Estou envolvido, há pouco mais de um mês, em um dos projetos teatrais mais difíceis da minha carreira. Fui procurado por alguns amigos queridos, dois atores e um diretor, interessados em um texto para que trabalhássemos juntos - eles e eu. Pedi alguns dias para pensar a respeito - na verdade, no meu íntimo, eu já tinha aceitado o convite de cara, o prazo era para que surgisse alguma idéia, alguma proposta de texto. E ela surgiu. Voltei a me reunir com eles, expliquei sobre o que estava querendo falar e eles me deram sinal verde para seguir adiante - tinham comprado a idéia. E, desde então, venho sofrendo diariamente com este trabalho, por um motivo muito claro para mim: resolvi falar sobre algo que não domino, sobre uma realidade que não é exatamente a minha, sobre pessoas com as quais não cruzo no meu dia-a-dia. Em resumo, resolvi falar sobre o que me é estranho, e isso não é fácil. Talvez porque, até agora, eu tenha recorrido principalmente à observação do cotidiano para alimentar a minha escrita.
O trabalho está me levando a leituras que não eram as minhas habituais, está me conduzindo por assuntos nos quais sou leigo, e justamente por isso talvez esteja me dando tanto medo e insegurança. Mas hoje recebi uma compensação. Pedi ao Márlio, um amigo psicanalista, para que discutisse comigo sobre como poderiam ser as relações humanas daqui a algum tempo. Claro que é um exercício de futurologia que talvez não tenha fundamento algum. Em vez de conversar, ele preferiu me escrever. Hoje ele me enviou a sua visão do futuro. Por motivos profissionais, não posso publicar aqui, pelo menos por enquanto, tudo aquilo que ele me escreveu, embora seja grande a vontade de compartilhar com vocês. Posso, no entanto, dizer que era um texto otimista, que não via o nosso futuro ocupado apenas por guerras e escassez. Estamos já batendo na porta deste novo mundo e, segundo ele, teremos a chance de desenhá-lo de acordo com os nossos desejos. Se quisermos as guerras, elas virão; se clamarmos por novos Bushes, eles também aparecerão; se quisermos nos tornar egoístas, mesquinhos e solitários, nada mais fácil. A impressão que tive, ao terminar de ler o grande e-mail deste novo amigo, é que estamos diante de uma gigantesca folha em branco, à espera de receber a nossa história pessoal e a história que queremos para a nossa espécie. Está tudo em nossas mãos. E este é o meu grande medo: saber que é uma missão que não podemos delegar a Deus, aos cientistas, aos políticos e aos teóricos apenas - todo o mérito e toda a culpa serão nossos.
quarta-feira, agosto 15, 2007
domingo, agosto 12, 2007
Seu Pedro
Como era de se esperar de qualquer filho, havendo a possibilidade, é claro, passei este Dia dos Pais ao lado do meu, em Jundiaí. Faz quase 20 anos que troquei a casa dos meus pais por um canto meu, aqui em São Paulo - e até hoje continuo me perguntando se algum dia a gente realmente consegue sair da casa dos pais sem se sentir irremediavelmente preso a uma infinidade de lembranças nas quais os nossos pais continuam a ser uma das presenças mais constantes. Talvez a gente consiga, sim, sair da casa dos pais. O difícil, acredito, é conseguir algum dia tirar a casa dos pais de dentro da gente, mas talvez nem seja este o caso. Ainda me lembro do dia em que parti: minhas coisas eram tão poucas que couberam tranquilamente dentro do meu primeiro carro, um gol azul 1986. Quando eu estava fechando o porta-malas, ele me perguntou se eu não gostaria de ficar mais um pouco por lá, uma semana que fosse, até que eles se acostumassem melhor com a idéia de que o caçula, que já nem era tão caçula assim, estava indo embora. Eu respondi que se não fosse naquela hora, na semana seguinte ia ser mais difícil, e mais difícil ainda na próxima. Era naquela hora ou provavelmente nunca. Vim.
