O diretor Luiz Valcazaras um dia me ensinou, provavelmente sem se dar conta disso, uma grande lição. Estávamos a duas semanas da estréia da peça Abre as Asas Sobre Nós, texto de minha autoria que ele dirigiu de maneira soberba. Era um fim de tarde no Espaço dos Satyros Dois. No dia anterior, ele havia pedido para que o elenco trouxesse algumas sugestões de figurino - peças de roupas que os atores tinham em casa e que talvez pudessem ser usadas no espetáculo. O ator André Fusko surgiu com um par de tênis ligeiramente surrado, que poderia ser usado pelo seu personagem, Paulo Preto. Fusko exibiu o tênis no camarim e Valcazaras aprovou a escolha. Na hora do ensaio, assim que Fusko pisou no palco, Valcazaras mandou parar tudo. E disse: "Fusko, esse seu par de tênis é para a vida, não para o teatro. Vamos precisar pensar em outra solução."
Eu nunca havia me deparado com uma definição como aquela - a de que algumas coisas serviam para a vida, e não para o teatro. Era como se aqueles tênis cheios de histórias e quilometragens, que haviam pisado sobre tantas coisas reais, não tivessem autoridade alguma para pisar no palco, não tivessem sequer autoridade para convencer qualquer espectador de que eles eram o que eram: um par de tênis. Claro que fiquei com aquilo na cabeça.
Voltei a pensar nisso esta semana, quando terminei de ler um livro escrito por um jornalista de quem me tornei relativamente próximo graças à Internet. O personagem principal da trama passa horas amarrado em uma cama, sob a mira do revólver de um assaltante que invadira seu apartamento numa tarde de sábado. É um relato poderoso não só da violência urbana, mas também da história recente do País - já que ao personagem, com as mãos atadas e a boca selada por esparadrapo, só resta pensar. E, neste fluxo ritmado de pensamento, ele nos conduz por um passeio nostálgico pelos últimos 40 anos da história brasileira. Tudo ia bem no livro até o momento em que o personagem é salvo de uma maneira inacreditavelmente milagrosa. Claro que eu não torcia para que o personagem terminasse com uma bala nos miolos - até porque, sendo autobiográfica, não existiria história alguma se o personagem tivesse morrido naquele assalto. O autor me esclareceu depois, por e-mail, que as coisas haviam se dado exatamente daquela forma. Ele havia sido absolutamente fiel ao relatar de que maneira fora salvo. E aí me lembrei de Valcazaras: o jeito que ele foi salvo serviu para a vida, mas não para a literatura. Às vezes, a verdade, quando cruza esta fronteira da ficção, fica sem graça, como o velho par de tênis do André Fusko.
Não sou místico nem nada. Mas desde aquela tarde no Satyros eu passei a ver o palco de forma diferente. Comecei a enxergar ao redor dele um certo campo magnético que não impede a entrada de nada e de ninguém. Mas que revela impiedosamente, a partir do momento em que se cruza esta cerca imaginária, se o sujeito é bom para a vida ou para o palco. E acho que isso faz toda diferença - porque comecei a entender também as pessoas que são boas para o palco, e não para a vida. É o outro lado da moeda no qual eu também nunca havia pensado. É uma fronteira cruel, misteriosa e absolutamente magnífica. Qualquer um pode cruzá-la, mas poucos, muito poucos, vão continuar convincentes e utilitários após a travessia. Aos que falharem, resta um grande consolo: talvez eles sirvam para a vida, o que não é pouco.
