ou menos, o trailer do filme Machuca foi tão martelado em nossos cinemas, e por tanto tempo, que quando eu o via em companhia de algum amigo tão cinéfilo quanto eu, a gente costumava repetir todas as falas daqueles garotinhos chilenos afetados pelo golpe militar que derrubou Allende.
Agora eu sinto que temos um concorrente à altura de Machuca: a comédia Divã, baseada na peça teatral que a atriz Lilia Cabral mostrou com muito sucesso no Teatro Faap. Em apenas uma semana eu já vi três vezes o trailer do filme que deve entrar em cartaz só em abril. Quando abril chegar, de tão cansado do aperitivo, eu seguramente fugirei do filme com todas as forças possíveis – até porque, pelo que foi mostrado até agora, Divã encaixa-se naquela mesma linha de Se eu Fosse Você e outros filminhos que batem recordes de bilheteria graças à presença de atores da Globo fazendo exatamente o que o público espera que eles façam – acho que isto é um assunto para outro post, mas Divã e Se eu Fosse Você talvez até sejam filmes bem-feitos, mas não passam de um capítulo de novela com duas horas de duração acompanhado de pipoca e cola-cola em embalagem gigante. Ou seja, arrastam as multidões para os cinemas apenas para lhes exibir tudo aquilo que elas já veem em casa, em embalagem um pouquinho diferente, mas com o requentado e inofensivo sabor dos folhetins.
Se eu seguramente não irei ver Divã, porque dois meses antes da estreia eu já estou com o trailer até o pescoço, lanço o seguinte desafio aqui: adivinhem se irei votar em Dilma Rousseff para presidente se hoje, em pleno domingo de carnaval e faltando um ano e meio para as eleições, ela aparece em seis fotos no jornal que eu assino. E a reportagem, é claro, versa sobre a famosa plástica a que a ministra se submeteu. O que me interessa se ela anda exibindo seu rostinho repuxado até na concentração das escolas do terceiro grupo do carnaval de Quixeramobim? Os marqueteiros, todos eles, do cinema e da política, deveriam aprender uma lição bem básica: por mais requintado que seja o menu, ninguém tem estômago para engolir por muito tempo a mesma coisa. O cansaço fecha a nossa garganta e embota os nossos ouvidos – com o tempo, nada mais desce.
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E como eu falei em estômago, uma dica para quem vai ficar por aqui no carnaval: liguem para o número 2951-3056 e peçam para a moça do caixa, que irá atender o telefone, explicar como se faz para chegar ao restaurante de comida nordestina Mocotó, na Vila Medeiros, zona norte da cidade. Foi o que eu fiz no sábado e estou sentindo que meu feriadão já valeu só por isso. Há muito tempo que eu queria conhecer este restaurante, apontado por toda imprensa como um dos melhores e mais baratos da cidade. Desta vez, a imprensa acertou bacana: as caipirinhas do lugar são maravilhosas, o torresmo faz a gente se esquecer de que existe colesterol no mundo,a comida é boa pra caramba e a torta de aipim com calda de coco queimado, a sobremesa mais pedida pelo pessoal animado que lota o lugar, é a prova de que existe vida antes da morte. Tudo sem frescura, sem estrangeirismos e com um preço para lá de justo – algo cada vez mais raro em São Paulo. O Mocotó só oferece um risco: é melhor não marcar nenhum compromisso para depois do almoço, pois a comida é tão farta e tão boa que você não vai querer absolutamente mais nada deste mundo a não ser cair na cama e dormir com a felicidade das jiboias diante de um ventilador ligado.
sexta-feira, fevereiro 20, 2009
O bloco do eu sozinho
Existem algumas pessoas que não precisam de ninguém neste mundo. Elas não costumam sair de casa em busca de amigos ou diálogos – saem apenas para divulgar a grandeza dos seus gestos e feitos; saem para nos brindar, a nós, a quem elas acreditam seus súditos, com o brilho de sua imagem sempre digna de louvor; saem para mostrar, no fundo, como elas podem ser generosas diante da pequenez do nosso cotidiano opaco. Em nenhum momento passa pela cabeça delas a possibilidade de nos fazer qualquer pergunta – pois elas já sabem, previamente, que tudo que sair de nossas bocas não será mesmo digno de atenção. Porque, no fundo, nossa existência não é reconhecida por elas – somos figurantes silenciosos de um mundo muito particular que elas criaram para si próprias; um mundo, afinal, em que só existe lugar para elas e seus atos. Elas nos dirigem a palavra apenas para evitar a ideia de que andam por aí a falar sozinhas. Embora não percebam, elas estão falando sozinhas, pois para elas, de tão desinteressantes e descartáveis que somos, é como se não estivéssemos mesmo por ali.
