quarta-feira, outubro 17, 2007

Calma, calma... era só brincadeirinha!!!!!

Passo em frente a uma banca de jornal e tomo o maior susto ao ver a capa da revista Flash. LUCIANO HUCK ASSASSINADO POR UM ROLEX. Este era o principal título da publicação, escrito assim, em letras enormes, ao lado de uma foto de Huck com sua mulher, a apresentadora Angélica. Na hora eu pensei: meu Deus, será que o incidente com o tal relógio, que Huck soube tão bem capitalizar a ponto de lhe render uma capa na revista Época e as páginas amarelas da Veja, tinha realmente se convertido numa tragédia? Chego mais perto da banca, já que ultimamente meus olhos, sem óculos, só me permitem ler mesmo as letras graúdas, e percebo que, de maneira muito mais discreta, havia um complemento logo abaixo da manchete: Isto poderia ter acontecido. Respirei aliviado. Luciano Huck não morreu. Quem morreu foi o jornalismo.

Fiquei alguns momentos ali, parado diante da banca, pensando até onde é capaz de ir a inconseqüência de um tipo de jornalismo que se pratica cada vez mais neste país - e, ao que tudo indica, no resto do mundo também. Eles estampam, em manchete, que uma figura pública como Huck é assassinada para esclarecer, logo abaixo, que isso poderia ter acontecido. Resolvi ampliar um pouco a brincadeira proposta pela revista Flash e fiquei imaginando qual seria a reação mundial se um dia lêssemos uma manchete assim: BIN LADEN LANÇA BOMBA ATÔMICA EM LOS ANGELES E MATA 700 MIL. Depois, em letras bem menores, viria o alívio: Isto poderia ter acontecido.

Claro que sim. Tantas coisas poderiam ter acontecido, ou não. Jesus Cristo poderia não ter sido crucificado, Hitler poderia não ter enviado milhões de judeus aos campos de concentração, Fernando Collor poderia não ter sido eleito, eu poderia ter ganho na mega-sena sozinho e agora estaria escrevendo este post de um cyber café no hotel Ritz de Paris... O mundo poderia ser um lugar muito mais divertido se o jornalismo passasse a se dedicar a esta prática alucinógena. Neste dia, não nos preocuparíamos mais com os fatos e sim com as suposições. O que aconteceu seria irrelevante; bom mesmo seria discutir o que poderia ter acontecido. Eu penso que assustadora é a palavra que melhor define este new-journalism que a Flash adotou esta semana. Huck, acredito eu, talvez tenha até ficado feliz em saber que seu Rolex foi capaz de distorcer ainda mais a visão que nós, brasileiros, estamos tendo da realidade. Quem sabe em 2008 a Cásper Líbero, a PUC, a USP e outras tradicionais escolas de jornalismo do país incluam em seu currículo uma disciplina chamada Jornalismo Adivinhatório. Seguramente, muitos profissionais atuantes no mercado dariam grandes mestres.

Se eu não aparecer por aqui nos próximos dias, é porque eu poderei ter decidido escalar o Himalaia - um lugarzinho gelado e inóspito que, até onde eu saiba, não dispõe de cyber café e nem de pivetes doidos para roubar um Rolex.

terça-feira, outubro 16, 2007

Chiquinha

Esta é uma fábula de final triste. Na cidade de São José do Rio Preto vivia uma família que tinha uma gata chamada Chiquinha. Um dia, a família precisou se mudar e, por algum motivo que ninguém conseguiu descobrir, decidiram não levar a gata junto. Um casal de vizinhos passou, então, a cuidar de Chiquinha. Mas, como todos sabem, os gatos são muito apegados à casa em que vivem - e aos donos também, embora insistam em pregar o contrário. Com Chiquinha não foi diferente: ela comia ao lado dos novos donos, mas passava o resto do tempo no portão da casa em que nasceu e viveu toda sua vida até ser deixada para trás.

Um dia chegaram os novos moradores para ocupar a velha casa de Chiquinha, entre eles um estudante de direito de 26 anos, dono de dois cães pitbull. Com medo dos cães e talvez por desconfiar que aquela casa já não era mesmo sua, Chiquinha nunca cruzou o partão: ficava o tempo todo na calçada, provavelmente ainda tentando compreender o abandono, coisa que nós humanos também não conseguimos aceitar direito. Chiquinha não fazia nada além de olhar, mas apenas isso irritou o estudante de direito.

