Quando eu estava no quarto ano primário, meus pais me compraram um livro grosso, de capa azul, chamado Admissão. Hoje eu acredito que o título não devia ser apenas este, mas isso não importa muito. Era o maior livro que eu já havia ganho – a exemplo das apostilas do cursinho, que eu viria a conhecer muito mais tarde, aquele livro trazia uma série de exercícios preparatórios para o ingresso no curso ginasial. Naquela época, o nível de ensino das escolas públicas era imbatível e, na cidade de Jundiaí onde eu vivia, havia dois colégios especialmente concorridos: o Instituto de Educação e o Geva, que se não me engano era a abreviatura de Ginásio Estadual de Vila Arens, bairro vizinho ao meu. Então, naquele ano, eu tinha as aulas regulares do primário, durante as manhãs, e as aulas do famoso curso de admissão, no período da tarde. Eu achava que estudava muito, mas quando vejo as crianças de hoje, espremidas entre a escola, a esgrima, a natação, o balé, o inglês e a computação, eu volto a me sentir um Macunaíma. No final do ano, quando eu já devia ter feito todos os exercícios do livro, o governo mudou o sistema de ensino, acabou com o exame de admissão e nos obrigou a estudar nas escolas do bairro em que vivíamos. Meu sonho de ir para o exclusivo Instituto de Educação, e poder usar aqueles guarda-pós brancos até a altura do joelho, morreu na véspera.
Mas algo sobrevive em mim desde aquele período, por mais prosaico que possa parecer. É um conto que integrava o capítulo de língua portuguesa no livro de admissão. O conto falava de um homem extremamente solitário que, ao se levantar às três horas de uma manhã qualquer para tomar água, viu uma formiga atravessando rapidamente a mesa de fórmica da sua cozinha. Insone e melancólico, ele passou a enfeitar a vida daquela formiguinha com uma série de detalhes absolutamente humanos: imaginou o lugar em que ela vivia, as funções que era orientada a cumprir ao longo do dia, os filhinhos a alimentar e uma rotina estafante que a obrigava a estar no batente às três da madrugada. Na noite seguinte, ele se levanta no mesmo horário e vai até a cozinha para ver se sua visitante estava por perto. E lá estava ela, cruzando a mesa na mesma direção, sem se importar com a presença ameaçadora dele no cenário.
E a mesma história se repetiu durante várias madrugadas. O homem, com o cotovelo apoiado sobre a mesa, de olhar fixo no trajeto da formiga que já havia se tornado parte de sua vida. Até que um dia ela não apareceu mais, nem no dia seguinte e nem nunca mais. O homem então, mais insone e melancólico do que nunca, passou a acreditar em uma morte digna para aquela formiga que havia levado uma vida tão honrada. E que tinha sido, por algumas noites, a ocupação de sua existência vazia.
Hoje eu penso no livro e em seu conselho pedagógico. Será que quem decidiu pela inclusão daquele conto numa publicação destinada a crianças de dez anos imaginou que já estava na hora de elas tomarem contato com a solidão e o abandono? Será que aquele editor visionário acreditou que as crianças, dali a poucos anos, teriam de se haver muito mais com a melancolia do que com as equações de primeiro grau e os tipos de solo da África setentrional? Será que o livro, muito além de permitir o nosso ingresso no ginásio, era o primeiro passaporte para a nossa vida adulta?
Hoje eu deixei, por descuido, um pedacinho de maçã em cima da pia da cozinha e, quando voltei, encontrei ali ao menos umas trezentas formigas, ouriçadas com o calor e a refeição frugal. Pensei naquele homem do conto e em quantas histórias ele teria de criar para deixar cada uma daquelas formiguinhas felizes diante de sua nova identidade. Porém, como a vida corre e, entre todas as lições que aprendemos estão a higiene e a crueldade, expulsei-as todas com uma enxurrada produzida por um copo americano com água até as bordas. E elas escorreram pelo ralinho da pia, felizes e pagãs, rumo ao esgoto lá embaixo, onde cada uma poderá criar sua própria história.
terça-feira, janeiro 13, 2009
sexta-feira, janeiro 09, 2009
Felicidade? Não tem ninguém em casa.
Esta semana, durante um almoço, conversei com um amigo muito querido sobre um tema curioso: o boicote à felicidade. Experiente profissional da psicanálise, ele disse acreditar, por experiência de consultório, que da mesma maneira que existem pessoas hábeis em se afastar da dor, há aquelas que fazem de tudo para não permitir a chegada da felicidade. Por uma incapacidade de admitir um final feliz em suas histórias, elas colocam em prática algum mecanismo de defesa capaz de pôr tudo a perder: escolhem conscientemente as palavras mais ásperas, as atitudes mais grosseiras, o caminho mais tortuoso e a expressão mais hostil até que, a felicidade que chegava de mansinho na vida delas, se assuste e fuja na mesma hora. E se a felicidade insistir e não fugir delas, tudo bem também: elas saberão como fugir da felicidade. A conversa com o amigo termina por aqui. O que vêm a seguir são minhas divagações – e é bem provável que o amigo, se algum dia passar por aqui, nem concorde com elas.
