Como muita gente, eu devo ter sido mais um a acompanhar preocupado as notícias sobre o desaparecimento das duas adolescentes de São Paulo, que após assistirem à sessão do filme Um Beijo Roubado resolveram picar a mula de ônibus e carona sem dar qualquer tipo de aviso aos pais. Vi, pelos jornais e pelas dezenas de e-mails que recebi durante os dias que elas permaneceram sumidas, a agonia e o desespero das duas famílias. Muitas vezes, estes casos não terminam bem e, embora torcemos desesperadamente por um desfecho otimista, há algo no nosso histórico que já nos faz sofrer por antecipação. Quando soube que elas tinham sido encontradas no Sul, respirei aliviado, por mim e pela família. Mas o susto maior ainda estava por vir. De acordo com o que a imprensa publicou, ao ser questionada por um policial se ela não se preocupava com o sofrimento e a dor dos pais, uma das garotas teria dito: fazer o quê?
Simples assim: fazer o quê? Esta frase não sai da minha cabeça. Quem faz análise já deve ter ouvido centenas de vezes que nós devemos nos considerar o centro do mundo - ou algo bem próximo disto. E que, por isso mesmo, temos de dar prioridade aos nossos próprios sentimentos antes de pensar tanto nos outros. Concordo em parte. Acredito que qualquer pessoa que não veja a si própria como o principal alvo de seus investimentos e preocupações, está condenada a passar por esta vida derrapando, sem chegar a lugar algum. Isto deve ser, imagino, o primeiro mandamento de qualquer livro de auto-ajuda: primeiro eu e, respeitando algumas regras da vida em coletividade, depois os outros. Assim, se existe uma parcela de dor que pode ser administrada, seria de bom tom que esta dor não caísse justamente sobre as nossas próprias cabeças - há um mundo inteiro à nossa volta sobre o qual ela pode ser despejada. Pensar assim parece ser, acima de tudo, uma atitude preservacionista.
Mas a questão que se impõe no caso das adolescentes é a seguinte: havia mesmo a necessidade de tanta dor? Será que a aventura delas e o êxtase da liberdade juvenil seriam menores se, ao parar em um posto de beira de estrada qualquer, elas fizessem uma ligação para os pais dizendo simplesmente que estavam vivas e se divertindo? E que voltariam, ou não, dentro de algum tempo. Mas que, acima de tudo e antes de mais nada, elas estavam vivas, felizes, saltitantes e não amarradas em um porão, vítimas de sequestradores. Se tivessem prestado realmente atenção no filme que viram, teriam notado que a personagem interpretada pela cantora Norah Jones, que também decide cair na estrada sem mais nem menos, enviou um cartão postal para o personagem de Jude Law de cada biboca que ela conheceu no grande deserto americano.
O personagem de Jude Law não era seu pai e nem seu namorado - ainda assim, durante o ano em que ela ficou longe, jamais deixou de avisá-lo que estava tudo bem. Ou seja, saber que aqueles que nos amam e se preocupam com a gente estão bem, é uma garantia extra de que nossa aventura será ainda mais completa. Não consigo me divertir e nem achar graça em nada quando eu tenho a certeza de que esta minha diversão está provocando uma dor desnecessária em alguém que me ame. Babaquice minha? Acredito que não. Simplesmente uma questão de respeito, que a gente já deve trazer do berço. Mas é preciso que alguém nos ensine isso. Que alguém nos mostre que a nossa liberdade pode ser infinda - desde que ela não se transforme em uma arma apontada para a cabeça daqueles a quem amamos e respeitamos.
No final do ano passado, uma garota de 16 anos, filha única, também sumiu da casa de seus pais, vizinhos dos meus na cidade de Jundiaí. Ela namorava um cara bem mais velho e sem emprego. Um dia, a mãe caiu na asneira de dizer que não concordava com o namoro e nem via um futuro bacana para a filha ao lado daquele cara. No dia seguinte, a menina virou pó. A mãe, além de tudo sentindo-se culpada pelo sumiço, caiu num desespero mitológico. Emagreceu perto de 20 quilos, precisou de ajuda psiquiátrica, não dormia e nem comia. Experimentou o inferno em vida. A menina ficou desaparecida quase dois meses. A polícia já não se preocupava muito mais com o caso. Até que um dia a garota ligou para dizer que estava bem, vivendo numa cidadezinha de Minas Gerais, ao lado do tal namorado mais velho, e que queria ser esquecida. Pediu para que a mãe parasse de procurá-la, pois ela não iria mais voltar. A mãe chorou tudo de novo, mas deve ter se sentido mais aliviada por saber que a filha estava viva - ainda que não quisesse mais vê-la. Para encurtar a história: um dia o dinheiro do namorado lá em Minas acabou e os dois voltaram com o rabo entre as pernas, implorando para que a mãe hospedasse e desse de comer para o casal. Este foi o final (feliz?) da história de Jundiaí.