Hoje estou excepcionalmente feliz: acabo de ler na internet que Lula foi vaiado. Votei em Lula desde sua primeira candidatura. E mais do que um gigantesco puxão de orelha, eu acho que ele andava merecendo mesmo uma gigantesca vaia. Uuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu - aqui vai minha pequena contribuição para ver se ele acorda deste torpor no qual mergulhou nos últimos tempos
sexta-feira, julho 13, 2007
quinta-feira, julho 12, 2007
Noel Rosa
Nosso amor que eu não esqueço
e que teve o seu começo
numa festa de São João
Morre hoje sem foguete
sem retrato e sem bilhete
sem luar e sem violão
Perto de você me calo
tudo penso, nada falo
tenho medo de chorar
Nunca mais quero seu beijo
mas meu último desejo
você não pode negar
Se alguma pessoa amiga
pedir que você lhe diga
se você me quer ou não
Diga que você me adora
que você lamente e chora
a nossa separação
E às pessoas que eu detesto
diga apenas que eu não presto
que meu lar é um botequim
Que eu arruinei sua vida
que não mereço a comida
que você pagou pra mim
É a letra de Último Desejo. Nas raríssimas vezes em que ouço esta canção, penso que não é preciso dizer mais nada. Como agora.
e que teve o seu começo
numa festa de São João
Morre hoje sem foguete
sem retrato e sem bilhete
sem luar e sem violão
Perto de você me calo
tudo penso, nada falo
tenho medo de chorar
Nunca mais quero seu beijo
mas meu último desejo
você não pode negar
Se alguma pessoa amiga
pedir que você lhe diga
se você me quer ou não
Diga que você me adora
que você lamente e chora
a nossa separação
E às pessoas que eu detesto
diga apenas que eu não presto
que meu lar é um botequim
Que eu arruinei sua vida
que não mereço a comida
que você pagou pra mim
É a letra de Último Desejo. Nas raríssimas vezes em que ouço esta canção, penso que não é preciso dizer mais nada. Como agora.
quarta-feira, julho 11, 2007
Cala a boca, meliante.
Há pouco mais de um mês, passei por uma experiência interessante. Resolvi entrevistar um grupo de adolescentes pobres e outro inegavelmente rico para colher subsídios à adaptação teatral do livro Cidadão de Papel, do jornalista Gilberto Dimenstein. A adaptação está praticamente concluída e o espetáculo, dirigido por Ivam Cabral, estréia no dia 10 de agosto em um novo espaço cultural da Vila Madalena.
Minha primeira conversa foi com os adolescentes ricos. Perguntei a eles qual era o maior medo de suas vidas. A resposta, confesso, me surpreendeu. Eles se sentiam apavorados diante das batidas policiais. Mesmo sendo brancos, ricos, bem-vestidos e donos de carro do ano, tremiam nas bases a cada vez que um policial surgia em sua frente pedindo para que parassem o carro e descessem com a mão na cabeça. Na semana seguinte, tive a mesma conversa com os jovens pobres do Jardim Pantanal, em São Miguel Paulista. Novamente, a polícia também representava o maior pavor da vida deles. Uma garota me contou que era muito comum um policial entrar na casa dela, revirar tudo, jogar móveis e colchões no chão e depois partir como quem não quer nada. Uma outra disse que o pai havia sido parado por um policial que ordenou o seguinte: abandone o veículo que eu vou revistar tudo. O veículo era um bicicleta velha. Percebi que, quem diria, na falta de justiça social neste país, cabia à polícia diminuir a distância entre pobres e ricos.
Esta semana, indo para Paraty, também tive meu carro parado na rodovia para uma "inspeção de rotina". Desta vez, foi rápida. O jovem policial olhou os documentos do carro, os pneus e me liberou. Um amigo, que estava ao meu lado, traduziu brilhantemente a sensação: por que a polícia tem este dom de fazer a gente se sentir culpado por existir? É como se estivéssemos carregando 20 quilos de cocaína debaixo do banco. Nas outras duas vezes em que a polícia me parou, o constrangimento foi infinitamente maior. A primeira delas foi na Rua Heitor Penteado, a 200 metros da minha casa. Era uma madrugada e tive de ficar com as mãos na nuca e um revólver apontado para a cabeça até que, ao examinar meus documentos, o policial encontrou minha credencial de jornalista do Estadão. Daí os policiais se converteram em lordes ingleses, a me desejar boa sorte e dizer que contavam com minha compreensão. Afinal, diziam, estavam cumprindo o dever deles.
