terça-feira, maio 13, 2008

Bauer, House e Dexter: heróis para todos os gostos

Acabo de voltar da locadora. Fui devolver a caixa com a primeira temporada da série Dexter, com 12 episódios dos quais consegui ver apenas três. Não por falta de tempo, e sim de paciência mesmo. Dexter é um perito da polícia de Miami, um cara que entende tudo de sangue e por isso é chamado a solucionar alguns dos crimes mais espinhosos cometidos naquela cidade que, a julgar pelas paisagens tropicais e o onipresente sotaque espanhol, não passa de uma Havana muito mais limpa, chique e evoluída. Só de olhar o estado em que ficaram os corpos das vítimas, Dexter já é capaz de dizer de onde veio a pancada, quanto de sangue se perdeu, se o infeliz caiu de primeira ou ainda tentou lutar pela vida contra seu algoz e até se o assassino sentiu algum prazer ao dar cabo de um aparente inocente.

Dexter sabe de tudo isso não por ser um perito gabaritadíssimo - ele sabe porque ele próprio é, antes de mais nada, um assassino também. Um assassino higiênico, um matador meticuloso que elimina seus inimigos com a assepsia que se espera encontrar em uma sala de UTI, um justiceiro sempre pronto a deixar a sociedade livre de seus malfeitores sem que a faxineira tenha de lavar as manchas de sangue do carpete no dia seguinte, tudo porque Dexter é limpo na hora de fazer o serviço sujo. E tudo isso, ao contrário do que se poderia esperar, faz de Dexter um personagem raso e previsível, um trintão que se vê dividido entre o presente e um passado um tanto quanto nebuloso, onde ele espera encontrar - e depois de encontrar, talvez compartilhar com o público - , a gênese, a cena inicial, o motivo primeiro que transformou o adolescente loirinho que ele foi no assassino científico que ele é.

Num exercício de psicologia que eu já assumo como raso, antes que alguém o faça em meu lugar, fiquei pensando onde os caminhos de Dexter se cruzam com os de outros dois heróis de séries americanas, de quem a morte também se tornou uma companhia constante - Jack Bauer, de 24 Horas, e o doutor House, da série House. Os três, de alguma maneira, têm, a capa episódio, o poder de decidir entre a vida e a morte de seus companheiros de cena. O caso de Jack Bauer é sempre o mais complexo, já que seus inimigos querem destruir o mundo - ou ao menos aquela parte do mundo compreendida pela mente de Jack Bauer, que é a sociedade americana e, ainda mais especificamente, a cidade de Los Angeles. Jack Bauer não luta por um mundo melhor - ele luta para que o mundo possa continuar exatamente do jeito que é. Ele não é o herói romântico que defende ideais de igualdade, justiça social e respeito humano: ele quer apenas que os prósperos e pacatos cidadãos americanos continuem a ser prósperos e pacatos até o fiml dos tempos. E, se ainda for possível, dando as cartas na grande partida mundial que estamos jogando. É o herói prático, o cão de guarda treinado para morder ou até matar o invasor que pular o muro da casa de seu dono. Se há fome, dor e tristeza do lado de fora desta casa, paciência, Jack Bauer tem de cuidar do jardim e não das vielas escuras que rodeiam sua mansão tão imaginária quanto vulnerável.

Doutor House, ao contrário de Jack Bauer, foi treinado para vencer a morte, ainda que a vida que ele resgata tão brilhantemente no final de cada episódio represente mais uma punição do que uma dádiva para seu. É como se ele dissesse:"Você quer viver? Está bem, viva, então. Mas não me culpe por isso depois." A vida que o doutor House devolve aos seus pacientes até então terminais vem carregada de uma quantidade de ironia e desprezo que consegue ser mais daninha do que qualquer efeito colateral de um remédio poderosíssimo. House salva as pessoas como quem tira um abelha que caiu num copo de coca-cola, com um misto de nojo, antipatia e revolta porque, afinal, ele ainda tinha intenções de beber a tal da coca-cola. Salvar um paciente não redime House de sua dor mais profunda, porque ele sabe, melhor do que ninguém, que ele está restituindo ao paciente algo no qual ele já deixou de acreditar há muito tempo - a graça de viver.