A história das garotas de São Paulo também terminou bem, aparentemente. Viveram uma aventura adolescente, os pais não dormiram e ganharam alguns cabelos brancos, lágrimas foram desperdiçadas em vão... mas tudo bem! Os moderninhos dizem que a rebeldia adolescente é muito bem-vinda e ninguém pode conter os ímpetos juvenis sob o risco de produzir um adulto frustrado mais tarde. E então sejamos todos bem-vindos nesta fase do liberou geral. E que cada um chore por aquilo que é seu. Mas, além da frase "fazer o quê?", há um outro pensamento que não sai da minha cabeça: ainda bem que as meninas viram Um Beijo Roubado, que é quase uma fábula. Já imaginou o que elas teriam feito se tivessem visto Na Natureza Selvagem?
sexta-feira, junho 13, 2008
quarta-feira, junho 11, 2008
Ué, por que tá todo mundo voltando?
Cansada de apenas imitar a arte, parece que a vida resolveu se antecipar a ela. Na próxima sexta-feira, dia 13, entra em cartaz o novo filme do cineasta M. Night Shyamalan, Fim dos Tempos, em que ele mostra um misterioso surto que leva as pessoas a cometer suicídio. De repente, do nada, gente com uma vida estável começa a se jogar dos prédios, a explodir a própria cabeça, a se atirar na frente dos carros. É um modismo macabro, este. Pois aqui, na nossa São Paulo que fica bem longe de Hollywood, também estamos diante de um modismo igualmente estranho: o de dirigir na contramão. Nas últimas semanas, a polícia registrou pelo menos dez casos de motoristas que, sem razão aparente, resolveram dar meia-volta com seus veículos e enfrentar alguns poucos quilômetros com o resto do mundo vindo na direção contrária.
O fenômeno começou com um jovem bancário que dirigiu na contramão por um tempão na rodovia Castelo Branco, até dar de cara com um caminhão que pôs fim à sua aventura e também à sua vida. O caso foi tão impactante e inédito que os jornais reproduziram, por meio de desenhos, minuto a minuto da trajetória tresloucada do motorista. Seus familiares foram entrevistados, falou-se em bebedeira, em depressão, em suicídio. O que ninguém sabia, até aquele momento, é que, ao dirigir alguns quilômetros na contramão, ele estava abrindo caminho para que outros tantos motoristas viessem atrás: jovens, senhoras mais idosas e homens de vida regrada que, cansados de seguir o fluxo, quiseram experimentar a aventura do sentido contrário.
Um dia, por falta de atenção, também dirigi na contramão por apenas uma quadra no bairro das Perdizes. Eu tinha saído da academia e, ao virar numa rua cujo nome não me lembro, o pneu da frente entrou com tudo num buraco imenso. Fiquei tão puto que acelerei para sair dali e virei na primeira esquina que encontrei. De repente, ao chegar num cruzamento, vi que o semáforo estava de costas para mim. Mas não vinha ninguém de lugar algum. Dei meia-volta e fui embora como se nada tivesse havido. Minha sorte é que eu estava num bairro tranquilo, numa manhã ainda mais tranquila, e não na rodovia dos Imigrantes ou na Castelo Branco. Esta minha imprudência renderia, no máximo, algumas ofensas e um ou outro dedo médio em riste.
Mas como explicar tantos casos de gente que resolveu entrar pela porta de saída? Seria apenas uma grande coincidência o fato de todos estes casos de gente guiando na contramão terem ocorrido praticamente no último mês? O que haveria em comum entre estes dez motoristas? Teriam ouvido alguma mensagem cósmica dizendo quem for brasileiro que me siga? Estariam a serviço da nova máfia do Detran? Declararam guerra ao espelhinho retrovisor? Sucumbiram à tentação dos 15 quilômetros de fama? Ou resolveram, metaforicamente, resgatar alguma coisa que ficou esquecida lá atrás? Seja lá qual for a explicação, é bom que estejamos atentos porque, a qualquer momento, pode surgir diante de nós alguém a 100 quilômetros por hora dizendo que resolveu voltar de repente porque as coisas andam feias um pouco mais à frente....