Ao voltar da faculdade uma noite dessas e ver a gata novamente na calçada, o estudante não se conteve. Apanhou Chiquinha pelo rabo, a girou duas vezes em torno da cabeça e a arremessou contra um muro. Algumas pessoas que passavam pelo local interromperam a barbárie e denunciaram o estudante à polícia, no momento em que ele se preparava para pisotear a gata.

Chiquinha quebrou as duas patinhas dianteiras e, apesar de uma cirurgia que tentou reconstituir seus ossos com pinos de metal, ela ficou praticamente aleijada - consegue se locomover, mas manca muito.

A notícia só não dizia se Chiquinha ainda insiste em sentir saudades e a observar por longas horas a casa em que nasceu...

Em pouco tempo aquele estudante estará formado, apto a entrar com celular nos presídios de segurança máxima ou a colaborar com traficantes e sequestradores. E nós, como Chiquinha, continuaremos nossa marcha em direção a algum futuro incerto. Mancando cada vez mais.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Uma tarde para o resto da vida

Fiquei em dúvida entre escrever ou não alguma coisa sobre Paulo Autran. Eu sempre tive medo desta linha fina, muito fina, que separa a homenagem do oportunismo. Nestas horas, continuo achando que o silêncio, o respeito e a saudade sincera são os maiores tributos que podemos prestar a alguém que se vai, mesmo que este alguém tenha a dimensão gigantesca de um Paulo Autran. Tanto se falou sobre ele nestes dias, de sua colossal importância ao teatro brasileiro e de sua insubstituível presença nos palcos, que qualquer depoimento extra pode soar redudante. Mas há uma história, pequena na verdade, que eu gostaria de deixar registrada aqui, como prova da imensa generosidade deste ator que se recolheu naquela coxia misteriosa que um dia irá nos receber a todos.

Um dia, encontro Paulo Autran no saguão de um teatro - e qual seria o lugar mais provável para encontrá-lo? Ele veio me perguntar o que eu andava fazendo. Respondi que estava escrevendo para jornais e revistas. Ele disse que isso não tinha a menor importância para ele. "Eu quero saber de teatro. O que você anda escrevendo para o teatro, isso sim me interessa. O resto eu não ligo". Eu disse que tinha algumas coisas inéditas em casa, algumas peças, pequenas cenas, algumas idéias... "Imprima tudo e mande para mim. Eu quero ler".

Obedeci, é claro. Imprimi três peças, coloquei-as num envelope branco e deixei na portaria do prédio em que ele morava, numa rua dos Jardins. Duas ou três semanas depois, encontro um recado na secretária eletrônica. "Oi, Sérgio. Aqui é o Paulo. Liga para mim, preciso falar com você". Paulo Autran, ator consagrado, um dos poucos brasileiros acima do bem e do mal em seu ofício, isento de qualquer obrigação profissional com quem quer que fosse, havia lido minhas três peças e queria conversar sobre cada uma delas. Era uma sexta-feira à tarde e ficamos um bom tempo no telefone. Ele havia lido O Encontro das Águas, O Funil do Brasil e A Vida que eu Pedi, Adeus, estas duas últimas ainda inéditas. Falou com carinho sobre cada uma delas, elogiou o que considerava seus pontos altos, criticou o que julgava falho e me incentivou a continuar escrevendo.

Num desses rompantes de coragem que a gente tem algumas vezes na vida, eu disse que dali a dois dias, no domingo, os atores José Roberto Jardim e Pedro Henrique Moutinho iriam ler a peça num teatro, para tentar conseguir uma pauta. "Quem vai dirigir esta leitura?", ele perguntou. Eu disse que não havia pensado nisso ainda. "É uma peça cheia de pausas e silêncios. Estes atores precisam ser bem dirigidos", completou. Respirei fundo, tomei coragem e fiz o convite. Você não gostaria de dirigi-los, Paulo? Então ele me perguntou: quando mesmo será a leitura? Eu respondi que no domingo. "Então temos apenas um dia para ensaiar. Quero vocês amanhã aqui em casa, às três da tarde. Temos de caprichar, o tempo é curto".