Jack Bauer mata e House salva porque eles estão a serviço de algo muito maior, a serviço de uma crença, de uma filosofia, de um treinamento e de um dogma que são superiores a eles próprios. Como todo personagem trágico, suas ações resultam maiores do que sua capacidade de compreendê-las. Eles fazem o que fazem porque não conseguiriam fazer diferente. E o que eles fazem, do ponto de vista da lógica muito peculiar de cada um, é o certo. Perto deles, Dexter é um menino mimado que mata porque chamou para si uma responsabilidade que não lhe cabe. É o garoto que, na escola, entregaria para a professora os nomes dos coleguinhas que colaram na prova e não fizeram a lição de casa, com a crença infantil de que estaria ajudando a construir uma classe melhor. O que Dexter pratica é a eugenia, e não a justiça. Seu maior pecado é o mesmo que levou para o calabouço outros tantos vilões da história: a incapacidade de conviver com os seus iguais. No caso, com os tão assassinos quanto ele. Tive medo de assistir à primeira temporada completa da série e descobrir, lá na frente, que ele se transformou num assassino porque o pai não lhe deu uma bicicletinha quando fez sete anos. Sei que não deve ter sido este o motivo, mas se fosse, faria todo o sentido.

quinta-feira, maio 08, 2008

Sinto muito, seu tempo acabou.

O canal pago HBO vem divulgando, em anúncios de página inteira, a estréia de sua nova minissérie, Em Terapia, que começa a ser exibida na próxima segunda-feira, dia 12, às 20h30. Serão 43 episódios de pouco mais de meia hora cada um, que devem ocupar as telas da emissora até meados de julho. Em Terapia ousou invadir um dos últimos redutos de privacidade dos tempos modernos - o consultório de um psicanalista. E, após assistir aos dois primeiros capítulos da série, em uma sessão exclusiva para a imprensa, posso afirmar sem exageros: vai ser difícil sair de casa nas noites em que o programa estiver sendo exibido.

Muito superior a bobagens como Big Brother, Simple Life e Trocando de Família, ainda que, a exemplo destes programas, também recorra à mesma cartilha de agradar os curiosos, Em Terapia é um projeto ousado e inteligente, sustentado por bons diálogos, interpretações convincentes e um repertório de casos psicanalíticos aparentemente comuns, como ciúmes, amores não correspondidos, traições e arrependimentos - ou seja, o telespectador não terá dificuldade para imaginar-se sentado no sofá do terapeuta vivido pelo ator Gabriel Byrne.

Não vou me estender mais sobre a série, para não tirar o prazer da novidade. Gostaria de dizer, apenas, que a cada noite teremos um personagem diferente na sessão de análise. E, nas noites de sexta, encerrando a semana, é a vez de o terapeuta contar os seus problemas para o seu analista, no que promete ser uma deliciosa inversão de papéis. Não há tomadas externas, cenas de flashback ou qualquer outro recurso destinado a conferir mais agilidade à narrativa. Em Terapia é teatro filmado. E dos bons.

terça-feira, maio 06, 2008

Iracema, a cantora.

Assim que Iracema se mudou para o bairro, em uma casa amarela de três cômodos e muros baixos de tijolos, a notícia começou a se espalhar: ela queria ser cantora. Numa época em que as nossas mães não passavam de donas de casa, professoras primárias ou balconistas de uma loja de armarinhos, Iracema, dois filhos pequenos e casada com um homem que raramente parava em casa, só queria mesmo saber de cantar. Levou muito tempo até que as mulheres da vizinhança aceitassem com naturalidade a vocação de Iracema. Mas não havia como culpar as vizinhas por aquela renitente hostilidade: era realmente difícil tratar Iracema como uma igual, ainda mais naquelas duas ocasiões em que sua voz, afinada e potente, escapava dos limites daquela casa pequena - ora quando cantava, ora quando era espancada sem dó pelo marido. Com sua magreza impressionante, a pele branca e o pescoço alongado, Iracema era uma mulher de Modigliani. Ainda que na época eu não conhecesse Modigliani.

Os filhos de Iracema se chamavam Rodinei, o mais velho e de quem eu rapidamente me tornei amigo, e Regina, a caçulinha de cabelos negros e encaracolados que gostava mais de brincar sozinha. Eu só precisava pular o mulo para chegar ao quintal de Iracema e brincar com Rodinei. Na maioria das vezes, Iracema dava duas bolachas Maria para cada um de nós - e minha mãe não compreendia por que, em casa, eu sempre reclamava quando só tínhamos bolacha Maria na lata de doce. "Na casa dela você come, que eu sei", minha mãe dizia. E comia mesmo - às vezes, as bolachas eram murchas e velhas. Mas Iracema era uma cantora e acho que eu, já naquela época, talvez acreditasse que os artistas deviam ter lá as suas manias e precisavam ser perdoados por suas bolachas velhas e com a data vencida.