O que eu sinto é que todo mundo já se encontrou, ao menos uma vez na vida (e seria ótimo se tivesse sido uma vez só) nesta situação: fugir com medo da alegria que um emprego novo, um amor, uma viagem ou uma aventura pudesse nos trazer. Colocamos nossos planos no papel e vemos que aquilo tem tudo para dar certo... a menos que nós não deixemos. E então nós não deixamos. Por comodismo, por medo ou, o que é um milhão de vezes pior, por não nos sentirmos merecedores ou dignos de um presente que a vida está prestes a nos dar. Como os presentes da vida não costumam ser gratuitos, talvez os rejeitemos por saber, de antemão, que em algum momento chegará a fatura.
O que me causa espanto, neste terreno, é constatar a nossa capacidade de reação diante da dor, da morte, do inevitável. Encontramos forças para reagir àquilo que nos faz mal e nos mostramos impressionantemente fracos e covardes quando somos obrigados a encarar a felicidade. Logo ela, que é tão mais frágil que o seu algoz. Às vezes, talvez como qualquer pessoa, eu me vejo tomando algumas atitudes que naquele momento não me farão feliz de modo algum. Mas eu levo a idéia adiante com a desculpa de que se trata de um mal necessário. Digo para mim mesmo: isso que estou fazendo agora está me deixando muito triste e contrariado, mas é algo que precisa ser feito, porque lá na frente eu vou me orgulhar desta minha força. É como os nossos pais, que depois de nos aplicar uma severa punição na infância, nos diziam que lá na frente nós iríamos agradecê-los por tantos tabefes e privações...
A gente cresce, se afasta dos pais mas continua a se tratar do mesmo modo: esbofeteamos a nossa alegria e o nosso desejo com a desculpa de que amanhã encontraremos uma explicação e uma recompensa para tanto desfalque. A cada dia eu tenho mais medo de que este amanhã nunca chegue. E mais medo ainda de que, caso este amanhã efetivamente chegar, ele não saiba mais identificar o que de nobre existe por debaixo de tantos hematomas que nós mesmos nos causamos.
O que eu sinto é que todo mundo já se encontrou, ao menos uma vez na vida (e seria ótimo se tivesse sido uma vez só) nesta situação: fugir com medo da alegria que um emprego novo, um amor, uma viagem ou uma aventura pudesse nos trazer. Colocamos nossos planos no papel e vemos que aquilo tem tudo para dar certo... a menos que nós não deixemos. E então nós não deixamos. Por comodismo, por medo ou, o que é um milhão de vezes pior, por não nos sentirmos merecedores ou dignos de um presente que a vida está prestes a nos dar. Como os presentes da vida não costumam ser gratuitos, talvez os rejeitemos por saber, de antemão, que em algum momento chegará a fatura.
O que me causa espanto, neste terreno, é constatar a nossa capacidade de reação diante da dor, da morte, do inevitável. Encontramos forças para reagir àquilo que nos faz mal e nos mostramos impressionantemente fracos e covardes quando somos obrigados a encarar a felicidade. Logo ela, que é tão mais frágil que o seu algoz. Às vezes, talvez como qualquer pessoa, eu me vejo tomando algumas atitudes que naquele momento não me farão feliz de modo algum. Mas eu levo a idéia adiante com a desculpa de que se trata de um mal necessário. Digo para mim mesmo: isso que estou fazendo agora está me deixando muito triste e contrariado, mas é algo que precisa ser feito, porque lá na frente eu vou me orgulhar desta minha força. É como os nossos pais, que depois de nos aplicar uma severa punição na infância, nos diziam que lá na frente nós iríamos agradecê-los por tantos tabefes e privações...
A gente cresce, se afasta dos pais mas continua a se tratar do mesmo modo: esbofeteamos a nossa alegria e o nosso desejo com a desculpa de que amanhã encontraremos uma explicação e uma recompensa para tanto desfalque. A cada dia eu tenho mais medo de que este amanhã nunca chegue. E mais medo ainda de que, caso este amanhã efetivamente chegar, ele não saiba mais identificar o que de nobre existe por debaixo de tantos hematomas que nós mesmos nos causamos.
quinta-feira, janeiro 08, 2009
Mais um pouquinho de Cuba




A cidade de Havana é uma Marilyn Monroe aos 80 anos. Você olha para ela e diz: “Uau, como deve ter sido estonteante”. Mas o tempo, o descaso com o patrimônio histórico e a comovente falta de recursos para obras de conservação não destruíram a beleza da cidade; ao contrário, converteram-na em melancolia. O que não deixa de ser, de certo modo, uma manifestação de beleza também, mais contemplativa e calada do que esfuziante. Em algum momento da primeira metade do século 20, vivendo sob algum regime ditatorial de direita, Havana deve ter sido uma Madri à beira-mar, com suas construções imponentes, suas avenidas largas e suas praças bem desenhadas que hoje cheiram a esgoto – assim como quase todas as suas vielas centrais. Como as autoridades locais afirmam que não há assaltos na cidade, já que o porte de armas, ainda que brancas, é exemplarmente proibido, deixar-se perder pelas ruas do centro velho é um convite irrecusável.
