Fumei uma única vez na vida, e deve ter sido algo tão marcante que até hoje me lembro das circunstâncias: foi num show da Angela Rô Rô, em 1988, em uma casa de espetáculos já extinta na rua Butantã. Tinha ido ao show com um amigo que, anos mais tarde, me venderia o apartamento em que eu vivo hoje, na Vila Madalena. Só agora me dou conta que, em 1988, ainda era possível assistir a um show com um cigarrinho entre os dedos. Naquela noite, como nas outras em que tive a chance de ver algum show de Angela Rô Rô, ela se mostrou novamente tomada por alguma entidade politicamente incorreta, pois ouvir alguns de seus comentários maliciosos sobre os companheiros da classe artística era tão prazeroso quanto viajar em sua voz rouca e dolorida por alguns clássicos da MPB. No meio do show, talvez por ver tanta gente fumando em pé ao meu lado, pedi ao meu amigo que me desse um cigarro e o fumei inteirinho. Minutos depois da última tragada, estava com uma dor de cabeça muito chata - e assim me despedi para sempre da nicotina, cinco minutos após ter sido apresentado a ela.
Mas sou, e quem me conhece sabe disso, completamente tranqüilo em relação a quem fuma. Meus amigos fumantes podem soltar suas baforadas em minha casa, no meu carro, na mesa do restaurante ou em qualquer outro lugar que eu não me incomodo mesmo. É claro que existe uma certa fumacinha pentelha, que parece sair do cinzeiro para se dirigir exatamente na direção do nariz de quem não fuma. Mas nunca, na minha vida inteira, pedi para que alguém deixasse de fumar ao meu lado. Eu acho que os fumantes, com razão, aliás, já são devidamente policiados em todos os lugares desta cidade - talvez eu me sentisse mal em engrossar esta patrulha.
Eu me lembro de ter presenciado dois episódios constrangedores envolvendo cigarro. Um sábado à tarde, muitos anos atrás, eu fui almoçar no restaurante Pequi, que acabava de ser aberto e ainda estava longe de se tornar um dos locais mais freq6uentados pela classe teatral de São Paulo. Além de mim, havia apenas um outro rapaz, também sozinho, almoçando em uma mesa perto da porta. Então entrou um casal e se acomodou no meio do salão. Aquele cara, quando terminou de almoçar, perguntou para o garçom se era permitido fumar ali. O garçom disse que não era, mas caso eu e o casal não nos incomodássemos, ele podia acender seu sagrado cigarrinho depois da refeição. Eu dei sinal verde, mas o casal, que estava pelo menos a uns oito metros daquele cara, não permitiu que ele fumasse, ainda que ele se encontrasse ao lado da porta. Ele pagou a conta e foi embora, fumar em pé lá na calçada.
O segundo episódio envolveu dois amigos, também numa tarde de sábado. Eu não os via fazia muito tempo, quando eles me ligaram me chamando para um almoço. Passaram em casa e, assim que entrei no carro, um deles acendeu um cigarro. O amigo que estava ao volante disse, então, que no carro dele ninguém fumava. Achamos que ele estivesse brincando, mas não. O amigo fumante ainda insistiu, dizendo que seguraria o cigarro do lado de fora da janela. Não houve acordo: ou ele apagava o cigarro ou teria de descer do carro. Ficou um climão tão chato que o resto do almoço não foi lá grande coisa também.
Mas, nos últimos tempos, eu comecei a me incomodar com os fumantes. E não por causa da fumaça, e sim em virtude das embalagens de cigarro. Não reclamar da fumaça, ainda que ela realmente incomode, é uma coisa. Agora, almoçar vendo a imagen de um rato morto estampada no maço de cigarro, uma gengiva carcomida pela nicotina, um bebê prematuro nascido de mãe fumante e alguém com uma doença pulmonar acoplado a um monte de tubos de respiração, putz, isso sim é foda. Então eu percebi que quem fuma não vai deixar de fazê-lo porque as embalagens de cigarro se tornaram monstruosas - sobrou mais uma vez para os não fumantes que, além do ar carregado da fumaça produzida pelos amigos, ainda são obrigados a ver um ratinho morto ao lado do couvert na hora do almoço...