Nestes quase 20 anos vi bem menos o meu pai do que o via quando o nosso teto era o mesmo, claro. Sei que a gente pode sempre dizer que a relação melhorou, que o carinho se tornou mais refinado, que os diálogos agora brotam sem tantos conflitos, que conversamos hoje quase como dois amigos, coisa difícil de ocorrer quando disputávamos a mesma tevê, o mesmo chuveiro, o mesmo lugar na mesa e todas as outras mesquinharias que só conhecemos quando dividimos nosso espaço com alguém. Tudo melhorou, admito - mas tudo também se tornou um pouco menos intenso, um pouco menos colorido, um pouco menos acalorado. Senti pela primeira vez que meu pai estava envelhecendo há alguns anos, quando eu tive alta após uma operação de hérnia e ele foi me buscar no hospital. Seus reflexos no volante estavam começando a falhar, ele conduzia o carro muito devagar, prestava pouca atenção nos cruzamentos e nos sinais e parecia tão desatento que, naquele instante, eu achei que tinha sobrevivido à cirurgia mas talvez não sobrevivesse àquela curta viagem do hospital até a minha casa - ou melhor, até a casa deles.
Claro que depois deste primeiro sinal, todos os outros despencaram sobre ele com uma velocidade assustadora. É como se o nosso pai, que em algum momento pôde mesmo ter sido o nosso super-homem, agora estivesse sob um ataque impiedoso de criptonita, que vai diminuindo sua audição, sua visão, seu entusiasmo pela vida. Dei de presente para ele, hoje, uma camisa - do mesmo tamanho de tantas outras camisas com as quais eu lhe presenteei ao longo da vida. Mas agora ela estava maior - a manga comprida desrespeitava os limites do pulso e quase chegava aos dedos; os ombros estavam mais caídos - parecia que havia muita camisa para pouco pai. Claro que esta visão me trouxe lágrimas aos olhos, que eu elegantemente escondi. Mas, cinco minutos depois, ele voltou a me dar outra pequena lição, destas que só os pais sabem nos dar, ainda que nem queiram. Ele tem um canarinho amarelo-escuro que, também vítima do tempo, está ficando cego e, depois de dez anos, já não canta mais. Meu pai colocou alpiste e um pedaço de fruta em sua gaiola e depois o conduziu com a mão até o alimento. E ficou ali, ao lado dele, até que ele comesse quase tudo. Quando a operação terminou, ele disse para mim - ou talvez para ele próprio: a vida não é fácil nem para os canarinhos. Este é o meu pai, ou uma faceta dele.
Nestes quase 20 anos vi bem menos o meu pai do que o via quando o nosso teto era o mesmo, claro. Sei que a gente pode sempre dizer que a relação melhorou, que o carinho se tornou mais refinado, que os diálogos agora brotam sem tantos conflitos, que conversamos hoje quase como dois amigos, coisa difícil de ocorrer quando disputávamos a mesma tevê, o mesmo chuveiro, o mesmo lugar na mesa e todas as outras mesquinharias que só conhecemos quando dividimos nosso espaço com alguém. Tudo melhorou, admito - mas tudo também se tornou um pouco menos intenso, um pouco menos colorido, um pouco menos acalorado. Senti pela primeira vez que meu pai estava envelhecendo há alguns anos, quando eu tive alta após uma operação de hérnia e ele foi me buscar no hospital. Seus reflexos no volante estavam começando a falhar, ele conduzia o carro muito devagar, prestava pouca atenção nos cruzamentos e nos sinais e parecia tão desatento que, naquele instante, eu achei que tinha sobrevivido à cirurgia mas talvez não sobrevivesse àquela curta viagem do hospital até a minha casa - ou melhor, até a casa deles.
Claro que depois deste primeiro sinal, todos os outros despencaram sobre ele com uma velocidade assustadora. É como se o nosso pai, que em algum momento pôde mesmo ter sido o nosso super-homem, agora estivesse sob um ataque impiedoso de criptonita, que vai diminuindo sua audição, sua visão, seu entusiasmo pela vida. Dei de presente para ele, hoje, uma camisa - do mesmo tamanho de tantas outras camisas com as quais eu lhe presenteei ao longo da vida. Mas agora ela estava maior - a manga comprida desrespeitava os limites do pulso e quase chegava aos dedos; os ombros estavam mais caídos - parecia que havia muita camisa para pouco pai. Claro que esta visão me trouxe lágrimas aos olhos, que eu elegantemente escondi. Mas, cinco minutos depois, ele voltou a me dar outra pequena lição, destas que só os pais sabem nos dar, ainda que nem queiram. Ele tem um canarinho amarelo-escuro que, também vítima do tempo, está ficando cego e, depois de dez anos, já não canta mais. Meu pai colocou alpiste e um pedaço de fruta em sua gaiola e depois o conduziu com a mão até o alimento. E ficou ali, ao lado dele, até que ele comesse quase tudo. Quando a operação terminou, ele disse para mim - ou talvez para ele próprio: a vida não é fácil nem para os canarinhos. Este é o meu pai, ou uma faceta dele.