Diziam, no bairro, que Iracema deixava os dois filhos amarrados ao pé da mesa quando saía de casa para cantar. Nunca conseguimos confirmar se esta história era verdadeira. A única certeza que tínhamos era de que, quando o marido de Iracema voltava de suas misteriosas viagens e descobria que ela havia escapado para cantar, o pau comia solto para o lado dela. Iracema apanhava até aparecer com o rosto branco manchado por hematomas no dia seguinte. E, nestas ocasiões, minha mãe não me deixava pular o muro para brincar com os filhos dela.

Um dia, Iracema começou a espalhar pela vizinhança que no sábado seguinte iria cantar na televisão. Era um programa de calouros - talvez o Chacrinha, talvez o Bolinha, já não me lembro mais. Quando chegou o sábado, o bairro todo ficou empuleirado diante das tevês em branco e preto e com chuviscos. Era verdade: Iracema surgiu diante das câmeras e cantou, em um vestido branco até os pés - parece que fora alugado - e com um penteado tão alto que quase não cabia na tela. Não me perguntem o que ela cantou e nem se foi aprovada. O fato é que Iracema nunca havia mentido para nós - ela era mesmo uma cantora.

Pouco tempo depois, Iracema, eterna pioneira, se separou do marido e foi embora de casa. Rodinei e Regina ficaram morando com o pai, que se viu obrigado a diminuir o ritmo das viagens. Os meses foram se passando até que eu e Rodinei caímos na mesma classe no último ano do primário. Uma tarde, pouco antes do final das aulas, a diretora da escola entrou na sala e pediu para que Rodinei a acompanhasse: havia alguém querendo falar com ele. Rodinei, assustado, caminhou em silêncio atrás da diretora. Quando a aula terminou, uns cinco minutos depois, eu também saí e pude ver Rodinei, em um canto do pátio, aconchegado e chorando no colo da mãe. Iracema, que, disseram depois, havia se mudado para o Mato Grosso, tinha voltado para ver o filho. Foi a última vez em que a vi . Alguns meses depois daquela breve aparição, Iracema morreu, longe dos filhos, aos trinta e poucos anos.

Estávamos no fim de 1972 e, quando se falava em cantora naquela época, ninguém pensava em outros nomes que não nos de Maria Bethânia, Gal Costa e Elis Regina. Mas para nós, os moradores daquele bairro que quase já nem existe mais, naquela tarde de sábado que ficou perdida entre os chuviscos da televisão, nenhuma delas três, juntas ou separadas, cantava tão maravilhosamente bem quanto a nossa Iracema.

domingo, maio 04, 2008

Paris-Dacar

Os trajes coloridos do beduíno
riscam o espelho retrovisor
a estrada segue mais reta
do que seria o esperado

Um buraco e eu desvio
um oásis logo ali e eu...
já ficou para trás

A tempestade de areia
sela os meus lábios
e eu acho que é para sempre

Prometeram que ia anoitecer

sábado, maio 03, 2008

Cem coisas pra você esquecer antes de morrer

Não sei se quem começou com este lance de listas foi o escritor inglês Nick Hornby naquele livro Alta Fidelidade. Pode ser que não tenha sido ele a dar a largada, mas não me lembro de outro nome que tenha incutido tanto na cabeça da gente esta mania de enumerar tudo na vida. Admito que no início até que foi engraçado: os cinco melhores filmes, os cinco melhores shows, as dez melhores capas de disco e por aí vai. O problema é que a coisa não parou e estas listas, na maioria das vezes, não produzem outro efeito na gente a não ser uma frustração por termos perdido algo algo muito importante. Vejo, por exemplo, a lista dos dez discos mais importantes da música brasileira: corro até minha estante e percebo que só tenho dois. Daí já vem a pergunta: onde eu estava com a cabeça que não comprei os outros oito? Que porcaria eu devo ter comprado no lugar daquele disco que os Mutantes gravaram no fim dos anos 60 e que agora eu não encontro mais em lugar nenhum? Então eu me conformo diante da constatação de que fui reprovado neste quesito.