E antes que alguém me pergunte por que eu não peço para que meus amigos não fumem perto de mim, eu já respondo: eu gosto muito deles, mesmo dos defumados. E eles já são perseguidos demais, no cinema, no trabalho, no avião, nos restaurantes e em todos os outros lugares imagináveis. Na minha casa eu os deixo em paz, com a janela sempre aberta e, de preferência, com o rato do maço de cigarro virado para baixo.
domingo, setembro 16, 2007
sexta-feira, setembro 14, 2007
Entre ser otário e ser sacana
Há mais ou menos um mês eu estava na fila do cinema com um amigo, também jornalista, quando, praticamente do nada, ele me disse que, em sua opinião, só restavam duas opções para nós, brasileiros: ou sermos sacanas ou sermos otários. No pouco tempo que teve para defender seu ponto de vista, antes de o filme começar, ele disse que não acreditava mais na possibilidade de sermos honestos sem que isso representasse o primeiro passo para que fôssemos passados para trás, deixados de lado como um objeto antiquado. Não concordei com ele, argumentei que era um pensamento alarmista, sem fundamento e, acima de tudo perigoso, por representar um convite ou um passe-livre para a bandalheira. Se não quisermos ser otários, e acredito que ninguém realmente o queira, a única alternativa seria a pilantragem. É isso? Prefiro não pensar assim.
Embora o assunto Renan Calheiros já tenha nos cansado demais, volto a ele apenas para dizer que a absolvição do senador me fez pensar novamente naquela conversa do cinema. Hoje, com pesar, eu daria razão para aquele amigo. Espero mudar de opinião em breve, mas hoje eu fecho com ele: o Brasil ficou dividido entre milhões de otários que acreditavam na justiça e na sua representatividade no Senado, e uns poucos sacanas que livraram a barra de um político acusado de um sem-número de atitudes ilícitas.
Por algum motivo que eu não sei direito qual, tenho pensado muito nos petistas nestes últimos dias, principalmente nos meus amigos petistas, que não sei mais de onde eles são capazes de buscar argumentos para defender este governo e suas convicções. Cheguei à conclusão de que defender o PT, hoje, é como defender algo de puro e cristalino que um dia existiu em nós e que agora se acabou. Desistir do PT, como eu desisti depois de 20 anos votando incondicionalmente neste partido, significa desistir de nossas próprias esperanças, é como encarar que ficamos órfãos de um tipo de ideologia e crença que nos alimentou durante muito tempo. Desistir do PT é , principalmente, aceitar o fato de que estamos sozinhos de novo. Por isso deve ser tão difícil, tão penoso.
Talvez estes argumentos soem infantis e debilóides, mas é a única explicação que eu encontro para se continuar acreditando em um partido que fez o inimaginável para manter Renan Calheiros na presidência do Senado. Como aceitar a abstenção de um Aloízio Mercadante, que alegou não haver provas suficientes para incriminar Renan? Meus Deus, o que será que o nobre Mercadante tem lido nos jornais e nas revistas nos últimos dias, além da sessão de horóscopo? Como olhar para a senadora Ideli Salvatti e não sentir uma incontrolável vontade de vomitar na tela da tevê, diante de uma traidora tão contumaz, tão contrária aos anseios populares, tão interessada em aprender a coreografia grotesca de sua coleguinha Angela Guadagnin, aquela da dança da pizza? Como encarar ainda com um certo deleite e cumplicidade a postura anacrônica e cada vez mais insossa de Eduardo Suplicy, que continua cantando Blowin' the Wind quando os ventos que realmente sopram ou são os da corrupção ou o dos furacões?
Como diria a Regina Duarte, hoje eu tenho medo, muito medo. Sabem do quê? De ir ao cinema neste fim de semana e encontrar de novo aquele meu amigo. Tenho medo de que ele me encontre na fila, abra um sorriso sarcástico e me diga: E então, eu não te falei??? Vai ser foda. Acho mais prudente alugar um vídeo e ficar em casa.