Na segunda vez em que fui parado, estava na Rua Frei Caneca, indo ao cinema com um amigo repórter da Folha. Novamente a mesma exposição pública virulenta e absurda: tivemos de ficar, os dois, num sábado à noite, expostos como marginais em um dos trechos mais movimentados da cidade, até que eles concluíssem a inspeção do carro e descobrissem que, novamente, estavam diante de dois jornalistas. Mais pedidos de desculpa. Foi um episódio tão deprimente que eu e meu amigo não trocamos mais nenhuma palavra naquela noite e, ao término da sessão, cada um foi pra sua casa com um gosto de velório na boca.
Fico pensando em como se sentem aqueles que não têm nada para exibir aos policiais: uma carteira de trabalho, um crachá funcional, ou mesmo a habilidade de argumentar tendo as mãos na cabeça e um revólver apontado pra cara. Embora vivamos num dos países mais violentos do mundo, será que a polícia não dispões de uma maneira um pouco mais civilizada de proceder a estas abordagens?. Não quero dizer aqui que nós, brancos, universitários, com carros relativamente novos e pelo menos mais de 20 dentes na boca, deveríamos contar com algum privilégio também nesta hora. O que eu quero dizer é que, quando a polícia nos pára, seria ótimo se nos sentíssemos protegidos e não apavorados como se estivéssemos nas mãos de bandidos.
Minha primeira conversa foi com os adolescentes ricos. Perguntei a eles qual era o maior medo de suas vidas. A resposta, confesso, me surpreendeu. Eles se sentiam apavorados diante das batidas policiais. Mesmo sendo brancos, ricos, bem-vestidos e donos de carro do ano, tremiam nas bases a cada vez que um policial surgia em sua frente pedindo para que parassem o carro e descessem com a mão na cabeça. Na semana seguinte, tive a mesma conversa com os jovens pobres do Jardim Pantanal, em São Miguel Paulista. Novamente, a polícia também representava o maior pavor da vida deles. Uma garota me contou que era muito comum um policial entrar na casa dela, revirar tudo, jogar móveis e colchões no chão e depois partir como quem não quer nada. Uma outra disse que o pai havia sido parado por um policial que ordenou o seguinte: abandone o veículo que eu vou revistar tudo. O veículo era um bicicleta velha. Percebi que, quem diria, na falta de justiça social neste país, cabia à polícia diminuir a distância entre pobres e ricos.
Esta semana, indo para Paraty, também tive meu carro parado na rodovia para uma "inspeção de rotina". Desta vez, foi rápida. O jovem policial olhou os documentos do carro, os pneus e me liberou. Um amigo, que estava ao meu lado, traduziu brilhantemente a sensação: por que a polícia tem este dom de fazer a gente se sentir culpado por existir? É como se estivéssemos carregando 20 quilos de cocaína debaixo do banco. Nas outras duas vezes em que a polícia me parou, o constrangimento foi infinitamente maior. A primeira delas foi na Rua Heitor Penteado, a 200 metros da minha casa. Era uma madrugada e tive de ficar com as mãos na nuca e um revólver apontado para a cabeça até que, ao examinar meus documentos, o policial encontrou minha credencial de jornalista do Estadão. Daí os policiais se converteram em lordes ingleses, a me desejar boa sorte e dizer que contavam com minha compreensão. Afinal, diziam, estavam cumprindo o dever deles.
Na segunda vez em que fui parado, estava na Rua Frei Caneca, indo ao cinema com um amigo repórter da Folha. Novamente a mesma exposição pública virulenta e absurda: tivemos de ficar, os dois, num sábado à noite, expostos como marginais em um dos trechos mais movimentados da cidade, até que eles concluíssem a inspeção do carro e descobrissem que, novamente, estavam diante de dois jornalistas. Mais pedidos de desculpa. Foi um episódio tão deprimente que eu e meu amigo não trocamos mais nenhuma palavra naquela noite e, ao término da sessão, cada um foi pra sua casa com um gosto de velório na boca.