O fenômeno começou com um jovem bancário que dirigiu na contramão por um tempão na rodovia Castelo Branco, até dar de cara com um caminhão que pôs fim à sua aventura e também à sua vida. O caso foi tão impactante e inédito que os jornais reproduziram, por meio de desenhos, minuto a minuto da trajetória tresloucada do motorista. Seus familiares foram entrevistados, falou-se em bebedeira, em depressão, em suicídio. O que ninguém sabia, até aquele momento, é que, ao dirigir alguns quilômetros na contramão, ele estava abrindo caminho para que outros tantos motoristas viessem atrás: jovens, senhoras mais idosas e homens de vida regrada que, cansados de seguir o fluxo, quiseram experimentar a aventura do sentido contrário.
Um dia, por falta de atenção, também dirigi na contramão por apenas uma quadra no bairro das Perdizes. Eu tinha saído da academia e, ao virar numa rua cujo nome não me lembro, o pneu da frente entrou com tudo num buraco imenso. Fiquei tão puto que acelerei para sair dali e virei na primeira esquina que encontrei. De repente, ao chegar num cruzamento, vi que o semáforo estava de costas para mim. Mas não vinha ninguém de lugar algum. Dei meia-volta e fui embora como se nada tivesse havido. Minha sorte é que eu estava num bairro tranquilo, numa manhã ainda mais tranquila, e não na rodovia dos Imigrantes ou na Castelo Branco. Esta minha imprudência renderia, no máximo, algumas ofensas e um ou outro dedo médio em riste.
Mas como explicar tantos casos de gente que resolveu entrar pela porta de saída? Seria apenas uma grande coincidência o fato de todos estes casos de gente guiando na contramão terem ocorrido praticamente no último mês? O que haveria em comum entre estes dez motoristas? Teriam ouvido alguma mensagem cósmica dizendo quem for brasileiro que me siga? Estariam a serviço da nova máfia do Detran? Declararam guerra ao espelhinho retrovisor? Sucumbiram à tentação dos 15 quilômetros de fama? Ou resolveram, metaforicamente, resgatar alguma coisa que ficou esquecida lá atrás? Seja lá qual for a explicação, é bom que estejamos atentos porque, a qualquer momento, pode surgir diante de nós alguém a 100 quilômetros por hora dizendo que resolveu voltar de repente porque as coisas andam feias um pouco mais à frente....
domingo, junho 08, 2008
Janelas cariocas

A peça Andaime está indo para o Rio de Janeiro, com uma modificação no elenco. Sai Cássio Scapin, que fez o personagem Claudionor com um delicioso mau-humor, e entra Elias Andreato, dono de uma ironia, um ar blasé e uma tendência ao auto-deboche que fazem dele um ator inglês perdido nos trópicos, sem passaporte e sem o endereço da embaixada. Estou curiosíssimo para ver esta mudança e saber como aqueles dois limpadores de janelas, tão paulistanos e tão comuns a nós todos, vão se comportar diante da praia. Aqui está o convitinho para a estréia. A temporada carioca só saiu, como de resto a paulista também havia saído, graças ao trabalho e à dedicação do incansável Claudinho Fontana, a quem - e ele já sabe disso - eu serei eternamente grato pelo carinho, pelo respeito e pela fé que ele sempre depositou no meu trabalho.
E prometo que agora passarei um bom tempo sem falar das minhas peças. Nos últimos dias, insisti demais neste assunto, com três posts, eu acredito. Mas é que foram dias lindos, cheios de surpresas e muita, muita ansiedade. A notícia do Andaime indo para o Rio e A Coleira de Bóris estreando em São Paulo. Não tinha como eu me mostrar indiferente a tudo isso. Foi uma dosagem alta de emoção, tudo concentrado, coisa que não acontece a todo instante em nossas vidas. Feito o registro aqui, garanto que da próxima vez em que eu voltar para o blog tentarei olhar menos para o meu próprio umbigo. A gente gosta muito do que faz, ainda bem. Mas o mundo lá fora continua mais desafiador, mais perigoso e, acima de tudo, MAIOR. E quando a gente se esquece disso, ainda que seja por uma semana, corre o risco de se afogar em nossas águas rasas e às vezes preocupantemente calmas.
sábado, junho 07, 2008
A coleira pelas lentes da Lenise



Conheço a fotógrafa Lenise Pinheiro há muitos anos. Ela me conhece há bem menos tempo. Quando eu trabalhava como repórter do Jornal da Tarde, eu já a via, máquina fotográfica e tripé em punho, nas estréias de peças, nas coletivas ou em uma ou outra atividade ligada ao teatro. Sabia que ela era fotógrafa da Folha de S. Paulo, mas nunca me aproximei dela. Eu achava que a Lenise fosse uma mulher brava. Uma daquelas pessoas a quem se a gente dirigisse a palavra para dizer algo assim: "olá, eu gosto muito das suas fotos", ela iria responder apenas um muito obrigado e viraria as costas para fazer algo mais interessante.