Antes de mais nada, elas se bastam e se completam. Acreditam tanto em si e na relevância do seu trabalho, que é como se o mundo não precisasse mesmo de mais ninguém. E elas nos irritam, nos irritam tanto porque a odiosa superioridade que exibem surge travestida de um delicado ar professoral. É como se elas, a todo instante, precisassem ser adoravelmente didáticas diante do nosso despreparo intelectual e da escassez das nossas conquistas. E usam todas as ferramentas que estão ao seu dispor, do encontro casual ao e-mail, para revelar uma quantidade enlouquecedora de auto-elogios que não despertam outra coisa em nós senão uma terrível sensação de pena e escárnio. Fazem, a si próprias, todos os salamaleques e rapapés que gostariam de ouvir do mundo – e parecem não se abalar com o fato de que o mundo não está preocupado em elogiar seus feitos, pois o mundo percebeu, bem antes delas, que seus feitos não são dignos de elogio algum.
Estas pessoas não compreendem que um homem elegante é, acima de tudo, um homem discreto em relação às suas conquistas. Mostram-se incapazes de conviver com a ideia de que um homem elegante é também um homem paciente, que sabe esperar pelo reconhecimento dos tais feitos e que já aprendeu, em alguma altura da vida, que não existe nada mais constrangedor do que bancar o relações públicas de si próprio. O que nos mantém, e não sei por quanto tempo ainda, próximos destas pessoas é a convicção de que elas não são exatamente chatas – só são momentaneamente insuportáveis. Mas como não as vemos com frequência, sempre temos a esperança de que se mostrarão um pouco mais evoluídas e despidas de si em nosso próximo encontro. E até nisso elas conseguem nos decepcionar. No próximo encontro, tudo que elas são capazes de nos dizer é o quanto foram absolutamente geniais desde a última vez em que nos vimos. Se o mundo ainda não as reconheceu e nem destinou a elas o trono que lhes parecia de direito, o problema é do mundo e tudo não passa, afinal, de uma questão de tempo. Elas já se reconheceram e isso parece bastar.
Estas pessoas também são autoras de uma proeza acima de tudo biológica: já eliminaram o outro de suas vidas. Se tudo que elas gostariam de ouvir escapa de suas próprias bocas, então não se torna mais necessária a existência de ninguém. Elas se encarregaram da limpeza étnica do seu próprio mundinho: fomos primeiramente marcados a ferro, depois incinerados e por fim jogados em uma vala comum, de onde nossa ousada figura jamais deveria ter se levantado para fazer frente ao gigantismo de sua presença. E assim elas seguirão para sempre, satisfeitas e sozinhas, ainda que exista uma corte sempre pronta a aplaudir com falsa sofreguidão o ruído de seus passos. E caminharão convictas de que todo o universo foi gerado com o único propósito de abrigar um dia sua passagem efêmera por aqui. Se uma destas pessoas ler este post, com certeza se perguntará: nossa, mas de quem será que ele está falando? Jamais irão se reconhecer nestas palavras, pois eu sou a voz do outro – e o outro, para elas, nasceu, viveu e deverá morrer mudo.
E antes de dormir, realizadas por mais uma aparição diante das feições mortais que a contemplaram, é altamente provável que elas dirijam um olhar de cumplicidade para o espelho. Pois é ele, o espelho, o único objeto em todo universo que elas próprias criaram ainda capaz de refletir o talento e a grandiosidade dos quais se julgam possuidoras. Nós já nos tornamos cegos para elas. E mudos. E surdos. E indiferentes. E foram elas e sua empáfia que nos deixaram assim. Que o sono possa ser leve e justo para elas e para cada um de nós também. E que a inevitável queda da cama, por fim, não as machuque tanto: o mundo ainda não está preparado para descobrir que elas, assim como nós, também podem ter hematomas.