Às três em ponto do sábado estávamos lá, tocando a campainha de seu apartamento, com o texto impresso nas mãos. Sem muitas cerimônias, Paulo Autran nos conduziu até uma grande mesa de madeira, em sua sala de jantar. Pediu um cigarro para o Pedro Moutinho e então começou a pilotar os meninos. Como eles, eu também não acreditava no que estava acontecendo ali. Com paciência e um carinho indescritível, Paulo Autran ia mostrando aos atores a melhor maneira de pronunciar cada palavra, a pontuação mais precisa, a respiração mais exata, o tom mais confiável, a emoção mais apropriada. Disse a eles que, ao contrário do que os jogadores de futebol fazem com a bola, o ator não podia ter pressa em passar a palavra adiante. Cada palavra tinha de sair no seu tempo exato, acariciando a garganta do ator, pois só assim ela acariciaria o ouvido do público - se fosse o caso de acarinhar.

Passamos três horas na companhia de Paulo Autran. Em vários momentos, eu senti vontade de chorar. Ainda que O Encontro das Águas jamais viesse a ser encenada, ainda que nenhuma outra peça minha chegasse aos palcos, aquela tarde já seria, por si só, suficiente para dar sentido à minha breve carreira de autor. Quando saímos de lá, atordoados com o grau de entendimento de texto e a compreensão teatral de Paulo Autran, o Zé Roberto Jardim disse que naquela tarde ele havia aprendido tanto ou mais do que nos três anos que passara na Escola de Arte Dramática. Pedro Moutinho, o sacana mais adorável que eu conheço, completou com a seguinte frase: "Não sei o que eu ainda tenho pela frente, mas, não importa o que eu venha a fazer, esta tarde vai abrir a minha biografia".

Quando cheguei em casa, Paulo Autran ligou. "Esqueci da última recomendação. Caso vocês consigam a pauta no teatro, não quero que digam que eu ajudei na direção da leitura. O mérito é todo de vocês, vocês vão chegar lá sozinhos".

Conseguimos a pauta e Paulo Autran foi à estréia. Chegou sozinho, de táxi, dizendo que não perderia aquilo por nada. Esperou para cumprimentar os atores, elogiou muito a direção do Alberto Guzik, posou para as fotos e, antes de ir embora, chamou a gente num canto para dizer que ficava sempre muito feliz quando via um trabalho que o agradava. "Eu tenho a impressão de que o teatro vai ficar em boas mãos".

Tomara, grande mestre e amigo querido. Tomara mesmo.

quarta-feira, outubro 10, 2007

O menino


De repente esse menino começou a falar umas coisas esquisitas. Outro dia mesmo, na hora da janta, a gente com a cara quase enfiada no prato de sopa de feijão que a mãe dele tinha feito, ele deixou a fatia de pão de lado pra dizer, assim do nada, que era importante que cada um de nós tivesse um ideal nesta vida. Eu fiz de conta que não ouvi e continuei comendo, a mãe dele olhou pra mim, com a colher de sopa a um palmo da boca, e também não falou nada. Na hora de dormir, eu perguntei pra ela que história era aquela de ideal. Ela jurou que não sabia de nada, que nunca tinha ensinado o moleque a falar daquele jeito. Você tá de prova, ela continuou. Quando foi que a gente falou de ideal aqui dentro, quando? Na certa, eram as más companhias. Ele já tá meio crescido, ela falou, pára pouco em casa, sai por aí com um monte de moleque que a gente nem sabe direito de onde vem, na certa é com eles que o menino estava aprendendo essas coisas. Eu juro por nossa senhora, disse ela, que eu nunca ensinei essas coisas de ideal pro menino. Se ele anda aprendendo isso, é fora de casa.