Embora o assunto Renan Calheiros já tenha nos cansado demais, volto a ele apenas para dizer que a absolvição do senador me fez pensar novamente naquela conversa do cinema. Hoje, com pesar, eu daria razão para aquele amigo. Espero mudar de opinião em breve, mas hoje eu fecho com ele: o Brasil ficou dividido entre milhões de otários que acreditavam na justiça e na sua representatividade no Senado, e uns poucos sacanas que livraram a barra de um político acusado de um sem-número de atitudes ilícitas.
Por algum motivo que eu não sei direito qual, tenho pensado muito nos petistas nestes últimos dias, principalmente nos meus amigos petistas, que não sei mais de onde eles são capazes de buscar argumentos para defender este governo e suas convicções. Cheguei à conclusão de que defender o PT, hoje, é como defender algo de puro e cristalino que um dia existiu em nós e que agora se acabou. Desistir do PT, como eu desisti depois de 20 anos votando incondicionalmente neste partido, significa desistir de nossas próprias esperanças, é como encarar que ficamos órfãos de um tipo de ideologia e crença que nos alimentou durante muito tempo. Desistir do PT é , principalmente, aceitar o fato de que estamos sozinhos de novo. Por isso deve ser tão difícil, tão penoso.
Talvez estes argumentos soem infantis e debilóides, mas é a única explicação que eu encontro para se continuar acreditando em um partido que fez o inimaginável para manter Renan Calheiros na presidência do Senado. Como aceitar a abstenção de um Aloízio Mercadante, que alegou não haver provas suficientes para incriminar Renan? Meus Deus, o que será que o nobre Mercadante tem lido nos jornais e nas revistas nos últimos dias, além da sessão de horóscopo? Como olhar para a senadora Ideli Salvatti e não sentir uma incontrolável vontade de vomitar na tela da tevê, diante de uma traidora tão contumaz, tão contrária aos anseios populares, tão interessada em aprender a coreografia grotesca de sua coleguinha Angela Guadagnin, aquela da dança da pizza? Como encarar ainda com um certo deleite e cumplicidade a postura anacrônica e cada vez mais insossa de Eduardo Suplicy, que continua cantando Blowin' the Wind quando os ventos que realmente sopram ou são os da corrupção ou o dos furacões?
Como diria a Regina Duarte, hoje eu tenho medo, muito medo. Sabem do quê? De ir ao cinema neste fim de semana e encontrar de novo aquele meu amigo. Tenho medo de que ele me encontre na fila, abra um sorriso sarcástico e me diga: E então, eu não te falei??? Vai ser foda. Acho mais prudente alugar um vídeo e ficar em casa.
quarta-feira, setembro 12, 2007
O Senado te merece, Renan. Sejam felizes

HOJE É UM DAQUELES DIAS EM QUE A GENTE SENTE MUITO NOJO, VERGONHA, REVOLTA E PRINCIPALMENTE MUITA RAIVA DE SER BRASILEIRO.
COMO É TRISTE FAZER PARTE DESTE FILME RUIM, DESTE BANGUE-BANGUE DE PÉSSIMA QUALIDADE, EM QUE O BANDIDO VENCE E O MOCINHO SEMPRE MORRE NO FINAL.
SE É QUE AINDA EXISTE ALGUM MOCINHO NESTE PAÍS, TEM HORAS QUE A GENTE NEM SABE MAIS.
SABEM O QUE VAI RESTAR DESTA HISTÓRIA DE ESCÃNDALOS? UMA REVISTA PLAYBOY NAS BANCAS, COM AS FOTOS DA MÕNICA VELOSO PELADONA NA CAPA. E VAI SER RECORDE DE VENDA. GANHOU ELA, GANHOU O RENAN, GANHARAM OS SENADORES TÃO CORRUPTOS QUANTO ELE - E A GENTE, SÓ PARA NÃO PERDER O COSTUME, LEVOU NA BUNDA DE NOVO. SÉRIO MESMO: TEM HORA QUE DÁ VONTADE DE DESLIGAR O COMPUTADOR, PARAR DE TRABALHAR, PARAR DE PAGAR TODOS OS IMPOSTOS QUE A GENTE PAGA, E MUDAR DE LADO TAMBÉM. O PROBLEMA É QUE A GENTE NUNCA VAI SER TÃO COMPETENTE QUANTO ELES. PAÍS DE BOSTA ESTE AQUI
segunda-feira, setembro 10, 2007
Mulher-sanduíche
Impressionante a entrevista da atriz Juliana Paes na Folha de S. Paulo deste domingo. Tive de reler algumas declarações da moça para ter certeza de quão longe podia ir o raciocínio da atriz que estréia no sábado o musical Os Produtores. Garota-propaganda de uma marca de cerveja, ela banalizou as estatísticas que associam o consumo de álcool aos acidentes de carro. Depois, pediu para não ser fotografada ao lado de produtos da concorrência e precisou esconder suas unhas curtas, já que anuncia uma linha de unhas postiças. Por alguns instantes, eu já não sabia se ela era realmente uma pessoa ou algum tipo de painel publicitário, uma versão mais bela, desejada e esteticamente impecável daqueles homens-sanduíches que circulam espremidos entre placas de compra e venda de ouro pelo centro da cidade.