Tudo tem gosto de passado em Havana, mas de um passado imperativo, que de alguma forma não permitiu a chegada do presente. A Europa deve estar cheia de cidadezinhas antigas, mas sempre haverá uma lan-house, uma loja da Armani e um McDonald’s a nos lembrar que estamos confortavelmente instalados no século 21. Em Havana, não. O passado nos envolve de tal maneira que avistar alguém falando ao celular, cena raríssima, já provoca quase que um susto. E no meio desta arquitetura esfolada, cujos prédios alquebrados expõem seus fios elétricos e encanamentos como se fossem vísceras, os cubanos cantam, dançam, jogam beisebol em cada terreno baldio ou sentam-se na calçada à espera de alguma coisa que provavelmente não chegará tão cedo.
Entre tantos Chevrolet dos anos 50, de cores que já não existem mais no mercado, circulam alguns Renault, BMW e Peugeout novinhos. Pergunto aos guias de quem são. “Dos funcionários do governo”, eles me respondem, de forma a reforçar a idéia inicial de que no socialismo todos são iguais, embora uns sejam mais iguais que os outros. Há um passeio memorável em Havana, que se torna obrigatório se feito ao fim da tarde – é caminhar por um trecho dos 11 quilômetros do Malecon, aquela calçada murada que protege a cidade das ondas do Atlântico. Talvez se dê ali o por-do-sol mais belo da ilha, mas o espetáculo não é da natureza, e sim das centenas de jovens que sentam-se naquele arremedo de muralha com os olhos perdidos no horizonte. A 140 quilômetros dali está Miami – mas não acredito, sinceramente, que seja esta a paisagem que os olhos deles não alcançam. Penso que eles olham, e talvez sonhem, com alguma coisa que se esconde do lado de lá do mar – na geografia é Miami, mas no coração poderia ser simplesmente o futuro.
Durante os nove dias em que passei na ilha, li com um interesse desmedido o romance Na Praia, do escritor inglês Ian McEwan, a alquimia mais perfeita entre amor e tristeza a que tive acesso nos últimos tempos. O livro, absolutamente essencial, deve ter tido um sabor muito diferente para mim, pois trata-se de narrar uma história que poderia ter sido e não foi. Assim como Cuba, que também poderia ter sido e não foi. O livro certo no lugar certo. Uma tristeza grande, assumo. Mas uma esperança ainda maior.
Tudo tem gosto de passado em Havana, mas de um passado imperativo, que de alguma forma não permitiu a chegada do presente. A Europa deve estar cheia de cidadezinhas antigas, mas sempre haverá uma lan-house, uma loja da Armani e um McDonald’s a nos lembrar que estamos confortavelmente instalados no século 21. Em Havana, não. O passado nos envolve de tal maneira que avistar alguém falando ao celular, cena raríssima, já provoca quase que um susto. E no meio desta arquitetura esfolada, cujos prédios alquebrados expõem seus fios elétricos e encanamentos como se fossem vísceras, os cubanos cantam, dançam, jogam beisebol em cada terreno baldio ou sentam-se na calçada à espera de alguma coisa que provavelmente não chegará tão cedo.
Entre tantos Chevrolet dos anos 50, de cores que já não existem mais no mercado, circulam alguns Renault, BMW e Peugeout novinhos. Pergunto aos guias de quem são. “Dos funcionários do governo”, eles me respondem, de forma a reforçar a idéia inicial de que no socialismo todos são iguais, embora uns sejam mais iguais que os outros. Há um passeio memorável em Havana, que se torna obrigatório se feito ao fim da tarde – é caminhar por um trecho dos 11 quilômetros do Malecon, aquela calçada murada que protege a cidade das ondas do Atlântico. Talvez se dê ali o por-do-sol mais belo da ilha, mas o espetáculo não é da natureza, e sim das centenas de jovens que sentam-se naquele arremedo de muralha com os olhos perdidos no horizonte. A 140 quilômetros dali está Miami – mas não acredito, sinceramente, que seja esta a paisagem que os olhos deles não alcançam. Penso que eles olham, e talvez sonhem, com alguma coisa que se esconde do lado de lá do mar – na geografia é Miami, mas no coração poderia ser simplesmente o futuro.