Discussão na cama dura pouco. Quando a gente deita, é pra dormir mesmo. Teve época que a gente fazia umas outras coisas, mas agora isso diminuiu também. Eu continuo gostando, eu sei que ela gosta também. Mas nos últimos tempos ela deu de pedir pra gente fazer depressa, porque senão no outro dia ela fica muito cansada na hora de levantar. Depois que tiraram o ponto de ônibus daqui da frente, a gente precisa levantar meia hora mais cedo pra pegar a condução. E meia hora é muito pra quem já dorme tão pouco. Então, naquela noite, a gente nem falou do menino e nem fez aquilo que deixou de fazer faz tempo. Mas que aquela palavra não me saía da cabeça, ah, isso não saía mesmo. Ideal. Onde o menino anda aprendendo essas coisas?

No outro dia, eu chamei ele no canto. Você já tá ficando grande, menino. Logo vai ter de ajudar na casa. O que você acha que vai fazer da vida? Eu ainda não sei, falou o menino. Mas tem de saber, na sua idade eu nem só sabia, como já fazia, eu falei. Eu sei, ele respondeu, mas é que eu gostaria de fazer alguma coisa que me desse prazer. Eu quase perdi a cabeça. Você não responde desse jeito pro seu pai, eu falei. Você tá bem crescido mas ainda pode levar uma coça. Quem anda falando essas coisas pra você, me fala agora que eu vou lá tirar satisfação, eu falei. Ninguém anda me ensinando nada, pai. Como não anda? Claro que anda. Ontem você falou de ideal, agora você vem me falar de prazer. Na sua idade, se eu falasse umas coisas dessas pro meu pai, eu levava um tapa na boca que ia ficar três dias sem comer. Mas o que é que tem demais, o menino perguntou. Eu vou te ensinar o que é que tem demais, repete isso que eu te ensino, falei por último e mandei o menino direto pro quarto. Depois eu fui junto, eu e a mãe dele, porque é um quarto só na casa.

Naquela noite eu tive um pesadelo. Sonhei que caía uma chuva braba, dessas que alagam o bairro inteiro. E era cada trovão, mas cada trovão. Só que o trovão não fazia barulho de trovão, a cada vez que o céu ficava branco, o que eu ouvia vindo lá de cima, em vez do trum, trum, era ideal, prazer... Parecia que as nuvens ficavam gritando na minha cabeça, com voz de macho doente: ideal, trummmm, prazer, trummmmm. Acordei ensopado. Olhei pro lado e o menino já tinha levantado. Agora esse menino deu de me atormentar até de madrugada, eu ralhei. Fui pra cozinha e a mãe dele já tava coando o café. Cadê o seu filho, eu perguntei. Ele já foi. Ele disse que nem conseguiu dormir direito, de tanto que você roncava, se mexia e falava alto de noite, ela disse. Culpa dele, tudo culpa dele. Ele foi pra aonde, eu perguntei. Ele foi andar por aí, sem rumo. Ele tomou um gole de café e disse que ia andar, porque hoje.... ela parou no meio da fala. Por que hoje o quê, mulher? Você anda escondendo coisa de mim, eu gritei. Porque hoje ele me falou que tinha acordado feliz, ela falou. Feliz? Feliz aqui? Nesta casa? Eu não tô dizendo. Esse menino vai acabar dando trabalho pra gente. Escuta o que eu digo.

domingo, outubro 07, 2007

Falou alguma coisa? Hein? O quê? Talvez eu...Não sei...

Sempre evitei falar de teatro neste espaço por acreditar que talvez eu esteja envolvido demais neste meio, o que poderia, se não comprometer, no mínimo afetar a minha imparcialidade. Falar de teatro, aqui, seria o equivalente, em muitos casos, a falar de amigos ou no mínimo de pessoas conhecidas, o que, convenhamos, nunca é muito confortável e ainda menos prudente. Se eu fizesse elogios, poderia pairar sempre a idéia de algum nepotismo ou favorecimento no ar; se fizesse críticas, algumas vozes iriam se erguer para dizer que é tudo despeito. Então, prefiro passar longe do tema, embora a vontade de recorrer a ele sempre tenha sido muito grande.