Fico pensando em como se sentem aqueles que não têm nada para exibir aos policiais: uma carteira de trabalho, um crachá funcional, ou mesmo a habilidade de argumentar tendo as mãos na cabeça e um revólver apontado pra cara. Embora vivamos num dos países mais violentos do mundo, será que a polícia não dispões de uma maneira um pouco mais civilizada de proceder a estas abordagens?. Não quero dizer aqui que nós, brancos, universitários, com carros relativamente novos e pelo menos mais de 20 dentes na boca, deveríamos contar com algum privilégio também nesta hora. O que eu quero dizer é que, quando a polícia nos pára, seria ótimo se nos sentíssemos protegidos e não apavorados como se estivéssemos nas mãos de bandidos.
segunda-feira, julho 09, 2007
Gael mudou de casa e é bem mais feliz
Laerte Késsimos, jovem ator do grupo Os Satyros, tinha um gato chamado Gael. Nunca vi o bicho e nem sei por quais meios ele foi parar nas mãos do Laerte. Um dia, o Alberto Guzik, dramaturgo e ator da mesma companhia, veio me dizer que o gato tinha sumido e que o Laerte estava muito triste. Eu também fico muito triste com o sumiço dos animais. Fico pensando em como será a primeira noite deles longe de casa, o que eles vão fazer quando a fome apertar e não houver um potinho de ração ali ao lado, mas penso, acima de tudo, se como nós, humanos, eles também sentirão medo perdidos numa cidade como São Paulo.
Na semana passada conversei com o Laerte e ele havia achado Gael. Na verdade, Gael não havia sumido, ele simplesmente trocara o apartamento do Laerte pelas alamedas do cemitério da Consolação, onde passou a viver com dezenas de gatos que, como ele, provavelmente também não eram castrados. Pelo que Laerte conhecia do seu gato - se é que é possível conhecer dos gatos algo além do que eles permitem - Gael estava feliz, vivia correndo entre os túmulos, subia e descia pelos jardins, estava gordinho e, acredita seu ex-dono, usando as noites para fazer sexo como nunca havia feito antes. Gael reconheceu Laerte, se aproximou dele, aceitou de bom grado alguns carinhos do ex-dono, ronronou em seu colo até que percebeu que Laerte estava tomando o rumo de casa. Neste instante, Gael pulou dos seus braços e sumiu pelas alamedas do cemitério. Esta cena se repetiu várias vezes. É como se o gato quisesse dizer que eles podiam ser amigos, podiam se acarinhar, podiam até se amar mesmo - mas cada um em seu canto. Bem próprio dos gatos - e bem próprio de alguns humanos também.
Laerte ficou tranquilo por saber que Gael estava vivendo feliz longe de casa e que provavelmente tinha encontrado ali, no cemitério, um misto de prazer e liberdade que não havia experimentado entre as quatro paredes do apartamento de Laerte. Gael, enfim, fugiu para o cemitário para ser feliz. Às vezes, a exemplo de Gael, nós também fugimos para o cemitério em busca da felicidade. O problema é que quando esta última fuga acontece, no nosso caso, já costuma ser tarde demais. Cada vez eu acredito mais que os gatos sim sabem levar a vida.
Na semana passada conversei com o Laerte e ele havia achado Gael. Na verdade, Gael não havia sumido, ele simplesmente trocara o apartamento do Laerte pelas alamedas do cemitério da Consolação, onde passou a viver com dezenas de gatos que, como ele, provavelmente também não eram castrados. Pelo que Laerte conhecia do seu gato - se é que é possível conhecer dos gatos algo além do que eles permitem - Gael estava feliz, vivia correndo entre os túmulos, subia e descia pelos jardins, estava gordinho e, acredita seu ex-dono, usando as noites para fazer sexo como nunca havia feito antes. Gael reconheceu Laerte, se aproximou dele, aceitou de bom grado alguns carinhos do ex-dono, ronronou em seu colo até que percebeu que Laerte estava tomando o rumo de casa. Neste instante, Gael pulou dos seus braços e sumiu pelas alamedas do cemitério. Esta cena se repetiu várias vezes. É como se o gato quisesse dizer que eles podiam ser amigos, podiam se acarinhar, podiam até se amar mesmo - mas cada um em seu canto. Bem próprio dos gatos - e bem próprio de alguns humanos também.