Durante os nove dias em que passei na ilha, li com um interesse desmedido o romance Na Praia, do escritor inglês Ian McEwan, a alquimia mais perfeita entre amor e tristeza a que tive acesso nos últimos tempos. O livro, absolutamente essencial, deve ter tido um sabor muito diferente para mim, pois trata-se de narrar uma história que poderia ter sido e não foi. Assim como Cuba, que também poderia ter sido e não foi. O livro certo no lugar certo. Uma tristeza grande, assumo. Mas uma esperança ainda maior.
terça-feira, janeiro 06, 2009
Meu mundo caiu
O caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo trouxe, no último domingo, uma entrevista muito interessante com o diretor Jayme Monjardin, a propósito do lançamento da minissérie Maysa, inspirada na genial cantora de voz grave e dolorida que, por sinal, foi também sua mãe. Para se dedicar à carreira, ou talvez pela compreensível dificuldade em educar uma criança, Maysa concordou que o filho, ainda garoto, fosse enviado a um colégio interno na Espanha, onde ele passou anos de uma solidão impressionante. Este foi apenas um dos episódios de sua infância sobre o qual Monjardin resolveu falar. E arrematou a entrevista dizendo que não se sentia vítima de nada, que entendia as atitudes que a mãe tomou ao longo da vida e que aceitava o fato de que pagara o preço por ser filho de uma grande artista. Ponto para ele.
Até que ontem a Rede Globo exibiu o primeiro capítulo da minissérie, que parece ter alcançado índices históricos no ibope, algo em torno de 30 pontos. Fiquei em casa para assistir e, confesso aqui, não acreditei no que vi. Dos diálogos às falhas na escalação do elenco, da reconstituição de época à apresentação dos personagens, era tudo tão precário e melodramático que fica difícil acreditar que não tenha havido, por parte do diretor, uma impossibilidade de se haver com a mãe após tantos episódios de abandono e indiferença. Maysa, que fez gravações históricas e definitivas de clássicos como Chão de Estrelas e Ne me Quitte Pas, merecia um pouquinho mais de carinho.
Até que ontem a Rede Globo exibiu o primeiro capítulo da minissérie, que parece ter alcançado índices históricos no ibope, algo em torno de 30 pontos. Fiquei em casa para assistir e, confesso aqui, não acreditei no que vi. Dos diálogos às falhas na escalação do elenco, da reconstituição de época à apresentação dos personagens, era tudo tão precário e melodramático que fica difícil acreditar que não tenha havido, por parte do diretor, uma impossibilidade de se haver com a mãe após tantos episódios de abandono e indiferença. Maysa, que fez gravações históricas e definitivas de clássicos como Chão de Estrelas e Ne me Quitte Pas, merecia um pouquinho mais de carinho.
segunda-feira, janeiro 05, 2009
...Mas com um corpinho de vinte!
Eu nunca gostei muito de ler matérias que nos dão orientações sobre como viver mais e melhor. Invariavelmente, elas vêm acompanhadas de alguns testes muito cruéis. Parei de fazer estes testes quando descobri que, segundo eles, eu devo levar uma vida sedentária, me alimento mal, sou sexualmente frustrado, estou longe da realização profissional e caminho para uma velhice solitária. Mas não estou sozinho neste calvário. Até hoje não encontrei ninguém que satisfizesse a todas às exigências propostas por este tipo de teste. Ou, se tal pessoa existe, ela só conseguiu ser aprovada porque se afastou do convívio social – já que todos os hábitos são condenados nestas matérias, como o fumo, a bebida, as poucas horas de sono, a vida nas grandes cidades, a solidão. Em resumo: nós. Concluí que para ir bem nos testes é preciso, acima de tudo, ser uma pessoa muita chata – e por isso prefiro ficar entre a maioria de reprovados.
Mas confesso que esta semana li com interesse ímpar uma matéria especial da revista Veja sobre o processo de envelhecimento do corpo humano. Assumo que não compreendo algumas estatísticas apresentadas pela matéria. Por exemplo: a reportagem diz que se a gente tomar duas taças de vinho todos os dias pode ganhar mais três anos de vida. Então eu pergunto: três anos a partir de que data? Fico imaginando a cena. Daqui a muito tempo (se Deus quiser) um amigo meu ligará para um outro perguntando assim:
- Nossa, você viu quem morreu?
- Não. Quem?
- O Roveri.
- Jura?
- Juro, morreu hoje.
- Coitado. Quantos anos ele tinha?
- Oitenta.
- Ah, até que viveu bem. Ele devia ter morrido aos 77, mas como passou a tomar duas taças de vinho por dia, ganhou três anos a mais.
- Puxa, que notícia boa. Isso merece um brinde.
- Mas com vinho, né?
- Tim-Tim
- Ao Roveri, que descanse em paz...
Outra parte do estudo revela que se a gente não levar a vida a ferro e fogo, ganha um ano e meio a mais. Deus do céu, agora tem até data quebrada. Como a pesquisa chegou a esta conclusão? Como a ciência pode nos dizer com precisão com que data morreríamos se fôssemos um bando de workaholic sem lazer algum e quando iríamos para a cova se tivéssemos nos filiado à trupe dos bon vivant? Quem não fuma, segundo a revista, pode esperar viver cinco anos a mais. Eu nunca botei um cigarro na boca, de verdade. Então vocês terão de me agüentar, no mínimo, até 2014 – porque eu clamo por estes meus cinco anos extras a partir de hoje.