sexta-feira, agosto 10, 2007
Barriga pra dentro - a missão
Fugi o quanto pude, até que hoje não deu mais: fui obrigado a fazer a avaliação física na academia de ginástica que freqüento há três semanas. Só tenho uma palavra para descrever a experiência: crueldade. Ou melhor, duas palavras: crueldade e masoquismo. Faz sete horas que a avaliação terminou e ainda sinto que preciso mergulhar numa piscina de lexotan e dormir até quarta-feira que vem. Explico as razões: primeiro, o professor faz uma série de perguntas fáceis de responder: sente alguma dor muscular, já foi operado, é sedentário, acredita que está acima do peso, está contente com o seu corpo, dorme bem, come bem... essas coisas todas. Esta parte eu tirei de letra: a resposta era sim para tudo que indicava problema e não para o resto. A tragédia, no entanto, estava apenas se anunciando.
"Tire a roupa", pediu o professor. "Preciso fotografá-lo em várias posições". "Para quê?", eu perguntei. "Para inserir as fotos num programa de computador e completar a avaliação". Juro que a gente precisa fazer de tudo para que este programa nunca caia em mãos erradas. A gente seria chantageado pelo resto da vida. Quando ele começou a colocar as fotos no computador, senti pena dele: era como tentar encaixar um quadro do Botero no David de Michelângelo. A gente começa a ver que a barriga está pra frente, as costas estão para trás, a musculatura da coxa está encurtada, a coluna está desalinhada... juro, sem exagero algum, que até minha orelha apareceu fora de esquadro. Sem falar nos pés, que, segundo ele, têm me conduzido por caminhos tortos há quatro décadas e eu nunca percebi. O programa traça umas linhas, espécie de meridiano, que sinalizam uma terra devastada. Sabem aquela sensação que às vezes a gente tem, de se sentir deslocado em uma festa? Então, eu estava completamente deslocado dentro do computador. Saí de lá achando que a gente só pára em pé e anda por um milagre divino.
Comecei a olhar de perto aquele programa e de repente veio uma alegria imensa, mas que durou pouco. "Olhe aqui", eu pedi ao professor, "aqui diz que eu sou uma pessoa magra, está escrito". "Nada disso", retrucou ele. "Quando existe uma porcentagem de gordura corporal acima do esperado, este dado não pode ser considerado. Ele não entra na avaliação". O que dizer de um programa de computador que desconsidera o único dado positivo que temos na vida? "O programa revela que você não É uma pessoa gorda. Você ESTÁ gordo nos lugares errados. É isso que o programa diz". Ah... entendi. Então ele me explicou que eu precisaria malhar muito, fazer muitos exercícios aeróbicos, começar uma dieta e puxar muito ferro para...tchan...tcha...tchan...tchan... ficar com o mesmo peso que tenho hoje - só que a gordura tem de dar lugar a músculos. Ou seja: a sensação que dá é que a gente precisa se vestir bem para ficar em casa. Daí ele me disse que esta troca de gordura por músculo representa qualidade de vida, melhora na auto-estima, condicionamento e mais um monte de coisas bacanas que eu já esqueci. Para mim, continua sendo trocar um Chuck Norris por um Arnold Schwarzenegger - mas se ele diz que é importante, vou acreditar. Afinal, já paguei seis meses adiantados mesmo...
Quando saí da avaliação, cruzei com a Cibele, uma das professoras mais simpáticas da academia. "Que cara é esta?', ela me perguntou. "Acabei de fazer minha avaliação física. Acho melhor eu acreditar em reencarnação. Tenho certeza de que, nesta vida, não dá mais tempo de eu me encaixar naquele programa"... Ela riu e fechou de maneira brilhante a minha triste manhã: "É, às vezes a gente precisa tomar um tapa na cara pra reagir, né"... Então ela sabia, todos sabiam que aquele programa de computador faz a gente se sentir uma daquelas mulheres de Picasso, irremediavelmente tortas para todo o sempre.