Laerte ficou tranquilo por saber que Gael estava vivendo feliz longe de casa e que provavelmente tinha encontrado ali, no cemitério, um misto de prazer e liberdade que não havia experimentado entre as quatro paredes do apartamento de Laerte. Gael, enfim, fugiu para o cemitário para ser feliz. Às vezes, a exemplo de Gael, nós também fugimos para o cemitério em busca da felicidade. O problema é que quando esta última fuga acontece, no nosso caso, já costuma ser tarde demais. Cada vez eu acredito mais que os gatos sim sabem levar a vida.
Ounvindo Coetzee da calçada
Tirei alguns dias de descanso deste blog e percebi o seguinte: este espacinho maroto é igual academia de ginástica. Se você não se disciplina e não se dedica a ele com alguma seriedade, a vontade de escrever se dispersa, suas idéias vão se tornando flácidas, suas opiniões sobre os fatos, sejam eles quais forem, parecem perder completamente a importância e o significado. Até que este exercício, que eu me propus diário sem nunca ter atingido esta meta, também seja ejetado na direção daquele grupo de promessas jamais cumpridas: perder peso, parar de comer doce, dormir mais cedo para poder levantar também mais cedo, ler ao menos um livro por semana, encontrar tempo para ver todos os amigos, evitar os filmes e as peças que já sabemos ser ruins, fazer algum trabalho voluntário, encontrar graça nos pequenos prazeres da vida, ir realmente atrás dos sonhos e acreditar que, como dizem os amigos mais devotos, o universo realmente conspira a nosso favor.
O motivo da ausência é explicado a seguir. Como milhares de pessoas, neste fim de semana eu tentei encontrar alguns centímetros quadrados nas calçadas de Paraty para pousar a bunda e ouvir alguns trechos de Diário de Um Ano Ruim, próximo livro do escritor sul-africano J.M.Coetzee, que só deve ser lançado no Brasil no fim do ano. Depois de Desonra, prometi para mim mesmo nunca mais ler nada saído da mente deste escritor. Desonra me desconcertou por tanto tempo que eu achei que fosse preciso ver toda a coleção do Woody Allen para reencontrar graça na vida. Mas como ficar livre de um autor que escreve como se estivesse protagonizando uma sessão de necropsia, retirando camada por camada dos seus personagens até localizar a dureza e a solidão que vitimaram o coração deles? Após Desonra, mergulhei em Elizabeth Costello e agora estou devorando O Homem Lento - sendo que após este já existe um outro Coetzee na fila. Pois bem, sentei-me no chão para ouvir Coetzee ler, no penúltimo dia da Flip, alguns trechos de Diário de Um Ano Ruim com sua voz liberta de qualquer entonação e sentimentalismo. Como se estivesse a anunciar que há três saídas de emergência à direita do palco e que na falta de energia elétrica geradores acender-se-ão automaticamente.... O primeiro trecho falava de um homem que acabara de morrer e ainda era capaz de ver seu corpo inerte e o segundo, ah, meu Deus, o segundo, mostrava como os bois eram mortos nos frigoríficos da Austrália. ERa de arrancar lágrimas do carnívoro mais convicto.
Mas como a Flip não é feita apenas de Coetzees, Amos Oz, Lawrece Wright e Nadine Gordimer, é bom que se diga aqui que a leitura da peça Beijo no Asfalto a cargo de autores brasileiros (alguns deles excelentes, por sinal) deve ter feito Nelson Rodrigues virar no túmulo feito o tatuzão que escava os buracos do metrô. Na boca de Jorge Mautner e seus outros amigos das letras, a leitura foi um dos episódios mais constrangedores não apenas da Flip, mas da minha vida inteira. Para evitar as gargalhadas diante de tamanho amadorismo e falta de bom-senso, muitas pessoas se retiraram da platéia, silenciosamente, para liberar o riso e a indignação lá fora. Posso dizer que foram os 20 reais mais mal aproveitados dos últimos tempos. Na rua, encontrei um amigo que havia abandonado a sessão como eu. E ele me disse um frase que não sai da minha cabeça. "Este pessoal da Flip é tão preparado e não se deu conta de uma coisa tão óbvia: os escritores são bons para escrever. Mas quem disse que eles sabem ler?" Caramba! Acho que nunca mais vou me esquecer disso.