Mas uma coisa me deixou realmente muito triste na reportagem. Foi saber que, por dia, de 50 a 70 bilhões de células do nosso corpo se suicidam. Isso mesmo, elas se matam deliberadamente. Isso dá uma média de 2,5 bilhões de células se matando por hora. Como eu levo em média meia hora para escrever um post, terei 1,25 bilhão de células a menos quando puser o ponto final aqui. Eu acho que é por isso que, às vezes, a gente sente uma tristeza profunda sem causa definida: é muita célula se matando ao mesmo tempo sem que a gente possa ajudar a salvar as coitadinhas. Em algum lugar isso tem de estourar, não é possível que esta matança coletiva passasse em branco. Imagino outra cena. Uma célula chega para a outra e diz:
- Você não sabe quem acabou de se matar?
- Me conta, me conta...
- Aquelas 576 mil células do intestino reto. Estão dizendo lá embaixo que foi uma ação coordenada. Elas se abraçaram, prenderam a respiração e deram juntas um último punzinho. Não deu tempo de ninguém fazer nada...
- Ah, caguei pra elas. Eram umas cu doce. Não olhavam na cara de ninguém. Parecia que elas tinham o rei na barriga. Já vão tarde aquelas fedidas...
- É, pensando bem, você está certa. Mas...
- Mas o quê? Lá vem você com seu pessimismo de novo.
- É muita célula se matando junta. Já pensou se a moda pega?
- Sai pra lá, eu, hein... Quero morrer de velha.
- Eu também. Vamos fazer um brinde à nossa longevidade, então?
- Um brinde? Mas a cena de cima já terminou com um brinde. Não é falta de imaginação terminar esta assim também?
- Claro que não. A matéria falou em duas taças de vinho por dia. Na cena de cima eles tomaram uma, agora a gente toma a outra.
- Por isso que eu gosto de você, sempre tão inteligente e bonita...
- É o silicone, querida...é tudo silicone.
- Tim-tim
Mas confesso que esta semana li com interesse ímpar uma matéria especial da revista Veja sobre o processo de envelhecimento do corpo humano. Assumo que não compreendo algumas estatísticas apresentadas pela matéria. Por exemplo: a reportagem diz que se a gente tomar duas taças de vinho todos os dias pode ganhar mais três anos de vida. Então eu pergunto: três anos a partir de que data? Fico imaginando a cena. Daqui a muito tempo (se Deus quiser) um amigo meu ligará para um outro perguntando assim:
- Nossa, você viu quem morreu?
- Não. Quem?
- O Roveri.
- Jura?
- Juro, morreu hoje.
- Coitado. Quantos anos ele tinha?
- Oitenta.
- Ah, até que viveu bem. Ele devia ter morrido aos 77, mas como passou a tomar duas taças de vinho por dia, ganhou três anos a mais.
- Puxa, que notícia boa. Isso merece um brinde.
- Mas com vinho, né?
- Tim-Tim
- Ao Roveri, que descanse em paz...
Outra parte do estudo revela que se a gente não levar a vida a ferro e fogo, ganha um ano e meio a mais. Deus do céu, agora tem até data quebrada. Como a pesquisa chegou a esta conclusão? Como a ciência pode nos dizer com precisão com que data morreríamos se fôssemos um bando de workaholic sem lazer algum e quando iríamos para a cova se tivéssemos nos filiado à trupe dos bon vivant? Quem não fuma, segundo a revista, pode esperar viver cinco anos a mais. Eu nunca botei um cigarro na boca, de verdade. Então vocês terão de me agüentar, no mínimo, até 2014 – porque eu clamo por estes meus cinco anos extras a partir de hoje.
Mas uma coisa me deixou realmente muito triste na reportagem. Foi saber que, por dia, de 50 a 70 bilhões de células do nosso corpo se suicidam. Isso mesmo, elas se matam deliberadamente. Isso dá uma média de 2,5 bilhões de células se matando por hora. Como eu levo em média meia hora para escrever um post, terei 1,25 bilhão de células a menos quando puser o ponto final aqui. Eu acho que é por isso que, às vezes, a gente sente uma tristeza profunda sem causa definida: é muita célula se matando ao mesmo tempo sem que a gente possa ajudar a salvar as coitadinhas. Em algum lugar isso tem de estourar, não é possível que esta matança coletiva passasse em branco. Imagino outra cena. Uma célula chega para a outra e diz:
- Você não sabe quem acabou de se matar?
- Me conta, me conta...
- Aquelas 576 mil células do intestino reto. Estão dizendo lá embaixo que foi uma ação coordenada. Elas se abraçaram, prenderam a respiração e deram juntas um último punzinho. Não deu tempo de ninguém fazer nada...
- Ah, caguei pra elas. Eram umas cu doce. Não olhavam na cara de ninguém. Parecia que elas tinham o rei na barriga. Já vão tarde aquelas fedidas...
- É, pensando bem, você está certa. Mas...
- Mas o quê? Lá vem você com seu pessimismo de novo.
- É muita célula se matando junta. Já pensou se a moda pega?
- Sai pra lá, eu, hein... Quero morrer de velha.
- Eu também. Vamos fazer um brinde à nossa longevidade, então?
- Um brinde? Mas a cena de cima já terminou com um brinde. Não é falta de imaginação terminar esta assim também?