Saí da academia e aceitei o convite do meu amigo Marcelo Onaga pra almoçar. Comemos arroz, feijão, batata frita e, dane-se, um belo pedaço de lingüiça. Já que o computador fodeu comigo, eu precisava me vingar dele de alguma maneira. E nada melhor que uma bela lingüiçinha de porco pra gente sentir que a vida volta a sorrir... Dieta? Na segunda eu começo. E vou passar o fim de semana rezando para que um vírus bem gordo, torto e sedentário ataque aquele maldito programa de computador neste fim de semana....
"Tire a roupa", pediu o professor. "Preciso fotografá-lo em várias posições". "Para quê?", eu perguntei. "Para inserir as fotos num programa de computador e completar a avaliação". Juro que a gente precisa fazer de tudo para que este programa nunca caia em mãos erradas. A gente seria chantageado pelo resto da vida. Quando ele começou a colocar as fotos no computador, senti pena dele: era como tentar encaixar um quadro do Botero no David de Michelângelo. A gente começa a ver que a barriga está pra frente, as costas estão para trás, a musculatura da coxa está encurtada, a coluna está desalinhada... juro, sem exagero algum, que até minha orelha apareceu fora de esquadro. Sem falar nos pés, que, segundo ele, têm me conduzido por caminhos tortos há quatro décadas e eu nunca percebi. O programa traça umas linhas, espécie de meridiano, que sinalizam uma terra devastada. Sabem aquela sensação que às vezes a gente tem, de se sentir deslocado em uma festa? Então, eu estava completamente deslocado dentro do computador. Saí de lá achando que a gente só pára em pé e anda por um milagre divino.
Comecei a olhar de perto aquele programa e de repente veio uma alegria imensa, mas que durou pouco. "Olhe aqui", eu pedi ao professor, "aqui diz que eu sou uma pessoa magra, está escrito". "Nada disso", retrucou ele. "Quando existe uma porcentagem de gordura corporal acima do esperado, este dado não pode ser considerado. Ele não entra na avaliação". O que dizer de um programa de computador que desconsidera o único dado positivo que temos na vida? "O programa revela que você não É uma pessoa gorda. Você ESTÁ gordo nos lugares errados. É isso que o programa diz". Ah... entendi. Então ele me explicou que eu precisaria malhar muito, fazer muitos exercícios aeróbicos, começar uma dieta e puxar muito ferro para...tchan...tcha...tchan...tchan... ficar com o mesmo peso que tenho hoje - só que a gordura tem de dar lugar a músculos. Ou seja: a sensação que dá é que a gente precisa se vestir bem para ficar em casa. Daí ele me disse que esta troca de gordura por músculo representa qualidade de vida, melhora na auto-estima, condicionamento e mais um monte de coisas bacanas que eu já esqueci. Para mim, continua sendo trocar um Chuck Norris por um Arnold Schwarzenegger - mas se ele diz que é importante, vou acreditar. Afinal, já paguei seis meses adiantados mesmo...
Quando saí da avaliação, cruzei com a Cibele, uma das professoras mais simpáticas da academia. "Que cara é esta?', ela me perguntou. "Acabei de fazer minha avaliação física. Acho melhor eu acreditar em reencarnação. Tenho certeza de que, nesta vida, não dá mais tempo de eu me encaixar naquele programa"... Ela riu e fechou de maneira brilhante a minha triste manhã: "É, às vezes a gente precisa tomar um tapa na cara pra reagir, né"... Então ela sabia, todos sabiam que aquele programa de computador faz a gente se sentir uma daquelas mulheres de Picasso, irremediavelmente tortas para todo o sempre.
Saí da academia e aceitei o convite do meu amigo Marcelo Onaga pra almoçar. Comemos arroz, feijão, batata frita e, dane-se, um belo pedaço de lingüiça. Já que o computador fodeu comigo, eu precisava me vingar dele de alguma maneira. E nada melhor que uma bela lingüiçinha de porco pra gente sentir que a vida volta a sorrir... Dieta? Na segunda eu começo. E vou passar o fim de semana rezando para que um vírus bem gordo, torto e sedentário ataque aquele maldito programa de computador neste fim de semana....
quarta-feira, agosto 08, 2007
Pero no mucho
Me pergunto por que motivo eu não fiquei, ao contrário dos meus amigos e de praticamente toda a crítica, tão apaixonado pelo filme argentino As Leis de Família, em cartaz na cidade desde sexta-feira passada. O filme está cheio de todas aquelas qualidades que, nos últimos tempos, colocaram a cinematografia argentina entre as mais expressivas do mundo: a narrativa é terna e envolvente, o elenco é de uma competência bem acima da média e ainda há aquela habilidade rara dos argentinos de discutir as questões políticas do país sem cair em maniqueísmos e panfletagem. Apesar disso, na metade da projeção eu já sabia que, ainda que houvesse um final surpreendente - o que realmente não há - eu não sairia arrebatado do cinema.