Há alguns meses, vendo televisão, tive um susto semelhante. Em um dos intervalos da novela das oito, acredito eu, apareceu a Ivete Sangalo anunciando uma marca de iogurte que tinha 0% de gordura. No bloco seguinte, estava ela de novo, desta vez para tentar vender um novo tipo de chocolate da Kopenhagen. Como um mesmo artista pode se prestar a papéis tão dinstintos: primeiro, tenta vender um iogurte sem gordura; cinco minutos depois, surge diante das câmeras com os lábios cobertos de chocolate...Ou bem uma coisa ou bem outra, penso humildemente. E fico assustado com o comprometimento da nossa classe artística com tantos produtos, com tantos lançamentos.... Priscila Fantin, outro dia, estampava um anúncio de copiadoras; Daniela Mercury aceitou dançar entre as prateleiras de um desinfetante; Suzana Vieira exibe com orgulho um adesivo para dentaduras; o rosto de Maitê Proença aparece gigante em um outdoor que anuncia apartamentos para a classe média-baixa e por aí a coisa vai indo.
Nossos intelectuais, depois que se convenceram de que o governo Lula está afundando sozinho, sem o auxílio de qualquer teoria conspiratória, entraram num processo de hibernação e só devem ser vistos passeando pelas alamedas da Cidade Universitária. Nossos artistas só mostram a cara nos anúncios publicitários. Dos políticos, Fernando Gabeira é um dos únicos em quem ainda vale muito a pena prestar atenção...E a gente vai ficando sozinho, sem nada e ninguém que nos transmita aquela velha e boa sensação de alma lavada. Daí a gente liga a televisão e já vê os anúncios da oitava edição do Big Brother Brasil. Se não estivesse tão quente, eu entraria debaixo do edredon e ficaria lá até o ano que vem...
Há alguns meses, vendo televisão, tive um susto semelhante. Em um dos intervalos da novela das oito, acredito eu, apareceu a Ivete Sangalo anunciando uma marca de iogurte que tinha 0% de gordura. No bloco seguinte, estava ela de novo, desta vez para tentar vender um novo tipo de chocolate da Kopenhagen. Como um mesmo artista pode se prestar a papéis tão dinstintos: primeiro, tenta vender um iogurte sem gordura; cinco minutos depois, surge diante das câmeras com os lábios cobertos de chocolate...Ou bem uma coisa ou bem outra, penso humildemente. E fico assustado com o comprometimento da nossa classe artística com tantos produtos, com tantos lançamentos.... Priscila Fantin, outro dia, estampava um anúncio de copiadoras; Daniela Mercury aceitou dançar entre as prateleiras de um desinfetante; Suzana Vieira exibe com orgulho um adesivo para dentaduras; o rosto de Maitê Proença aparece gigante em um outdoor que anuncia apartamentos para a classe média-baixa e por aí a coisa vai indo.