- Claro que não. A matéria falou em duas taças de vinho por dia. Na cena de cima eles tomaram uma, agora a gente toma a outra.
- Por isso que eu gosto de você, sempre tão inteligente e bonita...
- É o silicone, querida...é tudo silicone.
- Tim-tim
domingo, janeiro 04, 2009
La isla bonita
Até bem pouco tempo atrás, havia um título que crescia feito praga nos cadernos de turismo dos principais jornais brasileiros. Um repórter era enviado para passar uma semana em algum país mais ou menos exótico, não entendia direito o que via por lá e, na volta, quando terminava de escrever a matéria, empregava o seguinte título: Angola, um país de contrastes. Ou Honduras, um país de contrastes. Ou ainda Nova Zelândia, um país de contrastes. Até que algum editor mais exigente, cansado de saber que este título poderia ser usado para descrever qualquer lugar que se visitasse, resolveu bani-lo para sempre das redações. Aposto que há pelo menos uns dez anos ninguém vê um título como este, ao menos na grande imprensa. Escrevo isso para informar que acabo de voltar de uma viagem de dez dias a Cuba – estive lá na semana em que a revolução de Fidel Castro completou 50 anos sem festas, pois a ordem no país era economizar cada centavo de peso para tentar recuperar uma economia devastada por três furacões que atingiram o país no início do segundo semestre de 2008. E, como até agora eu ainda não entendi direito tudo o que vi por lá, se fosse convidado a escrever uma matéria sobre a ilha, adoraria que o título fosse Cuba, um país de contrates. Ainda que todos os meus amigos jornalistas rissem da minha cara por semanas a fio.
Um post deve ser pouco para dar conta da quantidade e da disparidade de sentimentos e impressões que a ilha ainda nos proporciona. Embora eu não pretenda transformar estes dias dez em um diário de viagem, talvez fosse interessante, ao longo da semana, voltar ao assunto. Não faço aqui uma promessa, só uma sugestão. Veremos.
Eu nunca estive em países notoriamente caros para o turista, como o Japão, a Suécia ou a Rússia. Mas no quesito hemorragia na carteira, tenho certeza de que Cuba não faria feito diante deles. O país funciona com duas moedas: o peso cubano, dinheiro dos locais, e os temíveis CUCs (cubanos convertidos), que circula no bolso dos turistas. Por alguma magia do governo, um CUC equivale a um euro ou a oitenta centavos de dólares. Ou, para desespero dos brasileiros, a pouco mais de três reais. Além do sorriso constante e da simpatia dos cubanos, nada mais é de graça no país.
Um folheto com informações turísticas básicas, destes disponíveis aos montes nas rodoviárias, estações de trem, aeroportos e lobbys de hotel de qualquer lugar do mundo, em Cuba custa 10 reais. Sim, dez reais por um pedacinho de papel dobrado em quatro que mostra, por exemplo, um mapa de Havana com as indicações dos principais pontos a ser visitados. Uma hora de internet sai por 33 reais – e, como eles não têm banda larga, você responde quatro e-mails e percebe que seu tempo acabou. Por uma ligação de menos de dois minutos para o Brasil, em que só temos tempo de desejar um apressado feliz ano novo para a primeira pessoa da família a atender o telefone, ainda que não seja a mais íntima, temos de pagar em torno de 23 reais, enquanto que um passeio de três horas de barco pelas inacreditáveis praias da ilha, com direito apenas a água, não sai por menos de 120 reais.
Perguntei a um guia se ele não achava estas quantias uma afronta ao turismo e ele me respondeu que sim, que achava sim. “Ainda mais quando eu penso que o meu salário mínimo é de 60 reais por mês”, ele me respondeu. Argumentei, depois de ter lido esta informação em vários sites de viagem, que Cuba estava perdendo turistas para a Costa Rica, a República Dominicana e dezenas de ilhas no Caribe, onde se gastava bem menos para se extasiar da mesma forma diante de um mar azul-turquesa. “Mas a Fidel não interessam os turistas”, ele respondeu. “Fidel diz que ninguém é obrigado a vir aqui. Se não quiserem vir, que não venham”. E o senhor concorda com isso, eu perguntei. “Pelo amor de Deus, o turismo é a única forma de termos comida até o fim do mês. Sem o turismo, jamais teríamos como ganhar um dinheiro extra para alimentar nossas famílias”. Este guia, que abordava os turistas na rua com a discrição de um espião, já que não era ligado às agências oficiais do turismo e, portanto, proibido de exercer tal atividade, tinha como ocupação oficial o comando da cozinha de um dos maiores hotéis de Havana, onde trabalhava em turnos de 24 horas por 48 de descanso. “Com o que eu ganho lá, e por mais que economize, eu só tenho condições de sustentar minha casa e meus dois filhos por 14 dias. Os outros 16 eu completo com o que faturo nesta caça aos turistas”.