Começo a desconfiar, embora eu não me julgue habilitado para fazer tal julgamento, que todos estes predicados do filme são o resultado de uma fórmula certeira que os diretores argentinos, com poucas exceções, têm empregado desde o fenomenal sucesso de O Filho da Noiva. Aos poucos, já ando confundido os nomes e as histórias de tantos filmes argentinos que chegam até aqui, sempre embalados por uma pequena crise familiar que serve de alimento para que se discuta a corrupção e a recente crise financeira que praticamente quebrou o país. Mas o retrato que eles fazem de si próprios, como pais, mães, irmãos e cidadãos, é tão meticulosamente equilibrado que nada chega a doer muito. E tenho um medo sincero de que em pouco tempo a cinematografia argentina, tão talentosa, venha a se constituir um monumento ao palatável. Precisamos urgente de um novo Plata Queimada.
Começo a desconfiar, embora eu não me julgue habilitado para fazer tal julgamento, que todos estes predicados do filme são o resultado de uma fórmula certeira que os diretores argentinos, com poucas exceções, têm empregado desde o fenomenal sucesso de O Filho da Noiva. Aos poucos, já ando confundido os nomes e as histórias de tantos filmes argentinos que chegam até aqui, sempre embalados por uma pequena crise familiar que serve de alimento para que se discuta a corrupção e a recente crise financeira que praticamente quebrou o país. Mas o retrato que eles fazem de si próprios, como pais, mães, irmãos e cidadãos, é tão meticulosamente equilibrado que nada chega a doer muito. E tenho um medo sincero de que em pouco tempo a cinematografia argentina, tão talentosa, venha a se constituir um monumento ao palatável. Precisamos urgente de um novo Plata Queimada.
segunda-feira, agosto 06, 2007
Cinema mais barato? Duvido.
No início do ano, os empresários do setor de entretenimento (leia-se donos de redes de cinema, casas de show e teatro) lançaram uma campanha, ao que parece justa, para coibir o uso de carteirinhas de estudantes falsas - aquelas emitidas por lanchonetes, pizzarias e emissoras de rádio. Segundo eles, o uso indiscriminado destas carteiras os obrigava a elevar o preço dos ingressos para cobrir os prejuízos causados pela meia entrada. De acordo com este raciocínio, todos eram obrigados a pagar mais caro para custear o benefício para uma legião de falsos estudantes. Com a diminuição do uso de carteiras falsas, eles alegaram, seria possível baixar o preço dos ingressos e toda a sociedade sairia ganhando. Raciocínio lógico e coerente.
Pois bem. Acredito que há mais de um mês os cinemas e casas de shows estão mais rígidos na hora de vender os ingressos para os portadores de carteirinhas de estudante. Agora, além da carteirinha, é exigido também o atestado de matrícula e, no caso de faculdades pagas, o boleto do mês vigente devidamente quitado. Assim, dentro de pouquíssimo tempo devemos esperar por uma redução no valor das entradas, certo? DUVIDO. Tenho certeza de que o impacto desta medida já está sendo sentido no caixa dos estabelecimentos de diversão. Resta saber, agora, quanto tempo deveremos esperar para pagar menos para ver um filme, uma peça ou assistir a um show. Mas, neste país, calejados que somos, tenho certeza de que estamos diante de um novo golpe, como aquele da CPMF. Vão dizer que ainda é cedo para falar em redução no preço dos ingressos, que o impacto ainda não foi sentido, que a medida não surtiu o efeito necessário, enfim, desculpas não vão faltar aos empresários que querem manter o preço do nosso cineminha nas alturas. Acredito já estar na hora de a imprensa fazer uma matéria sobre este primeiro mês em que só as carteirinhas verdadeiras foram aceitas: como foi o movimento nas bilheterias? o público aumentou ou diminuiu? qual foi a porcentagem de estudantes que foram ao cinema em comparação ao mês passado? foram vendidos mais ou menos ingressos? Ou seja, há uma boa lista de perguntas que os empresários poderiam responder agora. Poderiam, não. Deveriam.