Resolvi abrir uma exceção hoje porque, nos últimos tempos, tenho percebido o entusiasmo com que vem sendo saudado um tipo de dramaturgia que começou a proliferar nos nossos palcos. É um estilo de texto, a meu ver, não apenas vazio e entediante, mas acima de tudo frágil em relação a uma das principais regras do bom diálogo - aquela que ensina um personagem a não dizer aquilo que o outro já sabe. Pois bem, este novo estilo de texto parece querer sempre tratar como estranhos dois personagens que convivem há anos sob o mesmo teto. Está em cartaz em São Paulo, neste momento, uma montagem cool e luxuosa que leva este tipo de recurso à exaustão. É algo mais ou menos assim. Imaginemos um diálogo entre marido e mulher. Vou tentar imitar:

MARIDO: Nosso carro...
MULHER: Sim?
MARIDO: É vermelho.
MULHER: Sim, vermelho.
MARIDO: Nosso carro é vermelho.
MULHER: Vermelho
MARIDO: Havia outras cores
MULHER: Sim, outras cores
MARIDO: Mas nós compramos vermelho
MULHER: Sim, nós compramos um carro vermelho
MARIDO: Embora as outras cores...
MULHER: O vermelho, nós compramos vermelho
MARIDO: Sim, nosso carro é vermelho
MULHER: Nós compramos juntos
MARIDO: Nós compramos juntos um carro vermelho
MULHER: Você sabe, nós sempre gostamos de vermelho
MARIDO: Havia tantas outras cores
MULHER: Mas, você sabe, o carro que nós compramos é vermelho
MARIDO: Vermelho...
Silêncio
MULHER: Oi?
MARIDO: O quê?
MULHER: Você disse alguma coisa?
MARIDO: Eu...bem, eu...
MULHER: Sim?
MARIDO: Eu estava me referindo ao nosso carro
MULHER: Ah, sim, o nosso carro vermelho
MARIDO: Isso, a ele. Nós compramos um carro vermelho....
MULHER: Talvez nós devêssemos....
Silêncio.
MULHER: Talvez nós devêssemos...
MARIDO: Sim?
MULHER: Não, melhor não.
MARIDO: É, talvez seja melhor não.
MULHER: Eu preciso ir
MARIDO: Como?
MULHER: Eu disse que talvez eu precise ir...
MARIDO: Ir? Ah, é claro, ir...Você sempre costuma ir, não costuma?
MULHER: Sim...
MARIDO: Agora?
MULHER: Melhor sim... Você sabe, eu preciso ir...
MARIDO: Ok
MULHER (indecisa, olhando a porta): Bem, talvez eu...
MARIDO: Sim?
MULHER: É, você sabe, eu preciso ir...

Vai embora de uma vez e deixe a gente em paz, pelo amor de Deus. Não acho que o teatro tenha a obrigação de reproduzir a nossa fala cotidiana - uma de suas grandes dificuldades, aliás, é a de retratar com um mínimo de verossimilhança justamente a nossa incapacidade de comunicação. Mas, a continuar assim, em pouco tempo sairemos de casa para ver no palco algo como Mim Tarzan, You Jane. O mais engraçado é que, sobre esta peça que está em cartaz na cidade, há algo de bom nela: há tantas repetições que nos sobra tempo de contar quantas pessoas estão bocejando, quantas já caíram no sono, quantos estão olhando no relógio, quantas estão ligando o celular dentro das bolsas para ver se do lado de fora do teatro está chegando algo mais interessante do que aquilo que vem do palco. Depois, quando o espetáculo termina, todo mundo aplaude de pé, calorosamente. E sai falando sobre a tal da musicalidade do texto, das repetições precisas, da entrega dos atores a um diálogo tão seco e, como diria matreiro o meu amigo Ivam Cabral, do mergulho na verticalidade proposto pelo autor e cumprido com perfeição pelo elenco. Vixi Maria.