Este guia foi apenas a primeira das dezenas de pessoas que encontrei ocupando postos de trabalho diferentes daqueles para os quais haviam se preparado. Uma outra guia de viagem, que passava os dias tentando vender excursões de barco, era engenheira química formada na antiga Alemanha Oriental num curso superior de seis anos de duração. O rapaz que recolhia os guarda-sóis e as cadeiras de praia no fim do dia era graduado em história da arte e engenharia mecânica. O mestre de cerimônia dos shows divertidos e precários mostrados em um hotel na beira da praia havia se formado em medicina veterinária há dez anos. Todos optaram por trabalhar ao lado dos turistas porque dali vinha o imprescindível reforço do seu orçamento. Sempre que eu conversava com eles, saía com a impressão de que alguns conceitos talvez excessivamente burgueses como a realização profissional, os anseios, as aspirações sociais e o desejo humano por excelência, o da liberdade, não faziam muito parte da realidade de cada um. “Eu acho que as pessoas são felizes”, me disse o moço das cadeiras de praia. “Nós temos tudo, uma casa, serviço médico e podemos estudar. Só não temos dinheiro”.
Hoje, ao revirar rapidamente os jornais acumulados na porta de casa ao longo destes dez dias, vejo uma matéria sobre um escritor e um fotógrafo que foram a Cuba para reproduzir os passos de Che Guevara durante a revolução. No final, eles se confessaram atordoados com a melancolia e a falta de perspectiva e liberdade dos cubanos. Eu, que nunca fui muito competente em ciência política, não paro de me perguntar em qual momento a revolução falhou. Pois falhou, sim. O ser humano não nasceu apenas para ter uma casa e direito à assistência médica e formação escolar. Eu acredito que o ser humano precisa de algo muito mais valioso, algo que não encontrou espaço na revolução: o sonho. Precisa acreditar, ainda que em vão, que o dia de amanhã pode ser diferente do dia de hoje. E poder lutar por isso. Sem isso, não vivemos. E que me perdoem os esquerdistas convictos que com certeza dirão que em Cuba não há crianças pedindo esmolas na rua, como aqui no Brasil. Dou razão a eles: realmente não vi crianças pedindo esmolas nas ruas. Vi seus pais fazendo isso.
Eu já falei aqui sobre meus dois gatinhos, o Pirulito e a Ritinha. Pois bem, eles têm casa, comida e assistência médica. Como ficam de olhos atentos no monitor do meu computador quando estou trabalhando, eu ousaria dizer que eles contam com formação escolar também. Mas todo fim de tarde, sem exceção, os dois vão para a janela e ficam observando o mundo lá fora, através das redinhas de proteção que revestem todo o apartamento. Nestas horas, se eu pudesse entrar na cabecinha deles, eu sei que veria um mundo em que os dois se imaginariam livres para caçar pardais, revirar uma lata de lixo e se entregar à uma ruidosa noite de amor no telhado de alguma casa. Eu tenho certeza de que, por um único dia na vida, eles trocariam a casa, a comida e o veterinário grátis pelo prazer de experimentar a liberdade do lado de lá das redinhas – ainda que isso lhe custasse alguns arranhões e mordidas de outros gatos igualmente livres. Na próxima tarde, quando Pirulito e Ritinha subirem de novo ao parapeito da janela para ver o mundo lá fora, eu ficarei triste por eles, como já fico, e por todos os cubanos sorridentes e amáveis que conheci na viagem.
Se ninguém reclamar, eu falo mais um pouquinho de Cuba no próximo post!
Um post deve ser pouco para dar conta da quantidade e da disparidade de sentimentos e impressões que a ilha ainda nos proporciona. Embora eu não pretenda transformar estes dias dez em um diário de viagem, talvez fosse interessante, ao longo da semana, voltar ao assunto. Não faço aqui uma promessa, só uma sugestão. Veremos.
Eu nunca estive em países notoriamente caros para o turista, como o Japão, a Suécia ou a Rússia. Mas no quesito hemorragia na carteira, tenho certeza de que Cuba não faria feito diante deles. O país funciona com duas moedas: o peso cubano, dinheiro dos locais, e os temíveis CUCs (cubanos convertidos), que circula no bolso dos turistas. Por alguma magia do governo, um CUC equivale a um euro ou a oitenta centavos de dólares. Ou, para desespero dos brasileiros, a pouco mais de três reais. Além do sorriso constante e da simpatia dos cubanos, nada mais é de graça no país.
Um folheto com informações turísticas básicas, destes disponíveis aos montes nas rodoviárias, estações de trem, aeroportos e lobbys de hotel de qualquer lugar do mundo, em Cuba custa 10 reais. Sim, dez reais por um pedacinho de papel dobrado em quatro que mostra, por exemplo, um mapa de Havana com as indicações dos principais pontos a ser visitados. Uma hora de internet sai por 33 reais – e, como eles não têm banda larga, você responde quatro e-mails e percebe que seu tempo acabou. Por uma ligação de menos de dois minutos para o Brasil, em que só temos tempo de desejar um apressado feliz ano novo para a primeira pessoa da família a atender o telefone, ainda que não seja a mais íntima, temos de pagar em torno de 23 reais, enquanto que um passeio de três horas de barco pelas inacreditáveis praias da ilha, com direito apenas a água, não sai por menos de 120 reais.