Então, a Lenise começou a se aproximar dos Satyros na mesma época que eu: ela, como iluminadora, e eu como autor. Ainda assim, nossos caminhos não se cruzavam. Até que algumas questões profissionais nos aproximaram e eu vi que a Lenise podia ser tudo, menos uma mulher brava. Aquela fala mansa, um coração de manteiga e um humor que somente as pessoas muito inteligentes e sensíveis têm. E daí nos tornamos amigos e até fizemos algumas coisas juntos. O talento da Lenise nunca foi surpresa para mim, mas confesso que, esta semana, ao ver as fotos que ela fez do meu espetáculo A Coleira de Bóris fiquei muito comovido com a força e o lirismo das imagens que ela captou. Peço licença a ela, então, para reproduzir aqui três destas visões.
Beijão, querida. E muito obrigado por este presentão.
sexta-feira, junho 06, 2008
Pequena fábula de um diretor
Há pouco mais de um ano, durante o último ensaio da minha peça Andaime, no Teatro Vivo, enquanto técnicos e iluminadores aprontavam o palco para a entrada dos atores Cláudio Fontana e Cássio Scapin, o diretor Gabriel Villela, que assinou o cenário e figurino daquela produção, estava sentado sozinho no meio da platéia, lá pela fileira M ou N. Lembro-me assim da cena: ele vestia uma camisa branca de mangas compridas, trazia as costas mal apoiadas no espaldar da poltrona e as pernas displicentemente atiradas no corredor. Estava absorto em algo que ouvia num Ipod - ou talvez fosse um discman. Ficou assim, absorto e distante durante uns quatro minutos - o tempo de uma canção, eu vim a saber depois. Então, pediu para que Elias Andreato, que estava no palco, se dirigisse até ele.
- Tome, Elias, ouça isso - disse entregando os fones ao companheiro.
Elias colocou os fones e ouviu atentamente. Seus olhos demonstravam que algo muito especial estava escapando daqueles fones de ouvido. Depois dos mesmos três ou quatro minutos, Elias retirou os fones e devolveu-os ao Gabriel em silêncio. Antes que perguntasse o porquê daquilo, Gabriel respondeu:
- É Elis Regina cantando Caça à Raposa, do João Bosco e Aldir Blanc. Eu queria que você notasse o respeito com que ela tratava cada uma das palavras que saía de sua boca. Nós temos de fazer, no teatro, o que ela fazia na música: saber reverenciar a palavra. É uma tradição que compete a nós manter.
Elias voltou silencioso para o palco e Gabriel, muito provavelmente, procurou outra coisa para ouvir no seu Ipod. E eu, que estava quieto ali do lado, agradeci ao destino por ter me colocado, mais uma vez, na hora certa e no local certo - ainda que pelo curto período de uma canção.
- Tome, Elias, ouça isso - disse entregando os fones ao companheiro.
Elias colocou os fones e ouviu atentamente. Seus olhos demonstravam que algo muito especial estava escapando daqueles fones de ouvido. Depois dos mesmos três ou quatro minutos, Elias retirou os fones e devolveu-os ao Gabriel em silêncio. Antes que perguntasse o porquê daquilo, Gabriel respondeu:
- É Elis Regina cantando Caça à Raposa, do João Bosco e Aldir Blanc. Eu queria que você notasse o respeito com que ela tratava cada uma das palavras que saía de sua boca. Nós temos de fazer, no teatro, o que ela fazia na música: saber reverenciar a palavra. É uma tradição que compete a nós manter.
Elias voltou silencioso para o palco e Gabriel, muito provavelmente, procurou outra coisa para ouvir no seu Ipod. E eu, que estava quieto ali do lado, agradeci ao destino por ter me colocado, mais uma vez, na hora certa e no local certo - ainda que pelo curto período de uma canção.
terça-feira, junho 03, 2008
Flyer da Coleira
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