Nossos intelectuais, depois que se convenceram de que o governo Lula está afundando sozinho, sem o auxílio de qualquer teoria conspiratória, entraram num processo de hibernação e só devem ser vistos passeando pelas alamedas da Cidade Universitária. Nossos artistas só mostram a cara nos anúncios publicitários. Dos políticos, Fernando Gabeira é um dos únicos em quem ainda vale muito a pena prestar atenção...E a gente vai ficando sozinho, sem nada e ninguém que nos transmita aquela velha e boa sensação de alma lavada. Daí a gente liga a televisão e já vê os anúncios da oitava edição do Big Brother Brasil. Se não estivesse tão quente, eu entraria debaixo do edredon e ficaria lá até o ano que vem...
quinta-feira, setembro 06, 2007
Meu bairro
Moro em São Paulo há quase vinte anos e ainda não consegui desvendar um dos mistérios desta cidade: será que os bairros daqui também escondem aquelas figuras famosas que parecem existir em todos os bairros das cidades do interior? O louco, o andarilho, o catador de quinquilharias, a solteirona misteriosa, o bêbado, a beata, a fofoqueira da janela, a benzedeira, a garota que se entregou ao sexo muito antes dos meninos da mesma idade (houve um tempo em que isso era um escândalo!), o craque de futebol, o macumbeiro... Fecho os olhos e tenho a impressão que todos eles estão desfilando na minha frente, pelas ruas ainda não pavimentadas da Vila Rami, bairro da cidade de Jundiaí em que nasci.
Loucos havia pelo menos dois. Um era o Miguel, que andava descalço e falava sozinho. Ele tinha uma legião de sobrinhos sempre prontos a partir em sua procura quando anoitecia e ele ainda não tinha voltado para casa. O outro, mais jovem, se chamava Zé da Hélia, muito educado até que alguém gritasse: olha a chuva. Quando ouvia esta frase, em qualquer situação ou ambiente, Zé da Hélia entrava em surto e distribuía os piores palavrões que a língua portuguesa já produziu. Depois, baixava a bola e voltava a sorrir, até que alguém, de uma janela entreaberta, gritasse "olha a chuva" à passagem de seu vulto magro e ligeiramente corcunda. Nunca ninguém conseguiu explicar que misterioso efeito a palavra chuva exercia sobre ele. Em comum, Zé da Hélia e Miguel tinham apenas o corte de cabelo escovinha, uma gentileza do Ismael, o barbeiro que chocou o bairro quando, no fim dos anos 60, mandou pintar na porta do seu salão: cabeleireiro unissex.
Maria Cruz era a solteirona. Ela chegou ao bairro vinda de Bragança Paulista, em companhia da mãe e do irmão, Dito Cruz, que tinha apenas dois dentes. Quando a mãe morreu, os dois passaram a viver numa casa pequena em condições pouco higiênicas - culpa dos gatos que compartilhavam do mesmo teto, diziam os vizinhos. No início de dezembro, Maria Cruz montava um presépio que fazia a alegria da garotada. Todo ano ele era exatamente igual, com as mesmas peças de sempre, e todo ano nós não víamos a hora de chegar dezembro para visitá-lo. Dito Cruz, também solteiro, tinha um pé bem fincado na rebeldia. Um dia, alguém arrumou um emprego para ele, com carteira assinada e tudo. Quando se apresentou na firma para o exame médico, o doutor lhe disse: "Senhor Benedito, agora que o senhor tem emprego, está na hora de consertar os dentes". Ele fechou a cara e respondeu no mesmo instante: "O que o senhor come com os seus dentes, eu como com os meus". O médico bateu um carimbo de reprovado em sua ficha e ele voltou para casa sem emprego e com as gengivas gargalhando.
Havia o seu Vitório, que com suas rezas garantia curar cachumba, rubéola, quebranto e todo tipo de escamação de pele a que chamávamos de cobreiro. A dona Rosália, que fazia balas de coco como ninguém e que foi a primeira moradora da rua a ter telefone. Como tínhamos muita vontade de usar o aparelho mas não conhecíamos ninguém a quem telefonar, ela deixava a gente ligar para a polícia ou para o bombeiro - só para ouvirmos uma voz do outro lado. E então ela explicava rapidinho que era apenas desejo de criança. Havia também a dona Beatriz, que vendia lápis de cor e papel sulfite e ainda era a mãe da Rita, que se tornou uma celebridade no bairro quando resolveu entrar para o convento. Em uma de suas raras folgas, antes de fazer os votos, Rita conheceu um motorista de ônibus, se apaixonou por ele e trocou a vocação por uma dura vida de dona de casa. A gente odiou, porque ela nunca mais usou aquele hábito cinza claro que só deixava parte do seu rosto à mostra.