Perguntei a um guia se ele não achava estas quantias uma afronta ao turismo e ele me respondeu que sim, que achava sim. “Ainda mais quando eu penso que o meu salário mínimo é de 60 reais por mês”, ele me respondeu. Argumentei, depois de ter lido esta informação em vários sites de viagem, que Cuba estava perdendo turistas para a Costa Rica, a República Dominicana e dezenas de ilhas no Caribe, onde se gastava bem menos para se extasiar da mesma forma diante de um mar azul-turquesa. “Mas a Fidel não interessam os turistas”, ele respondeu. “Fidel diz que ninguém é obrigado a vir aqui. Se não quiserem vir, que não venham”. E o senhor concorda com isso, eu perguntei. “Pelo amor de Deus, o turismo é a única forma de termos comida até o fim do mês. Sem o turismo, jamais teríamos como ganhar um dinheiro extra para alimentar nossas famílias”. Este guia, que abordava os turistas na rua com a discrição de um espião, já que não era ligado às agências oficiais do turismo e, portanto, proibido de exercer tal atividade, tinha como ocupação oficial o comando da cozinha de um dos maiores hotéis de Havana, onde trabalhava em turnos de 24 horas por 48 de descanso. “Com o que eu ganho lá, e por mais que economize, eu só tenho condições de sustentar minha casa e meus dois filhos por 14 dias. Os outros 16 eu completo com o que faturo nesta caça aos turistas”.
Este guia foi apenas a primeira das dezenas de pessoas que encontrei ocupando postos de trabalho diferentes daqueles para os quais haviam se preparado. Uma outra guia de viagem, que passava os dias tentando vender excursões de barco, era engenheira química formada na antiga Alemanha Oriental num curso superior de seis anos de duração. O rapaz que recolhia os guarda-sóis e as cadeiras de praia no fim do dia era graduado em história da arte e engenharia mecânica. O mestre de cerimônia dos shows divertidos e precários mostrados em um hotel na beira da praia havia se formado em medicina veterinária há dez anos. Todos optaram por trabalhar ao lado dos turistas porque dali vinha o imprescindível reforço do seu orçamento. Sempre que eu conversava com eles, saía com a impressão de que alguns conceitos talvez excessivamente burgueses como a realização profissional, os anseios, as aspirações sociais e o desejo humano por excelência, o da liberdade, não faziam muito parte da realidade de cada um. “Eu acho que as pessoas são felizes”, me disse o moço das cadeiras de praia. “Nós temos tudo, uma casa, serviço médico e podemos estudar. Só não temos dinheiro”.
Hoje, ao revirar rapidamente os jornais acumulados na porta de casa ao longo destes dez dias, vejo uma matéria sobre um escritor e um fotógrafo que foram a Cuba para reproduzir os passos de Che Guevara durante a revolução. No final, eles se confessaram atordoados com a melancolia e a falta de perspectiva e liberdade dos cubanos. Eu, que nunca fui muito competente em ciência política, não paro de me perguntar em qual momento a revolução falhou. Pois falhou, sim. O ser humano não nasceu apenas para ter uma casa e direito à assistência médica e formação escolar. Eu acredito que o ser humano precisa de algo muito mais valioso, algo que não encontrou espaço na revolução: o sonho. Precisa acreditar, ainda que em vão, que o dia de amanhã pode ser diferente do dia de hoje. E poder lutar por isso. Sem isso, não vivemos. E que me perdoem os esquerdistas convictos que com certeza dirão que em Cuba não há crianças pedindo esmolas na rua, como aqui no Brasil. Dou razão a eles: realmente não vi crianças pedindo esmolas nas ruas. Vi seus pais fazendo isso.
Eu já falei aqui sobre meus dois gatinhos, o Pirulito e a Ritinha. Pois bem, eles têm casa, comida e assistência médica. Como ficam de olhos atentos no monitor do meu computador quando estou trabalhando, eu ousaria dizer que eles contam com formação escolar também. Mas todo fim de tarde, sem exceção, os dois vão para a janela e ficam observando o mundo lá fora, através das redinhas de proteção que revestem todo o apartamento. Nestas horas, se eu pudesse entrar na cabecinha deles, eu sei que veria um mundo em que os dois se imaginariam livres para caçar pardais, revirar uma lata de lixo e se entregar à uma ruidosa noite de amor no telhado de alguma casa. Eu tenho certeza de que, por um único dia na vida, eles trocariam a casa, a comida e o veterinário grátis pelo prazer de experimentar a liberdade do lado de lá das redinhas – ainda que isso lhe custasse alguns arranhões e mordidas de outros gatos igualmente livres. Na próxima tarde, quando Pirulito e Ritinha subirem de novo ao parapeito da janela para ver o mundo lá fora, eu ficarei triste por eles, como já fico, e por todos os cubanos sorridentes e amáveis que conheci na viagem.
Se ninguém reclamar, eu falo mais um pouquinho de Cuba no próximo post!
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