Ontem fui ao cinema e paguei R$ 19 pelo ingresso. Resolvi comprar um saco de pipoca: R$ 8 - semana passada, na feira, comprei por um real um saquinho com milho suficiente para fazer pipoca para uma fileira inteira de cinema. Deixei meu carro na rua para evitar pagar em torno de R$ 15 de estacionamento. Façamos as contas: um sujeito que sai de casa sozinho para ver um filme e comer uma pipoca vai gastar 27 reais se deixar o carro na rua - se quiser ter a segurança de encontrar o veículo quando voltar, a conta sobe para 42 reais. QUARENTA E DOIS REAIS para um filme, uma pipoca e um estacionamento. Daí a gente sai do cinema e vê os filmes que acabaram de estrear sendo vendidos no camelô da calçada por oito pilas. Agora eu pergunto: como é que a gente vai criticar a pirataria deste jeito? Não é mais uma questão ética, é uma cálculo básico de sobrevivência. Ou o cinema fica mais barato ou a gente vira freguês do camelô da calçada - e do pipoqueiro da calçada também, que por dois pilas enche o nosso saquinho com pipoca doce embaixo, salgada em cima e ainda dá um chorinho.
Pois bem. Acredito que há mais de um mês os cinemas e casas de shows estão mais rígidos na hora de vender os ingressos para os portadores de carteirinhas de estudante. Agora, além da carteirinha, é exigido também o atestado de matrícula e, no caso de faculdades pagas, o boleto do mês vigente devidamente quitado. Assim, dentro de pouquíssimo tempo devemos esperar por uma redução no valor das entradas, certo? DUVIDO. Tenho certeza de que o impacto desta medida já está sendo sentido no caixa dos estabelecimentos de diversão. Resta saber, agora, quanto tempo deveremos esperar para pagar menos para ver um filme, uma peça ou assistir a um show. Mas, neste país, calejados que somos, tenho certeza de que estamos diante de um novo golpe, como aquele da CPMF. Vão dizer que ainda é cedo para falar em redução no preço dos ingressos, que o impacto ainda não foi sentido, que a medida não surtiu o efeito necessário, enfim, desculpas não vão faltar aos empresários que querem manter o preço do nosso cineminha nas alturas. Acredito já estar na hora de a imprensa fazer uma matéria sobre este primeiro mês em que só as carteirinhas verdadeiras foram aceitas: como foi o movimento nas bilheterias? o público aumentou ou diminuiu? qual foi a porcentagem de estudantes que foram ao cinema em comparação ao mês passado? foram vendidos mais ou menos ingressos? Ou seja, há uma boa lista de perguntas que os empresários poderiam responder agora. Poderiam, não. Deveriam.
Ontem fui ao cinema e paguei R$ 19 pelo ingresso. Resolvi comprar um saco de pipoca: R$ 8 - semana passada, na feira, comprei por um real um saquinho com milho suficiente para fazer pipoca para uma fileira inteira de cinema. Deixei meu carro na rua para evitar pagar em torno de R$ 15 de estacionamento. Façamos as contas: um sujeito que sai de casa sozinho para ver um filme e comer uma pipoca vai gastar 27 reais se deixar o carro na rua - se quiser ter a segurança de encontrar o veículo quando voltar, a conta sobe para 42 reais. QUARENTA E DOIS REAIS para um filme, uma pipoca e um estacionamento. Daí a gente sai do cinema e vê os filmes que acabaram de estrear sendo vendidos no camelô da calçada por oito pilas. Agora eu pergunto: como é que a gente vai criticar a pirataria deste jeito? Não é mais uma questão ética, é uma cálculo básico de sobrevivência. Ou o cinema fica mais barato ou a gente vira freguês do camelô da calçada - e do pipoqueiro da calçada também, que por dois pilas enche o nosso saquinho com pipoca doce embaixo, salgada em cima e ainda dá um chorinho.