Os dias mais tristes era quando alguém se mudava. No fundo, todos nós sabíamos que sair do bairro significava sair de nossas vidas - já que nossas vidas nunca iam além do bairro. Um dia, foi embora o Zé Maria, que anos antes tinha me atingido com uma pedra que me rasgou a testa. Num outro dia, foi embora o Wilson, filho da dona Nádia, que ganhava a vida fritando pastéis atrás do balcão de um pequeno bar que um dia fora do meu tio. Depois, foi embora o Valmir, que era bom de bola e melhor ainda no estilingue. Depois o Chiquinho, que todo mundo dizia ter o cabelo amarelo de tanto comer espaguete. Até que um dia morreu o Bicudo, atingido por uma bala que estraçalhou seu fígado bem no meio de uma quermesse numa noite de domingo. O autor do disparo era seu melhor amigo, que tinha levado o revólver para a festa apenas para exibir algo que, tenho certeza, não passava de um brinquedo novo. Os dois tinham 16 anos.
E um dia veio o asfalto, depois os semáforos, o riozinho em que o bairro inteiro aprendeu a nadar foi canalizado, o campinho de futebol deu lugar a dois prédios de apartamentos e, talvez por causa de tudo isso, todo mundo resolveu cuidar da vida longe da rua. E eu nunca mais soube de nenhum deles, nunca mais.
Loucos havia pelo menos dois. Um era o Miguel, que andava descalço e falava sozinho. Ele tinha uma legião de sobrinhos sempre prontos a partir em sua procura quando anoitecia e ele ainda não tinha voltado para casa. O outro, mais jovem, se chamava Zé da Hélia, muito educado até que alguém gritasse: olha a chuva. Quando ouvia esta frase, em qualquer situação ou ambiente, Zé da Hélia entrava em surto e distribuía os piores palavrões que a língua portuguesa já produziu. Depois, baixava a bola e voltava a sorrir, até que alguém, de uma janela entreaberta, gritasse "olha a chuva" à passagem de seu vulto magro e ligeiramente corcunda. Nunca ninguém conseguiu explicar que misterioso efeito a palavra chuva exercia sobre ele. Em comum, Zé da Hélia e Miguel tinham apenas o corte de cabelo escovinha, uma gentileza do Ismael, o barbeiro que chocou o bairro quando, no fim dos anos 60, mandou pintar na porta do seu salão: cabeleireiro unissex.
Maria Cruz era a solteirona. Ela chegou ao bairro vinda de Bragança Paulista, em companhia da mãe e do irmão, Dito Cruz, que tinha apenas dois dentes. Quando a mãe morreu, os dois passaram a viver numa casa pequena em condições pouco higiênicas - culpa dos gatos que compartilhavam do mesmo teto, diziam os vizinhos. No início de dezembro, Maria Cruz montava um presépio que fazia a alegria da garotada. Todo ano ele era exatamente igual, com as mesmas peças de sempre, e todo ano nós não víamos a hora de chegar dezembro para visitá-lo. Dito Cruz, também solteiro, tinha um pé bem fincado na rebeldia. Um dia, alguém arrumou um emprego para ele, com carteira assinada e tudo. Quando se apresentou na firma para o exame médico, o doutor lhe disse: "Senhor Benedito, agora que o senhor tem emprego, está na hora de consertar os dentes". Ele fechou a cara e respondeu no mesmo instante: "O que o senhor come com os seus dentes, eu como com os meus". O médico bateu um carimbo de reprovado em sua ficha e ele voltou para casa sem emprego e com as gengivas gargalhando.