Antes de mais nada, elas se bastam e se completam. Acreditam tanto em si e na relevância do seu trabalho, que é como se o mundo não precisasse mesmo de mais ninguém. E elas nos irritam, nos irritam tanto porque a odiosa superioridade que exibem surge travestida de um delicado ar professoral. É como se elas, a todo instante, precisassem ser adoravelmente didáticas diante do nosso despreparo intelectual e da escassez das nossas conquistas. E usam todas as ferramentas que estão ao seu dispor, do encontro casual ao e-mail, para revelar uma quantidade enlouquecedora de auto-elogios que não despertam outra coisa em nós senão uma terrível sensação de pena e escárnio. Fazem, a si próprias, todos os salamaleques e rapapés que gostariam de ouvir do mundo – e parecem não se abalar com o fato de que o mundo não está preocupado em elogiar seus feitos, pois o mundo percebeu, bem antes delas, que seus feitos não são dignos de elogio algum.
Estas pessoas não compreendem que um homem elegante é, acima de tudo, um homem discreto em relação às suas conquistas. Mostram-se incapazes de conviver com a ideia de que um homem elegante é também um homem paciente, que sabe esperar pelo reconhecimento dos tais feitos e que já aprendeu, em alguma altura da vida, que não existe nada mais constrangedor do que bancar o relações públicas de si próprio. O que nos mantém, e não sei por quanto tempo ainda, próximos destas pessoas é a convicção de que elas não são exatamente chatas – só são momentaneamente insuportáveis. Mas como não as vemos com frequência, sempre temos a esperança de que se mostrarão um pouco mais evoluídas e despidas de si em nosso próximo encontro. E até nisso elas conseguem nos decepcionar. No próximo encontro, tudo que elas são capazes de nos dizer é o quanto foram absolutamente geniais desde a última vez em que nos vimos. Se o mundo ainda não as reconheceu e nem destinou a elas o trono que lhes parecia de direito, o problema é do mundo e tudo não passa, afinal, de uma questão de tempo. Elas já se reconheceram e isso parece bastar.
Estas pessoas também são autoras de uma proeza acima de tudo biológica: já eliminaram o outro de suas vidas. Se tudo que elas gostariam de ouvir escapa de suas próprias bocas, então não se torna mais necessária a existência de ninguém. Elas se encarregaram da limpeza étnica do seu próprio mundinho: fomos primeiramente marcados a ferro, depois incinerados e por fim jogados em uma vala comum, de onde nossa ousada figura jamais deveria ter se levantado para fazer frente ao gigantismo de sua presença. E assim elas seguirão para sempre, satisfeitas e sozinhas, ainda que exista uma corte sempre pronta a aplaudir com falsa sofreguidão o ruído de seus passos. E caminharão convictas de que todo o universo foi gerado com o único propósito de abrigar um dia sua passagem efêmera por aqui. Se uma destas pessoas ler este post, com certeza se perguntará: nossa, mas de quem será que ele está falando? Jamais irão se reconhecer nestas palavras, pois eu sou a voz do outro – e o outro, para elas, nasceu, viveu e deverá morrer mudo.
E antes de dormir, realizadas por mais uma aparição diante das feições mortais que a contemplaram, é altamente provável que elas dirijam um olhar de cumplicidade para o espelho. Pois é ele, o espelho, o único objeto em todo universo que elas próprias criaram ainda capaz de refletir o talento e a grandiosidade dos quais se julgam possuidoras. Nós já nos tornamos cegos para elas. E mudos. E surdos. E indiferentes. E foram elas e sua empáfia que nos deixaram assim. Que o sono possa ser leve e justo para elas e para cada um de nós também. E que a inevitável queda da cama, por fim, não as machuque tanto: o mundo ainda não está preparado para descobrir que elas, assim como nós, também podem ter hematomas.
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