Agora inventaram uma coisa muito mais perversa: a quantidade de coisas que a gente precisa conhecer antes de morrer. E eles não disfarçam, não: são tarefas que a gente precisa cumprir não para viver feliz, mas para morrer com a lição de casa feita. Tudo agora vem nestes termos: os cem livros que você precisa ler antes de morrer, os cem discos que você precisa ouvir antes de morrer, os 50 restaurantes em que você precisa jantar antes de morrer - até pouco tempo, o único direito que todas as pessoas tinham era o de morrer em paz. Agora, nem isso mais a gente tem. Eu me imagino moribundo, respirando por aparelhos e tomando soro até pelo fiofó com a expressão desolada porque ainda não conheci a Capadócia e nem me hospedei naquele hotel de Dubar que parece um cenário de Guerra nas Estrelas. Não importa se eu tive uma vida legal e honesta - o importante, agora, é provar que a gente conheceu cem lugares bacanas antes de partir desta pra melhor....

Eu acho, de verdade, que a gente tem uma única obrigação a cumprir antes de morrer: a obrigação de viver. E, se der, a de tentar ser feliz. Todo o resto é acessório: se vier, vai ser lindo, se não vier também, paciência, é porque não era realmente para ter vindo. Eu não quero, quando chegar a minha hora, ter de olhar os carimbos em meus passaportes para ver se morro com as milhagens em dia. Até porque a grande viagem a gente vai fazer sozinho - e não vai poder contar para ninguém se foi legal e muito menos mandar fotos de lá. Então, esqueçamos de todas estas listas. A vida não precisa ser assim tão certinha.

sexta-feira, maio 02, 2008

Marina Lima

É engraçado notar como a vida traz algumas compensações. Fui ver o show de Marina Lima no Sesc Pompéia, no feriado da quinta-feira. Marina é uma das cantoras mais legais que a gente tem - aquela voz meio rouca de quem acabou de acordar feliz, a interpretação precisa e sem grandes floreios dramáticos, o figurino de quem está sempre pronto para uma baladinha, e não para uma noite de gala, um modo contemporâneo de ver a vida, expresso em quase todas as canções que compõe, e uma habilidade rara de combinar o que existe melhor no Rio e em São Paulo: a carioca branquinha que traz o frescor de quem vive de frente para o mar aliado ao jeitão cool e um pouco melancólico que só a noite de São Paulo é capaz de propiciar. Resumindo: uma cantora que nasceu e continua moderna.

Dizem que no fim dos anos 90 Marina perdeu a voz, roubada por uma depressão profunda. Confesso que não acompanhei tanto a trajetória de Marina neste período: minha cabeça ainda vivia ligada em canções como À Francesa, Grávida e Fullgas. Continuei gostando de Marina, mas a uma certa distância. Soube que ela faz vários shows no Baretto, mas nunca tive cacife para frequentar estes botecões de alto luxo. Então, o show do Sesc Pompéia teve o sabor de um esperado reencontro. Talvez Marina, no momento, não seja mesmo a cantora que um dia foi. Um grande amigo diz que hoje ela declama muitíssimo bem - e pode ser que ele esteja certo.

Todos os antigos sucessos de Marina estão no show, que pode ser visto até este domingo, dia quatro. E mais uma coisinha ou outra que ela andou compondo ultimamente. Mas, se Marina realmente perdeu um pouco da voz, ela ganhou uma outra coisa que não tinha, ao menos não na quantidade que exibe agora: carisma. Marina se tornou uma entertainer fascinante: brinca com a platéia como nunca brincou antes, conta histórias, conversa, fala dos pais que nasceram no Piauí, do irmão Antonio Cícero que esconde seu lado romântico atrás da poesia e da filosofia, de sua rotina de compositora, de seu apego aos ritmos nordestinos e de sua relação com a vida. O rock nacional ganhou, com Marina, um mestre de cerimônias sexy e cativante. Ouvir a Marina que fala é tão bom quanto ouvir a Marina que cantava um pouco melhor. Se sua voz diminuiu, sua timidez também. Não sei se o ofício se tornou mais fácil para ela e nem sei se era isso que ela esperava da vida ao dobrar os 50 anos. Não importa: ela continua linda, gostosa, sedutora e, pela reação do auditório que lotou o Sesc Pompéia, completamente venerada pelo seu público.

Neste momento em que todo mundo diz que é preciso se reinventar, Marina mais uma vez foi pioneira. Ela se reinventou com o pouco de voz que lhe restou e conseguiu uma proeza rara em se tratando de uma cantora: talvez não consiga mesmo cantar tão bem como antigamente. Porém, nunca esteve tão próxima de seu público e nem tão calorosa. A falta da voz revelou a dimensão humana da artista. Repito: não sei se ela está mais feliz agora. Mas pra gente nada mudou: Marina continua dando o que a gente sempre quis e esperou dela. O que mais um artista pode desejar?