Havia o seu Vitório, que com suas rezas garantia curar cachumba, rubéola, quebranto e todo tipo de escamação de pele a que chamávamos de cobreiro. A dona Rosália, que fazia balas de coco como ninguém e que foi a primeira moradora da rua a ter telefone. Como tínhamos muita vontade de usar o aparelho mas não conhecíamos ninguém a quem telefonar, ela deixava a gente ligar para a polícia ou para o bombeiro - só para ouvirmos uma voz do outro lado. E então ela explicava rapidinho que era apenas desejo de criança. Havia também a dona Beatriz, que vendia lápis de cor e papel sulfite e ainda era a mãe da Rita, que se tornou uma celebridade no bairro quando resolveu entrar para o convento. Em uma de suas raras folgas, antes de fazer os votos, Rita conheceu um motorista de ônibus, se apaixonou por ele e trocou a vocação por uma dura vida de dona de casa. A gente odiou, porque ela nunca mais usou aquele hábito cinza claro que só deixava parte do seu rosto à mostra.
Os dias mais tristes era quando alguém se mudava. No fundo, todos nós sabíamos que sair do bairro significava sair de nossas vidas - já que nossas vidas nunca iam além do bairro. Um dia, foi embora o Zé Maria, que anos antes tinha me atingido com uma pedra que me rasgou a testa. Num outro dia, foi embora o Wilson, filho da dona Nádia, que ganhava a vida fritando pastéis atrás do balcão de um pequeno bar que um dia fora do meu tio. Depois, foi embora o Valmir, que era bom de bola e melhor ainda no estilingue. Depois o Chiquinho, que todo mundo dizia ter o cabelo amarelo de tanto comer espaguete. Até que um dia morreu o Bicudo, atingido por uma bala que estraçalhou seu fígado bem no meio de uma quermesse numa noite de domingo. O autor do disparo era seu melhor amigo, que tinha levado o revólver para a festa apenas para exibir algo que, tenho certeza, não passava de um brinquedo novo. Os dois tinham 16 anos.
E um dia veio o asfalto, depois os semáforos, o riozinho em que o bairro inteiro aprendeu a nadar foi canalizado, o campinho de futebol deu lugar a dois prédios de apartamentos e, talvez por causa de tudo isso, todo mundo resolveu cuidar da vida longe da rua. E eu nunca mais soube de nenhum deles, nunca mais.
segunda-feira, setembro 03, 2007
Desembarque
Volto a São Paulo e a este espaço depois de uma semana de intenso trabalho no Rio de Janeiro. Pela primeira vez, eu vi o Rio como costumo ver São Paulo - um local acima de tudo de trabalho. Durante os sete dias que passei entre os cariocas, tive a chance de observar o mar por apenas duas vezes: a primeira delas, quando o avião desceu no aeroporto Santos Dumont; na segunda, quando decolou de lá. Mas não devo ter perdido muita coisa, foi uma semana fria e chuvosa, o que só contribuiu para que eu me concentrasse no trabalho a ser feito, sem aquela desconfiança incômoda de que eu poderia estar fazendo coisa melhor.Fiquei longe de e-mails, blogs e internets, já que havia apenas dois computadores no hotel, que estavam permanentemente ocupados por hóspedes insones e também sem coisa melhor a fazer.
Este post é mais para avisar os amigos - e principalmente a mim mesmo - que estou de volta e que farei o possível para aparecer por aqui com mais freqüência. No momento, tenho pouco a dizer, a não ser que este trabalho que realizei no Rio me colocou em contato com a produção teatral do Brasil inteiro. Os detalhes virão com o tempo.
Em tempo: vi, pela primeira vez, a versão carioca do Guia Off, uma publicação de bolso que traz todas as peças em cartaz na cidade. Posso, portanto, afirmar sem medo de cometer qualquer injustiça: para quem gosta de teatro, São Paulo é o melhor lugar do mundo.
Até daqui a pouco.
Este post é mais para avisar os amigos - e principalmente a mim mesmo - que estou de volta e que farei o possível para aparecer por aqui com mais freqüência. No momento, tenho pouco a dizer, a não ser que este trabalho que realizei no Rio me colocou em contato com a produção teatral do Brasil inteiro. Os detalhes virão com o tempo.
Em tempo: vi, pela primeira vez, a versão carioca do Guia Off, uma publicação de bolso que traz todas as peças em cartaz na cidade. Posso, portanto, afirmar sem medo de cometer qualquer injustiça: para quem gosta de teatro, São Paulo é o melhor lugar do mundo.
Até daqui a pouco.
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