quinta-feira, agosto 02, 2007
O dono do mar
Fui assistir à pré-estréia do filme O Dono do Mar, do diretor Odorico Mendes, baseado no livro do ex-presidente José Sarney. Pouco antes do início da sessão, um dos atores, microfone em punho, disse que tinha gostado muito de participar do filme, "independentemente do resultado". Achei a colocação um pouco estranha. Quase duas horas depois, quando a projeção terminou, entendi o que o ator estava querendo dizer. O Dono do Mar é um daqueles filmes que temos dificuldade de definir ou mesmo emitir uma opinião a respeito. EStá longe de ser bom, mas também não é ruim no sentido mais clássico da palavra. Há alguma coisa em seu arremedo de narrativa, uma certa estranheza no colorido exagerado de sua fotografia, na pobreza de seus efeitos especiais, no amadorismo de alguns atores e na quantidade inexplicável de nudez que a questão parece inevitável: estamos diante de um filme trash e, por isso mesmo, candidato a cult? Ou é apenas mais um desastre do cinema nacional endossado por uma fileira invejável de patrocinadores? Tudo aquilo que se revela como uma cinematografia pobre e uma aparente ausência de técnica teria sido proposital? Odorico Mendes, de sólida carreira no mercado publicitário, ousou ou apenas errou feio? Diante de tantas perguntas sem resposta, fica realmente difícil falar a respeito de O Dono do Mar. Assim, prefiro ficar com a definição dada pelo meu amigo Ricardo Moreno, que me convenceu a ir à pré-estréia mais interessado em ver de perto uma das atrizes do longa, a belíssima Paula Franco, do que assistir ao realismo fantástico de José Sarney transposto para a tela. "Isto é uma mistura de Tarantino com Gerald Thomas e Didi Mocó", disse-me ele ao final. Concordo. Infelizmente, o alquimista não manipulou a receita com equilíbrio - e o gosto que ressalta na boca é somente o de Didi Mocó.
Mas existe um detalhe que realmente me chamou a atenção nesta produção - e me deixou sinceramente triste. O Dono do Mar levou dez anos para ficar pronto. Dez anos! Imagino o que seja você gastar dez anos em cima de um projeto que, sejamos francos, vai resultar em 90 minutos de uma projeção que ficou longe de agradar a platéia presente na pré-estréia. E que reúne poucas chances de cair nas graças do público pagante a partir desta sexta-feira, dia 3, quando entra em cartaz. Deve haver algo de quixotesco em Odorico Mendes e nos produtores do filme. Fica claro que também parece ser mais fácil lutar contra moinhos de vento quando se tem o patrocínio da Petrobrás, da Embraer e de todas as outras estatais atraídas pelo nome da família Sarney nos créditos. Os atores surgem em cena muito mais jovens do que estavam ali, no saguão do HSBC, recepcionando o público. Sérgio Marone disse que nem se lembrava direito do que fazia no filme - comprovando que em alguns casos o esquecimento é mesmo um bálsamo. Regiane Alves era quase uma garota, embora já desse pistas de que se tornaria uma atriz de bons recursos. Por tudo isso, acredito que O Dono do Mar nos queira dizer alguma coisa. Não como o resultado que se vê nas telas - mas como uma história que nos obriga a pensar sobre a produção artística neste país, seus resultados, seus meios de financiamento e, acima de tudo, sobre o que fazemos com dez anos de nossas vidas. Sejam quais forem eles.
Mas existe um detalhe que realmente me chamou a atenção nesta produção - e me deixou sinceramente triste. O Dono do Mar levou dez anos para ficar pronto. Dez anos! Imagino o que seja você gastar dez anos em cima de um projeto que, sejamos francos, vai resultar em 90 minutos de uma projeção que ficou longe de agradar a platéia presente na pré-estréia. E que reúne poucas chances de cair nas graças do público pagante a partir desta sexta-feira, dia 3, quando entra em cartaz. Deve haver algo de quixotesco em Odorico Mendes e nos produtores do filme. Fica claro que também parece ser mais fácil lutar contra moinhos de vento quando se tem o patrocínio da Petrobrás, da Embraer e de todas as outras estatais atraídas pelo nome da família Sarney nos créditos. Os atores surgem em cena muito mais jovens do que estavam ali, no saguão do HSBC, recepcionando o público. Sérgio Marone disse que nem se lembrava direito do que fazia no filme - comprovando que em alguns casos o esquecimento é mesmo um bálsamo. Regiane Alves era quase uma garota, embora já desse pistas de que se tornaria uma atriz de bons recursos. Por tudo isso, acredito que O Dono do Mar nos queira dizer alguma coisa. Não como o resultado que se vê nas telas - mas como uma história que nos obriga a pensar sobre a produção artística neste país, seus resultados, seus meios de financiamento e, acima de tudo, sobre o que fazemos com dez anos de nossas vidas. Sejam quais forem eles.
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