O motivo da ausência é explicado a seguir. Como milhares de pessoas, neste fim de semana eu tentei encontrar alguns centímetros quadrados nas calçadas de Paraty para pousar a bunda e ouvir alguns trechos de Diário de Um Ano Ruim, próximo livro do escritor sul-africano J.M.Coetzee, que só deve ser lançado no Brasil no fim do ano. Depois de Desonra, prometi para mim mesmo nunca mais ler nada saído da mente deste escritor. Desonra me desconcertou por tanto tempo que eu achei que fosse preciso ver toda a coleção do Woody Allen para reencontrar graça na vida. Mas como ficar livre de um autor que escreve como se estivesse protagonizando uma sessão de necropsia, retirando camada por camada dos seus personagens até localizar a dureza e a solidão que vitimaram o coração deles? Após Desonra, mergulhei em Elizabeth Costello e agora estou devorando O Homem Lento - sendo que após este já existe um outro Coetzee na fila. Pois bem, sentei-me no chão para ouvir Coetzee ler, no penúltimo dia da Flip, alguns trechos de Diário de Um Ano Ruim com sua voz liberta de qualquer entonação e sentimentalismo. Como se estivesse a anunciar que há três saídas de emergência à direita do palco e que na falta de energia elétrica geradores acender-se-ão automaticamente.... O primeiro trecho falava de um homem que acabara de morrer e ainda era capaz de ver seu corpo inerte e o segundo, ah, meu Deus, o segundo, mostrava como os bois eram mortos nos frigoríficos da Austrália. ERa de arrancar lágrimas do carnívoro mais convicto.
Mas como a Flip não é feita apenas de Coetzees, Amos Oz, Lawrece Wright e Nadine Gordimer, é bom que se diga aqui que a leitura da peça Beijo no Asfalto a cargo de autores brasileiros (alguns deles excelentes, por sinal) deve ter feito Nelson Rodrigues virar no túmulo feito o tatuzão que escava os buracos do metrô. Na boca de Jorge Mautner e seus outros amigos das letras, a leitura foi um dos episódios mais constrangedores não apenas da Flip, mas da minha vida inteira. Para evitar as gargalhadas diante de tamanho amadorismo e falta de bom-senso, muitas pessoas se retiraram da platéia, silenciosamente, para liberar o riso e a indignação lá fora. Posso dizer que foram os 20 reais mais mal aproveitados dos últimos tempos. Na rua, encontrei um amigo que havia abandonado a sessão como eu. E ele me disse um frase que não sai da minha cabeça. "Este pessoal da Flip é tão preparado e não se deu conta de uma coisa tão óbvia: os escritores são bons para escrever. Mas quem disse que eles sabem ler?" Caramba! Acho que nunca mais vou me esquecer disso.
segunda-feira, julho 02, 2007
Ela
Ela começou muito cedo na carreira. Antes dos 20 anos já era uma das atrizes mais conhecidas do País. Seu primeiro trabalho na televisão ainda é, para muita gente, o único que merece ser lembrado, o que não é totalmente justo. Eu sempre achei que ela era muito mais talentosa do que demonstrou ser ao longo desta última década. Como muitos outros atores, no entanto, ela deixou-se seduzir por uma das mais insidiosas armadilhas da televisão: aquela que obriga os artistas a serem eles próprios pela vida afora. Jack Nicholson consegue fazer bem isso; Lima Duarte às vezes. Ela não conseguiu. Não sei se durante estes anos todos ela recebeu alguma proposta mais ousada, se teve a chance de se atirar em algum projeto mais autoral, se alguém pediu para que ela se mostrasse menos bonita ou menos apática e simplesmente mais viva. O que eu sei é que sua carreira vem sendo marcada por uma suave e segura repetição de si própria - nas várias novelas que fez, tudo que vimos foi ela mesma, em outros vestidos e em outros horários. Nunca uma transgressão escapou de sua boca, nunca uma faísca brilhou em seus olhos. Ela parece ter se conformado com a idéia de que sua importância nas tramas diminuiria na exata proporção em que sua beleza começasse a se despedir do seu rosto. Talvez ela tenha contas a pagar e tudo se resuma a isso.