Há um livro chamado O Náufrago, do genial Thomas Bernhard, lançado pela Companhia das Letras. Ali eu aprendi, com admiração incondicional, como se dá a repetição de idéias, palavras e pensamentos no sentido de tratar o texto como se este fosse uma partitura musical. Praticamente toda a história de O Náufrago é contada durante os poucos minutos em que um personagem espera para ser atendido numa pousada européia. O Náufrago nos ensina, acima de tudo, a distinguir o abismo que existe entre uma verdadeira sinfonia e um disco furado. Infelizmente, todos os aplausos nos últimos tempos têm sido para os discos furados.

terça-feira, outubro 02, 2007

Um dedinho de prosa

Não sei se é impressão minha, mas acredito que as pessoas do interior, como eu, adoram dar explicações que vão muito além do necessário, ou do esperado. Na maioria das vezes, um sim, um não ou um muito obrigado já seriam suficientes para responder a quase todas as questões que nos apresentam. Mas nós, eternamente caipiras, nunca nos contentamos só com isso. Nenhuma dúvida parece estar suficientemente esclarecida até que revelemos parte de nossa intimidade ao mais completo estranho. Vejo isso em minha mãe. Se uma visita, por exemplo, elogiar o pedaço de bolo ou torta que ela oferecer, minha mãe jamais irá se satisfazer com um muito obrigado. Ela, seguramente, sairá com esta resposta: "Imagine, tão fácil de fazer. Olha só: vão três ovos, um copo de leite morno, a mesma medida de leite condensado, duas colheres de manteiga..." Pronto, o visitante, feliz ou não, irá embora levando de presente uma receita na cabeça.

Se você resolver elogiar a roupa de alguém do interior, é quase certo que também sairá da conversa com um guia de compras cheio de ótimas dicas. Tenho uma prima que é assim. Se alguém disser, "nossa, que blusa bonita", ela vai responder "ah, paguei só 35 reais naquela loja que fica perto do correio, sabe? Na verdade, custava 40 reais, mas como era a última peça deste número, a moça fez um desconto, até porque ficou um pouco justa e, está vendo este botãozinho aqui, então, ele veio meio solto e eu tive de dar um pontinho quando cheguei em casa. Mas olha, pra ficar em casa, está bom demais, não está?"

Eu não sei se rio ou choro diante destas situações, pois me pego fazendo a mesma coisa quase todos os dias. Quando eu tomo um táxi e o motorista me pergunta para onde eu quero ir, além de dar o endereço eu digo o que estou indo fazer lá, por que não fui de metrô, se é dia do meu rodízio, se estou a trabalho ou a passeio e, se não chegarmos logo, sou capaz de dizer qual o saldo da minha conta bancária. Outro dia estava tomando chope com um amigo do interior de Minas, bonitão, jovem e ator descolado. No fundo, tão bocó quanto eu. Quando o garçom perguntou se ele queria o terceiro chope, em vez de responder não, muito obrigado, ele saiu com exatamente isso: "Não vou querer, não. É que, saindo daqui, eu vou na casa de uma amiga que mora aqui perto e acho que lá só tem vinho, porque ela está de regime. E eu não quero misturar, porque amanhã é domingo e eu trabalho mais cedo". O garçom olhou para a cara dele, virou as costas e foi embora, equilibrando um copo de chope na bandeja e, provavelmente, sem dar a mínima bola para as combinações etílicas ou os compromissos dominicais do meu amigo.

Não sei se foram todas as cadeiras na calçada da nossa infância, todos os portões e janelas abertos, toda falta de cerimônia na hora de entrar na casa dos vizinhos, todas as brigas ouvidas através das paredes das casas geminadas, todas as rodinhas que se formavam na frente de qualquer boteco, todas as novenas, todas as procissões, todos os recados que levamos e trouxemos numa época em que telefone era coisa de rico, todas as festinhas em que entrava qualquer um, todas as quermesses em que dedicávamos músicas de amor nos alto-falantes, todas as festas juninas no terreno baldio, todo jogo de bola nas ruas sem carro, tudo isso e nossa eterna aversão interiorana ao isolamento nos deixaram assim: loucos para falar muito mais do que a prudência nos recomenda. Mas existe uma questão que para mim continua sem resposta: falamos tanto por sentir orgulho real dos nossos atos ou por que, na falta de atributo melhor, jogamos todas as fichas na nossa sincera ingenuidade?

Só existe uma coisa que nós, do interior, gostamos mais do que falar: é exibir as cicatrizes das nossas cirurgias e contar quantos pontos levamos... Mas isto é assunto para outro dia. Estou começando a desconfiar que por hoje já falei demais.