Fiquei muitos anos sem contato com ela. E neste período eu a julgava em paz, aquele tipo de pessoa que descobriu que seu combustível não era suficiente para a ambição do seu vôo, mas que nem por isso haveria risco de a aeronave se espatifar no chão. Ela teria de pousar antes, mas ainda assim seria um pouso tranquilo. Eu a via aqui e ali, em papéis pequenos aos quais tentava dar um pouco de consistência, embora nem sempre os diálogos colaborassem. Ela continua sendo conhecida, recebe convites e olhares sempre que entra em um bar, em uma casa noturna, em um teatro. Mas, aos poucos, o público não se lembra mais de onde realmente a conhece. Seria da tevê?, eles parecem perguntar. De alguma capa de revista de fofoca, de algum comercial... Todos sabem que aquele rosto não é estranho, mas já não são mais capazes de associá-lo a algum trabalho.
Nos últimos meses voltei a conversar com ela. E vi que não havia tanta paz assim em seu espírito. Dos homens, agora ela fala com desprezo. Não acredita que eles possam se interessar por ela e não pela atriz que ela ainda julga ser. Em relação ao trabalho, seus olhos procuram mais curiosos pelos números no holerite do que pelos eventuais conflitos de seus personagens. Ninguém pode acusá-la de ter se vendido - por aquela boca estreita do funil, ela foi mais uma das inúmeras que não conseguiram passar. Ficou entalada naquele ponto que parece separar os grandes artistas da massa comum de atores que apenas preenchem as polegadas cada vez maiores dos aparelhos de televisão. E assim ela vai seguir sua vida, até que a chamem para representar a mãe na trama secundária, para vender detergente e cola para dentadura no horário nobre, para apresentar rodeios e fazer escada nos humorísticos do fim da noite.
O mais triste desta história não é saber que ela realmente existe. É ter a certeza de que ela é um pouco cada um de nós.
Fiquei muitos anos sem contato com ela. E neste período eu a julgava em paz, aquele tipo de pessoa que descobriu que seu combustível não era suficiente para a ambição do seu vôo, mas que nem por isso haveria risco de a aeronave se espatifar no chão. Ela teria de pousar antes, mas ainda assim seria um pouso tranquilo. Eu a via aqui e ali, em papéis pequenos aos quais tentava dar um pouco de consistência, embora nem sempre os diálogos colaborassem. Ela continua sendo conhecida, recebe convites e olhares sempre que entra em um bar, em uma casa noturna, em um teatro. Mas, aos poucos, o público não se lembra mais de onde realmente a conhece. Seria da tevê?, eles parecem perguntar. De alguma capa de revista de fofoca, de algum comercial... Todos sabem que aquele rosto não é estranho, mas já não são mais capazes de associá-lo a algum trabalho.
Nos últimos meses voltei a conversar com ela. E vi que não havia tanta paz assim em seu espírito. Dos homens, agora ela fala com desprezo. Não acredita que eles possam se interessar por ela e não pela atriz que ela ainda julga ser. Em relação ao trabalho, seus olhos procuram mais curiosos pelos números no holerite do que pelos eventuais conflitos de seus personagens. Ninguém pode acusá-la de ter se vendido - por aquela boca estreita do funil, ela foi mais uma das inúmeras que não conseguiram passar. Ficou entalada naquele ponto que parece separar os grandes artistas da massa comum de atores que apenas preenchem as polegadas cada vez maiores dos aparelhos de televisão. E assim ela vai seguir sua vida, até que a chamem para representar a mãe na trama secundária, para vender detergente e cola para dentadura no horário nobre, para apresentar rodeios e fazer escada nos humorísticos do fim da noite.
O mais triste desta história não é saber que ela realmente existe. É ter a certeza de que ela é um pouco cada um de nós.
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